Foi há mui­to tem­po. Nos idos anos 1990, duran­te um «workshop» de impro­vi­sa­ção na Guarda co-diri­gi­do pelo ele­tro­ni­cis­ta (então ain­da uti­li­zan­do per­cus­são) Gunter Muller e por Carlos “Zíngaro”…

Isto se bem me lem­bro, como dizia o bado­cha do «Mau Tempo no Canal». Encontrei o rapaz em vári­as situ­a­ções do géne­ro, na Guarda, na Covilhã e em Castelo Branco, sal­vo erro, algu­mas delas comi­go a car­go da par­te teó­ri­ca des­sas ações didá­ti­cas. E eis o que se pas­sou.

O Gunter pediu aos for­man­dos que impro­vi­sas­sem uma peça em que hou­ves­se algum tipo de con­tras­te pro­nun­ci­a­do, fos­se ele qual fos­se.

Um deles, Victor Afonso, agar­rou num bai­xo elé­tri­co. Esteve às vol­tas com ele duran­te algum tem­po, pro­cu­ran­do aque­le «bas­so pro­fon­do» que engran­de­ceu Bill Laswell. De súbi­to, pegou numa sim­ples flau­ta de bisel.

Com esta tocou uma nova vari­a­ção das mes­mas malhas, mas sem pedais de efei­tos e tiran­do total­men­te da equa­ção o som elé­tri­co. O exer­cí­cio foi depois con­cluí­do de novo com o bai­xo.

A rea­ção de Muller foi de sur­pre­sa. Não espe­ra­va que alguém tives­se a cora­gem de resol­ver o pro­ble­ma recor­ren­do ao úni­co ins­tru­men­to de que se vale um não-músi­co para fin­gir que faz músi­ca. E na mes­ma «improv» em que se uti­li­za­va tan­to pro­ces­sa­men­to.

Mal sabia ele que, no futu­ro, o Victor iria fazer pre­ci­sa­men­te do con­tras­te, mais: do para­do­xo, a cha­ve do seu per­cur­so musi­cal.

Improváveis cruzamentos

Kubik

O que na déca­da ante­ri­or con­ge­mi­na­ra com a ban­da indie Nihil Aut Mors, uma das úni­cas que real­men­te vale­ram a pena entre mui­tas aber­ra­ções que sur­gi­ram nos túneis do rock por­tu­guês, já tinha um pou­co des­sa dimen­são. Se bem que a outro nível…

Como? Bom, os temas eram can­ta­dos em Latim, con­tra­di­zen­do total­men­te o ime­di­a­tis­mo «here and now» (per­mi­tam-me o Inglês, dada a natu­re­za anglo-saxó­ni­ca do géne­ro) do rock para se apre­sen­tar como um pro­je­to góti­co.

Pois, o góti­co dos Eighties foi a coi­sa mais fal­sa que acon­te­ceu na músi­ca pop. Com os Nihil, este­ve-se mais per­to do con­cei­to. Agora, de góti­co o Victor Afonso só tem um par de cal­ças e um casa­co negro no guar­da-fatos.

Quando pas­sou a apre­sen­tar-se publi­ca­men­te como Kubik, já ele tinha como pri­mei­ro ins­tru­men­to o «sam­pler» e como opção esté­ti­ca não a músi­ca impro­vi­sa­da, mas a expe­ri­men­tal.

Aquele expe­ri­men­ta­lis­mo a que se deu o nome de «sam­pling music» e teve fren­tes como o pla­gi­a­ris­mo e a (des­cul­pem lá o pala­vrão) «plun­derpho­nics».

Distinguiu-as o fac­to de a pri­mei­ra cri­ar sem auto­ri­za­ção (veja-se a tris­te his­tó­ria dos Negativland com os U2) e de a segun­da o fazer com o sim dos advo­ga­dos ou por enco­men­da (o duplo álbum de cor­ta-e-cola que John Oswald «compôs» a par­tir da can­ção «Dark Star», dos Grateful Dead).

Ao con­trá­rio des­tas, porém, o Victor Kubik pre­o­cu­pou-se menos com o reco­nhe­ci­men­to da ori­gem dos «sam­ples» e mais com esta­be­le­cer impro­vá­veis cru­za­men­tos idi­o­má­ti­cos e tipo­ló­gi­cos.

O que terá sido a sua manei­ra de afir­mar que nenhu­ma músi­ca pode ser «não-idi­o­má­ti­ca», ao con­trá­rio do que defen­di­am alguns impro­vi­sa­do­res ilu­di­dos e ain­da defen­dem os que entre estes andam mais dis­traí­dos e são mais umbi­guis­tas.

Os títu­los dos CDs lan­ça­dos com a «tra­de­mark» Kubik dão uma bas­ta indi­ca­ção des­se pro­pó­si­to. «Oblique Musique» alu­dia dire­ta­men­te à trans­ver­sa­li­da­de dos seus con­teú­dos musi­cais. «Metamorphosia», refe­ria a per­ma­nen­te muta­ção das for­mas que podía­mos ouvir.

O dis­co que se seguiu veio lem­brar o perío­do em que o Victor andou pelas pro­xi­mi­da­des do jazz (ou mais exa­ta­men­te: em que par­ti­lhou situ­a­ções musi­cais com gen­te que toca­va jazz). O nome «Psicotic Jazz Hall» ser­viu para per­ce­ber a pou­ca reve­rên­cia do guar­den­se pelos dog­mas jaz­zís­ti­cos.

Haja quem, digo eu, nes­te cam­po tão mina­do por fun­da­men­ta­lis­mos…

O tratamento lunático de um assunto poético

Kubik

Agora sur­ge um novo tomo. Este vem reli­gá-lo ao seu pas­sa­do como músi­co de rock, mas tam­bém subli­nhar que a sua visão da ten­dên­cia nas­ci­da quan­do os bran­cos rou­ba­ram o rhythm ‘n’ blu­es aos negros não é pro­pri­a­men­te a mais con­ven­ci­o­nal: «Rock Extravaganza».

Victor Afonso cita o dra­ma­tur­go James Planché para expli­car o alcan­ce do ter­mo «extra­va­gan­za»: «tra­ta­men­to luná­ti­co de um assun­to poé­ti­co». Como o rock difi­cil­men­te pode ser enca­ra­do como um «assun­to poé­ti­co», per­ce­be-se o cinis­mo do títu­lo. A excen­tri­ci­da­de des­te tra­ba­lho não está ape­nas no tra­ta­men­to a que o rock é sub­me­ti­do, mas na manei­ra como se enten­de o dito.

Dizia uma can­to­ra fra­qui­ta da impro­vi­sa­ção, Fabienne Audéoud, que o rock alter­na­ti­vo não é mais do que o labo­ra­tó­rio de onde vão sair as inven­ções a uti­li­zar mais tar­de pelo rock «mains­tre­am».

Um dis­pa­ra­te. Esta é a quar­ta edi­ção de Kubik e eu ain­da não ouvi nenhum «mains­tre­a­mer» a apro­vei­tar as suas idei­as. Ainda que elas tenham sem­pre sido con­vi­da­ti­vas.

O que eu ouvi foi outro alter­na­ti­vo, o Ondness, a pôr cá fora coi­sas pare­ci­das. É que há dois tipos de «under­ground», o do metro­po­li­ta­no debai­xo de ter­ra e o do metro­po­li­ta­no à super­fí­cie. O «under­ground» das cata­cum­bas e o «under­ground hyps­ter».

Gótico já não, mas guardou as caveiras

O Victor Afonso pode já não ser góti­co, mas con­ti­nua a con­vi­ver com cavei­ras (sim, foi por isso que dei lá em cima o exem­plo dos Grateful Dead, gru­po que tinha como sím­bo­lo a mes­ma cara­to­nha feia das ban­dei­ras dos pira­tas) e com esque­le­tos…

Não pode­mos dar dema­si­a­da cre­di­bi­li­da­de à Audéoud. Foi ela a men­to­ra do espe­tá­cu­lo «Twenty Women Playing the Drums Topless», cujo úni­co cri­té­rio esté­ti­co era fazer com que as mamo­cas das bate­ris­tas sal­tas­sem enquan­to elas iam baten­do com as baque­tas.

Em «Rock Extravaganza» não há sei­os sal­ti­tan­tes, mas há um ambi­en­te de caba­ré, de «vau­de­vil­le», de bur­les­co. Um ambi­en­te sexu­al mui­to mais «vero» do que o inven­ta­do pela idi­o­ta aci­ma refe­ri­da.

É natu­ral. Quando nas artes se sub­ver­te, per­ver­te-se, e não há nada como uma per­ver­são­zi­nha, com todas as suas alu­sões a sexo, para tor­nar uma obra artís­ti­ca inte­res­san­te.

Kubik

A músi­ca de Kubik soa tão fami­li­ar quan­to estra­nha, atrai-nos e con­fun­de-nos em simul­tâ­neo. Faz-se pare­cer com uma coi­sa para nos con­fron­tar com outra. Neste absur­do iní­cio de sécu­lo é a melhor músi­ca de inter­ven­ção que pode­ria exis­tir. Nenhuma outra nos tira assim o tape­te de debai­xo dos pés.

Foi neces­sá­rio sam­plar o rock para que se vol­tas­se a rea­vi­var o velho espí­ri­to mori­bun­do des­te, num pro­ces­so de (re)criação musi­cal que é, só por si, extra­va­gan­te.

Hoje em dia, já não há pachor­ra para o que não tenha nem que seja um pin­go de extra­va­gân­cia. O Victor é sufi­ci­en­te­men­te malu­co para nos ani­mar um pou­co a vida. Epá, con­ti­nua assim, a bater com a cabe­ça nas pare­des e a mis­tu­rar flau­tas de bisel com bai­xos Laswell.

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?