Acreditam se vos dis­ser que a vo­ca­lis­ta que po­dem ou­vir e ver nes­te ví­deo com a ban­da RetroVirus, dá con­fe­rên­ci­as e se­mi­ná­ri­os de auto-ajuda pa­ra mu­lhe­res, em ver­são New Age que en­vol­ve me­di­ta­ção con­jun­ta, abra­ços e mer­gu­lhos em pe­lo­ta no mar?

E que ela lan­çou re­cen­te­men­te um li­vro de cu­li­ná­ria in­ti­tu­la­do «The Need to Feed»?

Sim, sim, aque­la que foi des­cri­ta, na sua ju­ven­tu­de (ho­je con­ta com 54 anos), co­mo o Alex de «Laranja Mecânica» do rock al­ter­na­ti­vo pa­re­cia ter-se abur­gue­sa­do e acal­ma­do com a ida­de. Tudo in­di­ca­va, in­clu­si­ve, que se ti­nha con­ver­ti­do ao fe­mi­nis­mo lésbico.

Mas não. Lydia Lunch, can­to­ra, de­cla­ma­do­ra, po­e­ta, per­for­mer e atriz co­nhe­ci­da pe­la sua pos­tu­ra con­fron­ta­ci­o­nis­ta e até vi­o­len­ta, bem co­mo pe­la sua nin­fo­ma­nia e pe­lo uso in­con­tro­la­do de subs­tân­ci­as do­pan­tes, acha ain­da que «as fe­mi­nis­tas são cen­so­res com ou­tro nome».

E man­tém a de­vo­ção por ho­mens de glú­te­os ri­jos e pi­las bem pro­por­ci­o­na­das, es­pe­ci­al­men­te se fo­rem ra­pa­zes novos.

Aliás, é nes­se con­tex­to que sur­ge o seu in­te­res­se pe­la gastronomia:

Quem, co­mo eu, con­su­miu tan­to ve­ne­no e se des­gas­tou tan­to a ní­vel se­xu­al ao lon­go da vi­da, pre­ci­sa ago­ra de uma boa ali­men­ta­ção. Cozinhar é, de res­to, a ga­ran­tia de con­ti­nu­ar a ter bom sexo.

Outra in­di­ca­ção de que Lunch (uma al­cu­nha vin­da dos tem­pos em que rou­ba­va co­mi­da pa­ra dis­tri­buir pe­los ami­gos) ti­nha mu­da­do fo­ram as su­as re­cen­tes co­la­bo­ra­ções com a vi­o­li­nis­ta de mú­si­ca ex­pe­ri­men­tal Mia Zabelka, o gira-disquista e ma­ni­pu­la­dor de elec­tró­ni­ca Phillipe Petit e um gui­tar­ris­ta do jazz de van­guar­da que ca­lha tam­bém to­car rock com os Wilco, Nels Cline.

Pois na­da fa­zia es­pe­rar que Lydia Lunch re­gres­sas­se ao ve­lho rock and roll com os RetroVirus e com os Big Sexy Noise, que ain­da são mais pri­má­ri­os no uso da dis­tor­ção e do mo­de­lo «três acor­des» do punk.

Do punk e mais cor­rec­ta­men­te da No Wave de Nova Iorque, fren­te de ac­ção em que Lydia sur­giu na dé­ca­da de 1970 com os Teenage Jesus and the Jerk. E a ver­da­de é que os si­nais es­ta­vam aí pa­ra se­rem in­ter­pre­ta­dos. A ban­da te­ve uma reu­nião ce­le­bra­tó­ria há pou­co tem­po, com Thurston Moore, dos Sonic Youth, a ta­par um bu­ra­co na ins­tru­men­ta­ção, e des­de es­sa al­tu­ra tem es­ta­do a cir­cu­lar um duo de­la com Wasel Walter sim­ples­men­te cha­ma­do Teenage Jesus.

Odiar alegremente

Weasel Walter? Exato, o ba­te­ris­ta que tem atu­al­men­te um per­cur­so no jazz e que se tor­nou co­nhe­ci­do com um pro­je­to que mis­tu­ra­va es­te gé­ne­ro mu­si­cal com, ima­gi­nem, he­avy me­tal: Flying Luttenbachers. Pois é ele quem to­ca gui­tar­ra nos RetroVirus.

Depois de mui­tos anos de cum­pli­ci­da­de mu­si­cal com J.G. Thirwell, tam­bém co­nhe­ci­do por Foetus, um dos mai­o­res gé­ni­os da mar­gi­ná­lia do rock e o seu com­pa­nhei­ro de ca­ma mais du­ra­doi­ro, é ago­ra o “Doninha” quem mais fre­quen­te­men­te en­con­tra­mos a seu lado…

O que nos une? Somos am­bos bru­ta­lis­tas e odi­a­mos ale­gre­men­te. Odiamos a rir. O que eu gos­to no Weasel é ele odi­ar tan­to as coi­sas des­te mun­do co­mo eu. Somos bas­tan­te oti­mis­tas em di­zer que o fim es­tá pró­xi­mo. Como Kafka es­cre­veu: Há es­pe­ran­ça, mas não pa­ra nós

A rai­nha do «spo­ken work», de ses­sões em que diz os seus tex­tos co­mo se cus­pis­se, não sem se coi­bir de in­sul­tar quem as­sis­te (já se lhe des­cul­pa, faz par­te do es­pe­tá­cu­lo), vol­tou, por­tan­to, ao rock. Nada co­mo is­to ou­vía­mos des­de a dé­ca­da de 1990 e o trio fe­mi­ni­no de cur­ta du­ra­ção Harry Crew, que par­ti­lhou com Kim Gordon.

Precisamente, a Kim Gordon dos Sonic Youth, que Lydia Lunch diz to­car uma mú­si­ca su­a­ve­zi­nha. O gru­po não du­rou por­que, pa­ra Lydia, parecia-se de­ma­si­a­do com a ce­na Riot Grrrl, com o rock lés­bi­co. «Isso não é pa­ra mim…», desdenha.

Não ou­vía­mos na­da co­mo os RetroVirus até mais atrás no tem­po, os anos 1980, quan­do Lunch par­ti­ci­pou nas gra­va­ções do te­ma «Death Valley ‘69» dos Sonic Youth e no vídeo-clip do mes­mo, o pri­mei­ro da banda.

Lunch es­ta­va no seu ele­men­to – o re­a­li­za­dor foi Richard Kern, o mes­mo que a di­ri­giu co­mo atriz em al­guns fil­mes ex­pe­ri­men­tais que se evi­den­ci­a­ram pe­lo seu ca­rác­ter sa­do­ma­so­quis­ta. É es­se o ti­po de se­xu­a­li­da­de que tem a pre­fe­rên­cia des­ta voz que tam­bém ou­vi­mos com Nick Cave e Einstuerzende Neubauten e des­te ros­to que con­tra­ce­nou com Henry Rollins.

Estrangulamentária

Lydia Lunch

Uma des­sas pe­lí­cu­las é «Fingered» (1986), que vo­cês po­dem ver aqui e que tem dois mo­men­tos de es­pe­ci­al im­pac­to: aque­le em que Lydia é ob­jec­to de um in­ten­so, e mui­to re­al, fist fuc­king por par­te do ac­tor, e en­tão seu ex-namorado, Marty Nation, e ou­tro em que se jun­ta ao co-protagonista num «ata­que» à per­so­na­gem fe­mi­ni­na in­ter­pre­ta­da por Lung Leg.

Kern con­tou de­pois que Lydia Lunch fi­cou tão ex­ci­ta­da com as agres­sões fí­si­cas so­bre a mu­lher que pe­diu pa­ra se fa­zer um no­vo ta­ke. O ci­ne­as­ta não lhe fez a von­ta­de, te­men­do pe­la se­gu­ran­ça de Leg.

«Submit to Me Now» (1987) tem a mes­ma te­má­ti­ca, mas a lin­gua­gem mui­to pró­pria dos ví­de­os mu­si­cais (aqui com um te­ma dos Butthole Surfers) tor­na tu­do mais simbólico…

É es­te o ver­da­dei­ro mun­do de Lunch, se bem que ago­ra dê a mão a quem pre­ci­se (ela que no pas­sa­do ti­nha já uns con­tra­di­tó­ri­os in­dí­ci­os de ge­ne­ro­si­da­de) em vez de ten­tar es­tran­gu­lar a pessoa.

Os mo­ti­vos es­tão ex­pos­tos na sua au­to­bi­o­gra­fia, «Paradoxia: A Predator’s Diary», li­vro em que se com­bi­na a cru­e­za des­cri­ti­va de Charles Bukowski e o sen­ti­do trans­gres­si­vo de Jean Genet. O pai molestava-a se­xu­al­men­te quan­do era criança.

Aos 6, 7 anos Lydia co­me­çou a con­fun­dir pra­zer com dor e dor com pra­zer, de­sen­vol­ven­do a con­di­ção psí­qui­ca a que a psi­qui­a­tria clás­si­ca deu o no­me de pa­ra­do­xia, ou de­se­jo se­xu­al nu­ma ida­de que em es­te é su­pos­to não existir.

Mais: as in­ves­ti­das do seu pro­ge­ni­tor masculinizaram-na. Em vez de a vi­ti­mi­zar, de a obri­gar a uma ain­da mai­or pas­si­vi­da­de do que aque­la que a so­ci­e­da­de des­ti­na às mu­lhe­res, as cir­cuns­tân­ci­as fi­ze­ram de­la um pre­da­dor se­xu­al: «O meu pai tornou-me num homem.»

Um ho­mem atraí­do por ou­tros ho­mens. Segundo o seu pró­prio tes­te­mu­nho, se­du­ziu ado­les­cen­tes, par­ti­ci­pou em or­gi­as, fre­quen­tou clu­bes de bon­da­ge e envolveu-se em ac­tos da mais ex­tre­ma depravação.

«Vou à pro­cu­ra de tu­do o que pos­sa satisfazer-me e re­gra ge­ral con­si­go o que que­ro. Tenho ne­ces­si­da­des mui­to es­pe­cí­fi­cas e conhecê-las bem é fun­da­men­tal pa­ra ob­ter o que que­ro», co­men­ta a pro­pó­si­to, fa­zen­do su­por que nem tu­do o que fez é le­gal­men­te permitido.

«O pra­zer é a úl­ti­ma re­be­lião e a gu­la al­go que se de­ve en­co­ra­jar em to­dos os seus for­ma­tos», sus­ten­ta des­de sempre.

Cá por mim, se é is­so que ga­ran­te a au­ten­ti­ci­da­de e o vi­gor da sua mú­si­ca, po­de prender-me os pul­sos e os tor­no­ze­los e dar-me umas ver­gas­ta­das com o chicote.

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?