As primeiras críticas a «Star Wars: o Despertar da Força» foram entusiásticas, mas depois alguns críticos de cinema criticaram-no como a qualquer outro filme — aqui entre nós, é preciso ter descaramento.

Há muito, muito tempo que «Star Wars» não é um filme, é um modo de vida. Um fenómeno cultural. Objeto de culto. Uma fábrica de brinquedos.

Paul Hackett / Reuters

Paul Hackett / Reuters

Como se diz mal de um filme sem colocar em causa a identidade de fãs que apenas desejam repetir uma experiência marcante do passado e, em alguns casos mais lunáticos, atacam e ameaçam com fervor religioso quem se atreve a criticá-lo?

É uma tarefa impossível, para não dizer inútil: quem nunca gostou de «Star Wars» limita-se a encolher os ombros e concordar, quem o adora fica com vontade de experimentar no pescoço do crítico a mesma técnica Jedi que Vader aplicou ao oficial que ridicularizou o poder da Força.

Regresso ao Futuro

Grande parte da história de «Star Wars: O Despertar da Força» envolve a aquisição da versão completa de um mapa com a localização do desaparecido cavaleiro Jedi Luke Skywalker.

Kevork Djansezian/Getty Images

Kevork Djansezian/Getty Images

Existe outro mapa em ação, um contendo os pontos-chave do filme original que o argumento tem de percorrer em nome desse «regresso ao futuro» que os fãs queriam experimentar desde 1977.

Pelas semelhanças com a narrativa dos dois primeiros filmes, diz-se que «Star Wars: O Despertar da Força» se limita a copiá-los. Eu não acho que a intenção seja essa: o realizador e co-argumentista JJ Abrams trata as nossas memórias dos filmes originais como uma mãe galinha trata um bebé e, como qualquer outra mãe galinha, não resiste em mimá-las em demasia.

Chewie's Angels

Chewie’s Angels na Comic Con em San Diego. Califórnia. | Foto: Chelsea Vicariv

A verdadeira Força em ação nestes filmes extravagantes é a do guito investido que é preciso recuperar. A Disney comprou «Star Wars» a George Lucas por 4 mil milhões de dólares porque sabia que os fãs estavam desejosos de novos filmes que dessem seguimento à saga.

Gastou mais de 200 milhões a fazer o primeiro e faturou, em dois dias de bilheteira, mais de mil milhões de dólares. E ainda faltam as receitas do «merchandising». Um retumbante sucesso digno de uma partitura do grande John Williams.

Não deixa por isso de ser irónico que a heroína Rey (Daisy Ridley) tenha dito a um mercador de sucata que o robô BB-8 não estava à venda: claro que está, minha jovem aprendiz, claro que está…

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Se desejas regressar à época em que o sabre de luz substituiu tão espetacularmente a espada do Sandokan, então é provável que te sintas satisfeito com o estilo propositadamente «retro» do filme e, se fores como eu, aliviado por nada ter a ver com as prequelas plastificadas de George Lucas. Se esperas um «reboot» com o espírito do original, criativo e surpreendente, a experiência pode não ser tão gratificante.

Rey (Daisy Ridley) e o seu bóbi robótico.

Rey (Daisy Ridley) e o seu bóbi robótico.

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«Star Wars: O Despertar da Força» dá um novo sentido à expressão «hoje em dia os miúdos já nascem ensinados». Luke precisou de muitas horas e dois mestres (Obi-Wan e Yoda) para ganhar consciência da Força, quanto mais exercê-la ou dominá-la. Rey só precisou de alguns segundos para vergar a vontade de um stormtrooper e lutar quase de igual para igual com o Darth Vader «wannabe» Kylo Ren (Adam Driver). Este é um «Star Wars» para as novas gerações, sem dúvida, que preferem sempre a papinha já toda feita.

2

Mais um sinal dos tempos: o stormstrooper desertor Finn aprende a manejar um sabre de luz em segundos e até consegue dar luta ao temido Kylo Ken – temido, sim, e por boas razões: notem a reação assustada de dois stormtroopers quando o novo Vader tem uma das suas reações de fúria destrutivamente descontroladas.

3

Sei que recordar é viver, mas não é preciso exagerar: há um órfão abandonado num planeta deserto que inicia uma jornada, como no original; um robô querido e irresistível, não muito diferente de um cão querido e irresistível, de quem o órfão se torna amigo e que transporta valiosas informações para os rebeldes; um bar cheio de aliens fixes a ouvir música fixe; uma Primeira Ordem em vez de um Império Galáctico; um líder supremo em vez de um imperador; um general genérico (pobre Domhnall Gleeson) que parece mau, é mesmo mau e dá ordens maldosas. E uma nova arma indestrutível para ser destruída.

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Os anos passam e os imperialistas de «Star Wars» não aprendem: têm recursos suficientes para construir uma nova e grandiosa super-arma destruidora de planetas, mas não para corrigir uma vulnerabilidade fatal que os rebeldes exploram nas calmas. Os maus da fita estagiaram todos na Microsoft?

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Kylo Ren

Kylo Ren, Darth Vader wannabe.

Kylo Ren usa uma máscara, mas não se percebe bem porquê — Darth Vader precisava dela para respirar e manter-se vivo, Kylo respira bem sem ela. Talvez a use para mostrar que pode ser tão mau e ameaçador como o vilão original. Talvez se tenha mirado ao espelho e concluído «bolas, com esta carinha de bebé ninguém me leva a sério».

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Spoiler! Kylo é filho de Han Solo (Harrison Ford) e da ex-Princesa Leia (Carrie Fisher). A história aconteceu há muito, muito tempo, numa galáxia muito, muito distante — mas deverá ser a galáxia com maiores problemas entre pais e filhos por ano-luz da história do Universo.

7

«Star Wars: o Despertar da Força» acaba com Rey a descobrir Luke Skywalker, vivendo como um eremita Jedi num planeta distante parecido com a Irlanda. Se no próximo filme o Luke disser à rapariga «Rey, olha que eu não sou o teu pai», milhares de fãs de «Star Wars» vão passar-se com tamanho volte-face.

Star Wars: The Force Awakens

Marco Santos

­ Marco Santos

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