Tenho uma re­gra de ou­ro. E até ago­ra nun­ca me dei­xou fi­car mal. A re­gra é sim­ples: o fu­te­bol só exis­te na mi­nha ca­be­ça en­quan­to de­cor­re o jo­go. Quando o ár­bi­tro api­ta pa­ra o fi­nal, os jo­ga­do­res re­co­lhem ao bal­neá­rio e os meus neu­ró­ni­os da bo­la vão pa­ra a ca­ma dor­mir.

E o dia em que me dei­xar ar­ras­tar pa­ra uma dis­cus­são de fu­te­bol por­que sou de um clu­be e não de ou­tro, é o dia em que irei fa­zer um exa­me à ca­be­ça.

Desprezar o fol­clo­re mon­ta­do à vol­ta de um jo­go é qua­se co­mo dei­xar de fu­mar. Quem dei­xa de fu­mar torna-se mais sen­sí­vel aos chei­ros, so­bre­tu­do aos do pró­prio ta­ba­co. Quem dei­xa de con­su­mir o pseudo-futebol torna-se mais sen­sí­vel aos chei­ros, so­bre­tu­do aos dos pro­gra­mas des­por­ti­vos.

Passamos por al­guém a fu­mar, re­co­nhe­ce­mos o chei­ro e sentimo-nos sa­tis­fei­tos por ter­mos lar­ga­do o ví­cio. É uma sen­sa­ção de li­ber­da­de. É me­nos uma coi­sa ri­dí­cu­la na vi­da que nos con­di­ci­o­na. Ligamos o te­le­vi­sor, pas­sa­mos pe­los pro­gra­mas des­por­ti­vos e fi­ca­mos sa­tis­fei­tos por se­guir em fren­te. É uma sen­sa­ção de li­ber­da­de. É me­nos uma coi­sa ri­dí­cu­la na vi­da que nos es­tu­pi­di­fi­ca.

Um ex-fumador é al­guém que to­dos os di­as to­ma a de­ci­são de não vol­tar a fu­mar. Um de­sin­to­xi­ca­do do fu­te­bol é al­guém que to­dos os di­as to­ma a de­ci­são de não ver pro­gra­mas des­por­ti­vos ou atu­rar do­en­tes da bo­la. Sugiro-vos que fa­çam o mes­mo. Faz ma­ra­vi­lhas ao dis­cer­ni­men­to.

Viver apri­si­o­na­do po­de pa­re­cer tão nor­mal aos adep­tos fer­re­nhos dos clu­bes que os pró­pri­os nem se che­gam a aper­ce­ber da sua con­di­ção de pri­si­o­nei­ros — bas­ta tro­car a jau­la pe­lo ecrã de te­le­vi­são e meter-lhe lá den­tro um Pinas, um Serrão e um Guerra a lan­çar de­je­tos uns aos ou­tros.

Quantas mais coi­sas in­sa­nas nos pa­re­ce­rão nor­mais só por­que exis­te um nú­me­ro su­fi­ci­en­te­men­te gran­de de gen­te a encará-las com nor­ma­li­da­de?

Um por todos, todos por um, ninguém pela sensatez

Existe uma ex­pres­são mui­to co­nhe­ci­da quan­do se quer ma­ni­fes­tar in­com­pre­en­são pe­lo po­der atra­ti­vo do fu­te­bol: são 22 ti­pos num cam­po a cor­rer atrás de uma bo­la. No fu­te­bol por­tu­guês, são 22 ti­pos num te­le­vi­sor a cor­rer atrás de um ar­gu­men­to.

O ar­gu­men­to ser­ve uma nar­ra­ti­va. E a nar­ra­ti­va é sem­pre a mes­ma: a da su­pe­ri­o­ri­da­de mo­ral. Todos os adep­tos re­cla­mam pa­ra o seu pró­prio clu­be as mes­mas qua­li­da­des, en­quan­to pro­je­tam nos ri­vais os seus pró­pri­os de­fei­tos, recusando-se a admiti-los. Todos são ar­ro­gan­tes. Todos são hu­mil­des. Todos são sé­ri­os. Todos são cor­rup­tos. Todos são an­ji­nhos. Todos são de­mó­ni­os. E to­dos se jul­gam di­fe­ren­tes uns dos ou­tros in­vo­can­do as mes­mas ra­zões que fa­zem com que, no fun­do, se­jam to­dos iguais.

A his­tó­ria dos emails do Pedro Guerra tam­bém faz par­te des­ta nar­ra­ti­va que con­sis­te em ser­mos an­ji­nhos ou de­mó­ni­os, con­so­an­te as cir­cuns­tân­ci­as e os clu­bes. Não fal­ta­rão Guerras no nos­so fu­tu­ro, co­mo já exis­ti­ram no pas­sa­do, e de to­dos os clu­bes. As te­le­vi­sões e os jor­nais des­por­ti­vos não dei­xa­rão de agra­de­cer to­da a vos­sa aten­ção.

Guerra não se lem­bra dos emails, diz quem viu o pro­gra­ma. Isto não é na­da de no­vo. O clu­bis­mo vi­ve des­te ti­po de es­que­ci­men­tos. E não há nin­guém com mais me­mó­ria se­le­ti­va do que o adep­to. O adep­to é um gran­de es­pe­ci­a­lis­ta em lem­brar o que lhe con­vém e es­que­cer o que não lhe dá jei­to.

E eis um úl­ti­mo de­sa­ba­fo de quem es­tá far­to de ver guer­ri­nhas no Twitter e en­tra­das in­ter­mi­ná­veis no Facebook a pro­pó­si­to des­ta no­va no­ve­la me­xi­ca­na: aos Guerras, Pinas, Serrões, Brunos, Saraivas, Marques e de­mais pa­ra­si­tas des­te nos­so po­bre, su­ga­do e do­en­tio fu­te­bol, es­ti­mo que se fo­dam to­dos e me dei­xem sos­se­ga­di­nho a ver 22 ti­pos num cam­po a cor­rer atrás de uma bo­la.

Marco Santos

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