Salvador Sobral man­dou um pei­do ale­gó­ri­co no MEO Arena. «Tenho a sen­sa­ção de que qual­quer coi­sa que eu fa­ça vo­cês vão aplau­dir» — dis­se ele. — «Se eu der um pei­do, que­ro ver o que vo­cês fa­zem.»

Salvador Sobral tem um pro­ble­ma que ain­da não con­se­guiu re­sol­ver: pre­fe­re o re­co­nhe­ci­men­to à fa­ma. O amor à ado­ra­ção. A au­ten­ti­ci­da­de à mo­da. E são tão vin­ca­dos es­tes sen­ti­men­tos que nem se lem­brou que os pei­dos ale­gó­ri­cos tam­bém po­dem ser ino­por­tu­nos.

Foto: Octávio Passos

Salvador Sobral | Foto: Octávio Passos

Mas acho que per­ce­bi o que ele quis di­zer. A fa­ma é efé­me­ra co­mo um pei­do, de fac­to, e ele não de­se­ja ser o Zé Maria da mú­si­ca por­tu­gue­sa. Não se vê co­mo um pro­du­to des­car­tá­vel em seis me­ses.

A re­la­ção com a mú­si­ca é de­ma­si­a­do ín­ti­ma e vi­tal pa­ra ser de­fi­ni­da ape­nas por ter ga­nho aque­le fes­ti­val de pei­dos mu­si­cais da Eurovisão. Suspeito que pa­ra ele es­ta fa­ma se­ja uma far­sa e que ame­a­çar a mul­ti­dão com um pei­do é uma for­ma de di­zer «tirem-me des­te fil­me».

É pe­na que Salvador Sobral te­nha si­do tão cri­ti­ca­do sem se ter em con­ta es­te di­le­ma. Sobral lar­gou um pei­do ino­por­tu­no por­que o mo­men­to não era só de­le, mas ao me­nos foi um pei­do exis­ten­ci­al. E mui­ta gen­te nas re­des so­ci­ais citou-o fo­ra de con­tex­to, tratando-o co­mo se fos­se uma bom­bi­nha de mau chei­ro.

Não sei o que tem aque­le pei­do que ofen­da as­sim tan­tos fãs nas re­des so­ci­ais. Sei que é um as­sun­to im­por­tan­te por­que o Facebook não tem fa­la­do nou­tra coi­sa. Terá o Facebook chei­ra­do qual­quer coi­sa so­bre si pró­prio que não es­ta­va à es­pe­ra? Só as­sim se ex­pli­ca que um pei­do ale­gó­ri­co cau­se qua­se tan­ta in­dig­na­ção co­mo um in­cên­dio.

Não é só o Sobral que tem de en­fren­tar a ira das mul­ti­dões. O pró­prio pei­do é mui­tas ve­zes mal com­pre­en­di­do. Quando so­mos nós a dá-lo, até acha­mos que a men­sa­gem é de­cen­te. Custa-nos per­ce­ber por que ra­zão uma for­ma tão le­gí­ti­ma e pri­mor­di­al de ex­pres­são in­di­vi­du­al cau­se tan­to in­có­mo­do e des­con­for­to aos ou­tros.

Mas ain­da as­sim pre­fi­ro os que as­su­mem os pei­dos que dão ou que­rem dar do que aque­les que fa­zem um ar en­jo­a­do e per­gun­tam ino­cen­te­men­te de on­de vem aque­le mau chei­ro. Este é o pei­do po­li­ti­ca­men­te cor­re­to. O pei­do dis­si­mu­la­do. O que se des­cul­pa com um «Eu não me pei­do, mas…»

No seu es­ti­lo um bo­ca­do de­sas­tra­do e ino­por­tu­no, Salvador Sobral ao me­nos foi au­tên­ti­co.

A universalidade do peido

Carl Sagan

O pei­do é co­mo o vo­to: to­dos te­mos di­rei­to a exercê-lo, des­de que nin­guém es­te­ja ao pé de nós. E, de cer­ta for­ma, é de­mo­crá­ti­co: os reis tam­bém se pei­dam.

Estamos uni­dos pe­la fla­tu­lên­cia. Talvez se­ja por is­so que o Facebook lhe dê tan­ta im­por­tân­cia. Tanto quan­to a Ciência sa­be, o pla­ne­ta Terra é o úni­co no Universo on­de os pei­dos exis­tem. O pei­do tem um va­lor cos­mo­ló­gi­co pre­ci­o­so. O dia em que des­co­brir­mos um pei­do ex­tra­ter­res­tre se­rá um dos mais im­por­tan­tes da his­tó­ria da Humanidade.

O pei­do é uma ex­pe­ri­ên­cia de hu­mil­da­de e for­ma­do­ra de ca­rác­ter, na me­di­da em que nos aju­da a per­ce­ber a po­si­ção que ocu­pa­mos no Cosmos: de có­co­ras, na mai­or par­te das ve­zes. E é pe­na que Carl Sagan te­nha fa­le­ci­do an­tes de apa­re­cer o Facebook. As coi­sas que ele te­ria apren­di­do. As lu­tas que ele te­ria abra­ça­do. Os pei­dos que o ho­mem te­ria chei­ra­do.

Se co­nhe­ces­se o Facebook, Carl Sagan te­ria até re­for­mu­la­do o cé­le­bre tex­to «O Pálido Ponto Azul». Considerem no­va­men­te aque­le pon­to, te­ria ele es­cri­to, ins­pi­ran­do pro­fun­da­men­te pe­las na­ri­nas en­quan­to ob­ser­va­va um pla­ne­ta Terra lon­gín­quo.

É aqui. É a nos­sa ca­sa. Somos nós. Nele, to­dos aque­les que ama­mos, to­dos os que co­nhe­ce­mos ou de quem ou­vi­mos fa­lar, to­dos os se­res hu­ma­nos que já exis­ti­ram, vi­vem ou vi­ve­ram as su­as vi­das.

Toda a nos­sa mis­tu­ra de ale­gria e so­fri­men­to, as inú­me­ras re­li­giões, ide­o­lo­gi­as e dou­tri­nas eco­nó­mi­cas, to­dos os ca­ça­do­res e sa­que­a­do­res, he­róis e co­var­des, cri­a­do­res e des­trui­do­res de ci­vi­li­za­ções, reis e cam­po­ne­ses, jo­vens ca­sais apai­xo­na­dos, pais e mães, cri­an­ças es­pe­ran­ço­sas, to­dos os in­ven­to­res e ex­plo­ra­do­res, pro­fes­so­res de mo­ral, po­lí­ti­cos cor­rup­tos, su­pe­res­tre­las, lí­de­res su­pre­mos, to­dos os san­tos e pe­ca­do­res na his­tó­ria da nos­sa es­pé­cie peidaram-se ali, num grão de po­ei­ra sus­pen­so num raio de sol.

Saudoso Carl Sagan, nem sa­bes o que tens an­da­do a per­der.

Roger Waters & Ron Geesin

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?