Estudaram nos sí­ti­os do cos­tu­me quan­do se vi­ve na Invicta, a ESMAE e a Escola de Jazz do Porto. O res­to des­co­bri­ram por eles pró­pri­os, ou­vin­do mui­ta mú­si­ca – pas­san­do, pe­lo que se tor­na evi­den­te, por uma chus­ma de dis­cos de rock pro­gres­si­vo – e pra­ti­can­do ob­ses­si­va­men­te.

O seu pri­mei­ro dis­co, com se­lo Carimbo Porta-Jazz, foi lan­ça­do no pas­sa­do dia 18 de Dezembro. Intitula-se, su­ges­ti­va­men­te, «Getting All the Evil of the Piston Collar!».

The Rite of Trio em pose de Estado.

The Rite of Trio em po­se de Estado.

O gru­po chama-se The Rite of Trio e é me­lhor irem de­co­ran­do es­te no­me, por­que va­mos de cer­te­za ou­vir fa­lar mui­to de­le. Neste ví­deo ou­vi­mos os três ra­pa­zes, mas não os ve­mos. Já aqui sim.

Têm uma abor­da­gem sur­re­a­lis­ta da mú­si­ca e até da ima­gem que pro­je­tam, com lo­go pró­prio, um tri­ân­gu­lo de li­nhas in­ten­ci­o­nal­men­te pou­co re­tas (não há re­ti­dão na mú­si­ca que to­cam) e até uma de­sig­na­ção ex­clu­si­va pa­ra o que pro­põem: jam­ba­co­re.

Não me per­gun­tem o que tal ter­mo quer di­zer. Segundo os di­ci­o­ná­ri­os, «jam­ba» é um ele­men­to ver­ti­cal de sus­ten­ta­ção, co­mo uma co­lu­na ou o vão de uma por­ta e de uma ja­ne­la.

A mú­si­ca é um mis­to de jazz com car­ra­das de rock (daí o «co­re»), e o for­ma­to de gui­tar­ra elé­tri­ca, con­tra­bai­xo e ba­te­ria só não se tra­duz nu­ma iden­ti­da­de de power trio por­que pe­lo meio eles lar­gam os riffs pa­ra ex­plo­ra­rem os sons, im­pro­vi­san­do, mes­mo que is­so sig­ni­fi­que per­de­rem a ba­ti­da.

Eles? Sim: André Silva, Filipe Louro e Pedro Alves, que além dos res­pe­ti­vos ins­tru­men­tos têm co­mo fer­ra­men­tas uma «pe­dra de ro­se­ta», al­go que de­sig­nam co­mo «vi­são de tú­nel» e uns quan­tos «gi­ros­có­pi­os», wha­te­ver that me­ans.

O tex­to que acom­pa­nha o CD avisa-nos que es­te jazz es­tá «bem lon­ge do ro­man­tis­mo de la­rei­ra» e que o lu­gar ocu­pa­do pe­la ban­da é «in­co­mum, in­cer­to e des­con­for­tá­vel».

Aliás, se­rá por­que «a vi­da não é um ho­tel de char­me» que eles apre­sen­tam The Rite of Trio co­mo uma me­tá­fo­ra da exis­tên­cia. «Formámo-nos pa­ra mu­dar a con­fi­gu­ra­ção es­fé­ri­ca do pla­ne­ta Terra», afi­an­çam, ima­gi­no eu que en­tre gar­ga­lha­das e não pro­pri­a­men­te por se le­va­rem a sé­rio e es­ta­rem no iní­cio de uma ego trip.

The Rite of Trio fugindo da canção Hello

The Rite of Trio fu­gin­do da can­ção «Hello», de Adele.

Em três das fai­xas do ál­bum con­tam com co­la­bo­ra­ções ex­ter­nas. A úl­ti­ma é da can­to­ra Beatriz Nunes, que uti­li­za em «Symbols» os se­guin­tes ver­sos de Rainer Maria Rilke…

«From in­fi­ni­te lon­gings fi­ni­te de­eds ri­se / As foun­tains spring towards far-off glowing ski­es, / But rushing swif­tly upward we­a­kly bend / And trem­bling from their lack of power des­cend – / So th­rough the fal­ling tor­rent of our fe­ars / Our joyous for­ce le­aps li­ke the­se dan­cing te­ars.»

A ca­pa de «Getting All the Evil…» tem um fun­do rosa-choque, só por­que sim. Como tu­do o res­to, é is­so que os ca­rac­te­ri­za, um imen­so, jo­vi­al, pro­vo­ca­tó­rio, por­que sim.

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?