É bem ca­paz de ser um dos tí­tu­los mais lon­gos da his­tó­ria das edi­ções li­vrei­ras, mas se jul­gam que de­sig­na al­gum gros­so ma­nu­al uni­ver­si­tá­rio so­bre epis­te­mo­lo­gia desenganem-se já. É um li­vri­nho de ban­da de­se­nha­da…

Chama-se «Free Dub Metal Punk Hardcore Afro Techno Hip-Hop Noise Electro Jazz Hauntology» e adi­vi­nha­ram: fa­la so­bre mú­si­ca. Ou mú­si­cas, vá­ri­as, umas mais do seu agra­do, ou­tras me­nos, com as vá­ri­as sei­tas do me­tal num ex­tre­mo e o jazz me­nos abur­gue­sa­do no ou­tro.

É uma com­pi­la­ção de vi­nhe­tas de­se­nha­das (e es­cri­tas, cla­ro) por Marcos Farrajota du­ran­te as su­as de­am­bu­la­ções por fes­ti­vais e con­cer­tos, nuns ca­sos en­quan­to es­pe­ra­va por cli­en­tes em ban­cas das edi­to­ras Chili Com Carne e MMMNNNRRRG, e em ou­tros por­que que­ria mes­mo ou­vir as ban­das.

O es­ti­lo das pran­chas é de­ci­di­da­men­te punk: os de­se­nhos são hor­rí­veis. «Epá, eu não sei de­se­nhar, mas tam­bém não pre­ci­so», diz ele. É só meia ver­da­de: as­sim co­mo se com­pram cal­ças ras­ga­das e se des­pen­tei­am ar­tis­ti­ca­men­te as ca­be­ças, o Farrajota faz ques­tão que os seus bo­ne­cos se­jam fei­os.

Quando um sai bem, chateia-se. Folha em­bru­lha­da em bo­la e no­va ima­gem vai sur­gin­do em subs­ti­tui­ção, mais tos­ca. Marcos Farrajota é a rein­car­na­ção de Francis Bacon, com a di­fe­ren­ça de que, se es­te veio afron­tar os pre­sun­ço­sos mei­os das ar­tes plás­ti­cas, o por­tu­guês pa­re­ce ter co­mo mis­são cha­gar a ton­ta e ale­gri­nha cul­tu­ra pop.

Não co­nhe­ço nin­guém que te­nha co­mo mai­or am­bi­ção pi­o­rar em vez de me­lho­rar, só es­ta ave ra­ra. Coisas bo­ni­tas são pa­ra be­ti­nhos, acha. Presumo que se­ja um trau­ma, pois o ra­paz cres­ceu em Cascais.

Marcos Farrajota

O cer­to é que dei­xou já uma mar­ca. Basta ver uns qua­dra­di­nhos com aque­les ga­ra­tu­jos pa­ra sa­ber que es­ta­mos pe­ran­te uma obra de Marcos Farrajota, fi­gu­ra in­con­tor­ná­vel da BD na­ci­o­nal un­der­ground (não o irão ver no Canal 180!) e, deixem-me acres­cen­tar, um dos au­to­res da di­ta com mais sen­ti­do nar­ra­ti­vo. O ga­jo sa­be con­tar uma his­tó­ria.

Neste li­vri­nho con­ta al­gu­mas, tendo-o a ele pró­prio co­mo pro­ta­go­nis­ta, e não se pre­o­cu­pa em sair bem das di­tas.

Ou me­lhor, co­mo qual­quer punko-descendente que se pre­ze, e co­mo au­tor de ban­da de­se­nha­da que quer me­xer com as cons­ci­ên­ci­as dos lei­to­res, ele sa­be que o pes­so­al pre­fe­re se­guir as ri­dí­cu­las atri­bu­la­ções de um Robert Crumb do que os re­la­tos de um ti­po cer­ti­nho e da­do a in­te­lec­tu­a­li­ces co­mo Will Eisner.

O cu­ri­o­so é que, quan­do en­tra nes­te re­gis­to, a nos­sa per­so­na­gem torna-se umas ve­zes num jor­na­lis­ta e ou­tras num crí­ti­co mu­si­cal. Daqueles que fa­zem juí­zos de va­lor pe­remp­tó­ri­os e não me­dem as pa­la­vras, ti­po Lester Bangs.

O gi­ro é que, se o vi­ru­len­to Bangs con­tri­buiu pa­ra a fa­ma dos Black Sabbath e dos Jethro Tull cas­can­do ne­les, os gru­pos que Farrajota ar­ra­sa tam­bém acham gra­ça.

As su­as be­dês crí­ti­cas e jor­na­lís­ti­cas são mais acu­ti­lan­tes do que os tex­tos so­bre mú­si­ca que es­cre­ve pa­ra o blo­gue Mesinha de Cabeceira e a blog­zi­ne da Chili Com Carne. Nelas es­tá na sua água, boi­an­do à gran­de, e nes­tes é co­mo se ves­tis­se pe­le alheia.

Nas pri­mei­ras é sim­ples­men­te um ma­ma­do de cer­ve­ja na mão, um afi­ci­o­na­do que só não se­gue os prin­cí­pi­os ci­en­tí­fi­cos da dú­vi­da me­tó­di­ca ou o cep­ti­cis­mo fi­lo­só­fi­co do ta­ois­mo por­que até es­tas fa­bri­ca­ções men­tais in­ter­fe­rem co­mas re­ac­ções epi­dér­mi­cas, as úni­cas em que de­ve­mos con­fi­ar. Nas pro­sas, pe­lo con­trá­rio, e quan­do o de­sa­gra­do es­ta­la, adop­ta inad­ver­ti­da­men­te o tom de de­plo­ra­ção con­des­cen­den­te que têm os aca­dé­mi­cos quan­do ob­ser­vam a vi­da re­al.

Algo, de res­to, que me le­va a mim, es­cre­vi­nha­dor pro­fis­si­o­nal, a cons­tan­tes au­to­ver­gas­ta­das…

Marcos Farrajota

As su­as pre­fe­rên­ci­as vão pa­ra as edi­ções em cas­se­te de ban­das que nin­guém co­nhe­ce, tal­vez por­que têm a me­di­da de ras­qui­ce que tan­to apre­cia. Quanto a ten­dên­ci­as ou es­ti­los, baba-se com in­ven­ções bi­zar­ras co­mo um tal de do­om­du­ro.

O di­to cu­jo é co­mo que o cru­za­men­to do do­om me­tal sa­tâ­ni­co es­can­di­na­vo com o ku­du­ro de Angola, tu­do de­cor­ren­do mu­u­u­u­u­u­u­u­u­ui­to le­e­e­e­e­e­en­ta­me­e­e­e­e­e­e­en­te, com pe­so de hi­po­pó­ta­mo ali­men­ta­do a pa­pas de sar­ra­bu­lho. Não se ti­nham lem­bra­do da pos­si­bi­li­da­de de tal… co­mo di­zer… con­ver­gên­cia ge­o­cul­tu­ral, pois não?

Ele sim, e an­da sem­pre à co­ca do que re­sul­ta des­sas mis­tu­ras.

A úl­ti­ma pan­ca – não vem no li­vro, in­fe­liz­men­te – de Farrajota vai pa­ra os Black Taiga, pro­jec­to que en­vol­ve gen­te do Congo, de Portugal e da Irlanda (não, não par­ti­ci­pam su­e­cos nem an­go­la­nos). Este ouve-se co­mo se um dis­co em vi­nil de 45 ro­ta­ções fos­se pas­sa­do em 33: até as vo­zes se ar­ras­tam, ca­ver­no­sas. Espreitem aqui, já ago­ra.

Pudera! São es­tas mes­ti­ça­gens que o re­pór­ter de «Free Dub Metal…» cos­tu­ma fa­zer quan­do apa­re­ce nu­ma fes­ta en­quan­to unDJMMMNNNR­R­RG. Nessas al­tu­ras, as pes­so­as ou sentam-se, in­tri­ga­das com o que sai das co­lu­nas, ou sa­em pe­la por­ta fo­ra. Num ca­so co­mo no ou­tro, a pis­ta de dan­ça esvazia-se.

Anti-BD à Tintim e anti-DJ de “en­ter­tain­ment”. Assim é o Farrajota, si­tu­a­ci­o­nis­ta dis­cor­di­a­no que in­co­mo­da mes­mo os anar­quis­tas cá do bur­go. Aliás, a sua pró­pria apa­rên­cia for­ja o de­sen­ga­no. Se olha­rem pa­ra ele vêem o ca­be­lo e as pa­ti­lhas de Wolverine, mas não só não lhe sa­em lâ­mi­nas dos bra­ços co­mo des­de­nha dos super-heróis da Marvel.

Ele é ain­da mais «trashy». É mais «ar­te po­ve­ra», mais ar­te bru­ta, um Dubuffet al­fa­ci­nha de­di­ca­do aos va­lo­res es­pe­ci­ais do au­to­di­dac­tis­mo, da in­ge­nui­da­de e da idi­os­sin­cra­sia. É is­so que o tor­na tão ca­ti­van­te.

Dizia o fran­cês, em tra­du­ção li­vre: «O nor­mal é psi­có­ti­co. Normal sig­ni­fi­ca fal­ta de ima­gi­na­ção, fal­ta de cri­a­ti­vi­da­de. A ra­zão que se li­xe. Precisamos é do mais ele­va­do ní­vel de de­lí­rio.» Temos o Farrajota pa­ra is­so, e bem que a mú­si­ca ne­ces­si­ta des­te par de ou­vi­dos com li­ga­ção di­rec­ta aos olhos e a um lá­pis.

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?