No dia em que mor­res­te, meu amor, o Sol bri­lhou tão inten­sa­men­te que pare­cia ter nas­ci­do em tua home­na­gem.

A manhã esta­va lumi­no­sa, pací­fi­ca, ver­de­jan­te, exa­ta­men­te o géne­ro de manhã que te fazia levan­tar, ape­sar do can­sa­ço, da dor e do sofri­men­to, como se a tua dis­po­si­ção e a dis­po­si­ção da Natureza esti­ves­sem liga­das por um cor­dão umbi­li­cal que só tu con­se­gui­as ver.

Visitara-te pou­cas horas antes e sabia o que ia acon­te­cer. Já tinhas par­ti­do quan­do me des­pe­di de ti e a notí­cia da tua «alte­ra­ção de esta­do» — eufe­mis­mo hos­pi­ta­lar para o fale­ci­men­to do paci­en­te — não era mais do que uma coi­sa buro­crá­ti­ca, um carim­bo a con­fir­mar o que a Natureza já deter­mi­na­ra e tu sabi­as mas, por altruís­mo, insis­ti­ras sem­pre em des­va­lo­ri­zar.

Deixei as lágri­mas para depois — não por orgu­lho, mas para pare­cer mais for­te dian­te dos nos­sos miú­dos. Limitei-me a seguir o teu exem­plo: duran­te algu­mas sema­nas, fiz o que tu con­se­guis­te duran­te anos. E ago­ra, pai e mãe, é raro o dia em que não pen­se no que fari­as ou deci­di­ri­as se esti­ves­ses aqui con­nos­co.

Abandonei o blo­gue duran­te estes meses por­que não con­se­guia pen­sar em mais nada a não ser em ti, mas sei que fica­ri­as satis­fei­ta por ter reco­me­ça­do, qua­se qua­tro meses depois de te ter per­di­do. O dia em que reco­me­ças­se a escre­ver impli­ca­ria, por fim, con­ven­cer-me de que tam­bém a minha vida tinha con­ti­nu­a­do.

O teu exem­plo será nos­so até ao fim das nos­sas vidas. E tal­vez futu­ros netos e bis­ne­tos pos­sam tam­bém apro­vei­tá-lo. É um belo lega­do, melho­rar o mun­do ape­nas com a nos­sa sim­ples pre­sen­ça, o lega­do que mere­ces por seres a mais gene­ro­sa e bon­do­sa das pes­so­as.

O mun­do nun­ca sou­be nada de ti mas, naque­la manhã, por alguns segun­dos, acre­di­tei que para o mun­do te conhe­cer bas­ta­ria sen­tir, como eu, o calor do Sol sobre o ros­to. A tua manhã.

Marco Santos

 Marco Santos

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