Não é fácil acompanhar as redes sociais durante acontecimentos que envolvem ataques terroristas como os de ontem.

Inevitavelmente, um número restrito mas ruidoso de idiotas aproveita a tragédia para justificar os seus próprios preconceitos, a visão tacanha, insensível e maniqueísta que têm de pessoas e circunstâncias tão diferentes.

Uma criatura que escreve num blogue qualquer aproveitou a ocasião para se queixar no Twitter da duplicidade com que outros olham para cristãos e islâmicos: escrevem-se horrores sobre o Banco Alimentar, carregado de católicos, mas para o Islão, que «inspirou tão belos atentados, respeitinho sff».

Usar como pretexto um acontecimento em que morrem quase 140 pessoas para medir formas de tratamento às religiões, como se a pretensa injustiça fosse mais relevante do que o assassínio de inocentes, é de uma tacanhice bíblica.

E é preciso ser-se galacticamente estúpido para não aceitar que a diferença de tratamento – eu prefiro chamar-lhe ponderação – tem uma boa razão de ser.

Se um cristão assassina dezenas de pessoas, poucos se lembram de culpar outros cristãos pelo que aconteceu, muito menos condenar o próprio Cristianismo. Se um muçulmano assassina dezenas de pessoas, muitos se apressam a culpar outros muçulmanos e toda a religião que professam.

A inclinação para defendê-los nada tem a ver com medo, fraqueza ou «respeitinho»: é uma tentativa de corrigir a óbvia injustiça de se tirar conclusões absolutas baseando-se apenas na religião do atacante.

Eis um exemplo. Antes mesmo de o ataque a Paris ser reivindicado pelo Estado Islâmico, idiotas no Twitter e Facebook começaram a culpar os refugiados. A sua vinda repentina era já de si suspeita – apenas por serem muçulmanos, claro –, portanto os atentados em Paris provavam como aquelas bestas estavam carregadas de razão.

É preciso ser-se muito pobre de espírito para não perceber que aquelas pessoas que arriscaram a vida navegando em barquinhos frágeis a partir de uma Síria devastada pela guerra o fizeram precisamente para fugir ao tipo de violência que ontem os parisienses sofreram: uma violência impiedosa, fria, indiscriminada.

O problema não é a religião em si, o problema é o fanatismo. Todas as religiões são suscetíveis de se tornarem reféns de fanáticos sedentos de dinheiro e poder. E dá muito mais jeito governar gente pobre dependente da boa vontade de Alá do que gente capaz de exigir responsabilidades a quem as governa.

Na nossa Europa mais rica temos um considerável avanço no combate ao fanatismo, combatendo-o com a educação, o conhecimento e a lei, mas durante séculos a Bíblia também pendeu sobre as nossas cabeças e serviu fanáticos desejosos de poder e dinheiro. E igualmente violentos.

Agora estamos orgulhosos da nossa superioridade. Julgamo-nos melhores que eles. Mais cultos. Mais civilizados. Defendemos os direitos humanos. Os direitos das mulheres. Não lançamos ninguém à fogueira. Por que razão haveremos de estar tão inseguros quanto à nossa capacidade de influenciar positivamente aqueles que escolhem viver entre nós?

Liberdade, Igualdade, Fraternidade, sem beatos

Eu sou ateu. Não acredito em soluções divinas para os meus problemas.

Somos criaturas biológicas, fazemos parte da Natureza e não somos especiais, embora gostássemos muito de ser. Gostávamos que a Terra fosse o centro do Universo, mas não é. Gostávamos que o Sol girasse à volta do nosso planeta, mas não gira. Gostávamos que a morte não fosse o nosso fim, mas é.

Paciência! Um dos maiores enigmas do Universo somos nós, de facto, a nossa consciência e inteligência, mas descobrir como chegámos a este ponto e até onde poderemos ir é um mistério científico e nada mais.

Outros juram que não. Alguns sentem a fé de forma tão intensa que têm dificuldade em explicá-la. Força! Defendo o direito de qualquer pessoa submeter-se à religião que bem entender, desde que não queira impor o mesmo desígnio a outros.

Rezem ao deus que quiserem, venerem Cristo ou Maomé, obedeçam aos dogmas que desejarem, interpretem a Natureza como vos der mais jeito, desde que os vossos deuses e profetas não metam o divino nariz onde não devem: políticas de Estado, educação, ciência, sexualidade, relações humanas, enfim, a minha vida e a vida de todos os que preferem não seguir a palavra de livros escritos há milhares de anos por misóginos e mitómanos.

A luta a favor do conhecimento e contra a crendice prossegue ainda nos dias de hoje – e nunca precisámos dos muçulmanos para iniciar esse confronto. Tenho aqui nas televisões e revistas um batalhão de astrólogos que não me deixa mentir.

Podem dizer-me, e com toda a razão, que não andamos a matar-nos uns aos outros por causa de Deus ou das estrelas, mas então terei de lembrar para não se confundir a defesa do muçulmano com a defesa do fanático.

O carrasco Jihadi John, morto anteontem por um ataque de drones, não era muçulmano, era fanático, e garanto-vos que a sua morte foi uma das raras ocasiões em que senti que o disparo de um míssil tinha feito deste planeta um mundo mais arejado.

A ele e aos bandidos do Estado Islâmico que assassinaram ou se fizeram explodir em Paris ou qualquer outro local, desejo que ao chegar ao Paraíso descubram que as 72 virgens afinal estão todas cheias de dores de cabeça.

Marco Santos

­ Marco Santos

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