Fotografia, Música, Cinema, Vídeo, Pintura, Ilustração, Design, Leitura, Podcast. Cenas Artamente.

→ 18/10/2006 @0:24

Post sobre Teatro

O meu amigo Pedro Marques respira Teatro por todos os poros e está-se marimbando para os computadores. Eu respiro computadores por todos os poros e estou-me marimbando para o Teatro. Acaba por ser divertido observar as nossas conversas: eu tento explicar-lhe os conceitos de Software Livre/Aberto, ele quer que eu leia, em voz alta, porque é assim que se lê Teatro, uma das peças do Gregory Motton.

Ele acabou por ganhar porque, raios o partam, sabia muito bem o que estava a fazer quando me apresentou o Motton pela primeira vez. Fiquei logo apanhado pelo humor corrosivo e desenvergonhado do tipo, a forma como usa a pomposidade do discurso para denunciar o ridículo de uma personagem, o ritmo das falas, como se o ritmo fosse uma personagem invisível, se calhar o próprio Motton, esse Motton gozão e provocador que se deleita a misturar caralhadas que dizem muitas verdades com palavras caras que são vazias de conteúdo.

Talvez exista um Gregory Motton no mundo da informática – o Bill Gates é o tipo mais conhecido, por razões tão óbvias que até o próprio Pedro compreende, mas não o vejo capaz de ter o mesmo tipo de capacidade sedutora de Motton – e muito menos o sentido de humor. Vejo-o mais como um Genkis Khan do mundo dos PC, supremo conquistador e governante no plano abstracto – e mais ou menos inexistente ou inútil no plano pessoal, em que a riqueza não se mede em números.

Nunca mais me esqueço de ter visto uma espécie de mesa redonda onde participaram as pessoas que mais contribuíram para o desenvolvimento dos computadores e da informática – e Gates, claro, estava presente. Um dos participantes (esqueci-me quem foi, mas até podia ter sido o Gregory Motton) não resistiu em meter-se com o patrão da Microsoft, dizendo que a maior contribuição do Windows para a informática tinha sido a de dar uma nova funcionalidade à função das teclas Ctrl Alt Delete. Toda a gente rebentou a rir, excepto o humilhado Gates, que implodiu num sorriso amarelo.

Não sei se o Pedro compreenderia a piadinha, porque ainda estou na dúvida se ele saberá qual a função das teclas Ctrl Alt Delete. As coisas tornam-se ainda mais drásticas porque ele utiliza um Mac – para os habitantes do planeta PC, um Mac é uma estrela distante.

Se gosto de escrever e de ler, porque raio me estarei marimbando para o Teatro? A resposta é simples: as emoções são demasiado fortes e, uma vez desencadeadas, são difíceis de suportar.

Vivemos numa sociedade electrónica que nos ensina a confundir emoções rápidas com emoções fortes – como se tivessem o mesmo significado, e não têm. Quando nos deparamos com um processo de negação de tudo aquilo que julgávamos como adquirido, sentimos um baque. Porque um filme, por exemplo, está confinado a um ecrã, movimenta-se numa tela bidimensional que faz parte da vida mas não é a própria vida – em nenhum momento podemos afirmar que nos esquecemos completamente de que estávamos a ver cinema. Se o filme for realmente bom, podemos alienar-nos da vida lá fora, do tempo, da própria sala e das cadeiras pouco confortáveis; mas não perdemos a noção de que existe uma fronteira nítida entre nós, espectadores, e o próprio filme, ali na tela.

Quando os actores têm capacidade de mostrar o verdadeiro poder das palavras, e do silêncio entre as palavras, e das palavras que só podem ser ditas nesse silêncio, o Teatro pode tornar-se devastadoramente emocional. Arrependo-me até hoje de ter visto uma peça de Edward Bond sem estar preparado: saí abalado, perturbado, não me recordando de nenhuma das palavras que ouvi mas apenas do tal silêncio, e das palavras que habitam nesses silêncios. Poderá esta explicação parecer demasiada vaga, talvez, mas para mim é clara como água: o Teatro é a vida representada diante de nós, sem fronteiras, enquadramentos, sofás, botões de volume e comandos à distância. O Teatro é fodido.

Talvez devesse ter começado com Gregory Motton. Porque uma coisa vos garanto: quando uma peça dele for representada em Portugal, tratarei de mendigar ao Pedro um bilhete para assistir ao espectáculo. E se, por qualquer razão, não for possível cravar-lho, vou à bilheteira comprar. Motton, ao contrário de Bond, dá vontade de rir. Mas o que eu aprendi, entretanto, é que ele é igualmente intenso e perturbador. Nesse dia em que vi uma peça de Bond, sei-o agora, o que eu não estava era para me chatear. Claro que tenho o direito de não me querer chatear – mas culpar o Teatro é falso e injusto.

→ 06/10/2006 @2:19

Little Boy: Animorte

A sociedade não pode recuperar de uma escala de devastação tão épica como as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, e Nagasaki, três dias depois.

A pintora Julie Rauer estabeleceu de forma brilhante uma relação entre cartoon, manga e anime e os traumas provocados pela catástrofe. O trauma manifesta-se como uma perpétua cicatriz genética, demónio tuberculoso vindo dos abismos para desfigurar gerações inteiras.

Cicatriz, desfiguração: horrores banidos do pensamento consciente pela qualidade benigna do cartoon. Mas a ferida está mal suturada e reabre: fútil substituição do medo da morte pela imaculada tecnologia das máquinas, da frágil humanidade por estados existenciais alternativos (manga, anime).

Esta associação de Rauer – ver Persistence of a Genetic Scar – conduz-nos a à exposição online Little Boy, ocorrida 60 anos depois do lançamento da primeira bomba atómica.

Little Boy é o nome dado à bomba lançada sobre Hiroshima e agora, tantos anos depois, um exame à cultura japonesa do pós-guerra: abrem-se os olhos da arte contemporânea e das realizações multimédia.

→ 02/10/2006 @9:56

Radiohead alternativo

Para grande surpresa de muita gente – os Radiohead são muito protectores em relação à sua música e não permitem covers oficiais – um disco inteiro de versões alternativas dos principais temas do grupo foi oficialmente lançado em Abril deste ano. Os temas que vos deixo à consideração são três: uma interpretação apelativa de Just, feita pelo DJ Mark Ronson; uma versão esquizofrénica de Karma Police, do trio rock-jazzístico The Bad Plus; e Paranoid Android, de uma belíssima cantora, Sia, cujo tema Breathe Me foi usado no último episódio de Six Feet Under [ver post]. Oiçam e digam-me o que acham.

→ 28/09/2006 @11:28

Paranoid Android

Foi Paranoid Android que me fez conhecer Radiohead. No meu local de trabalho ouvia-se a saudosa XFM e o tema passava todos os dias, às vezes mais do que uma vez. Era uma paixão assolapada também de muitos dos que trabalhavam naquela rádio. Para mim foi uma revelação – não é todos os dias que a música de uma banda me consegue fazer arrepiar até à raiz dos cabelos, bater o pé com vontade de dançar e ficar em silêncio deslumbrado – e tudo na mesma canção.
Segundo contam os membros da banda, Paranoid Android começou por ser realmente três canções separadas. «Não sabíamos o que fazer com elas» – recordou o baixista Colin Greenwood numa entrevista – «Até que pensámos em Happiness is a Warm Gun, dos Beatles – três peças obviamente separadas que John Lennon juntou – e perguntámos: Porque não tentar fazer o mesmo?» [Fonte: Wikipédia]
O vídeo foi um pesadelo criativo para Magnus Carlsson, o criador sueco de uma série de animação do Channel 4 – Robin – que todos os membros dos Radiohead adoravam ver. Um dia recebeu um telefonema de Thom Yorke convidando-o a conceber e realizar um videoclip em que o personagem Robin entrasse.
Carlsson fechou-se oito horas no escritório a ouvir a música. Uma ponte é visível da janela do escritório – e foi a partir dessa ponte que a aventura de Robin em terras de Radiohead começou a ser construída na cabeça do ilustrador. O videoclip teve partes censuradas pela MTV – mas esta é a versão completa. O visionamento é obrigatório. (Formato: AVI [Xvid])

→ 26/09/2006 @2:31

O casalinho mistério

Esta é uma das fotos mais célebres do mundo. Foi conseguida pelo lendário fotojornalista Alfred Eisenstaedt (1898-1995) a 15 de Agosto de 1945, no dia em que se comemorava a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial.

As recordações de Eisenstaedt são muito precisas: «Estava na Times Square e reparei num marinheiro que andava a agarrar todas as miúdas por quem passava. Fui atrás dele enquanto ia olhando para trás do ombro. Então, de repente, numa fracção de tempo, vi qualquer coisa branca a ser agarrada. Virei-me e cliquei no momento em que o marinheiro beijava a rapariga. Tirei exactamente quatro fotos. Foram conseguidas em poucos segundos.»

A foto transformou-se em símbolo de uma época porque um beijo bastou para resumir três importantes eventos verificados a partir de 1945: a vitória aliada, o regresso a casa de muitos milhares de soldados e o chamado baby boom – período imediatamente a seguir ao termo da II Grande Guerra Mundial e durante o qual se verificou um crescimento exponencial da taxa de natalidade.

À medida que os anos foram passando, a foto começou a atrair outro tipo de atenções. Pretendia-se agora conhecer a identidade do marinheiro e da enfermeira. Afinal ninguém sabia quem eram os protagonistas de uma das fotos mais famosas do século.

A caça ao casal iniciou-se quase 35 anos depois do acontecimento. Em 1980, uma edição da revista Life Magazine – onde Alfred Eisenstaedt trabalhava – julgou ter resolvido o mistério quando o próprio fotógrafo recebeu uma carta da enfermeira Edith Shain, então com 62 anos: «Sou eu. Nunca o assumi publicamente porque podia colocar-me numa posição pouco digna. Mas agora os tempos mudaram» – escreveu Edith.

Deliciado, Eisenstaedt voou para Beverly Hills ao encontro dela. Edith estava já com 62 anos, era avó, professora num Jardim Infantil e enfermeira em part-time. O fotógrafo não duvidou da veracidade do testemunho e considerou-a muito «viva e amável».

A revista Life publicou a história, juntamente com um pedido para que o marinheiro se identificasse e desse também a cara. A resposta foi imediata: onze homens reclamaram ser eles os beijoqueiros da foto – e, surpresa, duas mulheres asseguraram terem sido elas as beijadas.

Greta Friedman, uma das que deu a cara para reclamar o troféu, não duvidou da palavra da primeira candidata Edith: «Com certeza que ela esteve lá nesse dia e foi beijada. Quase todas as mulheres foram agarradas e beijadas por homens em uniforme. Mas eu reconheço-me naquela foto. A forma do meu corpo. Usava assim o cabelo apanhado. Tinha uma bolsa na mão igual. E lembro-me bem de ter sido beijada por um marinheiro. »

Apesar destas reivindicações, foi sempre um dado mais ou menos garantido que a mulher da foto era, de facto, a professora de 62 anos. A própria Edith desvalorizou a importância da foto para a sua vida: «O Sol nasce, o Sol põe-se. Não muda nada. Nem foi grande coisa» – disse ela ao fotógrafo. «Afinal meninas bonitas recebem sempre mais do que um único beijo, não é?»

Aquele, o da foto, descreveu-o como «um bom beijo, longo. Fechei os olhos e não resisti. Às vezes penso que se não estivesse acompanhada com uma amiga talvez tivesse ficado ali». Sobre a qualidade da imagem tirada por Eisenstaedt: «Foi uma num milhão. Conseguiu captar duas figuras numa posição muito elegante, como se fossem esculturas.»

 

Caça ao beijoqueiro

George Mendonsa aceitou sujeitar-se a vários testes biométricos na Mitsubishi Electric Research Laboratories para provar que era ele o marinheiro da foto. Os resultados – usando sofisticadas técnicas de digitalização facial em 3D – deram-lhe razão, mas as opiniões não são unânimes.

A mais importante é a da própria Edith Shain, a enfermeira beijada, que reconheceu outro homem – Carl S. Muscarello – como o marinheiro do beijo. Na foto em baixo, tirada em 1995, os dois recriam o famoso momento.

Recriando o famoso beijoIdentificar o marinheiro foi uma tarefa muito mais complicada. Onze se apresentaram – e a revista foi incapaz de decidir qual deles era o verdadeiro. A política oficial da Life Magazine passou a ser, a partir daí e até hoje, ignorar o assunto.

Todos podiam estar a dizer a verdade porque, naquele dia louco, os soldados beijavam raparigas na rua sem pedir licença. Perdidos os negativos e as notas que tirou naquele dia, Eisenstaedt foi também incapaz de se decidir.

Um deles chegou a ser identificado pela própria Edith – um ex-polícia de Nova Iorque chamado Carl S. Muscarello.

Os dois chegaram a juntar-se em programas de televisão, autografando cópias da famosa foto.

Pequeno senão: a Life Magazine afirmou de imediato que o processo de identificação do marinheiro nunca fora concluído pelos seus peritos – «provavelmente nunca o será» – e rejeitou Muscarello.

Uma investigação encomendada em 2004 pelo Naval War College (NWC) à MERT [Mitsubishi Electric Research Laboratories] permitiu chegar a uma conclusão diferente: usando as últimas tecnologias de digitalização facial em 3D existentes, e aplicando-as à foto, a empresa identificou o marinheiro como sendo George Mendonsa, um pescador reformado de Newport.

A sofisticação tecnológica não conta a história toda – pelo menos para algumas pessoas.

O site Kissingsailor.com desafia-nos a conhecer a história de Ken McNeel, o «verdadeiro» marinheiro da foto, e a tomar contacto com «provas cabais» destas afirmações.

A identidade do marinheiro permanece ainda um mistério por resolver: o coração e a memória de Edith Shain, a mulher beijada, escolheram Carl S. Muscarello; a ciência optou por George Mendonsa. Mais de 70 anos depois, «eu ainda não posso explicar aquele beijo» – afirma Mendonsa. – «Acho que foi uma combinação de várias coisas: a alegria do momento, os copos e o meu fraquinho por enfermeiras». É uma explicação plausível.

→ 05/09/2006 @0:27

Street Spirit

Street Spirit (Fade Out) é a última faixa do álbum The Bends, dos Radiohead. Thom Yorke afirmou que a canção foi inspirada pelo livro The Famished Road, de Ben Okri.

O videoclip – memorável, um dos melhores que eu já vi na minha vida – é realizado por Jonathan Glazer.

Sobre Street Spirit, o vocalista Thom Yorke afirma ser a canção mais pura dos Radiohead, mas não fui eu que a escrevi, escreveu-se sozinha. Nós fomos apenas os mensageiros, os catalisadores biológicos.

Sobre o videoclip, Jonathan Glazer afirma ter sido um ponto de viragem na sua carreira. Os Radiohead tinham encontrado a sua própria voz e eu, quando o acabei, senti pela primeira vez que encontrara a minha.

→ 29/08/2006 @16:57

O mundo de Vladimir Kush

Vladimir Kush nasceu em Moscovo. O pai, Oleg – matemático com tendência artísticas -, apercebeu-se do talento do filho e encorajou-o desde o início. Ao mesmo tempo, e à medida que o rapaz crescia, ia-lhe dando a ler livros de Jules Verne, Jack London e Herman Melville para lhe proporcionar uma forma de viajar para além dos subúrbios cinzentos onde viviam. A galeria de Vladimir Kush está incorporada num site muito mais vasto – Visons Fine Art – onde podem ser vistas obras de outros autores contemporâneos.