Todos nós temos histórias do género ballardiano para contar. A minha mais impressionante ocorreu na década de 1980, quando trabalhava no extinto Diário de Lisboa.

Certo dia, um jornalista e poeta meu amigo disse-me que havia uma tasca em Alfama onde «aconteciam coisas estranhas». Fui até lá com ele e pasmei.

Era um espaço muito pequeno, com azulejos brancos – enfim, cinzentos ou acastanhados, devido ao pouco trato – nas paredes e uma frequência sobretudo de gente mais velha, estivadores do porto de Lisboa já com muita carga e descarga no pelo e reformados com o mesmo trajeto.

Jorge Tam

Alfama fotografada por Jorge Tam

Pedimos um bacalhau com grão, servido em pratos inacreditavelmente sujos, com talheres e copos a condizer, mas estava divinal. Fomos ficando pela tarde, até porque a vinhaça não era má e continuava a aparecer na mesa.

E o que o meu camarada de profissão me tinha prometido, aconteceu. Primeiro surgiu um sujeito que trazia consigo uma série de pequenos transístores. Queria vendê-los e ligou-os um a um sintonizando-os em diversas estações.

Às tantas, para protesto geral dos presentes, era a Orquestra Algazarra que ali estava reunida, entre vozes, anúncios comerciais e música pop. O homem acabou por ser corrido sem fazer negócio.

Depois, entrou outro comerciante, este com gaiolas e respetivos periquitos. Sentou-se, elogiou a passarada e deu-lhe para os soltar. Os bichinhos esvoaçavam e piavam por todo o lado. Toda a gente se encantou e riu, mas vendas zero.

Um ou outro fugiu pela porta, alguns ficaram no cimo dos móveis, a saltitar, e outros recuperaram-se com algum esforço coletivo, mas o tipo saiu de lá, certamente, com a sensação de que os seus esforços de marketing lhe tinham custado uns bons escudos.

Uma mama e um caldo Knorr

Mais tarde surgiu uma jovem prostituta. Um velhote que, pela aparência, não deve ter vivido muito mais depois do episódio, chamou-a para a sua mesa e ela aceitou fazer-lhe companhia.

Notei que ele lhe segredou alguma coisa, hesitantemente, e ato contínuo ela aproximou-se mais e afastou um pouco a roupa, para lhe mostrar uma maminha. O ancião ficou comovido quase até às lágrimas.

Foi o mais bonito gesto de ternura a que já assisti. Mas o melhor estava para vir…

A rapariga disse que tinha algo a fazer e que voltaria depois de terminada a bica, deslizou pela saída apressadamente e uns dez minutos a seguir lá estava ela de novo, mas bastante transtornada: «Enganaram-me. O tipo deu-me uma banhada. Vendeu-me caldo Knorr em vez de haxixe!»

Toda a gente se solidarizou, escandalizada, com a pobre. Incluindo o casal sénior proprietário da tasca, que resmungava qualquer coisa como «é incrível fazer-se uma coisa dessas entre vizinhos». Alguns dos clientes correram para a rua a fim de encontrar o meliante e dar-lhe um enxerto, mas o dito já tinha desaparecido.

Publiquei a reportagem destes eventos no jornal e as reações foram, regra geral, positivas. Já a Associação de Moradores de Alfama (ou a junta de freguesia local, não me lembro) escreveu uma carta de protesto a afirmar que eu tinha dado uma má imagem daquela população…

Loucura igual a: ideação absoluta

J.G. Ballard

J.G. Ballard

Enfim. O que importa, agora, é referir que estas ocorrências poderiam ter vindo da imaginação do escritor de ficção científica J.G. Ballard.

Nos seus romances e contos, debruçou-se este sobre as cidades-máquinas para delimitar espacialmente as manifestações de fenómenos entrópicos. Ou seja, de desalinhamento com a ordem considerada «normal» das coisas, como no caso da tasca de Alfama.

Esses espaços centrifugam-se, isolam-se, escapam às rotinas dos homens e aos enquadramentos institucionalizados. Mais: vão constantemente diminuindo as suas dimensões até chegar ao espaço de um só indivíduo e até de uma mente em processo de ideação absoluta, sem corpo e sem órgãos.

O que neles acontece confirma a noção de «espaço concentracionário» desenvolvida por Michel Foucault e até a amplia, demonstrando que um centro comercial, um condomínio fechado, um descampado entre vias rápidas transformado numa ilha, um apartamento, um quarto, podem ser tão concentracionários quanto uma prisão, um hospital, um quartel, uma escola, um escritório, uma fábrica.

E quanto mais concentrados, mais disfuncionais…

Simon Sellars, um estudioso da obra de Ballard, designa esses espaços diminutivos como «micronações», dando o exemplo dos hikikomori japoneses, gente que se fecha mesmo que se mantenha ligada ao mundo (profissional, intelectual, afetiva e sexualmente) por meios eletrónicos e virtuais.

Causa e efeito reunidos, pois, segundo o romancista, tais desfasamentos da realidade organizada são uma consequência da tecnocracia capitalista que nos enlouquece.

É o correspondente no Ocidente à agorafobia que mantém programadores informáticos, criativos de vária índole, editores de conteúdos informativos, técnicos de comunicação (oh, ironia), consultores e analistas de empresas, contabilistas e muitos outros dentro de portas. Porque assim influiu a «terceira vaga» de domesticação e portabilidade da tecnologia, com a sua drástica diminuição dos circuitos migratórios diários entre casa e trabalho.

Personagens entrópicas

Convidados pela Fundação de Serralves a criarem novas obras musicais e intermediáticas sobre este tema tipicamente ballardiano, Marc Behrens e Jonathan Uliel Saldanha (sob a designação HHY e com o suporte da trupe Beast Box) apresentaram em 2010, no Porto, dois espectáculos que agora foram documentados em CD e DVD, respetivamente.

«Irregular Characters» (Behrens) inspirando-se na coleção de short stories «Vermilion Sands» e «Mundo de Cristal, Máquina da Selva» (Saldanha) baseando-se no livro «The Crystal World».

O primeiro álbum integra música e texto, remetendo-se estes mutuamente. Uma série de pequenas histórias testemunhadas e contadas pelo próprio compositor apresentam-nos algumas «personagens irregulares»…

A de uma cantora de ópera bêbada a cantar para um aviário de galinhas, com estas a responderem a preceito, a de um lojista que liga vários leitores de DVD ao mesmo tempo no seu estabelecimento comercial, ou ainda a de uma turista que, sofrendo um ataque nervoso, não para de balbuciar números.

O curioso é que, apesar do foco nas particularidades psíquicas das figuras retratadas, há uma cuidada e laboriosa descrição dos entornos em que tais ações tiveram lugar. O espaço, a «micronação», sempre, como moldura das situações de entropia.

Essas «irregularidades» foram gravadas por Marc Behrens e surgem na peça editada como o contraponto humano das operações de processamento e síntese eletrónicas. Na base da música escutada estão passagens de «Solo for Wounded CD», de Yasunao Tone, consistindo estas na exploração dos «erros sistémicos» causados por compactos riscados e deteriorados.

O que daí resultou é aleatório, não-direcional e, para o músico alemão, pouco interessante musicalmente, revelando um assustador aspeto da techné. Ainda que não se trate de uma vitória do caos sobre o asséptico mundo de zeros e uns da maquinaria digital: o acidente induzido já não é propriamente acidental.

Quis Behrens humanizar esse mundo com a expressão da loucura, o que é particularmente interessante e tem tudo a ver com J.G. Ballard: o que nos torna humanos, de facto, é a imponderabilidade e a irracionalidade dos nossos atos.

Avaria carbónica contra avaria de silício.

Realismo mágico

Juan Carlos Ruiz

Agorafobia, de Juan Carlos Ruiz

Se o carácter imersivo da música e dos textos de Behrens é evidente, o vídeo de Jonathan Uliel Saldanha mais nos certifica que a performance do seu «Mundo de Cristal…», com os jogos de luzes, os lasers, as leituras do ator Diogo Dória e os subgraves de «dub intracraniano» (assim descreve este luso-francês a sua abordagem musical), levaram o público do auditório de Serralves até outra dimensão.

Literalmente: a edição é acompanhada por dois mapas que serviram como partituras para todos os procedimentos. O que nos faz lembrar o escrito de Jorge Luis Borges em que o protagonista procura ser tão fidedigno no desenho de uma carta geográfica que esta acaba por copiar e substituir o território físico que procurava representar.

Ballard por via do escritor argentino que mais identificamos com o «realismo mágico»…

Os cristais que inspiraram Saldanha são, tal como para o homenageado prosador britânico, um símbolo da morte. Um símbolo refinado, convenhamos, pois faz da gruta de Platão um buraco revestido com diamantes, reflexos refletindo reflexos, deturpando o que a luz traz de fora.

O que se imobiliza, morre. Cristaliza. A diminuição do espaço humano condiciona os movimentos. As pernas e os braços deixam de ser úteis e como que são retirados, num suave, mas não menos traumático, Leng Tch’e – nome dado a uma antiga tortura chinesa em que o condenado à morte era fortemente drogado com ópio de modo a resistir o mais possível ao gradual desmembramento do seu corpo e à retirada das vísceras.

John Zorn dedicou ao suplício todo um disco – já agora oiçam e observem as velhas fotos incluídas.

O hikikomori, o agorafóbico, passa dos confinamentos da sala para os do seu cérebro prismático, imaginante, alucinado, incapaz de distinguir realidade e fantasia. Os pássaros voaram mesmo sobre o bacalhau? A prostituta tirou na verdade um seio para fora a fim de dar uma última alegria ao velho estivador?

E as galinhas de Behrens, cantaram Verdi? Os algarismos da senhora do fanico eram sequenciais? O imenso buraco no solo de um dos mapas de Saldanha existe? É possível confirmar se se ouviu, de facto, a voz tonitruante de Diogo Dória?

Estas imagens são de cristal, imagens da vida depois da morte, da difusa, surreal vida que permanece nas conexões sinápticas quando o coração para, da visionária, por vezes infernal, vida de um pensamento que fica no ar. Sem nunca se desvanecer, porque quando não há espaço também não há tempo, apenas brilhos, cintilações, ecos, tremores.

O que para, vê mais fundo e mais longe.

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?