Bob Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura e foi o fim do mundo em cuecas. Alguns preferiam que a Academia tivesse seguido os ensinamentos de Jesus quando disse «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.»

Expressões idiomáticas como «pão pão, queijo queijo» e «cada macaco no seu galho» surgiram em força nas redes sociais por causa do prémio, como se o Bob Dylan fosse um Quim Barreiros a cheirar bacalhaus na Route 666. Há gente com muitos macaquinhos na cabeça.

Música é música e literatura é literatura, disseram uns. Se a academia quer dar prémios a músicos, que crie um Prémio Nobel da Música, escreveram outros. Esse tipo de reações.

Cambada de chatos. Velhos dos Marretas, sempre a dizer mal.

A malta que critica a decisão porque o Bob Dylan é das canções e não dos livros gosta assim tanto de gavetas e de as arrumar a toda a hora? Eu não. Arrumar gavetas é uma seca brutal e por isso não sinto qualquer necessidade de fazer às expressões artísticas o que faço às minhas peúgas. Nem as peúgas da Adele, que tresandam a chulé musical, merecem esse tipo de tratamento.

Por isso, sim, sou daqueles que acha que a academia sueca esteve bem em tornar elegível um escritor de canções para um prémio de Literatura. Estabelece o saudável precedente de mandar às favas a mania de arrumar as artes em gavetinhas invioláveis e lança uma discussão sobre o que deve ser considerado Literatura.

Não venham é dizer que as letras do Dylan não existiriam para o Comité do Nobel se não estivessem suportadas em canções guardadas em discos de vinil e discos compactos, porque senão serei obrigado a lembrar todas as palavras de grandes escritores que jamais teriam existido para nós se não estivessem guardadas num conjunto de folhas de papel, escritas ou impressas, soltas ou cosidas, em brochura ou encadernadas, ao qual costumamos chamar livro.

Dylan não ganhou o Prémio Nobel da Literatura por ter colocado as suas palavras em romance ou porque as colocou em canções. Qual é a diferença fundamental que leve a que um seja elegível como literatura e outro não — o formato? O suporte?

Dylan ganhou por causa das palavras, de como as palavras se juntam para formar frases e pelo que o conjunto dessas frases nos diz, intelectual e emocionalmente, ou seja, o habitual.

Caramba, hoje em dia qualquer palerma ou arquiteto Saraiva escreve um livro.

O meu único problema com a decisão é puro gosto pessoal e isso só tem a ver comigo e mais ninguém. Não gosto muito de Bob Dylan. Nunca me seduziu o Dylan acústico ou o Dylan elétrico. Tentei várias vezes conhecer alguns álbuns devido à importância do nome, mas não dá. Não entra. A minha avaliação das letras sofre pelo facto de eu não suportar a voz que as canta. Mas isso é problema meu, não do Nobel.

Eu preferia Leonard Cohen, Chico Buarque, Ary dos Santos (se fosse vivo) ou Art Garfunkel, mas a decisão vale pelo reconhecimento do óbvio: um grande letrista pode ser um grande poeta e escritor.

Marco Santos

­ Marco Santos

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