O realizador Kris Merc gosta de misturar magia e realidade com o deleite de um chefe de cozinha, mas não procura sabores adocicados nem deixa cozinhar os ingredientes durante muito tempo.

As visões que oferece são cruas, divertidas, amargas, identificando sem subterfúgios os excessos e idiossincrasias das sociedades modernas, como no trabalho que fez este ano para o tema «To My Surprise», dos veteranos James.

Nos seus telediscos nota-se a influência do estilo anime, da arte propagandística que se fazia nos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial para demonizar os japoneses, dos graffiti que se vêm hoje nas ruas e, segundo admite o próprio, dos murais pintados por Diego Rivera.

É um grande criador de telediscos — e só posso imaginar como teria sido espetacular colocar o talento de Kris Merc ao serviço dos Radiohead de «OK Computer», dos Morphine, dos Soul Coughing, até dos Pink Floyd nos tempos em que se deixaram cercar pelos muros de Roger Waters.

Seguem-se dois exemplos perfeitos de como muitas vezes um teledisco é muito mais interessante e original e criativo do que a música que procura promover.

To My Surprise, James

To My Surprise, James

O single lançado em novembro do ano passado pelos James — «To My Surprise», parte do 14º álbum desta banda de Manchester — não me diz muito em termos musicais, mas deu origem a um grande teledisco ou, nas palavras do próprio Kris Merc, «um instantâneo dos tempos modernos».

Mojo Thunder, The Peach Kings

Mojo Thunder, The Peach Kings

O vídeo para o tema do duo The Peach Kings, feito a meias com outro grande artista, Benjy Brooke, é produzido também pelo estúdio internacional de que Merc faz parte — Not To Scale, produtora internacional de filme e animação presente em Londres, Nova Iorque e Amesterdão. É um teledisco pintado à mão.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?