O facto de o psicadelismo da década de 1960 ter tido maior expressão no campo do rock explica que as tentativas de atualização desse tipo de abordagem também se tenham verificado sobretudo nesse género musical.

Desde as primeiras recuperações do fator psych nos anos 90, é certo que se tem ido mais longe com essas velhas fórmulas do que alguma vez foi no tempo em que originalmente emergiram.

Esquecemo-nos, porém, que também houve uma folk psicadélica e um funk movido a trips de ácido e mescalina, neste caso com exemplos como Funkadelic (um nome que diz tudo) e Parliament.

Pois é desta tradição minoritária, e não do rock, que vem a melhor música pedrada dos nossos dias. E de um nome em especial, Steven Ellison, o homem que se abriga atrás dos pseudónimos Flying Lotus (quando se centra na música “instrumental”, com aspas porque criada, sobretudo, em computador) e Captain Murphy (quando assume a função de rapper).

Steven Ellison

Steven Ellison

Nada iguala o que Ellison tem criado a partir das suas experiências ao nível da alteração dos estados de consciência, indo desde a privação do sono até à ingestão de psicotrópicos, com passagem por rigorosos exercícios de meditação. Parte do motivo é, talvez, o facto de se ter formado em cinema e de aplicar na música as técnicas narrativas e os recursos imagéticos então aprendidos.

Um exemplo, enquanto Captain Murphy, é este «Duality», vídeo com 34 minutos de duração que tem a alienação como tema. Nele se juntam imagens documentais sobre seitas religiosas e seus líderes, fragmentos de filmes porno e animações do realizador lilfuchs.

A obra veio ao mundo no final de 2012 e continua a ser motivo de debate. Por causa da reaplicação das coordenadas psicadélicas, numa fórmula que continua inultrapassável, e igualmente devido à encenação que rodeou a sua postagem na Internet.

Ellison manteve o anonimato até ao último momento. Ninguém sabia quem era Captain Murphy. Especulou-se que poderia ser Tyler, the Creator ou Earl Sweatshirt, muito devido ao tipo de voz, que propositadamente os imita. Em palco, utilizava uma máscara. Quando finalmente admitiu a autoria, após alguns ambíguos e trocistas desmentidos, foi a surpresa.

Outro caso é o álbum «You’re Dead», vestindo a pele de Flying Lotus, do qual saiu um desconcertante clip.

O produtor e compositor mal era reconhecido nos domínios do hip-hop, pelo facto de a sua música mesclar elementos da eletrónica experimental, do ambientalismo e ainda do jazz e do rock mais cósmicos, com temperos de soul e funk aqui e ali. Ainda por cima, Ellison revelava-se também no rap. Esticou a corda e partiu-a.

É o seu quinto, saiu em 2014 com a indicação de ser «uma peregrinação xamânica no desconhecido e infinito pós-vida», e calha ser aquele em que mais se aproxima da sua «moldura mental», o jazz.

Para todos os efeitos, trata-se do sobrinho de Alice Coltrane e John Coltrane e um assumido herdeiro da mundividência mística de ambos. Não, não foi por acaso que Ravi Coltrane já gravou consigo: é o primo. Assim como não é por ser simplesmente um fã que os seus discos estão pejados de samples da harpa de Alice. Cada sample é uma marca de referência.

E não é, ainda, por razões de marketing que Herbie Hancock surge a tocar Fender Rhodes num dos temas de «You’re Dead». Uma das influências mais marcantes de Steven Ellison é o Miles Davis do primeiro período elétrico, quando o pianista colaborava com o autor de «Bitches Brew».

Aliás, Hancock anunciou recentemente que esta parceria tem continuado, com vista à invenção de «um novo tipo de jazz».

Outro parceiro de Flying Lotus é o saxofonista Kamasi Washington, um descendente da estética do grito de Albert Ayler.

Madlib, MF DOOM e J Dilla são influências de Ellison pelo lado do hip-hop, mas Inspiração buscou-a ele também nos Soft Machine de «Two», no solo «The Aura Will Prevail» de George Duke ou na banda sonora da longa-metragem «La Planète Sauvage».

Passagens há, também, que nos remetem para Os Mutantes, Pink Floyd e até Radiohead. De resto, Thom Yorke, o vocalista dos Cabeças-de-Rádio, tem contribuído algumas vezes para as suas produções.

Este universo referencial coexiste, nas palavras ditas por Captain Murphy, com os da banda desenhada (livros da DC e da Marvel Comics), dos anime («Dragon Ball», «Pokemon») e da ficção científica («Star Wars»), mas Ellison não é propriamente um nerd tipo Sheldon.

A personagem principal de «Teoria do Big Bang» nunca faria alusões ao sexo oral e essas e outras similares abundam nos temas de Steven Ellison.

Imaginam o físico teórico a dizer o que segue: «Este álbum não é sobre o fim. É sobre o princípio. O princípio de uma nova experiência. Não é um triste “ei, estás morto”, é um entusiasmado “ei, estás morto!”. É uma celebração da próxima experiência, transição e confusão»? Não, pois não?

Os roqueiros Grateful Dead podem ter andado pelo psicadelismo, mas é – com muito mais propriedade – à caveira psicadélica que aspira esta figura do hip-hop / funk / jazz vanguardista da família Coltrane. Quem diria, heim?

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?