Fotografia, Música, Cinema, Vídeo, Pintura, Ilustração, Design, Leitura, Podcast. Cenas Artamente.

→ 30/08/2011 @18:12

Mr. Walkman

Aki Onda poderia ter-se tornado um importante produtor discográfico pop de Nova Iorque ou uma figura da eletroacústica erudita, mas foi outra a via que acabou por escolher: abandonou essas já encetadas carreiras porque se apaixonou pelos gravadores de cassetes portáteis e pelas cassetes áudio baratas e usa uns e outras para a criação de música concreta/eletrónica de características experimentais, mas com sons do quotidiano das mais variadas paragens do planeta.

Foi técnico de estúdio e fez formação em síntese sonora, tendo um «background» na área da tecnologia digital que não fazia supor tal desfecho. Para este artista sonoro de origem japonesa, um laptop mais potente que o computador que levou o homem à Lua e um walkman são apenas ferramentas para fazer música.

Com uma diferença, de qualquer modo: «É impossível obter o som quente de uma cassete utilizando um computador, mesmo que eu depois edite as gravações em Pro-Tools. Os utensílios dependem da música que se faz e é a música que determina o método. O inverso não é verdadeiro.»

Aki Onda e as suas cassetes de memórias

O trabalho que vem desenvolvendo é o resultado de uma paixão pela textura e pelo timbre da cassete: «É um som obscuro e pouco claro, diferente daquele que se ouviu originalmente. A sua riqueza está, precisamente, nesta falha. Que eu amplio: toco as cassetes através de um velho amplificador de guitarra ou de baixo, tipo Fender, Vox ou Ampeg. Tem de ser um amplificador de válvulas. Não gosto dos novos, que não são suficientemente “punchy”.»

O que Aki Onda toca são field recordings por ele mesmo recolhidas e que considera memórias da sua vida pessoal. «Exato: são memórias o que toco, e mesmo a qualidade sonora que determino é uma mimetização do sistema humano da memória. Não nos lembramos das coisas de forma clara e matemática, ao contrário do que fazem os media digitais. Os detalhes das nossas lembranças são distorcidos e comprimidos, como imagens desbotadas, e assim são também os meus sons.»

Nada disto foi, no entanto, programado. Aconteceu por acaso: «Comprei o meu primeiro “walkman” Sony num mercado de Brixton, em Londres, no ano de 1988, imediatamente antes de visitar Marrocos. Neste país, fiquei impressionado com a paisagem sonora exótica das cidades e pus-me a gravá-la. Senti-me igualmente atraído pelas músicas tradicional e pop marroquinas, que conheci ouvindo a rádio e indo às lojas de cassetes, que naquela região continuam a ser mais populares do que as de discos. Não tinha ainda grande consciência do que estava a fazer. Aliás, ainda não compunha música, e quando comecei foi com um sampler e um computador, utilizando as cassetes apenas como fonte…»

Foi só no dealbar do novo século que Onda escolheu os gravadores como o seu instrumento, na altura em que trocou definitivamente o Japão pelos Estados Unidos. Três anos depois, saiu o primeiro volume da série «Cassette Memories».

Num texto que escreveu mais tarde, apresentou o projeto como uma súmula de dreamscapes livres de significados, identificada com os princípios da musique concrète. Ora, o que Pierre Schaeffer e Pierre Henry faziam nos anos 1950 era separar os sons da sua origem e da sua identidade. Contraditoriamente, as peças contidas num disco como «Ancient & Modern» têm títulos descritivos, como «The Little Girl in Tangier» ou «Rain». Ou seja, informa-se à partida quais são os conteúdos.

Além disso, verifica-se que Onda não se limitou a carregar na tecla rec: escolheu os sons que queria nas suas caminhadas pelas ruas, e gravou-os e parou as gravações consoante entendeu. Fez escolhas subjetivas. Os sons que se ouvem não são aleatórios: foram procurados. Houve uma pré-composição, digamos. Ler mais »

→ 28/08/2011 @0:08

Retratos genéticos

O projeto do fotógrafo e designer Ulric Collette – «Retratos Genéticos» –  comecou com simples publicações no Flickr, mas a descoberta do seu trabalho e a divulgação em vários sítios de renome transformou-o numa celebridade.

«Retratos Genéticos» parte de uma simples ideia: fotografar dois membros da mesma família e juntar as metades de cada cara num único rosto.

Primos: Justine, 29, e Ulric, 29

Mãe e filha: Francine, 56, e Catherine, 23

Irmã e irmão: Karine (idade não revelada) e Dany, 25

Pai e filho: Laval, 56, e Vincent, 29

Irmãos: Matthew, 25, e Ulric, 29

Surreais ou bizarros, naturais ou surpreendentemente simétricos, os «novos rostos» criados em Photoshop provocam sempre um impacto enorme, sobretudo entre os familiares fotografados.

Não admira, por isso, que a partir do momento em que o trabalho de Collette começou a ser divulgado na Web, o fotógrafo tenha começado a receber inúmeras propostas de revistas, e também de pessoas dispostas a servir como modelos. No espaço de uma semana, a sua página pessoal recebeu mais de 100 mil visitantes. Recebeu também propostas de agências em Londres e Paris, e convites para expor estes retratos.

A ideia, conta Collette, surgiu durante um projeto chamado «Uma imagem por dia» –  semelhante ao que o nosso Benjamim Silva fez «oficialmente» durante muito tempo. Para Collette, esse projeto servia essencialmente para apreender técnicas fotográficas e noções de iluminação em estúdio, entre outras coisas.

O que deu origem ao projeto foi uma fotografia dele com o filho, de 7 anos (Collette tem 29). Tal como tantas vezes acontece, o filho era muitíssimo parecido com o pai, quando este tinha a mesma idade. Começou então a fazer experiências – tentando «envelhecer» o rosto do filho em Photoshop – e acabou, «por acidente», por chegar a este resultado – uma fusão de duas metades de rostos diferentes, mas unidos por laços familiares. O retrato genético.


E esta junção dos rostos de Nathan, 7 anos, e Ulric, 29, foi a primeira do projeto.

→ 20/08/2011 @2:54

Hélder Ciber-Zen

«Fall», de Beth Ross

Herberto Hélder escreveu uma série de poemas Zen, em versos muitas vezes com a forma de haikus nos quais aplicou, como é de regra, temáticas ligadas à natureza. Por sua vez, o trio So Happy Together musicou-os (ou tentou musicá-los, para ser mais exato) numa versão cibernética.

Ao que tudo indica, este é um projeto que ficou pelo caminho. Nuno Rebelo (na foto à direita) radicou-se em Barcelona, fazendo já parte da cena musical catalã, Vítor Rua está inteiramente virado para a composição de música erudita e Vera Mantero não tem pés a medir com a dança.

Se o conceito não era pacífico, a sua efetivação ainda menos o foi.

Deveu-se tal ao facto de a busca de despojamento deste Hélder entrar em inevitável contradição com a sua ideia de que «a paixão é a moral da poesia» e com uma prática de extremos que nos leva a definir a sua escrita como mágica, ou seja, transformadora.

Ele mesmo afirmou que o poema «é um objeto carregado de poderes magníficos, terríveis», nunca conformado com a mera deteção da existência e do que há de essencial nas manifestações da vida.

Essa existência, Herberto Hélder faz questão de alterar e até de manipular. Um exemplo: «De tarde / o galo anuncia a aurora / o sol brilha vivamente / à meia-noite.»

Se levarmos o conceito de Zen até à sua máxima consequência, verificamos que desenvolver uma subjetiva versão da existência, que é o que um poeta inevitavelmente procura, implica não se experienciar a própria existência de modo instantâneo.

Este era já o principal dilema da poesia Zen tradicional, e mais acentuado se tornou numa intervenção poética que se move entre a desordem e a ordem, com o fito de superar o caos mas também de o repor quando intervêm as dinâmicas que, para todos os efeitos, comprovam as rotinas existenciais: «Quando o peixe se move / turvam-se as águas.»

É por isso que a interpretação realizada pelos três músicos da poesia Zen de Hélder introduziu as coordenadas da cibernética. Ora, esta é o estudo dos sistemas gerais e da relação entre eles, e logo para começar dos biológicos, área em que esta escrita se alicerça, no seu propósito cosmológico e cosmogónico de criar e destruir mundos.

 

Com a Lua nas mãos

Ao fundamento da simplicidade do Zen, acrescentaram Rebelo, Rua e Mantero (sem necessariamente contraporem, antes jogando com os dois níveis) uma noção de complexidade que é própria da cibernética, tomando-a como a organização e a agregação de componentes não estruturados.

Dizendo de outro modo, como a edificação de uma realidade compósita que, se era feita de elementos naturais, tinha os contornos de coisa fabricada – «Tira água / e a lua estará / nas tuas mãos».

Fê-lo o coletivo So Happy Together não só mediante uma utilização heterodoxa de um instrumento como a guitarra portuguesa, que como se sabe tem usos muito definidos (utilização essa que passava pela recusa de toda a gramática que lhe foi estabelecida, e daí a designação «guitarra portuguesa mutante»), como também pela junção da eletrónica, para uma mais radical alteração dos parâmetros sonoros.

As guitarras de Nuno Rebelo e Vítor Rua (foto à direita) eram tocadas na horizontal e «atacadas» por objetos de tipo variado, e uma delas, a do primeiro, dispunha mesmo de cordas extra e lâminas de kalimba. Sob os pés de Rebelo estavam alguns pedais de efeitos, que eram ligados e desligados consoante as situações.

A própria voz de Vera Mantero era processada eletronicamente e o seu registo alterado, de modo que dela tivéssemos uma versão pós-humana, artificial, mutante, a interferir com a emitida pela glote.

Esta presença da tecnologia mais acentuava a perspetiva cibernética de tal visão do Hélder Zen, na medida até em que respondia ao devir-animal sugerido pelos poemas com o devir-máquina da música.

Afinal, foi o desenvolvimento tecnológico e dos sistemas de informação que permitiu a formação desta disciplina epistemológica, pelo facto até de se ter compreendido que todos os sistemas se equivalem, sejam naturais ou inventados pelo homem.

Vários estudiosos da obra de Herberto Hélder têm salientado a sua ligação com os princípios da alquimia, mas se é referida a produção de ouro como um objetivo implícito, ainda que metafórico, da sua poesia, a verdade é que o devir-animal anunciado e o devir-máquina subentendido pelos So Happy Together dizia, sobretudo, respeito a um outro objetivo dos alquimistas medievais…

A criação de vida humana a partir de materiais inanimados, o homunculus.

Humana, mas não demasiado, porque como assinala José Gil em «Monstros», o homúnculo, porque de um monstro se trata, tem menos de homem do que de inumano, isto é, de animal ou de máquina.

 

O possível em nós

Vera Mantero (Foto: Jorge Gonçalves)

Os animais de Hélder podem ser uma projeção da sua humanidade, mas na medida em que esta contém o germe da própria inumanidade: «Qualquer coisa em nós, no mais íntimo de nós (…) nos ameaça de dissolução e caos. Qualquer coisa de imprevisível e pavoroso (…) permanece escondido, mas pronto a manifestar-se.»

Argumenta o filósofo que «o monstro atrai» porque é uma atualização do possível em nós.

Disse-o igualmente uma especialista na poesia helderiana, Maria Estela Guedes, num escrito sobre os «híbridos» do poeta madeirense: «Quando no plano da cultura não científica se debatem os híbridos, a imaginação tudo admite, mesmo o impossível, como as sereias e os centauros.» Ou os galos de madeira da meia-noite, no caso de Hélder.

Alerta José Gil, no entanto, que não há devir real através da monstruosidade, e sim «um movimento caótico de repente paralisado», algo que aborta em determinada altura, que fica inacabado. Mesmo a noção de devir supõe a não cristalização numa fórmula.

A poesia de Herberto Hélder é performativa, ação, poemato, vai e vem, sem se definir objetivamente, assim como era performativa a música que nele se inspirava, dependente, portanto, do momento e do lugar.

O facto de Vera Mantero ser coreógrafa e dançarina tinha tudo que ver com esta condição, embora o seu papel no grupo excluísse o movimento.

O que estava em causa era a relação da voz, da sua voz, com o corpo, o seu, sentado a meio do palco, com o foco de luz delimitado no plano entre o rosto e as mãos.

E mais uma vez é José Gil, pensador que, aliás, se tem interessado muito especialmente pela dança, quem nos fornece a chave para a compreensão do modo de estar dos So Happy Together nesta leitura de Herberto Hélder – em cada espetáculo, e tal como aquele escreveu no ensaio «Metamorfoses do Corpo», a fisicalidade de Mantero passava «completamente para o lado da voz», tornava-se, inclusive, num «bloco de voz».

O corpo, sustenta Gil, é uma respiração que fala, surgindo o sopro da voz como uma mediação permanente entre o interior e o exterior do corpo, uma passagem por onde se articula o sentido.

Mais ainda: é a voz que constitui o corpo «em totalidade articulada no tempo». E já agora no espaço: podia o corpo de Vera Mantero permanecer na penumbra, que a sua voz, amplificada pelos olhos e pelas contorções faciais, que não apenas pelo PA, bastavam para o iluminar e expor por inteiro.

A voz tornava-se corpo logo depois de o corpo se tornar voz, se bem que transformado, pois revelou-se nessa subtil transição uma nova entidade, o devir-pássaro, devir-peixe, devir-galo de que nos fala Hélder.

Tal operação tinha o seu quê de xamânico, pois nesses momentos Mantero «era» o pássaro e o peixe e o galo dos versos que dizia ou cantava.

Ao mesmo tempo, era também as máquinas que os reproduziam, o microfone, o processador, a mesa de mistura, os altifalantes da sala.

Eram estes os meios da expressão mas igualmente a forma dessa expressão, impossibilidade cibernética de uma manifestação Zen e em simultâneo a via para a abordagem Zen tentada.

O paradoxo liberta, e porque liberta torna-se eminentemente criativo: afinal, foi nas fendas entre o que a Herberto Hélder se apresentou como contraditório que este erigiu o microcosmos mítico da sua torrencial poesia. «No fundo das montanhas / está guardado um tesouro / para aquele que nunca o procurar.»

Esse tesouro, Vítor Rua, Nuno Rebelo e Vera Mantero, tal como o poeta, nunca o encontraram, mas também é certo que o ímpar interesse deste projeto estava, precisamente, nessa certeza que é o próprio destino da humanidade: nunca conheceremos a nossa razão de ser.

Bem que poderiam continuar a tentar…

→ 18/08/2011 @16:26

Beautiful people

Patti Smith: não fosse ela, e haveria na história do rock um enorme buraco… Talvez até não tivesse evoluído da forma como aconteceu.

O seu primeiro álbum, «Horses», ocupa um lugar cativo na discografia básica deste género musical e atrevo-me até a dizer que na da mais importante música que se gravou no século XX, independentemente de idiomas e estilos.

Robert Mapplethorpe: foi um dos grandes mestres da fotografia, tendo infelizmente morrido demasiado cedo, vítima de complicações provocadas pelo HIV.

A foto acima reproduzida é de sua autoria e recorda a relação amorosa que manteve com a cantora. Uma relação intensa e extremamente difícil, devido à homossexualidade do artista.

Acabaram os dois por se separar, mas mantiveram uma sólida e estreita amizade até ao último suspiro de Mapplethorpe.

Adoro esta fotografia. Não é erótica, apesar da nudez. O que nela vejo são duas pessoas tão ligadas uma à outra como é possível imaginar.

Bem rara, tal comunhão de espíritos. É como se Patti Smith fosse Robert Mapplethorpe, e Robert Mapplethorpe fosse Patti Smith. Olhá-los dá-me paz e um restinho de fé na espécie humana…

→ 15/08/2011 @23:34

A melhor música é a da praia

Richard Diebenkorn

As melhores músicas que se fazem no mundo são aquelas que nascem na praia, e a da Bay Area de San Francisco tem um lugar especial nesse segmento muito à parte. Não me venham falar das cenas de Chicago, de Boston e de Nova Iorque: os meus ouvidos estão virados mas é para a costa do Pacífico…

A realidade daquilo que se designa por “música criativa” na Bay Area tem características próprias e estas reproduzem o brilho do sol na superfície da água e o impacto das ondas na areia, bem como a topografia incerta das dunas do deserto e das montanhas à volta.

Fugindo à tendência para se segmentar em famílias estéticas que encontramos em Nova Iorque, em Boston ou mesmo em Chicago, aí assistimos a práticas transversais que ignoram as fronteiras entre erudição e cultura popular, entre mainstream e experimentalismo, ou entre o rigor clássico e a visceralidade da improvisação.

Os músicos em atividade nesta zona geográfica, ou dela originários, têm de comum o facto de atravessarem os idiomas, em muitos casos nos mesmos projetos, e de manterem uma relação despreconceituosa relativamente às várias tradições.

Jazz, rock, pop, folk, música clássica e tudo o mais que existe misturou-se como em mais nenhum outro sítio…

 

Um modo de estar sem igual

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(The John Shiurba Experience)

Há outro fator, decisivo, que distingue a Bay Area: em vez de resultar da competição entre os artistas, é fruto do seu trabalho associativo e militante.

Cada músico é um ativista, um organizador, mais preocupado com desenvolver uma prática coletiva do que em projetar a sua própria carreira individual. Até porque sabe que, nos tempos que correm, sem uma a outra não tem espaço para vingar.

São várias as estruturas que congregam os esforços destes criadores, com a Bay Area Improvisers Network e a SFSound à cabeça. Uma tentando retirar do underground os valores em presença, a outra procurando aproximar do público abordagens musicais mais «académicas», acabaram ambas por ser decisivas para a formulação de um modo de estar na música que não só não tem igual nos Estados Unidos, como é única a nível planetário.

Por vezes, é mesmo difícil distinguir os seus campos de acção, tal a complementaridade de propósitos. A SFSound Series vem programando concertos com nomes da livre-improvisação europeia mais radical, como Kai Fagaschinski, Michel Doneda, Lê Quan Ninh, Domenico Sciajno e Michael Thieke, integrando-os entre apresentações do SFSound Ensemble a interpretar John Cage, Morton Feldman e Elliott Carter.

Artistas sonoros de diversas partes do mundo actuam com as figuras locais e de todo o país nos festivais da Network (por exemplo, o San Francisco Alternative Music Festival), como Kyle Bruckmann, Gene Coleman, Matt Ingalls ou Christopher Jones.

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(Carla Kihlstedt)

Outros nomes a destacar nesses cartazes são os de Larry Ochs, Henry Kaiser, Lisle Ellis, Scott Amendola, Marco Eneidi, Ben Goldberg, Carla Kihlstedt, Gino Robair, John Shiurba, Damon Smith, Karen Stackpole, Weasel Walter e Scott Rosenberg. Valerá a pena realizar uma busca do que há deles e sobre eles na rede virtual…

O objetivo é bem explícito e constitui, inclusive, um programa de orientação: proporcionar trocas musicais e a mútua fertilização de géneros e estilos, em ambiente descontraído e de festa. Já Anthony Braxton surgiu a par de Anton Webern e John Butcher de Steve Reich.

A intervenção destas instituições faz-se por uma pluralidade de meios, com vista a furar o alheamento dos canais de comunicação estabelecidos, e assim como a SFSound dispõe de uma estação de rádio via Internet, a SFSoundRadio, a Bay Area Improvisers Network disponibiliza online uma extensa lista de músicos, com as respetivas biografias, bem como discografias, contactos, etc.

O âmbito desta página é assim apresentado: «Não pretendemos definir rigidamente o que é a música criativa, mas a ênfase deste site vai para a forma de música improvisada que teve a sua génese nos artistas do free jazz ou da vanguarda da década de 1960 e início da de 70. (…) Ao longo dos anos, esta música interiorizou a influência dos improvisadores europeus e dos compositores clássicos contemporâneos, ainda que mantendo uma forte ligação com o movimento do free jazz.»

Entre as muitas outras iniciativas a decorrer em San Francisco e nas cidades vizinhas, uma ganhou uma exponencial importância: o curso de improvisação não circunscrito ao jazz, ou seja, muito distinto do do Berklee College of Music, do Mills College, dirigido por Fred Frith. Ler mais »

→ 11/08/2011 @20:37

Fui ao Jazz em Agosto e estou com varicela

Este post chegar-vos-á cheio de… scratch… intermitências… scrich… É que eu não páro… scratch… de coçar as orelhas com, pelo menos, duas… scratch, scratch… patas ao mesmo tempo.

Isso mesmo, sinto-me como um cão… scrich… Estou com varicela… scratch… e tenho pintinhas encarnadas pelo corpo… scratch… todo. Sim… scrich, scrich… também nesse sítio em que…  scratch… estão a pensar. E atrás, no rabo.

Fui aos primeiros… scratch, scratch… quatro concertos do Jazz em Agosto… scrich… e tencionava escrever sobre o festival no final da maratona. Planos estragados…

Ontem (quarta-feira), o médico mandou-me ficar… scratch… de quarentena. «Você anda a espalhar a doença por todo o lado e, como está com a imunidade em baixo, poderá contrair uma pneumonia, ou pior.»

OK, pronto, não batas mais… scrich… no coitadinho. Ia de seguida ver e ouvir o punk-jazz dos Little Women no Teatro do Bairro, mas as chance operations…  scratch… descobertas por John Cage no Cosmos que nos banha… Ai, scratch, scratch… tinham-me destinado uma noite vegetal… Ui… diante do televisor.

Há uma semana que… aahhhhhhhhhh… ando a coçar-me. Na farmácia tinham-me dito que havia uma praga de mosquitos em toda a zona da linha de… irra!… Cascais. Mosquitos pequeninos, fugidos de África, daqueles que não se ouvem nem vêem.

E eu acreditei, pelo que me fui besuntando… hmmmm… de Caladryl, para ir ao anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian.

Ingrid Laubrock e Cecil Taylor (Fotos: Carlos Paes)

Assisti aos concertos de Cecil Taylor, Ingrid Laubrock’s… Anti-House e Wadada Leo Smith Organic, e fui ao primeiro… scrich, scrich, scrich… da série “destroyer” reservada para o espaço em disposição café-concerto do novo teatro do Bairro Alto, com… bolas, bolas… o Humanization Quartet de Luís Lopes.

Bem que eu me sentia… fraquinho. Tive de beber… aí mesmo, Paula, na omoplata… três Red Bulls para poder acompanhar a cavalgada destes últimos quatro. No fim, enquanto o Lopes… scratch… se atirava para o colo do baterista headbanger Stefan González, entre palmas, uivos e assobios, eu saí, à procura de ar.

Ontem as pintinhas multiplicaram-se… ai, ui… como coelhinhos fornicadores, e deixei de acreditar na teoria dos bichos que vieram refugiados da Somália. Receitas médicas (80 euros por um frasco de… au!… comprimidos? rastaparta!), gel de banho para bebé e ordem de marcha para casa.

 

Banzai, scrich, scrich!

Cecil Taylor (Foto: Carlos Paes)

Bom. Cecil Taylor… Foi óptimo reencontrar este gigante do piano… scrich… já velhinho, com todas as suas faculdades de sempre. Há cerca de 20 anos, a sua passagem… ai que desespero… por Lisboa ficou assinalada com manchas de sangue no teclado. Agora, esteve mais contido e até surpreendentemente lírico.

Foi um outro Cecil Taylor, mas tão bom… gnnnnnnn… ou quase, que o antigo martelador de acordes em cachos.

Infelizmente, esteve meia-hora a ler poemas seus, com o microfone para baixo, pois segurava um molho de folhas… scratch… nas mãos.

Não se percebia o que dizia e a coisa arrastou-se infindavelmente, enquanto se movimentava pelo palco, pisando com passos inseguros as cores todas que inundavam o dito (excelente desenho de luz, by the way).

Nada que não… crrr crrr crrr … se pudesse desculpar a tão mítica figura.

Mary Halvorson (Foto: Carlos Paes)

Wadada Leo Smith (Foto: Carlos Paes)

Anti-House. Os grandes músicos do grupo da saxofonista Ingrid Laubrock (que nos falou num… scrich, scrich, scrich, scrich… excelente Português abrasileirado) prometiam uma boa sessão. Eram eles Kris Davis ao piano, Mary Halvorson na guitarra, John Hébert no contrabaixo e Tom… só um momento… Rainey na bateria.

porra para isto, deixem-me escrever… E no entanto, os primeiros 20 minutos do concerto foram de esfrega. Tudo muito arrumadinho, de laçarote e pó-de-arroz. Até que a música cresceu e o que começou debilmente tornou-se numa grande prestação.

Ingrid foi do simples ao complexo e fez com os seus tenor e soprano também o percurso de volta, sempre com a maior das naturalidades.

Gostei também dos ataques em picado… picado? oh, não… de Mary e Tom (que não tinha conseguido dormir por causa do jetlag) foi um portento na construção de ritmos e texturas.

Scratch, scratch… Organic. O noneto de Wadada tocou durante duas horas, só parando uma vez na viagem. A matriz do projecto era o Miles Davis eléctrico da década de 1970, ou seja, com pulsações fixas do início ao fim.

Mas… aí, aí, aí… teve uma passagem mais abstrata que me pareceu a parte entregue a Don Cherry no «Escalator Over the Hill» de Carla Bley e outra que parecia Frank Zappa.

Ou seja, o grande trompetista de rastas mergulhou nos modelos do passado para fazer música de hoje.

Grandes solos se ouviram do próprio Leo Smith, com um som… scratch, scrich, crrrr, crrr… quente e redondo, de Okkyung Lee no violoncelo, dos três guitarristas de serviço, Brandon Ross, Lamar Smith e Michael Gregory, e do contrabaixista John Lindberg.

Infelizmente, mal se ouviu… arde, arde!!… a pianista Angelica Sanchez, mas para compensar Pheeroan Aklaff, na bateria, foi um espetáculo dentro do espetáculo.

Destoou de tudo isto o pobre VJing de Jesse Gilbert…

Por fim (para mim), o luso-texano Luís Lopes Humanization Quartet. Jazz com riffs de rock e batida metal (os irmãos Aaron e Stefan González), com desaustinados solos… hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… free de sax tenor (Rodrigo Amado) e noise de guitarra (Luís Lopes).

Um autêntico assalto aos tímpanos, pesado, por vezes violento, mas muito sincopado e até dançante. Banzai… scratch… scratch!

→ 10/08/2011 @3:43

Alquimias

A música de Zappa já faz parte do meu código genético – grande novidade para vocês, não é? Chega a ser um vício: por mais que oiça e conheça músicos e músicas que me deixam à beira de uma apoplexia musical, preciso sempre de regressar a estas músicas – ou melhor, a estas formas de fundir a música.

Zappa é um alquimista: combina vários elementos musicais para criar algo de verdadeiramente único, precioso e de longa vida. Esta música tem o poder de me revitalizar.