«Rapariga fil­ma­da e abu­sa­da no Porto e nin­guém faz na­da» — de­nun­cia o Correio da Manhã na sua pá­gi­na do Facebook. — Veja o ví­deo!» Por es­ta al­tu­ra, já to­da a gen­te co­nhe­ce a his­tó­ria. Não é ob­je­ti­vo des­te post dis­cu­tir o con­teú­do das ima­gens. Se qui­se­rem co­nhe­cer as im­pli­ca­ções le­gais do ca­so, lei­am es­te ar­ti­go.

Vi mui­ta gen­te a cha­mar a aten­ção pa­ra a hi­po­cri­sia des­te anún­cio. Denunciam o con­tras­te en­tre o ape­lo à in­dig­na­ção — «abu­sa­da e nin­guém faz na­da» — e o ape­lo à cus­qui­ce — «Veja o ví­deo!»

Eu não lhe cha­ma­ria hi­po­cri­sia. O CM co­nhe­ce bem os lei­to­res e sa­be co­mo apre­sen­tar os seus «ape­los» ao pú­bli­co. Até aque­le pon­to de ex­cla­ma­ção sim­bo­li­za o pi­co de adre­na­li­na que a «his­tó­ria» pro­me­te pro­vo­car. O CM é mui­to ex­pe­ri­en­te em or­ga­ni­zar ban­que­tes pa­ra de­nun­ci­ar a fo­me no mun­do e em con­vi­dar os seus lei­to­res a dar uma den­ta­di­nha. E qua­se to­dos se ser­vem.

Os con­su­mi­do­res do CM pre­ci­sam de uma ra­zão mo­ral pa­ra jus­ti­fi­car o im­pul­so de ver uma ce­na que sus­pei­tam ser de na­tu­re­za re­pro­vá­vel. Depois de vis­ta a por­ca­ria no ví­deo e sa­tis­fei­ta a cu­ri­o­si­da­de, já po­dem pas­sar à fa­se se­guin­te: a da in­dig­na­ção fa­ce­bo­o­ki­a­na.

Suspeito que as vi­das de mui­tos lei­to­res do CM se­jam tão abor­re­ci­das que a in­dig­na­ção fa­ce­bo­o­ki­a­na tem o mes­mo efei­to que uma des­car­ga de adre­na­li­na. Ou qual­quer even­to que pro­vo­que um sen­ti­men­to for­te.

O sen­ti­men­to é for­te mas pou­co du­ra­dou­ro, por­que a má­qui­na dos cli­ques é co­mo uma formiga-rainha, sem­pre a dei­tar cá pa­ra fo­ra mais «no­tí­ci­as». É ali­men­ta­da cons­tan­te­men­te por to­das as ope­rá­ri­as que um dia, há mui­to tem­po, pen­sa­ram que ser jor­na­lis­ta im­pli­ca­ria pen­sar pe­la pró­pria ca­be­ça.

Quando o efei­to da in­dig­na­ção da se­ma­na pas­sar e to­da a gen­te es­que­cer es­te ví­deo, co­mo es­que­ce­ram ou­tros, ha­ve­rá sem­pre no­vo for­ne­ci­men­to.

O CM es­tá a pe­dir aos seus lei­to­res que se in­dig­nem por­que «nin­guém faz na­da» ao mes­mo tem­po que os con­vi­da a cli­car e, ob­vi­a­men­te, con­ti­nu­ar a não fa­zer na­da.

Por is­so não, la­men­to di­zer, o CM não es­tá a ser hi­pó­cri­ta ao anun­ci­ar o ví­deo da­que­la for­ma: o CM es­tá ape­nas a con­tar com a hi­po­cri­sia dos seus lei­to­res, in­cluin­do al­guns dos oca­si­o­nais.

Não é jornalismo. Mas quantos sobram para perceber a diferença?

Click Bait

Neste ci­clo de for­ne­ci­men­to e re­com­pen­sa o que é fei­to não é, ob­vi­a­men­te, jor­na­lis­mo.

A sor­te de pas­quins co­mo o CM é o tem­po es­tar a seu fa­vor. Cada vez me­nos gen­te es­ta­rá dis­pos­ta a lu­tar pe­la dis­tin­ção en­tre o que é jor­na­lis­mo e o que não é. Entre in­for­mar co­mo uma ne­ces­si­da­de bá­si­ca da pro­fis­são e sa­tis­fa­zer as ne­ces­si­da­des mais bá­si­cas dos lei­to­res. O CM vi­ve des­sa au­sên­cia de dis­tin­ção e con­ti­nu­a­rá a fazê-lo, en­quan­to for lu­cra­ti­va.

Sempre achei in­jus­to associar-se a ima­gem do jor­na­lis­ta à do abu­tre. Os lei­to­res é que são os abu­tres e o jor­na­lis­mo de­ci­diu há mui­to que é mais lu­cra­ti­vo vender-lhes as car­ca­ças. Sabendo por is­so o que dá mais di­nhei­ro, é pos­sí­vel que o jor­na­lis­mo, tal co­mo o co­nhe­ce­mos, es­te­ja em vi­as de ex­tin­ção.

No ca­so de pas­quins co­mo o CM ain­da po­de­mos dar um pe­que­no con­tri­bu­to pa­ra co­lo­car umas pe­dri­nhas na en­gre­na­gem. Algumas pes­so­as fi­ze­ram quei­xas à Entidade Reguladora pa­ra a Comunicação Social. Muitas recusaram-se a par­ti­lhar. Outras nem se­quer qui­se­ram ver o ví­deo. Acho tu­do is­so ex­ce­len­te e pro­me­te­dor, mas pro­po­nho uma me­di­da mais sim­ples:

Correio da Manhã

Não cus­ta na­da. Um cli­que. Dois, pa­ra con­fir­mar. Querem a tua aten­ção? Não dás. A tua aten­ção va­le di­nhei­ro. Não per­mi­ti­rás que se­ja alu­ga­da ou ven­di­da. Querem es­pi­ca­çar a tua cu­ri­o­si­da­de? Não ce­des. Considera-te um ex-consumidor de li­xo sen­sa­ci­o­na­lis­ta que de­ci­de to­dos os di­as não vol­tar a con­su­mir li­xo sen­sa­ci­o­na­lis­ta. Como fa­zem os ex-fumadores.

Pode não mu­dar o mun­do, mas pe­lo me­nos mu­da o teu. E dá-te saú­de. Saúde men­tal.

Marco Santos

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