Nos meus tem­pos li­vres, ou se­ja, em noi­ta­das de ca­fé e le­tras e ví­de­os, fa­ço le­gen­das em Português de Portugal pa­ra al­gu­mas sé­ri­es que são lan­ça­das nos sí­ti­os do de­mo.

Desde que co­me­cei a fa­zer par­te des­sa co­mu­ni­da­de, al­gu­mas pes­so­as sou­be­ram que o ti­po que faz as le­gen­das do Game of Thrones, Penny Dreadful, Mr. Robot ou Westworld tam­bém tra­ta des­te blo­gue. E te­nho re­ce­bi­do al­gu­mas men­sa­gens de gen­te in­te­res­sa­da em con­tri­buir, pedindo-me di­cas e su­ges­tões.

Eu sou um ama­dor e não um tra­du­tor pro­fis­si­o­nal, co­mo é ób­vio, mas ao lon­go des­te tem­po em que fiz le­gen­das fui co­me­ten­do er­ros e apren­den­do com eles. As di­cas que se se­guem são a mi­nha res­pos­ta aos que me en­vi­a­ram men­sa­gens e re­sul­tam des­tes dois anos e tal de apren­di­za­gem.

1 Ver o episódio todo antes de legendar

That's all folks

É im­pres­si­o­nan­te a quan­ti­da­de de in­con­sis­tên­ci­as que en­con­tro em al­guns tra­ba­lhos ape­nas por­que o au­tor das le­gen­das es­tá com tan­ta pres­sa pa­ra ter­mi­nar que tra­duz do fi­chei­ro em in­glês sem ver o que es­tá a tra­du­zir. Traduzir às ce­gas pro­duz le­gen­das pré-fabricadas, mor­tas, ar­ti­fi­ci­ais, sem bri­lho, cri­a­ti­vi­da­de ou in­ter­pre­ta­ção.

Por in­con­sis­tên­ci­as refiro-me a tra­du­ções que não têm em con­ta as re­la­ções en­tre per­so­na­gens e as cir­cuns­tân­ci­as em que es­tão a fa­lar: ve­lhos ami­gos tratam-se por vo­cê, des­co­nhe­ci­dos tratam-se por tu, de­pois vol­tam a tratar-se por vo­cê na ce­na se­guin­te, per­so­na­gens mu­dam de se­xo vá­ri­as ve­zes no mes­mo epi­só­dio, es­se ti­po de er­ros.

Se há coi­sa que apren­di é que o con­tex­to, ou se­ja, per­ce­ber o que ca­da ce­na re­pre­sen­ta pa­ra a his­tó­ria e pa­ra os per­so­na­gens, é tão im­por­tan­te co­mo aqui­lo que é di­to.

2 Ver o episódio todo depois de legendar

Rever o epi­só­dio já com as le­gen­das ter­mi­na­das é es­sen­ci­al no pro­ces­so de re­vi­são. Corretores or­to­grá­fi­cos são ex­ce­len­tes pa­ra apa­nhar er­ros e gra­lhas, mas se nos en­ga­na­mos nu­ma pa­la­vra e se es­sa pa­la­vra não for um er­ro or­to­grá­fi­co, o cor­re­tor não vai avisar-nos de na­da e fa­ze­mos fi­gu­ra de par­vo.

Além dis­so, ou­vir o que es­tá a ser di­to ao mes­mo tem­po que se lê as le­gen­das aju­da a apa­nhar even­tu­ais er­ros de tra­du­ção.

3 Traduzir é metade idioma, metade interpretação

Rosamund Pike

Eis mais uma li­ção ób­via que um no­va­to co­mo eu te­ve de apren­der ra­pi­da­men­te: tra­du­zir à le­tra ra­ra­men­te dá bons re­sul­ta­dos. Somos por­tu­gue­ses. Falamos de ma­nei­ra di­fe­ren­te. Temos ex­pres­sões nos­sas pa­ra di­zer o mes­mo. Se a ex­pres­são ori­gi­nal não faz sen­ti­do em por­tu­guês, é pre­ci­so recriá-la à nos­sa ma­nei­ra.

Por exem­plo, não va­mos tra­du­zir a ex­pres­são «Let’s cross fin­gers» por «va­mos cru­zar os de­dos», usa­mos o nos­so «Vamos fa­zer fi­gas».

4 As legendas são para ser curtas

Ninguém é ca­paz de ler le­gen­das com li­nhas de­ma­si­a­do lon­gas e usu­fruir de uma sé­rie ou fil­me co­mo ou­tra pes­soa que não pre­ci­sa de as ler. As le­gen­das de­vem ser cur­tas — não mais do que 37 a 39 ca­rac­te­res por li­nha, é a re­gra que eu si­go. E nun­ca mais de du­as li­nhas por fa­la, cla­ro.

É pre­ci­so que os olhos te­nham uma vi­são glo­bal do que se vai ler, não va­mos obri­gar as pes­so­as a olhar pa­ra as le­gen­das co­mo se es­ti­ves­sem a ver uma par­ti­da de té­nis.

É pre­ci­so dar tem­po às pes­so­as de ler. A mi­nha avó interessava-se por ver fil­mes e sé­ri­es. Bem se es­for­ça­va, a va­len­te. Muitas ve­zes, observava-a len­do em voz bai­xi­nha por­que já sa­bia o que ia acon­te­cer: as le­gen­das pas­sa­vam com de­ma­si­a­da ra­pi­dez e ela irritava-se mui­to quan­do de­sa­pa­re­ci­am an­tes de ter tem­po de ter­mi­nar. Ainda ho­je rio so­zi­nho a pen­sar nis­so.

Este exem­plo não é tão ex­tre­mo co­mo is­so. Há gen­te que de fac­to lê tão mal co­mo es­cre­ve, pro­va­vel­men­te por­que há anos não pe­ga num li­vro ou se sen­ta a es­cre­ver mais do que du­as li­nhas se­gui­das. Devemos par­tir sem­pre do prin­cí­pio de que es­ta­mos a le­gen­dar pa­ra es­sas pes­so­as e fa­zer­mos um es­for­ço por lhes fa­ci­li­tar a vi­da.

A du­ra­ção mí­ni­ma que uma le­gen­da de­ve ter é um se­gun­do — e só quan­do uma fa­la não tem mais do que du­as ou três pa­la­vras. No ex­tre­mo opos­to, não pas­sar dos qua­tro, cin­co se­gun­dos por fa­la, pois os ato­res não vão fi­car à es­pe­ra que a le­gen­da de­sa­pa­re­ça pa­ra pros­se­guir o diá­lo­go.

Encontrar um equi­lí­brio en­tre dar tem­po a quem vê e, ao mes­mo tem­po, res­pei­tar o rit­mo do diá­lo­go que se es­tá a ver, é al­go que se con­se­gue com prá­ti­ca, mas não é tão com­pli­ca­do co­mo pa­re­ce.

5 Nas legendas, resumir é essencial

Quando se le­gen­da, o tem­po é es­sen­ci­al. Tempo pa­ra acom­pa­nhar os ato­res. Tempo pa­ra as pes­so­as le­rem o que es­tá a ser di­to. A sin­cro­ni­za­ção ocupa-se, em gran­de par­te, dos ato­res — não me vou alon­gar so­bre a par­te da sin­cro­ni­za­ção por­que em 99 por cen­to dos ca­sos tra­du­zo a par­tir de le­gen­das já sin­cro­ni­za­das e pre­fi­ro não fa­lar do que não do­mi­no.

No que res­pei­ta ao tem­po pa­ra as pes­so­as le­rem, is­so já é con­nos­co. As fra­ses de­vem ser re­du­zi­das ao os­so. Mais va­le cap­tar o es­sen­ci­al do que um per­so­na­gem es­tá a di­zer do que tra­du­zir tu­do o que ele diz e fi­car­mos com uma le­gen­da que as pes­so­as não têm tem­po de ler.

Primeiro, é man­dar fo­ra to­das as in­ter­jei­ções — Ah!, Oh!, pa­la­vras as­sim. Não pre­ci­sa­mos de­las.

Demasiada re­tó­ri­ca tam­bém não in­te­res­sa. Se um per­so­na­gem diz «I think we should go out­si­de» e o tem­po pa­ra a le­gen­da for cur­to — e na mai­or par­te das ve­zes é —, tra­du­zi­mos por um sim­ples «Vamos lá pa­ra fo­ra» ou mes­mo «va­mos lá fo­ra». Deixemos os «Eu pen­so de que» pa­ra o bo­ne­qui­nho do Pinto da Costa no Contra-Informação.

Resumir tan­to quan­to pos­sí­vel, es­cre­ver o es­sen­ci­al, o su­fi­ci­en­te pa­ra que as pes­so­as per­ce­bam o sen­ti­do, o sig­ni­fi­ca­do do que é di­to, e não tu­do o que é di­to.

6 Não chupa, Camões

Sandra Bullock

Lê. Escreve. Cultiva-te. Estuda. Estamos sem­pre a apren­der e não ve­jo mal ne­nhum nis­so, pe­lo con­trá­rio. Sempre é me­lhor do que as­sas­si­nar neu­ró­ni­os a ver ví­de­os da tre­ta no Facebook.

Se es­tás com von­ta­de de con­tri­buir com le­gen­das pa­ra a co­mu­ni­da­de, en­tão não me­nos­pre­zes a nos­sa que­ri­da lín­gua por­tu­gue­sa só por­que a mai­or par­te das pes­so­as o faz.

E é pre­ci­so ter em aten­ção uma con­sequên­cia im­por­tan­te do mau Português: sem­pre que se es­cre­ve um «há» quan­do de­via ser «à» (ou vice-versa), quan­do se es­cre­ve «fazer-mos» em vez de «fa­zer­mos» ou «amarei-te» em vez de «amar-te-ei», um ga­ti­nho ino­cen­te mor­re na China e um pro­fes­sor de Português cos­pe o uís­que to­do em ci­ma do so­fá.

7 Recursos, recursos, recursos

Um bom di­ci­o­ná­rio Inglês – Português não é obri­ga­tó­rio, mas é con­ve­ni­en­te. Existem inú­me­ros pro­gra­mas pa­ra le­gen­dar e eu não es­tou qua­li­fi­ca­do pa­ra di­zer qual é o me­lhor. Já ex­pe­ri­men­tei vá­ri­os e o meu pre­fe­ri­do é o gra­tui­to (e Open Source) Subtitle Edit.

Ah, não uses o Google Translator — lembra-te do ga­ti­nho na China, tam­bém é sen­sí­vel a es­sas coi­sas.

Existem bons re­cur­sos on­li­ne que não pro­cu­ram substituir-te, mas dão-te bo­as pis­tas. Um de­les é o Reverse Context, que te dá al­guns exem­plos de pa­la­vras tra­du­zi­das em di­fe­ren­tes con­tex­tos. Outro é The Free Dictionary, útil pa­ra per­ce­ber me­lhor o sen­ti­do de uma pa­la­vra in­gle­sa com múl­ti­plos sig­ni­fi­ca­dos.

Um sí­tio pa­ra con­ju­gar ver­bos tam­bém po­de dar jei­to em ca­so de dú­vi­da. E con­vém mar­car nos fa­vo­ri­tos os sí­ti­os da Priberam e o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa por­que, lá es­tá, o po­bre Camões já an­da can­sa­do de tan­to sus­pi­rar.


Acordo ortográfico, sim ou não?

Se for uma ques­tão de hon­ra pa­ra ti e a tua opi­nião for a de ser fa­vo­rá­vel em es­cre­ver o Português do Acordo Ortográfico an­ti­go, na­da te­nho a di­zer. A de­ci­são é tua.

Para mim, é uma es­co­lha en­tre exi­gir que o mun­do se adap­te a nós e acei­tar que de­ve­mos adaptar-nos ao mun­do.

Mesmo a es­te ní­vel ama­dor, sin­to que não de­vo apro­vei­tar um ser­vi­ço que pres­to a ou­tros pa­ra im­por as mi­nhas con­vic­ções. O tra­du­tor usa o Português que é en­si­na­do atu­al­men­te nas es­co­las, pon­to fi­nal. Nada de quei­xi­nhas, la­mu­ri­as ou boi­co­tes. Quem tei­mar em fa­zer o con­trá­rio — e ago­ra es­tou a fa­lar dos pro­fis­si­o­nais — arrisca-se a fi­car sem tra­ba­lho.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

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