A reação que pessoas racionais costumam ter em relação à proliferação de certas teorias da conspiração não é diferente da dos personagens de um filme de terror perante uma infestação de mortos-vivos: a princípio, ninguém acredita que ambos os fenómenos possam ser possíveis.

Quando o assunto é debatido nos meios de comunicação, partilhado nas redes sociais e os relatos de testemunhas que avistaram mortos-vivos deambulando pela vizinhança se avolumam, essas pessoas começam a pensar se o mundo não terá perdido o juízo.

Dado tratar-se de um filme de terror, tanto num caso como noutro, é possível que um amigo ou familiar fique infetado e as tente infetar também.

«Zombies» e teóricos de certas teorias da conspiração têm em comum uma predileção especial por comer cérebros até nada restar a não ser um exército de cabeças babadas disseminando a praga, pelo que pessoas mais impressionáveis poderão entrar em pânico e esconder-se, com medo da contaminação.

Isto é de virar a cabeça a qualquer um

Isto é de virar a cabeça a qualquer pessoa

Aqui entre nós, as pessoas sensatas têm razão em assustar-se. O senso comum pode não ser tão comum como se julgava. E se esta teoria da Terra plana for verdadeira, a implicação mais imediata é a de que «eles» nos andam a mentir há mais de dois mil anos.

Dois mil! Não me refiro às metáforas bíblicas que os defensores do planeta plano interpretam literalmente, refiro-me aos gregos.

Consta que um tal de Eratóstenes — astrónomo, matemático, geógrafo, linguista, poeta, diretor da Biblioteca de Alexandria e o primeiro Illuminati — chegou a calcular geometricamente o diâmetro da Terra com excelente precisão, o que não seria possível caso o planeta fosse plano.

Como o fez? Soube que na cidade de Siena o Sol podia ser observado dentro de um poço ao meio-dia mas que em Alexandria, à mesma hora, na mesma data e sob as mesmas circunstâncias, o Sol não ficava suficientemente perto do seu zénite.

Eratóstenes mandou então medir em passos a distância entre Siena e Alexandria, incluindo o tamanho das sombras projetadas por uma estaca colocada em cada uma das suas cidades. O tamanho das sombras era diferente, o que não seria possível caso o planeta fosse plano.

Mas isto, já se sabe, são «opiniões». E entre alguém que debita provas em vídeos no YouTube e um bárbaro obscuro que sandaleou pelo planeta há dois mil anos, é natural que a «opinião» com mais possibilidades de prevalecer seja a que for mais fácil de apreender.

O mais provável é Eratóstenes ter partido de Alexandria porque ouviu falar de uma tasca em Siena que servia vinhaça da boa.

Consigo imaginá-lo a pensar na inocência dos seus conterrâneos que o observavam com curiosidade: «Eles estão convencidos de que vou usar relações trigonométricas para calcular a circunferência da Terra — grandes palermas, como se eu agora não tivesse nada melhor para fazer!»

As opiniões têm asas, os factos andam a passo de tartaruga

Tartaruga sustentando a Terra

Bem sei que denunciar Eratóstenes e seguintes como fraudes é intelectualmente apelativo para os graduados da Universidade do YouTube, mas eu continuo a pensar no que foi feito da tartaruga — já para não falar dos pobres elefantes.

Na Índia antiga os hindus já defendiam a existência de uma terra plana. Os atuais defensores — os sofisticados humanos que usam a Internet — acham que a gravidade não existe e que uma barreira de gelo à volta da Terra nos impede de cair para o abismo. Só nunca vimos essa barreira porque «eles» não permitem que as imagens sejam divulgadas.

Já os hindus acreditavam que a Terra plana era sustentada por quatro elefantes os quais, por sua vez, eram sustentados por uma tartaruga gigante. Eu até podia referir as crenças na Mesopotâmia e no Egipto, segundo as quais o planeta era plano, circular e circundado por um oceano cósmico, mas fico-me pela questão da tartaruga. Onde está? Tem problemas nas costas ou ainda está aí para as curvas, a sustentar-nos a todos?

Não estou a querer embirrar. Não se pode é desprezar os cálculos trigonométricos que Eratóstenes fez há mais de dois mil anos, rejeitar a gravidade e todas as evidências e provas científicas, e depois fazer de conta que uma tartaruga que sustenta a Terra plana nunca existiu.

Caros planos, vocês têm de provar que a tartaruga não existe antes de proporem barreiras de gelo e o fim da gravidade.

Não sou só eu. Há mais gente que os contesta. Os mortos-vivos que andam a tentar converter-nos ao dogma da Terra plana ainda têm muitos cérebros para despachar até poderem ser considerados uma praga, mas há pessoas que não se deixam levar pela conversa deles porque sabem muito bem que a Terra é oca.

É uma questão pertinente porque só um dos grupos pode ter razão. Corrijam-me se estiver enganado, mas parece-me cientificamente improvável que uma Terra plana possa ser oca e que uma Terra oca possa ser plana. É como obrigar uma pessoa a escolher entre um berlinde e uma carica.

O que mais faltava agora era uma zaragata

Seria maravilhoso poder assistir a um debate entre os planos e os ocos, precisamente para nos dar a oportunidade de esclarecer estas dúvidas existenciais tão importantes para o futuro dos sistemas GPS. Seria chocante que só agora descobríssemos que afinal eles nunca tinham funcionado e que os computadores não calculavam um trajeto, só faziam uma ideia.

Astérix e a Zaragata

Dada a importância do debate, acredito que a discussão poderia começar com uma civilizada troca de opiniões (perdão, factos, estou sempre a baralhar estas coisas), mas a força das convicções acabaria por sobrepor-se à resistência da tolerância.

Posso até imaginá-los a lançar vídeos do YouTube à cara uns dos outros como se fossem pedregulhos. Infelizmente, não vislumbro em qualquer dos grupos uma pacífica figura messiânica que acabasse com a zaragata gaulesa dizendo algo como «quem nunca se enganou, que atire o primeiro vídeo».

Para desanuviar o ambiente, um moderador mais sensato — por exemplo, um tipo que acredita em discos voadores e em homenzinhos verdes — poderia propor a ambas as partes que falassem daqueles que andam a esconder a verdade das pessoas.

Os teóricos da conspiração que não conseguem contrariar a realidade criam uma realidade alternativa na qual a NASA, o Governo, os Illuminati ou todos ao mesmo tempo controlam, ocultam ou disseminam coisas. É uma realidade alternativa difícil de refutar porque exigiria uma mente racional capaz de carregar — com pachorra de santo — o ónus de provar a realidade, em vez de exigir o mesmo a quem a desmente.

Mas manterei a cabeça aberta como um paraquedas e, com a esperança de não me espatifar no solo da imbecilidade, admitirei que até são capazes de ter razão nas acusações à NASA.

E Marte aqui tão perto, é só um pulinho

Mars Research Center

Não deve ser fácil esconder que o Homem nunca foi à Lua, que existem criaturas em Marte ou que extraterrestres andam a raptar pessoas aqui, quanto mais esconder do grande público a existência de duas Terras, uma plana e outra oca. A NASA é multifacetada e multidisciplinar, mas não exageremos.

Agora percebo por que razão ainda não enviámos uma missão tripulada a Marte ou estamos longe de enviar sondas automatizadas às estrelas vizinhas: não tem a ver com a falta de dinheiro, os desafios de engenharia ou a nossa fragilidade carbónica, é porque os melhores cérebros da NASA andam atarefados a esconder-nos múltiplas conspirações ao mesmo tempo. Uma missão tão colossal deve comer-lhes quase todo o orçamento.

À semelhança dos compadres das conspirações, desejo que a NASA revele que nunca foi à Lua — a ver se finalmente conseguimos poupar uns dinheiritos para visitar Marte ainda na minha geração.

Vá, NASA, confessa tudo e planifica uma missão, mas desta vez a sério. Se tiveres dúvidas de como fazer uma viagem tripulada ao planeta vermelho — depois logo se vê se é plano ou não —, vais ao YouTube que os cientistas aí residentes explicam-te como se faz.

Aviso

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?