Sim, eu sei, a Internet não per­doa. As re­des so­ci­ais são im­pla­cá­veis. No fi­nal de mais uma noi­te de in­cên­di­os e res­cal­dos no­ti­ci­o­sos na TVI, a jor­na­lis­ta Ana Sofia Cardoso leu a pri­mei­ra pá­gi­na do jor­nal Público. É al­go que ela faz inú­me­ras ve­zes, sem aci­den­tes.

Desta vez, não per­ce­beu que o «aler­ta de frio em Portugal» era ape­nas pu­bli­ci­da­de da SyFy à sé­ti­ma tem­po­ra­da do Game of Thrones. Foi um er­ro tão ób­vio e es­ta­pa­fúr­dio que se tor­nou vi­ral.

Errar ainda é humano, ó turba das pedras

Só quem não cor­ri­ge er­ros des­co­nhe­ce que os mais ób­vi­os cos­tu­mam ser os mais in­de­te­tá­veis. A pró­pria pu­bli­ci­da­de no Público é uma imi­ta­ção de um tí­tu­lo no­ti­ci­o­so. Publicidade gra­fi­ca­men­te apre­sen­ta­da co­mo se fos­se mais uma no­tí­cia.

Seja co­mo for, é uma prá­ti­ca ha­bi­tu­al. Um lei­tor ex­pe­ri­en­te ou aten­to vê lo­go a di­fe­ren­ça.

O que dis­tin­gue es­te de ou­tros ca­sos é o es­pa­ço pu­bli­ci­tá­rio ter saí­do nu­ma da­ta em que Portugal vi­ve a tra­gé­dia dos in­cên­di­os. Estes es­pa­ços de pu­bli­ci­da­de são ne­go­ci­a­dos e com­pra­dos com di­as, se­ma­nas de an­te­ce­dên­cia, pe­lo que foi ape­nas uma bi­zar­ra coin­ci­dên­cia.

Porque não re­pa­rou ela no que es­ta­va a ler? Consigo ima­gi­nar mui­tas ra­zões, mas «in­com­pe­tên­cia» ou «bur­ri­ce», co­mo já li por aí, não cons­tam da mi­nha lis­ta.

Imagino que te­rá si­do can­sa­ço. Tendo em con­ta o fre­ne­sim in­for­ma­ti­vo dos úl­ti­mos di­as, é uma ex­pli­ca­ção plau­sí­vel. O can­sa­ço le­vou à des­con­cen­tra­ção. A des­con­cen­tra­ção le­vou à lei­tu­ra em pi­lo­to au­to­má­ti­co. São coi­sas que acon­te­cem, so­bre­tu­do quan­do uma ta­re­fa se tor­na ro­ti­nei­ra.

Ana Sofia Cardoso te­ve azar por­que a ga­fe sur­giu nu­ma al­tu­ra em que a TVI es­ta­va a ser cri­ti­ca­da por al­gu­mas op­ções edi­to­ri­ais eti­ca­men­te ques­ti­o­ná­veis. E por­que, no pró­prio dia, a di­re­ção de Informação da es­ta­ção ti­nha re­a­gi­do às crí­ti­cas com or­gu­lho de in­fan­tá­rio, ga­ran­tin­do não «re­ce­ber li­ções de nin­guém».

Depois apa­re­ceu a pre­vi­são me­te­o­ro­ló­gi­ca de Westeros ao fim de noi­te. Foi uma ex­ce­len­te opor­tu­ni­da­de às pes­so­as de ima­gi­na­rem, à con­ta des­te er­ro, umas 1001 li­ções adi­ci­o­nais que a TVI pre­ci­sa.

Winter is coming, mas depois passa

Ana Sofia Cardoso

Ana Sofia Cardoso

Não va­le a pe­na le­var as coi­sas a pei­to. Imagino que pa­ra um jor­na­lis­ta pro­fis­si­o­nal um er­ro as­sim é hu­mi­lhan­te. E ver es­se er­ro par­ti­lha­do por mi­lha­res de pes­so­as nu­ma re­de so­ci­al não é fá­cil. Talvez até ti­re o so­no. De um mo­men­to pa­ra o ou­tro, uma car­rei­ra resume-se a trin­ta se­gun­dos de ví­deo no YouTube.

Se va­mos pen­sar na for­ma co­mo a Internet clas­si­fi­ca uma pes­soa, mais va­le de­sis­tir e tornarmo-nos ere­mi­tas. Ou fi­car of­fli­ne. Hoje em dia sig­ni­fi­ca o mes­mo. Quando an­dei à pro­cu­ra de uma fo­to da Ana Sofia Cardoso pa­ra ilus­trar es­te post, o Google Images ti­nha di­vi­di­do os re­sul­ta­dos em te­mas: a «Ana Sofia Cardoso de­co­te» apa­re­cia ao la­do da sec­ção «Cristina Ferreira com uma ma­ma qua­se de fo­ra».

A ver­da­de é que tam­bém não te­nho mui­ta sim­pa­tia pe­las tur­bas das re­des so­ci­ais. Tenho sim­pa­tia por quem er­ra ino­cen­te­men­te, mas não pe­los ha­bi­tan­tes des­te rei­no das in­dig­na­ções pa­ra con­su­mo ime­di­a­to. O rei­no dos jul­ga­men­tos sem fac­tos. Das con­clu­sões sem aná­li­se. Um pou­co co­mo fez par­te da co­mu­ni­ca­ção so­ci­al, du­ran­te a co­ber­tu­ra des­tes in­cên­di­os.

As re­des so­ci­ais dão o cu e oi­to tos­tões pe­la pos­si­bi­li­da­de de trans­for­mar pes­so­as em me­mes. Algumas me­re­cem, co­mo o Trump, por­que exis­tem ra­zões ide­o­ló­gi­cas, éti­cas, po­lí­ti­cas que sus­ten­tam a crí­ti­ca, o go­zo, a sá­ti­ra.

Outras, co­mo Ana Sofia Cardoso, nem tan­to. Brincar é nor­mal por­que a ga­fe é hi­la­ri­an­te. Gozar sem pu­dor e colocar-lhe a in­te­li­gên­cia em cau­sa é exa­ge­ra­do e in­jus­to. Colar o seu er­ro ao en­qua­dra­men­to de Judite de Sousa e do len­çol é de­ma­gó­gi­co.

Judite de Sousa e a TVI fo­ram cri­ti­ca­das na Internet de­vi­do às su­as es­co­lhas edi­to­ri­ais. A jor­na­lis­ta da TVI foi cri­ti­ca­da por­que er­rar é hu­ma­no. Porque con­fun­diu pro­mo­ção e jor­na­lis­mo, es­sas du­as ati­vi­da­des que es­tão sem­pre se­pa­ra­das uma da ou­tra, sem­pre es­ti­ve­ram e sem­pre es­ta­rão…

Gozar com Ana Sofia Cardoso ou definir-lhe a car­rei­ra por uma ga­fe é co­mo go­zar com al­guém que caiu pe­las es­ca­das abai­xo de for­ma es­pa­lha­fa­to­sa. Descemos e su­bi­mos es­ca­das to­dos os di­as, mas há sem­pre um dia em que po­de­mos tro­pe­çar. Se ti­ver­mos azar, a nos­sa que­da se­rá fil­ma­da e se­re­mos imor­ta­li­za­dos num GIF de 15 se­gun­dos.

A melhor forma de recuperar deste erro

Kit Harington

Kit Harington

A jor­na­lis­ta da TVI co­me­teu um er­ro quan­do mui­ta gen­te an­da­va cheia de von­ta­de de ma­lhar na TVI e no pró­prio jor­na­lis­mo que se pra­ti­cou nes­tes di­as. Teve azar.

E não va­le a pe­na chatear-se mui­to: mes­mo que, por hi­pó­te­se, ga­nhas­se um Prémio Pulitzer, ha­ve­ria sem­pre um es­pa­ço des­ta­ca­do na Internet pa­ra o seu de­co­te.

Não é na­da pes­so­al. E tu­do se es­que­ce­rá. A úni­ca coi­sa que me cha­teia na ga­fe da Ana Sofia Cardoso é pen­sar que aque­la só foi pos­sí­vel por nun­ca ter vis­to o Game of Thrones e não fa­zer ideia que o Winter is co­ming. Isso, des­cul­pa lá, Ana, já é im­per­doá­vel.

Se por aca­so vi­e­res pa­rar aqui, senta-te di­an­te do te­le­vi­sor e pre­en­che es­se va­zio dra­má­ti­co da tua vi­da. Se es­te epi­só­dio da ga­fe te pro­vo­car in­só­ni­as, Ana, apro­vei­ta e faz o que os vi­ci­a­dos em sé­ri­es cha­mam de «binge-watching». Ao che­ga­res ao fim da pri­mei­ra tem­po­ra­da, já es­ta­rás a pen­sar «Bendita a ho­ra em que me en­ga­nei. Se não fos­se aque­le er­ro, nun­ca te­ria co­nhe­ci­do o Game of Thrones».

Marco Santos

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