Um estudo da Universidade da Califórnia partiu de uma espantosa premissa da qual ninguém ainda se tinha lembrado: ter amigos possui efeitos secundários positivos. E foi investigar se fazer amizades no Facebook também podia causar o mesmo.

Estudos anteriores realizados num contexto diferente — o do mundo real — já tinham apontado para uma relação entre maior longevidade e uma vida com mais amigos, integrada em comunidade. O que a equipa queria saber é se a correlação existia também no caso das relações sociais em redes como o Facebook.

Partindo de uma amostra de 12 milhões de utilizadores do Facebook e relacionando-a com os registos do Departamento de Saúde Pública da Califórnia, a equipa chegou à conclusão que sim. Utilizadores daquela rede social que criam mais amigos têm um menor risco de mortalidade.

Se os gatos usassem o Facebook, tinham nove vidas?

Sim, eu também encolhi os ombros. Bem-vindo ao maravilhoso mundo das ciências sociais e dos seus modelos de estatísticas longitudinais. Este é um mundo em que mesmo conclusões baseadas em amostras representativas da população podem ser sempre postas em causa. Basta que alguém proclame «disparate, comigo isso não é nada assim e conheço muita gente que é igual».

Ou então alguém que não põe em causa o modelo, mas em relação às conclusões diz aqui há gato.

O que me faz torcer o nariz em relação a este estudo é a forma como as conclusões são embrulhadas aos media. Querem ligar o Facebook diretamente à longevidade?

Ser popular e ter mais amigos no Facebook, por si só, garante mais anos de vida? Como se fosse possível tirar uma conclusão destas em relação a uma empresa que existe há apenas 12 anos!

E agora, algo completamente habitual

Media

Promover o estudo de forma sensacionalista só pode resultar na habitual fanfarra de títulos enganadores nos media. Vejam o título do Tek: «O segredo para uma vida longa está no Facebook (diz um estudo)».

Não, caro Tek, gosto muito de te ler mas não está. Ter amigos ou ser popular no Facebook não garante nada. Ter muitos amigos que façam ginástica também não dispensa alguém de levantar o rabo da cadeira e ter uma vida fisicamente mais saudável.

O Facebook é uma rede social, não é um mundo nem se substitui ao mundo real. O estudo conclui que uma integração online que seja um reflexo de interações sociais no mundo real (ou que as facilite) está associada a um risco de mortalidade mais reduzido.

Sim, bichos do mato e ratos de Internet, ainda não é desta. Têm mesmo de sair e conhecer mais pessoas no mundo real, se desejam uma live long and prosper.

Desculpem, mas já são alguns anos a virar frangos

Moira Burke

Moira Burke

Na divulgação de estudos que geram conclusões bombásticas é sempre conveniente saber quem são os seus autores. Nenhum dos media onde li a notícia, nacionais ou internacionais, menciona dois simples factos relevantes:

— um dos autores do estudo, William R. Hobbs, do departamento de Ciências Sociais da Universidade da Califórnia, trabalhou no Facebook em 2013;

— um segundo elemento, Moira Burke, trabalha atualmente no Facebook e pertence à equipa que coleta, gere e analisa os dados para a empresa de Mark Zuckerberg.

Burke esteve envolvida noutro estudo sobre os benefícios psicológicos do Facebook, divulgado no princípio de setembro deste ano.

As conclusões da investigação: «interações pessoais no Facebook podem ter impacto nos sentimentos de bem-estar e de satisfação com a vida, um impacto tão forte como casar ou ter um bebé».

Estão a ver como há aqui um historial com uma certa tendência para o exagero?

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?