Tenho cá para mim que o melhor rock que se faz hoje é aquele que vai buscar ao rock dos anos 1960 e 70 as suas bases e às vezes até mais do que isso.

O que quer dizer que acho que o melhor rock de sempre é o daquele período em que eu era puto, e isso põe-me em pânico. Porquê? Bom, porque me ponho a pensar que a entrada na velhice (faço 60 daqui a quatro primaveras) me está a tornar nostálgico, uma patologia que afeta quem é cota.

Depois de ter dedicado toda uma vida às novas expressões musicais, estou a cair naquele cliché velhote que defende a máxima «antigamente é que era bom».

Por estes dias, vejo-me a gostar mais de Led Zeppelin, Black Sabbath e Pink Floyd do que quando era adolescente, e vou tomando isso como um mau sinal de que estou a ficar uma relíquia.

Quando houve uma reemergência do psicadelismo e apareceu o stoner rock, achei que o que havia de retoma dos modelos antigos era compensado pelo facto de com eles se estar a construir algo de diferente. O mais não seja por se andar a misturar ingredientes que antes eram mantidos em separado.

Até que um grupo de putos – têm entre 18 e 22 anos – aqui mesmo de onde moro, a Parede, veio comprovar-me que isto de gostar do rock antigo não é exclusivo de quem tem mais pelos brancos na barba do que da cor original e quase nenhuns cabelos no alto da cabeça.

Sim, é o melhor rock que se pode ouvir por cá

Zanibar Aliens

Zanibar Aliens

Eles pegaram em referências como os Zeppelin, os Sabbath, os Floyd e mais algumas bandas de antanho, tipo Cream, Credence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, Blue Cheer e até Beatles; encontraram cruzamentos entre tudo isso e o que nos dias de hoje tocam ou tocaram uns Queens of the Stone Age, uns Kyuss, uns Mr. Bungle, uns Black Keys, uns Tame Impala ou uns Arctic Monkeys, e PAF…

Devolveram o rock ao rock sem que tal significasse que o faziam por serem caducos. Primeiro foi com o álbum «Bela Vista», depois com «The Demos», gravado na paredense SMUP, e finalmente com «Space Pigeon», resultado de dois dias de trabalho intenso num estúdio de Londres, em Janeiro deste ano. Podem ouvi-lo aqui, inteirinho:

Zanibar Aliens

Que tal? Pois, eis os Zanibar Aliens. Os mesmos que, de noite, se reúnem à entrada da SMUP com os fãs, cada vez mais numerosos, do seu blues-hard-psych rock. No meio, vislumbram uma cabeleira loira, à Robert Plant: é o vocalista.

Esses encontros são um ritual que nunca muda. Eu, que programo concertos na SMUP, já fiz tudo para os atrair aos ditos, desde baixar os preços dos bilhetes a pedir que lhes abram as portas para ouvirem a música sem pagar, pensando que ficavam lá fora porque não tinham dinheiro. Não resultou.

Uma vez, e se bem me recordo numa atuação de Vaiapraia e as Rainhas do Baile, o que banda e entourage fizeram quando se lhes deu a borla foi atravessarem o salão e irem para a esplanada.

Pôr putos músicos como estes a assistir sossegadamente a um espetáculo é coisa que não dá – ou lhes apetece também subir para o palco ou preferem o ar livre para fumar e conversar. Carl Fernandes, Filipe Fernandes, Martim Seabra, Ricardo Pereira e Diogo Braga não são putos como os outros. Tocam pra caraças. Quando eu tinha a idade deles ninguém possuía a destreza instrumental e a capacidade para compor de que estes dão mostras. São tão novos e tão bons que até mete medo.

A SMUP não gosta muito do botellón que organizam à entrada, por causa das queixas dos vizinhos, mas disponibilizou-lhes o sótão para trabalharem a sua música e lá fazerem os concertos que quiserem. Estes ficam sobrelotados. Não cabe mais ninguém.

Zanibar Aliens

Aliás, o nome Zanibar Aliens está muito depressa a espalhar-se por aí, e sempre com a indicação de que o grupo toca o melhor rock que atualmente se pode ouvir por cá e até a nível mundial. É verdade.

Ao gosto que tenho por «Space Pigeon», agrada-me pensar que, se estes catraios podem ser «velhos», até em termos de maturidade musical, então eu posso ser chavalo outra vez.

Até já e vejam o documentário que o grupo fez aquando da ida à Inglaterra para gravar o novo disco.

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?