Existem gran­des mis­té­ri­os na vida como, por exem­plo, saber de onde vie­mos, o que somos e para onde vamos. E tam­bém por que razão uma série como o The Leftovers pas­sou des­per­ce­bi­da a tan­ta gen­te.

É pro­vá­vel que algu­mas pes­so­as tenham desis­ti­do dela por­que a série come­ça com um mis­té­rio que nun­ca ten­ci­o­na reve­lar. À medi­da que os epi­só­di­os se suce­dem, aper­ce­be­mo-nos de que o desa­pa­re­ci­men­to inex­pli­cá­vel de dois por cen­to da popu­la­ção mun­di­al é ape­nas um pre­tex­to.

E ain­da bem que é assim. Há mui­tas séri­es que nos põem a caçar gam­bo­zi­nos. Esta con­cen­tra-se no que acon­te­ce às pes­so­as quan­do nem a ciên­cia ou a reli­gião são capa­zes de dar res­pos­tas.

Carrie Coon

Carrie Coon

Eu sou uma pes­soa de pai­xões asso­la­pa­das e um boca­do obses­si­va. Se me ena­mo­ro de uma série e tenho os epi­só­di­os à dis­po­si­ção, ganho raí­zes no sofá. Não des­can­so enquan­to não vejo tudo.

Com o The Leftovers, come­cei por me inte­res­sar quan­do per­ce­bi que o obje­ti­vo da his­tó­ria não era deci­frar um mis­té­rio sobre­na­tu­ral. O mis­té­rio são as pes­so­as. The Leftovers é um poe­ma visu­al que nos fala da vida, da mor­te, do amor, de per­das pro­fun­das e espe­ran­ças des­truí­das.

É um dra­ma, mas nun­ca per­de o sen­ti­do de humor nem a his­tó­ria que quer con­tar. É emo­ci­o­nan­te, pun­gen­te, tris­te, como­ve­dor, mas não é depri­men­te. Deprimente é fin­gir que se vive.

Regina King

Regina King

Estas per­so­na­gens res­pi­ram, estão ofe­gan­tes, estão vivas, deses­pe­ra­da­men­te vivas, e dese­jam con­ti­nu­ar a viver, con­si­go mes­mas e com os outros, não obs­tan­te as som­bras e os fan­tas­mas que as ator­men­tam.

São pes­so­as desas­tra­das, bizar­ras, men­ti­ro­sas, incon­gru­en­tes, ego­cên­tri­cas, altruís­tas e cómi­cas na for­ma como pro­cu­ram o con­so­lo, a com­pre­en­são, a cum­pli­ci­da­de, o amor, a feli­ci­da­de.

E como me apai­xo­nei per­di­da­men­te por todas estas pes­so­as ima­gi­ná­ri­as, podem ima­gi­nar como as três tem­po­ra­das de The Leftovers foram uma via­gem emo­ci­o­nan­te. E tal­vez enten­dam o meu entu­si­as­mo em par­ti­lhá-la, ago­ra que che­guei ao des­ti­no.

Justin Theroux

Justin Theroux

Sim, eu sei, já estou a mel­gar. Obrigado por teres che­ga­do a esta par­te do tex­to sem sal­tar nenhum pará­gra­fo. Provavelmente não te conhe­ço, mas sus­pei­to que a paci­ên­cia é uma das tuas prin­ci­pais vir­tu­des.

Pareço uma mãe-gali­nha a enfi­ar uma colher de sopa na boca dos meni­nos e das meni­nas. Toda a gen­te sabe que a sopa tem ingre­di­en­tes bons e sau­dá­veis. Só vos faz bem.

E se calhar é isso mes­mo que estou a fazer. Desculpa lá. Ao menos, ain­da não che­guei àque­la altu­ra da vida em que come­ço as fra­ses com um «No meu tem­po…»

Max Richter | Foto: Mike Terry

Max Richter | Foto: Mike Terry

A pro­pó­si­to: no meu tem­po é que se ouvia boa músi­ca.

Uma pes­soa vai con­sul­tar as tabe­las das músi­cas mais ouvi­das e sai dali a que­rer ser aco­me­ti­do de uma sur­dez tem­po­rá­ria e liber­ta­do­ra. Retifico a fra­se ante­ri­or: os tops musi­cais sem­pre exis­ti­am. O que acon­te­ce é que a músi­ca de mer­da do meu tem­po era mui­to melhor que a músi­ca de mer­da atu­al.

Pronto, quan­to ao The Leftovers vamos dei­xar o assun­to assim: ao lon­go des­tes anos de sã con­vi­vên­cia blo­gos­fé­ri­ca veri­fi­cas­te que eu até cos­tu­mo gos­tar das mes­mas coi­sas que tu. Por isso con­quis­tei, como dizem os agen­tes eco­nó­mi­cos, algum «capi­tal de con­fi­an­ça». É ver­da­de? Então não hesi­tes e vai ver a série.

Se for preciso faz-se um desenho

Para te dar uma ideia do que tenho esta­do a falar, tenho aqui um abe­ce­dá­rio de ilus­tra­ções do artis­ta argen­ti­no Pablo Bernasconi para veres.

Pablo ins­pi­rou-se em The Leftovers para as cri­ar. Algumas, pou­cas, só fazem sen­ti­do para quem a viu; a mai­o­ria, con­tu­do, é uni­ver­sal. Os dese­nhos que se seguem expli­cam The Leftovers melhor do que eu algu­ma vez seria capaz.

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Pablo Bernasconi

Para os que já se quei­ma­ram por seguir suges­tões minhas e não que­rem saber mais nada das minhas opi­niões, pro­po­nho uma coi­sa dife­ren­te. Em vez de me atu­rar mais com o The Leftovers, car­re­guem ali no play e oiçam uma sele­ção de músi­ca do com­po­si­tor da ban­da sono­ra da série, o ale­mão Max Richter.

A músi­ca dele pare­ce ser uma mis­tu­ra de Steve Reich, Satie e Schubert, mas é do mini­ma­lis­mo das com­po­si­ções que eu gos­to mais. O homem pare­ce empe­nha­do em cri­ar o mai­or núme­ro de emo­ções com o menor núme­ro de notas pos­sí­veis — e con­se­gue.

Eu pos­so acei­tar demo­cra­ti­ca­men­te que tens um gos­to da tre­ta um gos­to dife­ren­te do meu. Não há pro­ble­ma. Se nenhu­ma des­tas músi­cas tiver a capa­ci­da­de de te emo­ci­o­nar, nem que seja um boca­di­nho, então este blo­gue vai ter séri­os pro­ble­mas de rela­ci­o­na­men­to con­ti­go.

The Leftovers

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?