Fui de­sa­fi­a­da no Facebook a es­cre­ver uma FAQ so­bre a lei da có­pia pri­va­da. Vou esquecer-me de mui­ta coi­sa, pe­lo que agra­de­ço já que con­tri­bu­am com per­gun­tas, nos co­men­tá­ri­os, no Twitter, co­mo qui­se­rem, pa­ra eu ir acrescentando.

Gramex

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1. O que é a lei da có­pia privada?

A lei da có­pia pri­va­da é uma ex­ce­ção à lei do di­rei­to de au­tor. A lei do di­rei­to de au­tor diz que uma obra é do seu au­tor (ou do seu re­pre­sen­tan­te), e que mais nin­guém po­de fa­zer ab­so­lu­ta­men­te na­da com uma obra que ad­qui­ra. A lei da có­pia pri­va­da é uma ex­ce­ção: diz que qual­quer pes­soa que com­pre uma obra (ou que lhe te­nha aces­so le­gal) po­de fa­zer uma có­pia des­sa obra pa­ra uso pri­va­do. Exemplo prá­ti­co: eu com­pro um CD com mú­si­cas, pos­so co­pi­ar as mú­si­cas pa­ra o meu lei­tor de MP3. A lei da có­pia pri­va­da permite-me fa­zer isso.

2. Mas se me per­mi­te co­pi­ar uma coi­sa que eu com­prei, por­que é que te­nho de pa­gar ou­tra vez?

Na re­a­li­da­de, os de­fen­so­res da lei da có­pia pri­va­da não con­se­guem ex­pli­car is­to. O ar­gu­men­to é o de que, ao fa­zer uma có­pia pa­ra uso pri­va­do, es­tá a prejudicar-se o au­tor da obra que de­ve, por is­so, ser com­pen­sa­do. Sim, bem sei, pa­re­ce ri­dí­cu­lo, por­que a có­pia pri­va­da não pre­ju­di­ca nin­guém e os que de­fen­dem es­ta lei não con­se­guem apre­sen­tar es­tu­dos que com­pro­vem o pre­juí­zo – mas é is­to que diz a lei.

3. O que tem o di­rei­to de au­tor a ver com dis­po­si­ti­vos móveis?

Nada, evi­den­te­men­te. No en­tan­to, na ca­be­ça do le­gis­la­dor, co­mo é im­pos­sí­vel sa­ber quem é que faz có­pia pri­va­da e quem é que não faz, op­tou por ta­xar to­dos os dis­po­si­ti­vos que per­mi­tam a fi­xa­ção de obras. Isto é, tu­do quan­to pos­sa ser­vir pa­ra co­pi­ar obras pro­te­gi­das por di­rei­to de au­tor é taxado.

Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura. | Foto: João Relvas

Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura. | Foto: João Relvas

4. Porque é que em vez de ta­xa­rem os dis­po­si­ti­vos que per­mi­tem fi­xar as obras, não se lem­bra­ram de ta­xar as obras pro­pri­a­men­te ditas?

Não sei. Ninguém sa­be. É um mistério.

5. A lei da có­pia pri­va­da sig­ni­fi­ca que eu pos­so fa­zer down­lo­ad do que me ape­te­cer por­que já es­tou a pa­gar di­rei­tos de au­tor no dis­po­si­ti­vo on­de vou guar­dar aqui­lo que saquei?

Não. A lei da có­pia pri­va­da não tem na­da a ver com pi­ra­ta­ria. Apenas é vá­li­da pa­ra as obras a que te­nha ti­do aces­so legal.

6. Então por­que é que tan­ta gen­te acha que tem a ver com pirataria?

Na im­pos­si­bi­li­da­de de jus­ti­fi­car aqui­lo que a lei é de fac­to, mui­tos agen­tes in­te­res­sa­dos na apro­va­ção (ou ex­ten­são da lei, pa­ra ser mais cor­re­ta), gos­tam de me­ter o con­cei­to da pi­ra­ta­ria ao ba­ru­lho. É in­te­li­gen­te. Como a re­a­li­da­de é in­jus­ti­fi­cá­vel e nin­guém acei­ta pa­gar por al­go que não cau­sa pre­juí­zo, eles me­tem a pi­ra­ta­ria à mis­tu­ra por­que as­sim se tor­na mais jus­ti­fi­cá­vel. Outra ra­zão: a re­a­li­da­de é tão in­ve­ro­sí­mil que as pes­so­as ca­em fa­cil­men­te na ten­dên­cia de achar «não, não po­de ser só is­to, tem de in­cluir a pi­ra­ta­ria se­não não faz sen­ti­do nenhum».

Gabriela Canavilhas

Gabriela Canavilhas ob­ser­van­do uma có­pia não-taxada de si pró­pria. | Foto: Paulo Cunha

7. Esta lei é nova?

Não. Esta lei é de 1998. Foi re­vis­ta em 2004. Abrange, nes­te mo­men­to, CD (vir­gens), DVD (vir­gens), dis­que­tes, K7, e mais uns pós.

8. Esta ideia é des­te governo?

Não. No pas­sa­do, o PS ten­tou fa­zer apro­var uma lei se­me­lhan­te (nas pre­mis­sas) de alar­ga­men­to do ti­po de dis­po­si­ti­vos abran­gi­dos pe­la lei, atra­vés da de­pu­ta­da Gabriela Canavilhas. Esta ten­ta­ti­va des­po­le­tou uma re­a­ção agas­ta­da nos blo­gues, re­des so­ci­ais, e aca­bou por ser engavetada.

9. Há mais paí­ses com es­te ti­po de leis?

O con­cei­to de có­pia pri­va­da exis­te em al­guns paí­ses. Inglaterra é o país que mais re­cen­te­men­te ade­riu a es­ta lei. Tem meia dú­zia de se­ma­nas a lei da có­pia pri­va­da em Inglaterra (sim, por es­tra­nho que pa­re­ça, era ile­gal fa­zer uma có­pia pri­va­da em Inglaterra até há umas se­ma­nas). Não é co­bra­da qual­quer ta­xa por­que o go­ver­no dis­se que o po­vo in­glês nun­ca acei­ta­ria pa­gar es­tas ta­xas, que eram in­jus­tas e bu­ro­crá­ti­cas. Em Espanha exis­te a có­pia pri­va­da e a com­pen­sa­ção, mas es­ta é fei­ta di­re­ta­men­te do or­ça­men­to de estado.

10. Para on­de vai o di­nhei­ro da có­pia privada?

O va­lor da lei da có­pia pri­va­da é en­tre­gue à AGECOP – Associação pa­ra a Gestão da Cópia Privada. Esta as­so­ci­a­ção re­co­lhe uma par­te subs­tan­ci­al (qua­se 50%), dis­tri­buin­do o res­tan­te pe­las su­as as­so­ci­a­das. As as­so­ci­a­das da AGECOP são en­ti­da­des ges­to­ras de di­rei­tos de au­tor. A SPA e a APEL são du­as des­sas en­ti­da­des. Essas en­ti­da­des pe­gam no di­nhei­ro que lhes cou­be, re­ser­vam uma par­te pa­ra pa­gar o seu fun­ci­o­na­men­to e o que res­tar é dis­tri­buí­do pe­los ar­tis­tas, de for­ma pro­por­ci­o­nal às ven­das declaradas.

11. Posso inscrever-me nu­ma en­ti­da­de ges­to­ra de di­rei­tos de au­tor pa­ra re­ce­ber o va­lor re­fe­ren­te à có­pia pri­va­da das mi­nhas obras?

Claro que sim. Terá de pa­gar a sua ins­cri­ção. Terá de ins­cre­ver in­di­vi­du­al­men­te ca­da uma das su­as obras (pa­gan­do a res­pe­ti­va ins­cri­ção, evi­den­te­men­te), e de­pois es­pe­rar re­ce­ber a pro­por­ção re­fe­ren­te à per­cen­ta­gem de ven­das que ve­nha a fazer.

12. Quando com­pro no iTu­nes já es­tou a pa­gar pe­lo di­rei­to de co­pi­ar o fi­chei­ro em até 5 dis­po­si­ti­vos. Tenho de pa­gar taxa?

Sim. É a cha­ma­da du­pla tributação.

13. À ta­xa, acres­ce IVA?

Sim, à ta­xa é adi­ci­o­na­do o IVA a 23%. O va­lor do IVA é pa­ra o estado.

14. Quando com­pro no iTu­nes uma mú­si­ca de um mú­si­co não re­pre­sen­ta­do em Portugal co­mo é que es­ta lei faz com que ele receba?

Não faz. Um mú­si­co que não se­ja re­pre­sen­ta­do – por ser es­tran­gei­ro e a en­ti­da­de que o re­pre­sen­ta não ter um pro­to­co­lo com uma en­ti­da­de por­tu­gue­sa ou por op­tar por se re­pre­sen­tar a si pró­prio – não re­ce­be qual­quer va­lor re­fe­ren­te à có­pia pri­va­da. Apenas au­to­res re­pre­sen­ta­dos por en­ti­da­des ges­to­ras de di­rei­tos de au­tor po­de­rão vir a re­ce­ber va­lo­res re­fe­ren­tes à có­pia privada.

15. Podemos con­tor­nar es­ta ta­xa man­dan­do vir equi­pa­men­to do estrangeiro?

Nim. As gran­des ca­dei­as (co­mo a Amazon) são já obri­ga­das a co­brar al­gu­mas ta­xas do país de des­ti­no – na­tu­ral­men­te, es­ta ta­xa se­rá in­cluí­da nes­sa obri­ga­to­ri­e­da­de. Pode sem­pre ir a Badajoz e, em vez de tra­zer ca­ra­me­los, traz te­le­mó­veis. Ou en­tão aproveita-se a diás­po­ra por­tu­gue­sa (em fran­co cres­ci­men­to) e pede-se a ami­gos que te­nha a vi­ver no es­tran­gei­ro (aten­ção, França não ser­ve, que as ta­xas de lá são ain­da mais agres­si­vas) pa­ra com­pra­rem as coi­sas por lá e man­da­rem pe­lo cor­reio. Pode ser con­si­de­ra­do contrabando.

Maria João Nogueira

Bitaite de Maria João Nogueira

Especialista (não-oficial). Influenciadora. Madrinha. Gurua.