No pro­gra­ma de te­le­vi­são on­de re­gu­lar­men­te par­ti­ci­pa co­mo psi­có­lo­go, Quintino Aires ci­tou «um es­tu­do re­cen­te» se­gun­do o qual «75 por cen­to dos ho­mens que con­so­mem can­na­bis envolve-se se­xu­al­men­te com pes­so­as do mes­mo se­xo».

O «es­tu­do re­cen­te» a que Quintino Aires se re­fe­re baseia-se no tra­ba­lho de um tal Hukg Juh. Quem é Hukg Juh e o que le­vou Quintino Aires a trans­for­mar char­ros em dil­dos? Segue-se uma de­man­da jor­na­lís­ti­ca à pro­cu­ra do elo per­di­do en­tre o cé­re­bro de Quintino Aires e o nos­so.

À procura do estudo perdido

Este Hukg Juh apa­re­ce no Google re­fe­ren­ci­a­do em de­ze­nas de sí­ti­os por­tu­gue­ses e bra­si­lei­ros, mas em ne­nhum dos ar­ti­gos é re­fe­ri­da a fon­te, a área em que o «ci­en­tis­ta» é es­pe­ci­a­lis­ta ou do­cu­men­ta­ção ci­en­tí­fi­ca do es­tu­do.

Segundo es­ses sí­ti­os, «77 por cen­to» dos aus­tra­li­a­nos sentiram-se «atraí­dos» por ou­tros ho­mens de­pois de fu­ma­rem uma gan­za. Experimentem go­o­glar o no­me e ve­rão co­mo a Internet luso-brasileira é no­tá­vel a pa­pa­gue­ar mer­da num cur­to es­pa­ço de tem­po.

Nem a ci­tar no­tí­ci­as sem fon­te ou cre­di­bi­li­da­de o Quintino é cri­te­ri­o­so: o hi­po­té­ti­co es­tu­do fa­la em «77 por cen­to», Quintino re­fe­re «75 por cen­to». O es­tu­do do im­pro­vá­vel Hukg Juh in­ci­de ape­nas so­bre ho­mens aus­tra­li­a­nos, Quintino transforma-o em es­tu­do à es­ca­la glo­bal.

A no­tí­cia é sem­pre igual e co­me­ça as­sim: «Um es­tu­do di­vul­ga­do na Austrália es­tá dan­do o que fa­lar. Segundo o ci­en­tis­ta Hukg Juh de 59 anos, al­guns efei­tos co­la­te­rais da ma­co­nha…» — e por aí fo­ra.

Não é só uma vír­gu­la que es­tá de­sa­pa­re­ci­da na­que­la fra­se. O pró­prio au­tor do «es­tu­do», o «ci­en­tis­ta» Hukg Juh, encontra-se au­sen­te de qual­quer pu­bli­ca­ção ou sí­tio ci­en­tí­fi­co na Internet. Não exis­te ne­nhu­ma re­fe­rên­cia ao es­tu­do ou a ele em la­do ne­nhum, in­cluin­do a ba­se de da­dos do Pubmed. Só nos sí­ti­os que pa­pa­gue­a­ram o es­tu­do.

Não exis­te na­da de na­da. Hukg Juh de­ve ter ti­ra­do o cur­so na Universidade do YouTube. Parece que es­tou a ler uma no­tí­cia so­bre um da­que­les «ci­en­tis­tas» que di­zem que vi­ram des­tro­ços de um OVNI nu­ma ba­se se­cre­ta mas cu­jo no­me só é re­fe­ren­ci­a­do em blo­gues on­de se acre­di­ta que exis­tem des­tro­ços de um OVNI em ba­ses se­cre­tas.

Era uma vez no México

O mais pró­xi­mo que en­con­trei do que po­de ser vis­to co­mo uma «opi­nião mé­di­ca» so­bre a re­la­ção en­tre can­na­bis e ho­mos­se­xu­a­li­da­de foi em vá­ri­os sí­ti­os em cas­te­lha­no.

Em me­a­dos de mar­ço de 2013, um tal «Narciso Morales López, co­or­de­na­dor da clí­ni­ca mé­di­ca da Universidade Popular Autónoma de Puebla», no México, aler­tou os jo­vens que o con­su­mo de «ma­ri­ju­a­na» di­mi­nuía os ní­veis de tes­tos­te­ro­na nos ho­mens e es­tes «co­me­ça­vam a de­sen­vol­ver ten­dên­ci­as ho­mos­se­xu­ais». E ci­tou a exis­tên­cia de «mui­tos es­tu­dos in­ter­na­ci­o­nais» que com­pro­vam es­ta re­la­ção.

Não exis­tem es­ses es­tu­dos in­ter­na­ci­o­nais, a pro­pó­si­to. Também os pro­cu­rei. Os úni­cos es­tu­dos cre­dí­veis são os que in­di­cam que na co­mu­ni­da­de LGBT exis­te um mai­or con­su­mo de dro­ga do que nas co­mu­ni­da­des he­te­ros­se­xu­ais. Nada a ver, por­tan­to.

E Narciso Morales López esquece-se que in­je­ções de tes­tos­te­ro­na pa­ra «cu­rar gays» já fo­ram ten­ta­das —  sem re­sul­ta­do, o que é nor­mal. Ser gay não tem cu­ra por­que não é uma do­en­ça.

Narciso Morales López es­tá a um ecrã de te­le­vi­são de se tor­nar o Quintino Aires do México. A co­mu­ni­da­de mé­di­ca re­jei­tou as idei­as de Morales López, ob­vi­a­men­te, classificando-as co­mo «fal­sas» e atribuindo-as aos seus pró­pri­os pre­con­cei­tos e não à Ciência.

Quintino Aires, o olho do cu falante

Rui Miguel Pedrosa

Foto: Rui Miguel Pedrosa

Portanto a mi­nha in­ter­pre­ta­ção so­bre o dis­pa­ra­te do psi­có­lo­go é sim­ples. A ver­são cur­ta é a que o ho­mem é um idi­o­ta. A lon­ga é a de que Quintino Aires pas­sou os olhos en­re­me­la­dos por um des­ses sí­ti­os luso-brasileiros, leu a no­tí­cia, não se pre­o­cu­pou em ve­ri­fi­car a cre­di­bi­li­da­de da mes­ma e regurgitou-a na te­le­vi­são, co­mo qual­quer ci­en­tis­ta não fa­ria.

Quintino Aires é o ti­po de cré­du­lo ca­paz de ci­tar o sa­tí­ri­co The Onion co­mo fon­te cre­dí­vel, des­de que a «no­tí­cia» es­te­ja de acor­do com a sua vi­são do mun­do. Isto não te­ria pro­ble­ma ne­nhum, cla­ro. O que se­pa­ra Quintino Aires do bê­ba­do in­con­se­quen­te que tre­pa à me­sa pa­ra pro­cla­mar dis­pa­ra­tes é o fac­to de ele ser um bê­ba­do in­con­se­quen­te com di­plo­ma e au­di­ên­cia.

Quintino Aires não é um bê­ba­do clás­si­co. Prefere embebedar-se com o li­cor da po­pu­la­ri­da­de e deleita-se quan­do os dis­pa­ra­tes que diz dão a vol­ta ao mun­do em oi­ten­ta twe­ets. Como nes­te ca­so. A pro­pó­si­to: mea-culpa.

O Quintino tem a ca­pa­ci­da­de de pôr os ou­tros a res­sa­car as be­be­dei­ras que o pró­prio apa­nha. Como qual­quer fala-barato, não se pre­o­cu­pa com as con­sequên­ci­as do que diz. E o ónus da pro­va re­cai sem­pre so­bre uma mi­no­ria de des­gra­ça­dos que ain­da se dá ao tra­ba­lho de pes­qui­sar e rebatê-lo.

A não ser que os tra­fi­can­tes pas­sem a ofe­re­cer dil­dos e «butt plugs» co­mo brin­des, não há qual­quer sen­ti­do no que aque­le ho­mem dis­se. Quintino es­tá a pou­cas emis­sões de se trans­for­mar no olho do cu fa­lan­te do William S. Burroughs. Até uma pos­sí­vel sus­pen­são da Ordem dos Psicólogos Portugueses não o de­ve cha­te­ar mui­to, uma vez que já tem um con­sul­tó­rio mon­ta­do na te­le­vi­são.

Mas ve­jo no fu­tu­ro de­le uma car­rei­ra mui­to pro­mis­so­ra a res­pon­der às per­gun­tas do con­sul­tó­rio se­xu­al da Revista Maria. Quem me­lhor do que o Quintino pa­ra res­pon­der a al­guém que pen­sa ter en­gra­vi­da­do por ter en­fi­a­do um pe­pi­no no ra­bo? Força, Quintino, mãos à obra: de­ve ha­ver al­gum es­tu­do ci­en­tí­fi­co so­bre a re­la­ção en­tre quem tor­ce o pe­pi­no e o pró­prio pe­pi­no.

Mas es­ta coi­sa dos gays e dos char­ros até aca­ba por ser um dos dis­pa­ra­tes mais inó­cu­os. O Quintino já afir­mou o se­guin­te: «Fazer se­xo com ani­mais au­men­ta a li­ga­ção en­tre o ser hu­ma­no e a na­tu­re­za. Pelo que es­tá cla­ro que não de­ve­mos con­si­de­rar a zo­o­fi­lia uma per­ver­são, mas sim uma ce­le­bra­ção das nos­sas ori­gens. No fun­do so­mos to­dos ani­mais.»

Quintino, nun­ca ado­tes um pa­pa­gaio. Sabe-se lá as coi­sas que ele vai apren­der a di­zer.

Só te­nho mais du­as coi­sas a es­cre­ver so­bre es­te epi­só­dio. Quintino: põe-te di­an­te do es­pe­lho e mar­ca com ur­gên­cia uma con­sul­ta no Psicólogo. Cães aban­do­na­dos na rua: se vi­rem o Quintino a que­rer dar-vos um bis­coi­to, fu­jam e nun­ca mais olhem pa­ra trás. O que ele quer é oferecer-vos um char­ro.

Marco Santos

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