Os fu­mos da po­lé­mi­ca em tor­no da Lei da Cópia Privada, ago­ra en­tre­gue pe­la Secretaria de Estado ao Parlamento, resumem-se ao ge­né­ri­co «Não pa­ga­mos!» – ur­ro de egoís­mo que, nes­ta so­ci­e­da­de em re­de de ma­lhas trô­pe­gas e cos­tas lar­gas, pas­sa por ac­to de ci­da­da­nia.

Ah, o res­pei­to, cró­ni­ca de Inês Pedrosa no se­ma­ná­rio Sol


Cara Inês Pedrosa, não ur­ra­mos um ge­né­ri­co «Não pa­ga­mos!», mas um con­cre­to «Já pa­gá­mos!»

Mesmo pa­ra trô­pe­gos de cos­tas lar­gas, é di­fí­cil com­pre­en­der que se te­nha de pa­gar ou­tra vez pe­lo di­rei­to à uti­li­za­ção le­gal do que já se com­prou.

Resumindo: es­ta lei deixa-me co­pi­ar, pa­ra uso pri­va­do, obras que eu já com­prei. Sei bem o que di­go, pois te­nho aqui gra­va­da a mú­si­ca de mais de três mil discos-compactos co­pi­a­da da mi­nha es­tan­te pa­ra o com­pu­ta­dor.

O meu pro­ble­ma é per­ce­ber em que me­di­da as có­pi­as que fiz dos dis­cos dos Pink Floyd, por exem­plo, cau­sam pre­juí­zo ao José Cid. Como se cal­cu­la a com­pen­sa­ção que o au­tor de «Como o ma­ca­co gos­ta de ba­na­na eu gos­to de ti» de­ve re­ce­ber pe­la có­pia pri­va­da de «Another Brick in The Wall»?

Como se faz as con­tas ao pre­juí­zo?

Uma pis­ta: não é atra­vés da Matemática ou da Lógica.

Outro exem­plo, perdoe-me o egoís­mo: co­mo se cal­cu­la a atri­bui­ção des­ta com­pen­sa­ção no ca­so dos ci­da­dãos pro­du­to­res de con­teú­do? Um pai de fa­mí­lia que usa um te­le­mó­vel de úl­ti­ma ge­ra­ção pa­ra fo­to­gra­far os seus be­bés e guar­dar os or­gu­lho­sos fi­chei­ros num dis­co rí­gi­do, de­ve pa­gar porquê – e a quem?

Como se cal­cu­lam es­tas con­tas se não há ar­tis­ta a quem atri­buir a ori­gem da có­pia?

Uma pis­ta: não é atra­vés da Matemática ou da Lógica.

Terá a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de com­pen­sar to­dos os ar­tis­tas que es­cre­ve­ram can­ções so­bre re­la­ções fa­mi­li­a­res? Talvez o Tony e o Mikael Carreira pos­sam be­ne­fi­ci­ar das fo­tos ti­ra­das por es­se pai de fa­mí­lia, uma vez que até fi­ze­ram uma can­ção cha­ma­da «Filho e Pai».

A quem de­vem os ado­les­cen­tes das re­des so­ci­ais pa­gar pe­las «sel­fi­es» que ti­ram? Ao já men­ci­o­na­do José Cid, por ter ti­ra­do a mais cé­le­bre de to­das?

(Desculpe, Inês, não era mi­nha in­ten­ção transtorná-la com aque­la fo­to – cos­tu­mo usá-la co­mo fi­rewall pa­ra o blo­gue.)

Demasiado fumo. Que tal aclarar a garganta?

As dú­vi­das so­bre a for­ma co­mo se cal­cu­lam tais com­pen­sa­ções levam-me a pen­sar que tais per­gun­tas são ir­re­le­van­tes. A in­ten­ção é sal­var eco­no­mi­ca­men­te as­so­ci­a­ções re­pre­sen­ta­ti­vas dos au­to­res em no­me da evi­dên­cia que a Inês re­fe­re: «sem au­to­res não ha­ve­ria mú­si­ca, nem fil­mes, nem qual­quer for­ma de cri­a­ção».

Felizmente pa­ra to­dos os au­to­res que não es­tão ins­cri­tos, sem SPA con­ti­nu­a­ria a ha­ver mú­si­ca, fil­mes ou qual­quer ou­tra for­ma de cri­a­ção.

Se que­rem sub­si­di­ar a Cultura, façam-no com os im­pos­tos que nós, os trô­pe­gos, já pa­ga­mos; não cri­em mais um só por­que es­te Governo pen­sa que so­li­da­ri­e­da­de so­ci­al se faz trans­for­man­do Portugal num país de Pirilampos Mágicos.

Tenho ins­pi­ra­do es­ses fu­mos da po­lé­mi­ca to­dos os di­as e con­cor­do com a ana­lo­gia que es­co­lheu: os fu­mos impedem-nos de ver o que es­tá di­an­te do na­riz.

No ca­so da po­lé­mi­ca a que se re­fe­re e da fal­sa as­so­ci­a­ção en­tre có­pia pri­va­da e com­ba­te à pi­ra­ta­ria, creio que até se po­de­rá fa­lar em gás de trin­chei­ra, fu­mos lan­ça­dos por as­so­ci­a­ções co­mo a SPA com o pro­pó­si­to de en­ve­ne­nar a opi­nião pú­bli­ca mal in­for­ma­da – e a pró­pria Inês, la­men­to di­zer –, im­pe­din­do qual­quer dis­cus­são sau­dá­vel so­bre o as­sun­to.

Não ad­mi­ra por is­so que os que es­tão con­tra es­ta ta­xa fa­çam ques­tão de fri­sar «o res­pei­to» que de­vem aos au­to­res e que a Inês clas­si­fi­ca co­mo fal­so e hi­pó­cri­ta: se não en­che­rem a bo­ca com es­sa pa­la­vra, cor­rem o ris­co de se­rem acu­sa­dos de de­fen­der a pi­ra­ta­ria e que­rer le­var os au­to­res à ruí­na.

Nunca es­te­ve nu­ma si­tu­a­ção em que se viu obri­ga­da a re­pe­tir o ób­vio pe­ran­te um in­ter­lo­cu­tor ga­lac­ti­ca­men­te ob­tu­so? Eu sinto-me as­sim sem­pre que al­guém me acu­sa de ser­vir o ló­bi tec­no­ló­gi­co, ig­no­ran­do o fac­to de es­ta ta­xa de­ver a sua exis­tên­cia a um ló­bi mui­to mais an­ti­go e efi­caz.

A cul­tu­ra na­da tem a ver com is­to, ca­ra Inês. A cul­tu­ra de que fa­la o se­nhor Secretário de Estado não é mais do que o man­to da in­vi­si­bi­li­da­de que Harry Potter usa pa­ra dis­far­çar as su­as ver­da­dei­ras in­ten­ções.

Compreendo e acei­to o uso ge­né­ri­co da pa­la­vra «res­pei­to» por par­te de al­guns opo­si­to­res à Lei da Cópia Privada, mas ob­vi­a­men­te não con­cor­do. O meu res­pei­to pe­los au­to­res é con­quis­ta­do pe­los pró­pri­os, pe­lo que fa­zem e cri­am, não es­tá su­jei­to a ta­xas nem ao jul­ga­men­to dos cro­nis­tas. Os au­to­res são ci­da­dãos co­mo eu e o res­pei­to de­ve ser re­cí­pro­co.

Aos au­to­res que gos­to e mu­da­ram a mi­nha vi­da pa­ra me­lhor – ex­cluo des­sa lis­ta a J.K. Rowling, já ago­ra -, eu pa­go com pa­la­vras, bi­lhe­tes e, sem­pre que pos­so, di­nhei­ro. Mas não con­si­go res­pei­tar um mú­si­co que me in­sul­ta os ou­vi­dos, um es­cri­tor de tre­ta­to­lo­gi­as epis­te­mo­ló­gi­cas ou ar­tis­tas que se jul­gam os úni­cos juí­zes da mo­der­ni­da­de.

Claro que is­to na­da tem a ver di­re­ta­men­te com a Lei da Cópia Privada, ser­ve ape­nas pa­ra de­mons­trar o seu po­bre en­ten­di­men­to do nos­so «res­pei­to».

A sua cró­ni­ca, la­men­to dizê-lo, chei­ra ao mes­mo gás de trin­chei­ra com que a SPA pro­cu­rou en­ve­ne­nar a opi­nião pú­bli­ca.

Como se po­de le­var a sé­rio o pro­tes­to de um ci­da­dão car­re­ga­do de im­pos­tos que ao insurgir-se con­tra um im­pos­to dis­far­ça­do se vê re­du­zi­do a um es­te­reó­ti­po? Por ou­tras pa­la­vras, co­mo se po­de con­ver­sar com trô­pe­gos de cos­tas lar­gas que ur­ram na re­de, pes­so­as que não são con­su­mi­do­ras mas me­ro ins­tru­men­tos do ló­bi dos ele­tro­do­més­ti­cos?

Resposta: não se con­ver­sa, manda-se ta­xar. Não exis­tem pro­ble­mas mo­rais em ex­tor­quir aque­les a quem se ne­ga a exis­tên­cia.

Marco Santos

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