Tenho cá pa­ra mim que o Marco é um ami­go da on­ça. Anda sem­pre a desafiar-me pa­ra es­cre­ver coi­sas que me dei­xam um tan­to ou quan­to des­pi­do aqui de­fron­te do pessoal.

Não é que eu te­nha al­go con­tra o nu­dis­mo, que já pra­ti­quei em tem­pos. Acontece que os anos fo­ram avan­çan­do e te­nho uma bar­ri­ga que faz do­bras e umas ma­mas que mui­ta ra­pa­ri­ga tábua-de-engomar invejaria.

O úl­ti­mo “atreve-te” que o Marco me lan­çou, jun­ta­men­te com di­cho­tes de que sou me­dri­cas, pa­ne­las e ama­re­lo, te­ve a ver com o post que ele há di­as pu­bli­cou so­bre a Cicciolina. Isto por­que ele sa­bia que eu pri­vei du­ran­te um tem­po com a ra­pa­ri­ga no fi­nal dos anos 1980 e que­ria que eu con­fes­sas­se tu­do, tu­do, tudo.

A deputada Cicciolina no Parlamento italiano

A de­pu­ta­da Cicciolina no Parlamento italiano.

Na ca­be­ci­nha tor­ci­da de­le, e à se­me­lhan­ça das de ou­tras pes­so­as que sou­be­ram dis­so, há a ideia de que eu pro­vei da fru­ta, mas co­me­ço já por vos de­sen­ga­nar. Nã senhor…

Nem ha­ve­ria tal pos­si­bi­li­da­de da mi­nha par­te, mes­mo que ela des­se si­nal de que que­ria e nun­ca deu.

Porque não gos­to de bo­ne­qui­nhas e ela era uma na­que­la al­tu­ra. Porque nun­ca achei gra­ça a chu­vas dou­ra­das, de que a porn star era uma pra­ti­can­te en­tu­siás­ti­ca. Porque no show eró­ti­co que deu no Coliseu dos Recreios, e pa­ra o qual me con­vi­dou, en­fi­ou uma ji­bóia na pa­ta­re­ca e eu te­nho hor­ror a co­bras. E por­que, en­fim, ela me cha­te­a­va um bocado.

Aliás, foi o fol­clo­re ra­di­cal à vol­ta da Ilona Staller, de seu ver­da­dei­ro no­me, um dos mo­ti­vos mai­o­res que me le­va­ram a afastar-me da­que­la militância.

Cicciolina em campanha eleitoral

Cicciolina em cam­pa­nha eleitoral

Mas re­cu­e­mos um pou­co. Nos úl­ti­mos anos da­que­la dé­ca­da eu fui co-fundador e vice-presidente – as­sim co­mo que uma es­pé­cie de ideó­lo­go – de uma as­so­ci­a­ção po­lí­ti­ca li­ga­da ao Partido Radical de Itália, de que ela era, co­mo o meu par­cei­ro do Bitaites lem­brou, deputada.

Logo, ti­ve opor­tu­ni­da­de de a co­nhe­cer e de es­tar al­gu­mas ve­zes com ela, aqui em Lisboa e de­pois em Bolonha, por oca­sião de um con­gres­so do PR na sua fa­se (su­pos­ta­men­te) mais internacionalista.

Fui um dos or­ga­ni­za­do­res, por exem­plo, da con­fe­rên­cia de im­pren­sa a que jul­go que ele se re­fe­riu no tex­to e em que tam­bém par­ti­ci­pou o lí­der do par­ti­do, Marco Pannella, se­nhor por quem eu não ti­nha, por si­nal, es­pe­ci­ais simpatias.

Sempre o achei um di­ta­dor­zi­nho, o que con­fir­mei em ter­ras ita­li­a­nas quan­do, no di­to con­gres­so, e ape­sar de os de­le­ga­dos te­rem ve­ta­do o no­vo sím­bo­lo do par­ti­do (a ca­ra do Gandhi de­se­nha­da pe­lo no­me do PR em vá­ri­as lín­guas), ele impôs a sua von­ta­de e foi des­fral­da­do no fun­do do pal­co o di­to cu­jo em ta­ma­nho gigante.

Mas ti­nha sim­pa­tia, nes­sa al­tu­ra, por ela, o mais não fos­se por ter ti­do a la­ta de li­gar se­xo e po­lí­ti­ca, ele­van­do a um no­vo pa­ta­mar a lu­ta que a ti­nha le­va­do pa­ra o par­ti­do – a rei­vin­di­ca­ção dos di­rei­tos dos tra­ba­lha­do­res sexuais.

Tudo o que me­xa com a po­lí­ti­ca é do meu agra­do, e gos­tei que ela ti­ves­se ma­mi­li­za­do o Parlamento. Por uns mi­nu­tos, aque­la ca­sa resplandeceu.

O pro­ble­ma é que aqui­lo dei­xou de ser uma ques­tão po­lí­ti­ca pa­ra se tor­nar em pu­ro es­pec­tá­cu­lo de va­ri­e­da­des, com a mes­ma do­se de kits­ch que mais tar­de te­ve a as­so­ci­a­ção a que a mes­ma Cicciolina pro­ce­deu en­tre se­xo e ar­te, casando-se com Jeff Koons e sur­gin­do nas su­as criações.

Não fui – ju­ro – um dos ho­mens que se atre­ve­ram a ir pa­ra o meio do cír­cu­lo ro­de­a­do de ca­dei­ras no Coliseu a fim de «in­te­ra­gir» com a mo­ci­nha. E ain­da bem, por­que por mais que ela ten­tas­se enfiá-los ou abocanhá-los aque­les pen­du­ri­ca­lhos não le­van­ta­vam. Os ma­chos tu­gas es­ta­vam ater­ra­dos e eu ia lá meter-me na mes­ma ve­xan­te si­tu­a­ção por obra e gra­ça do liberal-libertarismo que en­tão defendia…

Juro que não

Jeff Koons e Cicciolina: «Made in Heaven»

Jeff Koons e Cicciolina: «Made in Heaven»

Liberal-libertarismo? Sim, sim, era es­sa a fi­lo­so­fia po­lí­ti­ca da­que­la or­ga­ni­za­ção, e dos seus ra­mos mun­di­ais, que nas­ceu no centro-direita li­be­ral pa­ra, nos re­vo­lu­ci­o­ná­ri­os anos 70, se re­po­si­ci­o­nar na extrema-esquerda.

Tão ex­tre­ma nes­se tem­po que ao la­do só ti­nha as Brigadas Vermelhas, for­ma­da por «ca­ma­ra­das que se en­ga­na­ram» pe­lo fac­to de te­rem es­co­lhi­do pe­gar em ar­mas. A ins­pi­ra­ção encontrava-a nos es­cri­tos de Carlo Rosselli, um his­to­ri­a­dor an­ti­fas­cis­ta que mor­reu nas pri­sões de Mussolini e pro­fes­sa­va o «so­ci­a­lis­mo liberal».

Um contra-senso? Para ele não, pois acha­va que le­var a de­mo­cra­cia li­be­ral (es­ta que ain­da con­ti­nu­a­mos a ter) até às úl­ti­mas con­sequên­ci­as era cons­truir uma so­ci­e­da­de socialista.

Uma so­ci­e­da­de já não li­be­ral, mas li­ber­tá­ria, ou liberal-libertária pe­lo me­nos, o que pôs os anar­quis­tas a vo­ci­fe­rar, e in­clu­si­ve pe­lo fac­to de se tra­tar de um par­ti­do. Um par­ti­do po­lí­ti­co é o que há de mais aves­so à anar­quia, mes­mo que es­te ti­ves­se (e con­ti­nue a ter, em­bo­ra ho­je se­ja bem mais li­be­ral, no­va­men­te, do que é li­ber­tá­rio) ca­rac­te­rís­ti­cas mui­to particulares.

É um par­ti­do de cau­sas es­pe­cí­fi­cas (por exem­plo: a le­ga­li­za­ção das dro­gas – de to­das as dro­gas, entenda-se –, a cons­ti­tui­ção dos Estados Unidos da Europa), mu­dan­do es­tas de ano pa­ra ano e va­len­do a ade­são ao mes­mo só por um ano, sen­do de­pois es­se vín­cu­lo re­no­vá­vel ou não.

A pro­pó­si­to: um dos seus ins­cri­tos foi o pi­a­nis­ta de jazz Chick Corea, e is­so por­que de­cor­ria en­tão uma cam­pa­nha em de­fe­sa da li­vre ac­ti­vi­da­de das sei­tas re­li­gi­o­sas. O an­ti­go lí­der dos Return to Forever é ci­en­to­lo­gis­ta, um de­vo­to da­que­la re­li­gião que sus­ten­ta que os deu­ses são ex­tra­ter­res­tres e que o pró­prio Charles Manson dis­se ser de­ma­si­a­do lou­ca pa­ra ele…

E não me me­ti no quar­to do ho­tel com ela, re­pi­to. O mai­or tête-a-tête que ti­ve com a Cicciolina foi em Bolonha, após o epi­só­dio na Assembleia da República: jan­tei com ela.

E a re­fei­ção nem co­me­çou da me­lhor ma­nei­ra. A pri­mei­ra fra­se que me di­ri­giu foi em for­ma de pro­tes­to, de­vi­do ao es­pan­can­ço que os jor­nais por­tu­gue­ses lhe de­ram quan­do mos­trou as su­as en­tão pe­que­nas glân­du­las ma­má­ri­as aos de­pu­ta­dos: «Ma per­che voi, Portoghesi, so­no tan­to cattivi?»

Se bem me re­cor­do, engasguei-me com o bo­ca­do de pão com man­tei­ga que ti­nha na bo­ca e tra­tei de fa­zer tu­do pa­ra des­vi­ar a con­ver­sa pa­ra lon­ge do con­ser­va­do­ris­mo es­can­da­li­za­do dos jor­na­lis­tas portugueses.

Afinal, eu era jor­na­lis­ta, se bem que não con­ser­va­dor e não escandalizado.

E pron­to, mis­té­rio re­sol­vi­do. A Cicciolina não se ali­vi­ou em mim, nem eu ne­la. Não hou­ve se­du­ções mú­tu­as nem na­da que im­pli­cas­se abrir de bo­tões. Falámos de política.

No con­gres­so, ela fez um dis­cur­so e eu fiz ou­tro, am­bos trans­mi­ti­dos em di­re­to pe­la te­le­vi­são ita­li­a­na. Toda a gen­te aplau­diu o de­la e só os não-italianos aplau­di­ram o meu (de pé, por si­nal), pois co­lo­quei um de­do na fe­ri­da ao ques­ti­o­nar co­mo era pos­sí­vel cri­ar um Partido Radical Transnacional Transpartido quan­do ha­via pou­ca von­ta­de de de­si­ta­li­a­ni­zar o dis­cur­so dominante.

Fui vi­o­len­ta­men­te con­tes­ta­do por um tran­sal­pi­no que fi­ca­ra in­dig­na­do com as mi­nhas pa­la­vras. Não me sur­pre­en­deu ter sa­bi­do, mais tar­de, que ele saiu do PR a fim de ir pa­ra…  o par­ti­do ne­o­fas­cis­ta da fi­lha de Mussolini, Alessandra.

A in­ter­ven­ção anti-REP de­le ti­nha si­do do mais na­ci­o­na­lis­ta que pos­so imaginar.

Depois, dei­xei cair a ver­ten­te «li­be­ral» pa­ra me con­cen­trar na li­ber­tá­ria, dei­xei de achar gra­ça aos bi­qui­nhos cor-de-rosa da Cicciolina e cá es­tou eu, rindo-me de ca­da vez que me lem­bro que os por­tu­gue­ses fo­ram «cat­ti­vi» pa­ra a Ilona.

E rindo-me de ca­da vez que me lem­bro que a Associação Radical ti­nha in­fil­tras – pre­zá­va­mos as du­plas ins­cri­ções –  e con­tac­tos em par­ti­dos co­mo o PS, o PSD, o PPM, o PSR, al­gu­mas or­ga­ni­za­ções am­bi­en­tais e eco­ló­gi­cas e al­guns mo­vi­men­tos sociais.

Um des­ses con­tac­tos pró­xi­mos era a que­ri­dís­si­ma Natália Correia, que o Marco cita…

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?