Custa-me a en­ten­der por que ra­zão tan­ta gen­te con­si­de­ra a re­vi­são da Lei da Cópia Privada uma rou­ba­lhei­ra.

O nos­so de­ver en­quan­to con­su­mi­do­res é con­tri­buir pa­ra a so­bre­vi­vên­cia eco­nó­mi­ca de en­ti­da­des im­por­tan­tes pa­ra o sau­dá­vel fun­ci­o­na­men­to bu­ro­crá­ti­co do nos­so país.

Queres cri­ar em Portugal? Preenches a pa­pe­la­da e tornas-te só­cio da Sociedade Portuguesa de Autores. Os res­tan­tes por­tu­gue­ses – ar­tis­tas clan­des­ti­nos que vi­vem à mar­gem da pro­te­ção da SPA – têm de pa­gar a ta­xa pre­vis­ta pe­la Lei da Cópia Privada.

A es­co­lha é sim­ples.

Queres ser um ci­da­dão mo­der­no e cum­pri­dor da lei ou de­se­jas se­guir os pas­sos da­que­le ju­deu sub­ver­si­vo que an­dou a mul­ti­pli­car pães sem uma au­to­ri­za­ção es­cri­ta da Associação pa­ra a Gestão dos Milagres Privados?

Não per­ce­bo por­tan­to es­te mal-estar das pes­so­as em re­la­ção à AGECOP, a en­ti­da­de que ge­re a có­pia pri­va­da e res­pe­ti­vas as­so­ci­a­das.

Admite: quan­tas ve­zes com­pras­te um te­le­mó­vel e não te sen­tis­te mo­ral­men­te en­ver­go­nha­do por guar­dar os teus sel­fi­es sem pa­gar um tos­tão à AGECOP? Vá, ad­mi­te.

Agora já to­dos per­ce­be­mos aque­las bo­qui­nhas de pa­to que as pi­tas fa­zem: an­dam em­ba­ra­ça­das, sa­bem que es­tão a fa­zer al­gu­ma coi­sa de mal, sentem-se con­su­mi­das pe­la cul­pa, têm me­do que os pais ve­nham a des­co­brir que an­da­ram a ti­rar auto-retratos nas re­des so­ci­ais sem pa­gar na­da à AGECOP.

Existe um im­pe­ra­ti­vo mo­ral por sa­tis­fa­zer sem­pre que com­pras uma pen ou qual­quer ou­tro dis­po­si­ti­vo de ar­ma­ze­na­men­to e não há me­lhor ne­gó­cio do que tro­car im­pe­ra­ti­vos mo­rais por no­tas de eu­ro. Essa con­ver­são nun­ca fa­lha, nun­ca des­va­lo­ri­za.

Que cul­pa tem a AGECOP e res­pe­ti­vas as­so­ci­a­das se o país já an­da afun­da­do em im­pos­tos? Se não que­res obe­de­cer ao im­pe­ra­ti­vo mo­ral e pa­trió­ti­co que te man­da en­cher os co­fres da AGECOP e res­pe­ti­vas as­so­ci­a­das, en­tão não vás de fé­ri­as ou, se fo­res, não ti­res fo­tos.

Felizmente, te­mos um se­cre­tá­rio de Estado da Cultura com a ca­be­ça no lu­gar e que não se dei­xa le­var por ló­bis de con­su­mi­do­res afli­tos. Chama-se Jorge Barreto Xavier mas eu, co­mo si­nal de re­co­nhe­ci­men­to pe­la sua sa­be­do­ria, pre­fi­ro chamá-lo pe­lo no­me de um per­so­na­gem que­ri­do da mi­nha in­fân­cia: Visconde de Sabugosa.

O Visconde de Sabugosa era um bo­ne­co fei­to de sa­bu­go de mi­lho e um gran­de sá­bio. O úni­co pro­ble­ma na sua sim­pá­ti­ca e bon­do­sa vi­da era a de­se­qui­li­bra­da re­la­ção com a bo­ne­ca Emília: o Visconde obedecia-lhe sem­pre, mais por me­do do que por con­vic­ção.

A Emília ame­a­ça­va o po­bre Visconde de Sabugosa, dizendo-lhe que lhe cor­ta­ria bra­ços e per­nas ca­so de­so­be­de­ces­se. E mui­tas ve­zes o Visconde era obri­ga­do a car­re­gar as bu­gi­gan­gas da Emília con­tra a pró­pria von­ta­de.

Claro que mui­tos es­ta­rão a pen­sar ago­ra que a Emília des­ta ana­lo­gia é a AGECOP e as bu­gi­gan­gas um sím­bo­lo da Lei da Cópia Privada. Estão en­ga­na­dos: a Emília so­mos nós, os ma­lan­dros que que­rem co­pi­ar o que com­pra­ram sem pa­gar ou­tra vez a ar­tis­tas que nun­ca qui­se­ram ou­vir.

Até no Sítio do Picapau Amarelo exis­te gen­te boa que pro­cu­ra de­fen­der as ne­ces­si­da­des de uns em de­tri­men­to dos di­rei­tos de mui­tos.

Por is­so, ca­ro Jorge Barreto Xavier, não per­ca o âni­mo e não se dei­xe en­ga­nar pe­los ló­bis de con­su­mi­do­res in­gra­tos e car­re­ga­dos de im­pos­tos que o pres­si­o­nam a dei­xar cair mais uma ta­xa e a es­que­cer os di­rei­tos da AGECOP. Mantenha-se in­tran­si­gen­te na de­fe­sa des­tas en­ti­da­des por­que o zé-povinho exis­te sem­pre, não es­tá em ris­co de ex­tin­ção; lo­go, não pre­ci­sa de ser pro­te­gi­do.

Atrevo-me até a sugerir-lhe que le­ve a ta­xa mais lon­ge.

Por exem­plo, os tes­tí­cu­los dos con­su­mi­do­res po­dem ser con­si­de­ra­dos dis­po­si­ti­vos de ar­ma­ze­na­men­to de es­per­ma­to­zoi­des. A pre­mis­sa da Lei da Cópia Privada permite-lhe ta­xar os con­su­mi­do­res pe­las có­pi­as de si mes­mos que even­tu­al­men­te aju­dem a pro­du­zir.

Pense nis­so. No seu bri­lhan­te fu­tu­ro ve­jo uma ex­ten­são bi­o­ló­gi­ca des­ta ta­xa. Chame-lhe Lei da Reprodução Privada. E não per­mi­ta que mas­tur­ba­do­res se sa­fem sem pa­gar: não in­te­res­sa o que fa­zem, mas o que po­ten­ci­al­men­te po­dem vir a fa­zer.

Ânimo, meu ca­ro Visconde Xavier! Não de­sis­ta, se­nhor Secretário de Estado, aju­de a tor­nar Portugal o país mais ri­co da Europa em ta­xas e ta­chos!

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?