O Jornal i resolveu entrevistar e oferecer honras de capa ao dirigente máximo daquele partido cujo nome agora não me recorda, mas que se afirma nacionalista e renovador.

Dado que a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA veio dar mais força anímica a todas as pessoas do planeta com as quais discordo, o Jornal i, que não é i de idiota, assinale-se, resolveu abrir a janela do oportunismo chico-esperto e apanhar em cheio nas fuças estes novos ventos da história.

Jornal iSó que a transcrição da entrevista foi feita sem óculos.

Não me lembro onde os deixei, são coisas que acontecem. Fiz o meu melhor para transcrever as perguntas e as respostas, mas é possível que me tenham escapado algumas coisas. Seja como for, penso ter captado a essência do personagem que foi entrevistado.

Segue-se a entrevista.


«Os portugueses têm de sair do armário e juntar-se a nós»

Foto: José Sena Goulão

Você quer expulsar o Islão de Portugal, não é? Presumo que é como o Donald Trump, não gosta de emigrantes.

Por acaso até gosto. Se pudesse, fazia uma coleção de emigrantes para ter em casa. São giros, sobretudo quando são pequeninos. Quando crescem é que perdem a piada.

Mas o que eu não gosto é que se escreva emigrante com «e». Emigrante escreve-se com «i», imigrante, imigração, como de resto o cartaz que colocámos há uns anos na rotunda do Marquês de Pombal mostrou com toda a clareza. Belos tempos! O cartaz foi uma ideia genial.

Andámos nas bocas do mundo. De tanto beberem das nossas ideias, alguns até vomitaram. O objetivo é que todos os portugueses apanhem uma bebedeira de nacionalismo e Portugal acorde na manhã seguinte ressacado, sem saber onde está nem o que fazer. É aqui que nós entramos. Somos uma força orientadora.

Considera que a vossa mensagem tem passado?

Gostamos mais de pensar que a nossa mensagem tem futuro.

Não, referia-me ao contacto com as pessoas. Aceitam bem a vossa mensagem?

Ah! Sim, claro. Bem, a verdade é que só criticam as nossas ideias por não quererem admitir que temos razão. É nacionalofobia, nada mais. Os portugueses têm de sair do armário e juntar-se a nós. Dizemos em voz alta aquilo que muitos só conseguem dizer em voz baixa. É preciso coragem para ser como nós. Nós damos a cara. Nós assumimos.

Algumas pessoas pensam que somos uns arruaceiros, mas as nossas intervenções públicas são paradas do orgulho nacionalista. Quem não gostar, que olhe para outro lado.

Sente-se marginalizado?

Admito que sim. É incrível como há pessoas com ideias tão preconceituosas em relação a formas diferentes de estar na vida. Se fossemos nós a mandar, instituíamos uma única forma diferente de estar na vida. Só para acabar globalmente com a descriminação.

A eleição do Donald veio ajudar bastante. Sentimo-nos mais legitimados. Não quero parecer sentimental, mas comove-me pensar que certas ações que defendemos são apoiadas pelo futuro presidente da nação mais poderosa do mundo. Estamos cheios de esperança no mundo.

«Só fomos ao Livre para trocar impressões»

Foto: José Sena Goulão

Que se passou com os militantes do Livre, afinal?

Não se passou nada. Os cobardolas dos tipos do Livre dizem que fomos lá invadir o espaço onde diziam disparates sobre o Donald. Que o fizemos numa atitude intimidadora. Coitadinhos dos meninos. Aparecem-lhes vinte machos lusitanos à frente e ficam logo a gritar pelas mamãs.

Só íamos lá trocar impressões. Não temos é a mentalidade fechada que eles têm. Estamos abertos a trocar todo o tipo de impressões, incluindo as digitais.

Há quem nos veja como pessoas violentas, como criminosos, fascistas, ignorantes, veja lá, só porque de vez em quando damos uns pontapés nos testículos da Democracia. Ora, a nossa intenção é justamente torná-los mais rijos e resistentes. As pessoas têm a mania de nos ver apenas como nacionalistas e esquecem-se que também somos um partido renovador.

Mas que significa isso de ser renovador?

É preciso ver a etimologia da palavra. Tem a parte «renova», que é igual àquela empresa que fabrica rolos de papel higiénico. E depois tem a parte da dor, que para nós também é muito importante.

«Para mim é cada ariano no seu galho»

Foto: José Sena Goulão

Muitos de vós são nazis, é verdade?

Desculpe, vê alguma suástica? Por acaso uso bigode à escovinha? Estarei de pé em cima da mesa a berrar como um bêbado histérico e esquizofrénico?

Não. Mas Donald Trump, que você apoia, é comparado ao Hitler.

São comparações disparatadas. Não tem nada a ver. Homens com o génio e a fibra do Fuhrer, capazes de defender as suas convicções contra tudo e contra todos, de todas as formas possíveis e imaginárias, existem muito poucos. O Donald dá-lhe bem, mas não basta um murro na mesa, às vezes é preciso virá-la ao contrário, parti-la se for caso disso.

O Fuhrer estava à frente do seu tempo: em vez de esperar que a Natureza seguisse o seu caminho e tratasse de eliminar as raças inferiores, antecipou-se. Aplicou o conceito estratégico militar da blitzkrieg à biologia. O Donald é um homem bem intencionado, mas não tem a mesma garra.

Portanto você não é nazi?

Tenho as minhas limitações. A minha consciência burguesa impede-me de fazer figuras tristes como berrar desalmadamente ou babar-me pelos meus ideais. Para isso existem os militantes. Para mim, é pão pão, queijo queijo. Cada ariano no seu galho. Seja como for, temos ainda muito trabalho pela frente. Há muita gente para odiar e o tempo escasseia.

Então é racista?

Considero essa uma questão provocatória e, como sabe, perante uma provocação, um nacionalista tem o direito de se defender com os meios que tiver ao seu alcance. Silva Ariano, anda cá e aplica um corretivo a este senhor jornalista.

Os senhores vão usar os punhos contra um representante da imprensa?

Isso é uma insinuação demagógica. Os comunistas é que usam os punhos, nós não. Silva, larga. Recua para a posição anterior. Baixa os braços.

Bem, desta vez passa. Para a próxima o senhor arrisca-se a levar uma lamparina. Não fui eu que comecei. E o Silva estava ali sossegadinho. Agora não se pode levar a mal que pessoas de convicções justas queiram desmentir falsidades e reagir às calúnias.

Dizia eu que os bolcheviques são uns imbecis porque, em vez de passar à ação, se deixam ficar com os punhos no ar. Imagine o fedor que devem largar aquelas axilas marxistas durante as convenções. Sempre que ando de metro em hora de ponta, imagino que estou num comício da Festa do Avante.

Devíamos criar Reservas Naturais»

Foto: José Sena Goulão

Fotos: José Sena Goulão

Qual é então o vosso método preferencial de ação?

Quando respondemos a provocações, preferimos usar a cabeça. Somos pessoas ponderadas. O objetivo é sempre atingir em cheio a provocação.

Às vezes usamos as botas por ser um método muito mais higiénico e seguro. Olhe, aqui o Silva queria aplicar um corretivo quando estava descalço e encravou uma unha na orelha de um senhor de cor. Coitado, ia começar a falar quando tropeçou.

Descobriu-o na praia, está a ver. Um senhor de cor a trabalhar para o bronze, onde já se viu uma coisa destas. Parecia que estava a gozar com os nossos rabos arianos. A mostrar-se superior. A dizer que não precisava do Sol para nada.

E o nosso pobre Silva ficou tão chocado com a provocação que nem conseguiu falar, tropeçou logo. Saiu de lá com uma unha negra e o pé inchado. Uma vítima, mas claro que dele ninguém tem pena. O costume! Senta, Silva! Quieto!

Se os senhores de cor forem uns quatro e nós apenas uns cinco ou seis, preferimos afastarmos-nos para não causar distúrbios. Nós cumprimos a lei, diga o que disser essa sociedade que nos diaboliza. Se encontrarmos um sozinho na rua, por exemplo, aí já lhe damos uns corretivos.

São as nossas brigadas de intervenção social. Preferimos intervenções personalizadas. Não gostamos de coisas demasiado impessoais. E como ele é apenas um e nós somos muitos, arrumamos o assunto num instante, não chegamos sequer a provocar qualquer tipo de desordem. Estamos sempre dentro da legalidade.

Mas vocês querem mandar embora do país…

Lá está, mais uma mentira. Mandar embora? Isso seria desumano, nós não somos assim. Convidamos-los a sair. Se algum estiver distraído, dá-se um empurrãozinho e mais nada. Só para chamar a atenção do senhor. Somos como polícias sinaleiros a dirigir o trânsito. De vez em quando temos é de passar umas multas existenciais.

Quando dominarmos o mundo e os senhores de cor, os senhores dos turbantes e outros senhores do género já não tiverem um mundo para onde ir, demonstraremos a nossa benevolência criando zonas de paisagem protegida onde eles possam viver e caçar à vontade. Estou a pensar ali em Sintra, fazia-se uma Reserva Natural. Talvez fosse bom para o turismo. Até podíamos convidar o Donald para a inauguração.

Esta nossa face humanista não é muito conhecida, porque o que interessa à sociedade democrática é diabolizar-nos e fazer de nós monstros. É exatamente o contrário. Se procuramos evitar a extinção de chimpanzés, leões africanos, tigres e tartarugas marinhas, não vejo por que razão não haveríamos de proteger esses senhores intermédios.

Mas vocês atacam-nos.

É totalmente falso. Não fazemos mal às minorias, sobretudo quando estão em superioridade numérica. A nossa posição é ingrata: somos uma minoria e estamos em inferioridade numérica em relação a outras minorias. Por isso, desejo agradecer ao vosso jornal a oportunidade que me deu de mostrar uma importância que não tenho. Vocês são uns porreiraços.

Esta entrevista inspira-me a pensar num futuro onde eu serei primeiro-ministro. Tudo é possível, como diz o Donald.

Consigo até imaginar a formação de uma Associação para a Defesa dos Direitos dos Senhores de Cor e Acastanhados. Se isto é ser racista, então vou ali e já venho. Agora, meus caros amigos… É preciso ordem. Selva urbana, o tanas. Uma coisa é restringi-los ao seu habitat natural e tratar-lhes da saúde, que é o que queremos fazer, outra é permitir que andem por aí à solta na rua.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?