Os Souq são a minha banda portuguesa preferida e não perco uma oportunidade de melgar as visitas fazendo-os ouvir o disco «At La Brava – Volume Two Of Red Desert Saga», como é habitual.

Mostrar boa música a malta que só ouve hard-rock FM ou porcarias da Adele está para a educação musical como o prato de sopa para a alimentação: as crianças torcem o nariz, dizem que não lhes apetece, mas nós, adultos, sabemos o que é melhor para eles e até exigimos que a comam até ao fim.

Souq

Cumpri recentemente um destes pequenos rituais de conversão aos bons sons. Liguei o computador, abri as goelas às colunas e mostrei a um amigo metaleiro o último teledisco da banda para o tema «The Dynamite Sisters», realizado por Leandro Silva e Nuno Barbosa, um aperitivo para o novo álbum que aí vem — é este vídeo aqui em cima.

Ele gostou, mas fez uma observação: «os gajos deviam ser mais pesados, mais heavy metal».

Fiquei com vontade de lhe espetar uma belinha na testa, mas encolhi os ombros como quem diz ‘pá, és um caso perdido’, o que não deixa de ser verdade, desculpa lá, e prossegui o dia a elogiar os sons do silêncio, embora não no sentido Paul Simon da expressão.

Mas eu sou picuinhas nestas coisas e fiquei a pensar naquela observação. Não sou músico nem tenho qualquer formação musical, portanto voltei a ouvir o tema mais umas quantas vezes a ver se podia ganhar alguma coisa em ficar mais «pesado».

Souqcess

Não, não ganha, não pode ganhar mesmo nada, e suspeito que a razão seja esta: os Souq parecem ter com o heavy metal a mesma relação que eu tenho com o chocolate: umas duas barritas de seguida sabem que é uma maravilha, mas se encher o bandulho com aquilo fico enjoado e passo as semanas seguintes sem vontade de repetir a dose.

Aqueles «riffs» mais pesados de guitarra — no caso dos Souq, misturados com os sopros, transportando-me para os tempos em que trepidava com o saxofone barítono de Dana Colley dos Morphine — são pontos de exclamação, declarações que sustentam o clímax emocional do tema, da mesma forma que a bateria ou o baixo são como as vírgulas numa frase. Tal como todas as declarações extraordinárias, devem ser usadas com parcimónia. Um tipo que passe a vida a dar murros na mesa não pode esperar que toda a gente se cale quando ele esmurrar a mesa mais uma vez.

Além disso, os Souq são cinematográficos, ecléticos, dinâmicos, e o pior que se podia fazer à banda seria amarrar-lhe a música a um só género.

A música dos Souq é uma viagem. O carro em que seguem é declaradamente de fabrico rock com umas mudanças psicadélicas, mas eles viajam de janelas abertas e através das janelas deixam que as brisas do jazz lhes batam na cara.

Portanto, meu caro amigo metálico, és um gajo porreiro, sabes que até acho os Protest The Hero grandes músicos, mas deixa-te lá de merdas e abre essas orelhas às maravilhas da diversidade. Os Souq que prossigam esta «road trip» que iniciaram, pois não conheço nenhuma viagem enriquecedora que tenha sempre a mesma paisagem pela frente.

Marco Santos

­ Marco Santos

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