
«Fall», de Beth Ross
Herberto Hélder escreveu uma série de poemas Zen, em versos muitas vezes com a forma de haikus nos quais aplicou, como é de regra, temáticas ligadas à natureza. Por sua vez, o trio So Happy Together musicou-os (ou tentou musicá-los, para ser mais exato) numa versão cibernética.
Ao que tudo indica, este é um projeto que ficou pelo caminho. Nuno Rebelo (na foto à direita) radicou-se em Barcelona, fazendo já parte da cena musical catalã, Vítor Rua está inteiramente virado para a composição de música erudita e Vera Mantero não tem pés a medir com a dança.
Se o conceito não era pacífico, a sua efetivação ainda menos o foi.
Deveu-se tal ao facto de a busca de despojamento deste Hélder entrar em inevitável contradição com a sua ideia de que «a paixão é a moral da poesia» e com uma prática de extremos que nos leva a definir a sua escrita como mágica, ou seja, transformadora.
Ele mesmo afirmou que o poema «é um objeto carregado de poderes magníficos, terríveis», nunca conformado com a mera deteção da existência e do que há de essencial nas manifestações da vida.
Essa existência, Herberto Hélder faz questão de alterar e até de manipular. Um exemplo: «De tarde / o galo anuncia a aurora / o sol brilha vivamente / à meia-noite.»
Se levarmos o conceito de Zen até à sua máxima consequência, verificamos que desenvolver uma subjetiva versão da existência, que é o que um poeta inevitavelmente procura, implica não se experienciar a própria existência de modo instantâneo.
Este era já o principal dilema da poesia Zen tradicional, e mais acentuado se tornou numa intervenção poética que se move entre a desordem e a ordem, com o fito de superar o caos mas também de o repor quando intervêm as dinâmicas que, para todos os efeitos, comprovam as rotinas existenciais: «Quando o peixe se move / turvam-se as águas.»
É por isso que a interpretação realizada pelos três músicos da poesia Zen de Hélder introduziu as coordenadas da cibernética. Ora, esta é o estudo dos sistemas gerais e da relação entre eles, e logo para começar dos biológicos, área em que esta escrita se alicerça, no seu propósito cosmológico e cosmogónico de criar e destruir mundos.
Com a Lua nas mãos
Ao fundamento da simplicidade do Zen, acrescentaram Rebelo, Rua e Mantero (sem necessariamente contraporem, antes jogando com os dois níveis) uma noção de complexidade que é própria da cibernética, tomando-a como a organização e a agregação de componentes não estruturados.
Dizendo de outro modo, como a edificação de uma realidade compósita que, se era feita de elementos naturais, tinha os contornos de coisa fabricada – «Tira água / e a lua estará / nas tuas mãos».
Fê-lo o coletivo So Happy Together não só mediante uma utilização heterodoxa de um instrumento como a guitarra portuguesa, que como se sabe tem usos muito definidos (utilização essa que passava pela recusa de toda a gramática que lhe foi estabelecida, e daí a designação «guitarra portuguesa mutante»), como também pela junção da eletrónica, para uma mais radical alteração dos parâmetros sonoros.
As guitarras de Nuno Rebelo e Vítor Rua (foto à direita) eram tocadas na horizontal e «atacadas» por objetos de tipo variado, e uma delas, a do primeiro, dispunha mesmo de cordas extra e lâminas de kalimba. Sob os pés de Rebelo estavam alguns pedais de efeitos, que eram ligados e desligados consoante as situações.
A própria voz de Vera Mantero era processada eletronicamente e o seu registo alterado, de modo que dela tivéssemos uma versão pós-humana, artificial, mutante, a interferir com a emitida pela glote.
Esta presença da tecnologia mais acentuava a perspetiva cibernética de tal visão do Hélder Zen, na medida até em que respondia ao devir-animal sugerido pelos poemas com o devir-máquina da música.
Afinal, foi o desenvolvimento tecnológico e dos sistemas de informação que permitiu a formação desta disciplina epistemológica, pelo facto até de se ter compreendido que todos os sistemas se equivalem, sejam naturais ou inventados pelo homem.
Vários estudiosos da obra de Herberto Hélder têm salientado a sua ligação com os princípios da alquimia, mas se é referida a produção de ouro como um objetivo implícito, ainda que metafórico, da sua poesia, a verdade é que o devir-animal anunciado e o devir-máquina subentendido pelos So Happy Together dizia, sobretudo, respeito a um outro objetivo dos alquimistas medievais…
A criação de vida humana a partir de materiais inanimados, o homunculus.
Humana, mas não demasiado, porque como assinala José Gil em «Monstros», o homúnculo, porque de um monstro se trata, tem menos de homem do que de inumano, isto é, de animal ou de máquina.
O possível em nós

Vera Mantero (Foto: Jorge Gonçalves)
Os animais de Hélder podem ser uma projeção da sua humanidade, mas na medida em que esta contém o germe da própria inumanidade: «Qualquer coisa em nós, no mais íntimo de nós (…) nos ameaça de dissolução e caos. Qualquer coisa de imprevisível e pavoroso (…) permanece escondido, mas pronto a manifestar-se.»
Argumenta o filósofo que «o monstro atrai» porque é uma atualização do possível em nós.
Disse-o igualmente uma especialista na poesia helderiana, Maria Estela Guedes, num escrito sobre os «híbridos» do poeta madeirense: «Quando no plano da cultura não científica se debatem os híbridos, a imaginação tudo admite, mesmo o impossível, como as sereias e os centauros.» Ou os galos de madeira da meia-noite, no caso de Hélder.
Alerta José Gil, no entanto, que não há devir real através da monstruosidade, e sim «um movimento caótico de repente paralisado», algo que aborta em determinada altura, que fica inacabado. Mesmo a noção de devir supõe a não cristalização numa fórmula.
A poesia de Herberto Hélder é performativa, ação, poemato, vai e vem, sem se definir objetivamente, assim como era performativa a música que nele se inspirava, dependente, portanto, do momento e do lugar.
O facto de Vera Mantero ser coreógrafa e dançarina tinha tudo que ver com esta condição, embora o seu papel no grupo excluísse o movimento.
O que estava em causa era a relação da voz, da sua voz, com o corpo, o seu, sentado a meio do palco, com o foco de luz delimitado no plano entre o rosto e as mãos.
E mais uma vez é José Gil, pensador que, aliás, se tem interessado muito especialmente pela dança, quem nos fornece a chave para a compreensão do modo de estar dos So Happy Together nesta leitura de Herberto Hélder – em cada espetáculo, e tal como aquele escreveu no ensaio «Metamorfoses do Corpo», a fisicalidade de Mantero passava «completamente para o lado da voz», tornava-se, inclusive, num «bloco de voz».
O corpo, sustenta Gil, é uma respiração que fala, surgindo o sopro da voz como uma mediação permanente entre o interior e o exterior do corpo, uma passagem por onde se articula o sentido.
Mais ainda: é a voz que constitui o corpo «em totalidade articulada no tempo». E já agora no espaço: podia o corpo de Vera Mantero permanecer na penumbra, que a sua voz, amplificada pelos olhos e pelas contorções faciais, que não apenas pelo PA, bastavam para o iluminar e expor por inteiro.
A voz tornava-se corpo logo depois de o corpo se tornar voz, se bem que transformado, pois revelou-se nessa subtil transição uma nova entidade, o devir-pássaro, devir-peixe, devir-galo de que nos fala Hélder.
Tal operação tinha o seu quê de xamânico, pois nesses momentos Mantero «era» o pássaro e o peixe e o galo dos versos que dizia ou cantava.
Ao mesmo tempo, era também as máquinas que os reproduziam, o microfone, o processador, a mesa de mistura, os altifalantes da sala.
Eram estes os meios da expressão mas igualmente a forma dessa expressão, impossibilidade cibernética de uma manifestação Zen e em simultâneo a via para a abordagem Zen tentada.
O paradoxo liberta, e porque liberta torna-se eminentemente criativo: afinal, foi nas fendas entre o que a Herberto Hélder se apresentou como contraditório que este erigiu o microcosmos mítico da sua torrencial poesia. «No fundo das montanhas / está guardado um tesouro / para aquele que nunca o procurar.»
Esse tesouro, Vítor Rua, Nuno Rebelo e Vera Mantero, tal como o poeta, nunca o encontraram, mas também é certo que o ímpar interesse deste projeto estava, precisamente, nessa certeza que é o próprio destino da humanidade: nunca conheceremos a nossa razão de ser.
Bem que poderiam continuar a tentar…