A modelo Miranda Kerr fez de Cicciolina numa sessão fotográfica da V Magazine, mas o ensaio é uma brincadeira de miúdos por comparação com as proezas da original.

Mas eu não quero que pensem que aqui se sonega a informação. Eis algumas das fotos da Miranda:

Miranda Kerr

Bonita rapariga, mas tão inócua como as fotos. Sim, as mamas de Miranda Kerr são fotogénicas e muito agradáveis aos sentidos, mas são inofensivas. Não querem mudar o mundo, apenas desejam que o mundo as observe.

As mamas de Cicciolina são de outro campeonato: lutaram pela paz no mundo, os Direitos Humanos e a educação sexual. Aquelas mamas que muitos recordam apenas pelo seu prestimoso papel em filmes pornográficos nas décadas de 70 e 80 bateram-se contra a pena de morte, as armas nucleares, as experiências científicas com animais, os preconceitos e a discriminação sexual.

As ativistas ucranianas do FEMEN podem ser raparigas corajosamente militantes, mas a primeira mama revolucionária da História pertence à rapariguinha de sorriso doce que nasceu como Ilona Staller num canto obscuro em Budapeste, na Hungria, e se reinventou como cidadã italiana, rainha em filmes de putas e respeitável senhora deputada.

Cicciolina atingiu o auge como atriz de filmes pornográficos na década de 70, foi eleita deputada pelo Partido Radical em 1987 e permaneceu no Parlamento italiano até 1992. De vez em quando fazia discursos com as mamas ao léu – um privilégio que muitos dos seus desdenhosos e inteligentes e masculinos colegas deputados, estou certo disso, nunca foram merecedores.

Mas Cicciolina sempre foi generosa e pouco dada a rancores. Ofereceu-se para fornicar Saddam Hussein com o propósito de evitar uma guerra no Iraque e repetiu a oferta ao terrorista bin Laden, sempre em nome da paz mundial. Não teve êxito, como se pode imaginar, mas valeu a intenção.

A ingénua generosidade de Cicciolina de que muitos se aproveitaram lembra a da prostituta Geni da canção de Chico Buarque: a Geni «feita para apanhar, boa de cuspir», mas ainda assim disposta a salvar o povo, sacrificando a secreta dignidade do seu corpo à gula dos comandantes de todos os zepelins gigantes deste mundo.

Não conheces essa canção? Então vieste do planeta Marte e é urgente mostrar-te as maravilhas que o planeta Terra tem para oferecer:

A mim sempre me arrepiou o raio da música. Ainda hoje me arrepia. Mas eu sou suspeito porque sempre achei o velho Chico o melhor letrista de língua portuguesa do mundo e é uma opinião que muitos não partilham.

Uma mama, com certeza

Não sei se Miranda Kerr alguma vez esteve em Portugal, mas Cicciolina esteve.

Esteve cá por duas ocasiões, que eu me lembre. À segunda, veio como convidada especial do Salão Erótico de Lisboa. Sempre generosa, mostrou as mamas aos românticos que quiseram matar saudades das gloriosas sarapitolas que bateram na década de 70; em entrevista, disse que os filmes pornográficos portugueses eram «bonitos e simples».

Não é todos os dias que vemos um estrangeiro valorizar o que se faz por cá. Os portugueses têm esta mania de achar que a pornografia americana é que é boa, a nossa não presta, é sempre muito chata, mal se conseguem ouvir os gemidos. Como se os nossos broches e minetes não fossem também merecedores de fazer parte do património cultural da Humanidade.

De qualquer modo, prefiro evitar encontros com a Cicciolina atual: aos 61 anos, ex-deputada mas ainda com vontade de intervir politicamente no mundo, recebe uma respeitável reforma de 3000 euros mensais. As mamas ativistas que outrora tentaram mudar o mundo estão hoje em dia irreconhecíveis, convertidas ao silicone burguês: ela mostra-as, mas já não sou capaz de acreditar nelas.

Luís Vasconcelos

Cicciolina recebida como uma diva em Portugal. | Foto: Luís Vasconcelos

Da primeira vez que cá esteve, Portugal era um país diferente: a 19 de novembro de 1987, muitos achavam que Cavaco Silva era o melhor primeiro-ministro da História e poucos meses depois haveriam de oferecer-lhe uma maioria absoluta. Bem, talvez não seja assim um país tão diferente porque o homem é agora presidente da República. Mas hoje em dia os deputados já não usam fatos comprados na Maconde – sempre é uma evolução.

Cicciolina veio por iniciativa de um semanário entretanto extinto, o Tal & Qual, que lhe seguiu os passos todos como um caniche ganzado e capitalizou, em manchetes, vendas e gargalhadas, o enorme investimento que fez.

Penso que até os mais novos devem ter a noção de que a visita dela à Assembleia da República provocou um escândalo nacional quando Cicciolina se mostrou na bancada e, generosa como sempre, presenteou os austeros deputados com a visão dos seus bonitos e diplomáticos seios.

A esmagadora maioria dos representantes do povo abriu a boca e protestou como um grupo de beatas escandalizadas, mas estou convencido de que muitos, se tivessem tido oportunidade, não desdenhariam ter feito à Cicciolina aquilo que há muito tempo já andavam a fazer ao país. Perguntem a qualquer economista se foram as mamas da Cicciolina as responsáveis pela crise em que vivemos.

As mamocas nunca fizeram mal a ninguém, mas os deputados revoltaram-se e condenaram a afronta, como se a República alguma vez tivesse usado soutien. Valeu-nos a deputada e poetisa Natália Correia, que não só recebeu Cicciolina com a simpatia e cordialidade que a simpática e cordial rapariga merecia, como escreveu um delicioso poema a evocar a ocasião e a gozar o prato.

E como sempre me ensinaram que fica bem acabar um texto com uma citação, deixo-vos o relato desta talentosa e corajosa mulher:

Foto: Luís Vasconcelos

Foto: Luís Vasconcelos

Estava o Parlamento em tédio morno
Do Processo Penal a lei moendo
Quando carnal a deputada porno
Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!

Leda à tribuna dos solenes sobe
A lasciva onorevole Cicciolina
E seus pares saudando ali descobre
O botão rosado da tettina.

Para que dos pais da Pátria o pudor vença,
Do castro bracarense o verbo chispa:
«Cesse a sessão em nome da decência
Antes que a Messalina mais se dispa.»

Mas – ó partidas que prega a estatuária! –
Que fazer no hemiciclo avesso ao nu
Daquela estátua que a nudez plenária
Ali ostenta sem pudor nenhum?

Eis que o demo-cristão então concebe
As vergonhas velar da escultura.
Honesta inspiração do céu recebe
E moção apresenta de censura:

«Poupado seja à nudez viciosa
O olhar parlamentar votado ao bem.
Da estátua tapem-se as partes vergonhosas.
Ponham-lhe cuequinhas e soutiens.»

Natália Correia, Cantigas de Risadilha

Marco Santos

­ Marco Santos

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