«You & I» foi des­co­ber­to quan­do a edi­to­ra pre­pa­ra­va a edi­ção pa­ra o 20º ani­ver­sá­rio do lan­ça­men­to de «Grace», em 1995. As fai­xas – oi­to «co­vers» e dois ori­gi­nais – ti­nham si­do gra­va­das num es­tú­dio de Nova Iorque em 1993.

Os ori­gi­nais são o te­ma «Grace» – o no­me do úni­co dis­co que lan­çou – e «Dream of You and I». Os res­tan­tes são ver­sões de te­mas de Bob Dylan, The Smiths, Led Zeppelin, en­tre ou­tros.

«You & I» é Jeff Buckley com a sua voz e gui­tar­ra no es­tú­dio, em fe­ve­rei­ro de 1993, can­tan­do a pri­mei­ra ver­são gra­va­da que se co­nhe­ce do te­ma «Grace» e «co­vers» que mos­tra­vam o seu gos­to eclé­ti­co: «Night Flight», dos Led Zeppelin, «I Know It’s Over» e «The Boy With The Thorn In His Side», dos The Smiths ou «Just Like A Woman», de Bob Dylan.

O dis­co – su­per­vi­si­o­na­do pe­la mãe de Buckley, Mary Guibert – sai a 11 de mar­ço de 2016.

Nunca será tarde para descobrir Jeff Buckley

Só des­co­bri Jeff Buckley mui­tos anos de­pois de ele ter mor­ri­do – uma mor­te tão es­tú­pi­da e im­pre­vi­sí­vel que ain­da é di­fí­cil de acei­tar, 18 anos de­pois.

Já gos­ta­va des­sa voz an­tes de a co­nhe­cer, pois co­me­cei a gos­tar de Jeff Buckley ou­vin­do pri­mei­ro Thom Yorke.

O vo­ca­lis­ta dos Radiohead foi ir­re­me­di­a­vel­men­te to­ca­do pe­la al­ma mu­si­cal do mú­si­co fa­le­ci­do quan­do, du­ran­te as ses­sões de gra­va­ção de «The Bends», em 1994, to­da a ban­da as­sis­tiu a um con­cer­to de Buckley.

Yorke fi­cou tão im­pres­si­o­na­do pe­la pai­xão e sim­pli­ci­da­de no de­sem­pe­nho de Buckley – so­zi­nho em pal­co com a sua tre­men­da voz e uma sim­ples gui­tar­ra acús­ti­ca – que lo­go a se­guir gra­vou as par­tes vo­cais da can­ção «Fake Plastic Trees» com a mes­ma ar­ro­ja­da sim­pli­ci­da­de, em ape­nas dois ta­kes. Conta-se que cho­rou, de­pois de ter­mi­nar.

Muitos anos mais tar­de, ha­ve­ria de con­fi­den­ci­ar ao jor­nal New York Times o in­có­mo­do sen­ti­do em re­la­ção à pró­pria voz quan­do es­ta lhe so­a­va «bo­ni­ta» e «edu­ca­da», mes­mo se can­tas­se le­tras «pro­fun­da­men­te áci­das».

Jeff Buckley, mais es­pon­tâ­neo e vis­ce­ral do que es­te Yorke dos pri­mei­ros tem­pos, mostrara-lhe o ca­mi­nho.

Eis ou­tra das má­go­as des­te de­sa­pa­re­ci­men­to: sa­ber que Buckley e os Radiohead nun­ca se jun­ta­rão em pal­co, co­mo es­ta­va des­ti­na­do pe­los deu­ses da mú­si­ca. Digo-o por­que te­nho uma fé mui­to pes­so­al e na­da ci­en­tí­fi­ca que con­sis­te em acre­di­tar que, mais tar­de ou mais ce­do, os bons mú­si­cos aca­bam sem­pre por encontrar-se.

Uma «cover» de uma velha canção de Leonard Cohen – «Hallelujah» – que ajuda a torná-lo mais conhecido.

Uma «co­ver» de uma ve­lha can­ção de Leonard Cohen – «Hallelujah» – que aju­da a torná-lo mais co­nhe­ci­do.

Pouco de­pois das no­ve ho­ras de uma noi­te de terça-feira, a 29 de Maio de 1997, Buckley e um ami­go, o mú­si­co Keith Foti, ti­nham aca­ba­do de sair de um res­tau­ran­te em Memphis quan­do des­co­bri­ram que não eram ca­pa­zes de en­con­trar o es­tú­dio on­de fi­ca­ra com­bi­na­do en­sai­ar pa­ra o que te­ria si­do o se­gun­do dis­co, «My Sweetheart The Drunk».

A noi­te es­ta­va boa, sentiam-se bem-dispostos, Jeff Buckley tra­zia a gui­tar­ra e um «ghet­to­blas­ter» pa­ra ou­vir mú­si­ca. Decidiram pa­rar nas mar­gens do Wolf River, um aflu­en­te do rio Mississípi, nu­ma zo­na co­nhe­ci­da por Mud Island, a Ilha da Lama. Pensaram em fi­car por ali a ou­vir mú­si­ca até de­ci­dir o que fa­zer quan­to ao ca­mi­nho pa­ra o es­tú­dio.

Jeff já lá ti­nha na­da­do, em­bo­ra aque­la não fos­se pro­pri­a­men­te uma zo­na mui­to aco­lhe­do­ra: as mar­gens es­ta­vam chei­as de ro­chas, ca­lhaus, vi­dros e to­do o ti­po de li­xo, e as águas chei­as de la­ma. Decidiu en­trar na água sem se pre­o­cu­par em ti­rar os je­ans, a t-shirt e as bo­tas.

Segundo o tes­te­mu­nho de Keith Foti, en­trou na água a rir-se e a can­tar uma das su­as can­ções fa­vo­ri­tas, «Whole Lotta Love», dos Led Zeppelin. Nadava de cos­tas, en­quan­to can­ta­va.

Quinze mi­nu­tos de­pois, sur­giu um enor­me re­bo­ca­dor. Foti viu Jeff co­me­çar a re­gres­sar à mar­gem à me­di­da que o re­bo­ca­dor se apro­xi­ma­va. O bar­co era imen­so e ge­rou uma on­da con­si­de­rá­vel, fa­zen­do com que Foti se vi­ras­se de cos­tas pa­ra o rio com a in­ten­ção de pro­te­ger o equi­pa­men­to es­té­reo das águas. Quando se vi­rou ou­tra vez, Jeff de­sa­pa­re­ce­ra.

A on­da ge­ra­da pe­lo bar­co fez ri­co­che­te nas ro­chas da mar­gem e o flu­xo de água e de la­ma ar­ras­tou Buckley pa­ra o fun­do. O can­tor es­ta­va ves­ti­do e com umas bo­tas pe­sa­das, o que de­ve ter con­tri­buí­do pa­ra se afun­dar, mais o pâ­ni­co e a fal­ta de ar, mas gos­to de pen­sar que ele se foi a can­tar.

A au­tóp­sia e os exa­mes não re­ve­la­ram si­nais de ál­co­ol ou dro­gas. Não fo­ra sui­cí­dio, con­cluiu a po­lí­cia, mas um sim­ples ca­so de afo­ga­men­to.

E as­sim se per­deu um dos mai­o­res ta­len­tos da mú­si­ca dos úl­ti­mos anos.

A cantar com a guitarra, para sempre

Quando o dis­co «Grace» saí­ra, três anos an­tes, em 1994, fo­ra um su­ces­so crí­ti­co mas não pe­ga­ra en­tre o pú­bli­co. A rá­dio passava-o pou­co por­que, dizia-se na al­tu­ra, era de­ma­si­a­do co­mer­ci­al pa­ra as rá­di­os al­ter­na­ti­vas e de­ma­si­a­do al­ter­na­ti­vo pa­ra as rá­di­os co­mer­ci­ais.

O mun­do conheceu-o len­ta­men­te, le­va­do pe­lo en­tu­si­as­mo de quem o viu em con­cer­to, da­que­les que ido­la­tra­vam o dis­co e iam pas­san­do pa­la­vra.

Foi es­ta «co­ver» de uma ve­lha can­ção de Leonard Cohen – «Hallelujah» – que aju­da­ria a torná-lo mais co­nhe­ci­do. Buckley nem es­ta­va a fa­zer uma no­va ver­são do «Hallelujah» de Cohen, mas a «co­ver» de uma «co­ver», fei­ta por John Cale em 1991 pa­ra um dis­co de tri­bu­to ao can­tor ca­na­di­a­no, «I’m Your Man».

A rein­ter­pre­ta­ção de Buckley foi tão mar­can­te que mui­tas das «co­vers» que se fi­ze­ram a se­guir fo­ram mais in­flu­en­ci­a­das por Buckley do que por Cale e mui­to me­nos pe­la ver­são ori­gi­nal de Cohen.

Buckley é um mú­si­co ge­ni­al. Canta com uma ge­ne­ro­si­da­de que me co­mo­ve ho­je e co­mo­ve­rá pa­ra sem­pre: o tim­bre de voz, cris­ta­li­no e lu­mi­no­so, a en­tre­ga ab­so­lu­ta a ca­da mo­men­to da mú­si­ca, a es­pon­ta­nei­da­de, o sen­ti­do de ex­plo­ra­ção e par­ti­lha que co­lo­ca nas su­as in­ter­pre­ta­ções, sem­pre di­fe­ren­tes de con­cer­to pa­ra con­cer­to, o seu gos­to mu­si­cal eclé­ti­co, tu­do ne­le con­tém a mar­ca de um ar­tis­ta que vi­ve­rá pa­ra sem­pre, mes­mo ten­do vi­vi­do tão pou­co.

Marco Santos

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