Leonard Cohen morreu hoje aos 82 anos. Uma bela idade para se morrer. Porque viveu muito. Cantou muito. Amou muitas mulheres assim, através da música, pois as palavras cantava-as como se as beijasse. Insinuante, charmoso, sempre cavalheiro. Um letrista formidável, um estilo deslizante, sem tempo.

Viveu 82 anos. Uma bela idade para se deixar este planeta desafinado. Em outubro passado, no lançamento daquele que viria a ser o último disco, «You Want It Darker», confessou-se «preparado para morrer».

Dias depois, riu-se: «Exagerei. Sempre tive tendência para dramatizar. Pretendo viver para sempre.»

Brincalhão, mas um brincalhão muito fatigado. Tinha sido obrigado a regressar aos discos e às digressões aos 80 anos. Uma falcatrua financeira da sua antiga manager, Kelley Lynch, deixara-o sem dinheiro. Desse regresso inesperado, ofereceu-nos outra pérola: «Popular Problems», que vos convido a ouvir.

Voz. Classe. Leonard Cohen.

Leonard Cohen

De uma forma perversa, a vigarista Kelley acabou por fazer um favor ao mundo. Um serviço a todos aqueles que às altas horas da noite gostam de sentar-se no sofá, esticar as pernas, abrir um livro e ouvir a voz de trovão de Leonard Cohen com a chuva que cai lá fora.

Cohen sempre foi um dos meus «guilty pleasures». Bem, uso esta expressão de forma pouco correta. Não vejo como poderia sentir-me embaraçado por gostar de um cantor com uma voz capaz de estremecer os copos que a música nos convida a beber e letras com uma qualidade que raramente oiço hoje em dia.

Por exemplo, em «A Street», o quarto tema do disco: «You put on a uniform To fight the Civil War. You looked so good I didn’t care What side you’re fighting for».

Logo à primeira faixa deste disco parece que Leonard Cohen deseja colocar de sobreaviso tipos como eu: «I’m slowing down the tune. I never liked it fast. You wanna get there soon. I want to get there last.»

Bem sei que em cada sala onde uma música de Cohen toca, existe sempre uma mulher ao lado, real ou imaginária. Este «Slow» é malandreco, mas quando um talentoso cavalheiro de 80 anos nos comunica a sua intenção de conduzir a conversa ao seu próprio ritmo, devemos respeitar.

Ouvir as canções de Leonard Cohen é como passear de bicicleta com o avô: a gente deixa-o ir à frente, a marcar o ritmo, porque o verdadeiro prazer desse passeio é passar uns momentos juntos.

Sendo assim, meu caro Cohen, vamos lá beber um copo à tua vida, às canções, às palavras, ao teu deus, às injustiças que te revoltaram e às mulheres que te inspiraram.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?