Nos fó­runs de dis­cus­são e nas re­des so­ci­ais cos­tu­mo en­con­trar dois ti­pos de co­men­tá­ri­os ra­cis­tas: pri­mei­ro, os que co­me­çam com um «não sou ra­cis­ta, mas» e de­pois de­bi­tam idei­as ra­cis­tas.

Segundo, os que fi­cam es­can­da­li­za­dos quan­do são cha­ma­dos de ra­cis­tas de­pois de di­ze­rem qual­quer coi­sa ob­vi­a­men­te ra­cis­ta por­que, ca­ram­ba, não são nem nun­ca fo­ram ra­cis­tas. Estes são os ra­cis­tas em part-time. Os que só se tor­nam de­sa­gra­dá­veis quan­do a mos­tar­da lhes so­be ao na­riz.

O eu­ro­de­pu­ta­do do PS Manuel dos Santos es­cre­veu um twe­et referindo-se a uma co­le­ga de par­la­men­to da se­guin­te ma­nei­ra: «Luísa Salgueiro, di­ta a ci­ga­na e não é só pe­lo as­pe­to, pa­ga os fa­vo­res que re­ce­be com vo­tos ali­nha­dos com os cen­tra­lis­tas».

Manuel dos Santos indignou-se por­que Luísa Salgueiro, fu­tu­ra can­di­da­ta à Câmara Municipal de Matosinhos e re­si­den­te em Maia, vo­tou em Lisboa pa­ra ser a se­de da Agência Europeia do Medicamento.

Manuel dos Santos pre­ten­dia di­zer que nun­ca foi com a ca­ra da co­le­ga por não lhe ins­pi­rar gran­de con­fi­an­ça. E que o sen­ti­do de vo­to da eu­ro­de­pu­ta­da só ti­nha con­fir­ma­do as su­as sus­pei­tas. A in­ten­ção de­le era acu­sar Luísa Salgueira de ser trai­ço­ei­ra e pou­co dig­na de con­fi­an­ça.

Manuel dos Santos fez en­tão às acu­sa­ções o que os ho­me­o­pa­tas fa­zem aos me­di­ca­men­tos: diluiu-as nu­ma úni­ca pa­la­vra que sin­te­ti­zas­se aqui­lo tu­do ao mes­mo tem­po, mas que não fos­se tão es­pe­cí­fi­ca.

O  di­le­ma parece-me co­mum. Tem a ver com o ti­po de re­la­ção que tens com as pa­la­vras e a im­por­tân­cia que dás ao sig­ni­fi­ca­do de ca­da uma de­las. Se a tua re­la­ção com as pa­la­vras é mais ín­ti­ma, ten­des a dar mai­or im­por­tân­cia ao que elas sig­ni­fi­cam.

Suspeito que a re­la­ção de Manuel dos Santos com as pa­la­vras se­ja um pou­co abrup­ta, pa­ra não di­zer su­per­fi­ci­al. Tal co­mo qual­quer pes­soa que en­ta­la uma unha do pé, o eu­ro­de­pu­ta­do usou a pa­la­vra que con­si­de­rou mais eco­nó­mi­ca pa­ra ilus­trar o seu es­ta­do de es­pí­ri­to.

Se en­ta­la­res uma unha do pé nu­ma ra­to­ei­ra e gri­ta­res «ca­ra­lho!», não es­tás à es­pe­ra que al­guém fi­que a pen­sar que te re­fe­res ao ces­ti­nho que se en­con­tra­va no to­po dos mas­tros das ca­ra­ve­las.

Da mes­ma for­ma, lá por­que Manuel dos Santos usou a pa­la­vra «ci­ga­no» pa­ra des­cre­ver  o que ele viu co­mo um com­por­ta­men­to trai­ço­ei­ro e in­dig­no de con­fi­an­ça, não sig­ni­fi­ca que es­te­ja a pôr em cau­sa to­da a et­nia. Só a ci­ga­na­da de as­pe­to es­qui­si­to que tem um ar trai­ço­ei­ro e não é dig­na de con­fi­an­ça.

O eu­ro­de­pu­ta­do Manuel dos Santos é o tí­pi­co ra­cis­ta em part-time. O ra­cis­ta em part-time é al­guém que acei­ta pa­ci­fi­ca­men­te to­dos aque­les prin­cí­pi­os éti­cos e mo­rais que con­de­nam o ra­cis­mo ou a xe­no­fo­bia, mas que quan­do lhe rou­bam a car­tei­ra pen­sa lo­go que de­ve ter si­do o ca­brão do ci­ga­no.

Dizer a uma pes­soa des­sas que es­tá a ser ra­cis­ta tem o mes­mo efei­to de pe­dir a um ti­po pres­tes a an­dar à por­ra­da pa­ra ter cal­ma.

Acho que es­se pro­ble­ma se re­sol­ve com edu­ca­ção. E mais cal­ma. E me­nos or­gu­lho. E au­las de Português. De al­guém que lhe en­si­ne a re­la­ção en­tre sig­ni­fi­ca­do e con­tex­to. Que o fa­ça per­ce­ber que as pa­la­vras têm pe­so. Porque es­sa de as pa­la­vras se­rem le­va­das pe­lo ven­to era an­tes da Internet e das re­des so­ci­ais, ó Manelito dos Adamastores.

Marco Santos

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