Sempre que alguém vê uma foto e escreve o habitual libelo acusatório «Photoshop» – sugerindo manipulação ou qualquer outra ação menos honesta da parte do fotógrafo – lembro-me de uma página bastante informativa, A Very Brief History of Photographic Manipulation: explica, com exemplos, que a manipulação não começou com o Photoshop, sempre fez parte da história da Fotografia.
Considerem um exemplo caricato, mostrado no sítio que acabei de referir: cartões postais publicados entre 1922 e 1960.
Diferentes cenários, o mesmo céu! Os primeiros quatro estão assinados pela mesma pessoa, um tal Alexander G. Anderson. A versão 1.0 do Photoshop só sairia 40 anos depois, em exclusivo para os Macintosh. A ausência de computadores pessoais nunca impediu nada…
Mas usar Photoshop não é necessariamente sinónimo de falsificação.
Ninguém espera que um repórter fotográfico altere a informação de uma foto, deturpando a realidade, mas é perfeitamente legítimo usar o Photoshop para corrigir pequenas imperfeições ou realçar algum pormenor. É a sua visão dos acontecimentos, não um retrato-robô, e o Photoshop é a ferramenta que o ajuda a partilhá-la, da mesma forma que um jornalista faz uso de uma ferramenta chamada escrita – e com as mesmas capacidades manipuladoras.
Depois temos artistas como o fotógrafo sueco Fredrik Ödman, que usa o Photoshop para manipular deliberadamente aquilo que vê, usando o software como um pintor usaria o pincel. O trabalho de Ödman é tremendo e muito imaginativo, ora vejam:
E isto não é nada. O sítio de Fredrik Ödman tem muitas criações para conhecer.
6 de dezembro de 2011: uma nova explosão na cidade. Tarana Akbari, então com 10 anos, sobrevive a um ataque suicida que mata mais de 70 pessoas que celebravam um feriado religioso num templo em Cabul, Afeganistão.
É uma imagem violenta, tão violenta que o próprio fotógrafo, o afegão Massoud Hossaini, se recusa voltar a vê-la.
«A fotografia mais difícil que tirei na vida», como afirmou recentemente numa entrevista à BBC, é também a fotografia que lhe dá fama: vence o Prémio Pulitzer 2012, categoria Breaking News, notícias de última hora. Por isso revê-a, repetidamente, mesmo tendo tomado a decisão de não voltar a olhar.
Hossaini estava tão perto do local da explosão que ficou ferido no braço esquerdo, mas o instinto profissional fê-lo correr na direção do amontoado colorido de pessoas mortas ou em sofrimento. O atentado mais grave em Cabul daquele ano.
A criança rodeada de familiares ensanguentados chama-lhe imediatamente a atenção: foca-se nela, no seu choro, e regista mais um momento em que a desumanidade triunfou. «Espero que não falem do fotógrafo», diz Hossaini a propósito da notoriedade, «mas do sofrimento do povo afegão».
Há quem questione dar-se o prémio a uma foto tão cruel.
Eu acho que deve ser mostrada, embora nunca seja fácil mostrá-la. Demasiadas vezes ouvimos discursos muito bem elaborados onde são usadas palavras como Democracia, Liberdade, Justiça ou Deus para justificar ações como esta. Na boca dos líderes políticos ou religiosos que as pronunciam são soníferos que acalmam a nossa consciência e ajudam a não querer abrir os olhos ao que nenhum daqueles deseja mostrar.
Por mais elaborada, eloquente ou erudita que seja a justificação de políticos e religiosos e militares ao serviço de ambos, o resultado das ações do fanatismo religioso ou ideológico é sempre este: um destroço verde-esperança flutuando num mar de sangue. A escravidão dos inocentes.
Mas ela aí está, a explosão: desfez seres humanos, mortos e sobreviventes, mas através de uma máquina fotográfica tem também o poder de pulverizar palavras falsificadas. Diz-nos o que está errado – e não deveria ser preciso acrescentar mais nada.
À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay.
Depois de ter sido picado, o jovem estudante Peter Parker ganhou inúmeros poderes – um dos quais um instinto capaz de o avisar de uma ameaça iminente.
O arquiteto José António Saraiva, diretor do semanário Sol, super-herói do jornalismo português, desenvolveu também a capacidade de antecipar o perigo – uma espécie de instinto Homo-Aranha.
No caso do Peter Parker foi uma aranha radioativa a responsável; quanto ao Saraiva, não se sabe que raio de bicho lhe mordeu. Seja como for, deve ter mordido com força.
Agora anda por aí à solta, um aracnídeo de duas pernas – mais uma prova de que este Saraiva não deveria existir se o mundo dos humanos fizesse sentido.
Se passares pela zona da FNAC do Chiado, mais vale evitares o elevador e fazeres o percurso a pé, mesmo correndo o risco de que o Saraiva e outros aracnídeos de duas pernas e meio cérebro suspeitem que subir e descer escadas é o jogging dos maricas.
Portanto põe-te a pau com o Saraiva, pá.
Se tens o azar de inclinar a cabeça, cruzar as mãos e colocar os pés no chão de uma forma que alarme o GPS para gays que ele usa na orelha (como um brinco), a tua sólida reputação de garanhão heterossexual estará irremediavelmente perdida. O Saraiva está convencido de que Deus inventou as leis da gravidade só para fixar a paneleiragem no chão dos elevadores e facilitar a missão aos representantes dos bons costumes no Céu e na Terra.
Se eu tivesse poderes divinos, prendia o sexagenário Saraiva dentro de um elevador com o adolescente Saraiva.
Ai do velho se começasse a observar-lhe a pose à cata de excrescências apaneleirísticas: o adolescente Saraiva regressaria a casa todo ofendido, jurando por todos os assexuados santinhos que um dia, quando fosse jornalista, haveria de escrever uma crónica sobre esses velhos gays porcalhões que andam a galar miúdos de 16 ou 17 anos nos elevadores.
Conheço o Rui há mais de 15 anos, desde os tempos remotos em que era copydesk numa revista de televisão e eu um dos jornalistas.
Sendo a música uma parte tão importante da minha vida, podem imaginar o que significou conversar com alguém conhecedor de músicos e músicas que jamais suspeitei que existissem e, ainda por cima, um tipo porreiro e acessível, desejoso de partilhar conhecimentos. Tornámo-nos grandes amigos e, à conta dele, sofri várias ‘apoplexias musicais’.
Perdemo-nos de vista durante quatro ou cinco anos, mas quando finalmente nos reencontrámos para beber um café, há uns meses, retomámos a conversa como se nos tivéssemos despedido no dia anterior. Atualmente é co-autor deste blogue – e assim se manterá.
Li e tenho todos os livros que publicou, de «Ruínas» ao «Stravinski Morreu», e lá estarei em Lisboa para a apresentação do último, «Bestiário Ilustríssimo». É um longo percurso profissional e humano sobre o qual já disse o essencial no prefácio que me convidou a escrever.
Ele é de longe o melhor jornalista de música em Portugal: não sou apenas eu que o digo, o Google também concorda (para grande embaraço do Rui).
É o melhor porque parte da música para nos dar um maior conhecimento da vida e das vidas que a fazem. Tem imensa cultura, mas expõem-a com simplicidade e sem exibicionismos: o foco da sua escrita é sempre o que os outros fazem, por que razão o fazem e quais os significados que podemos retirar do que fazem. Para o Rui, a música é um mapa da vida e cada livro um convite à exploração. E se ele não tem o reconhecimento público que merece deve-se ao facto de a sua excelente escrita e abordagem serem incompatíveis com a passividade acrítica do consumidor de três minutos e meio de música.
Convido por isso todos os leitores e visitantes do Bitaites a deslocarem-se esta terça, 17 de Abril, à Rua do Alecrim 21-A (ao Cais do Sodré), na Trem azul Jazz Store, a partir das 21.30, onde este livro nos será apresentado.
O jogo: o Sporting teria sempre merecido ganhar, aqui ou na China. O golo: Wolfswinkel não é um jogador desequilibrador, mas desequilibra-se muito bem. Num desses ‘desequilíbrios’, cavou um penalti.
Se tivesse visto o meu clube jogar à campeão a seguir ao penaltizinho, teria ficado chateado e esgotado o reportório de asneiras contra o árbitro e os deuses do futebol que escarnecem dos nossos pequenos sofrimentos; a jogar tão mal perante um adversário que até podia ter marcado mais dois ou três, sou obrigado a aceitar a única conclusão possível: merecemos perder.
Através do Manel Rosa Martins, conheci um vídeo – este aqui em cima – que compila clips referentes aos quatro sucessos mais relevantes da missão Kepler registados desde o ano passado: a descoberta dos planetas Kepler 10-b, 16-b, 20-e e 20-f, e 22-b.
Os planetas do vídeo
O Kepler 10-b – cuja existência foi anunciada ao mundo a 10 de Janeiro de 2011 – foi o primeiro planeta rochoso a ser descoberto. Encontra-se a cerca de 560 anos-luz. Tem 1,4 vezes o tamanho da Terra, mas está 20 vezes mais perto da sua estrela (Kepler-10, semelhante à nossa), do que Mercúrio do Sol. É um corpo muito quente: mais de 1300 graus Celsius à superfície.
Elementos da missão Kepler batizaram-no de «Vulcano», o nome do planeta-natal de Spock, da série de FC Star Trek. Nem Spock sobreviveria naquele forno…
A descoberta de Kepler 16-b, a 15 de Setembro do ano passado, foi uma das mais faladas na imprensa por ter sido a primeira vez que a missão Kepler identificou um planeta orbitando um sistema solar de dois sóis, como Tatoine, planeta-natal de Anakin Skywalker, o futuro Darth Vader de Star Wars.
Kepler 16b está a 200 anos-luz de distância. Ao contrário do planeta fictício Tatooine, não é um mundo deserto mas um gigante gasoso com o mesmo tamanho de Saturno.
Os astrónomos consideram como muito provável a existência de planetas rochosos naquele sistema e mesmo luas do tipo Europa ou Titã deslizando à volta deste Tatooine gasoso, mas ainda não foi possível detetá-los ali.
Um «alinhamento» planetário: da esquerda para a direita, Kepler 20-e, Vénus, Terra e Kepler 20-f
O Kepler 20-e ganhou fama porque, até então, nunca havia sido descoberto um planeta rochoso menor do que a Terra orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Este é demasiado quente para sustentar água em estado líquido, condição que consideramos essencial para a existência de vida.
O planeta 20-f é outra descoberta extraordinária: um planeta também muito quente – mais de 400 graus Celsius à superfície – mas pouco maior do que a Terra.
O Kepler 22-b, a 600 anos-luz, é a cereja no topo deste bolo: pela primeira vez na história da Humanidade, descobrimos um exoplaneta orbitando uma estrela na chamada «zona habitável».
Julgou-se que o planeta – 2,4 vezes maior do que o nosso – pudesse conter um oceano e, nesse oceano, a «vida extraterrestre» que tanto desejamos descobrir.
Tudo o que se possa afirmar é especulativo: ainda não fomos capazes de determinar a sua massa; não sabemos ainda se é planeta rochoso, líquido ou gasoso; tanto pode existir nele o tal oceano como vir a ser um super-Vénus, tão infernal como o original.
À beira-mar
Eu acredito na existência de vida extraterrestre – claro que o Universo poderá um dia desmentir a minha crença, mas até lá escolho acreditar.
O grande Carl Sagan iniciou a sua mítica série «Cosmos» com uma analogia entre o oceano e o Universo – mar tão imenso, misterioso e inexplorado para os primeiros navegadores como o é este «oceano cósmico» para os seus equivalentes da era moderna, os astrónomos.
Lembro-me sempre dessa analogia quando vejo os miúdos na praia, à beira-mar, explorando o mar e enchendo os seus baldes de água salgada.
É isso que somos, ainda: putos a encher baldes de «água salgada» à beira do «oceano cósmico» de que falou Sagan. Dificilmente encontraremos «peixes» nesses baldes tão pequenos e de curto alcance, mas é muito possível que eles possam existir, lá longe, para além da linha do horizonte ou até no próprio balde, para além das nossas capacidades de observação.