Aqui há tem­pos, a edi­to­ra de jazz por­tu­gue­sa Clean Feed – con­si­de­ra­da como uma das cin­co mais impor­tan­tes do mun­do – resol­veu fazer uma brin­ca­dei­ra. Estampou uma série de t-shirts com um dese­nho exu­be­ran­te de Travassos, o desig­ner das capas de dis­cos do seu catá­lo­go, e os dize­res «Jazz is boring».

Tratava-se de uma iro­nia, pois isso de o jazz ser «cha­to» é mui­to dis­cu­tí­vel. Há quem pen­se no bichi­nho que tem essa desig­na­ção popu­lar quan­do o ouve e quem vibre com um lon­go solo de saxo­fo­ne.

Theo Bleckmann

Theo Bleckmann | Foto: Joerg Grosse Geldermann

Uma coi­sa difi­cil­men­te pode ser des­men­ti­da. O jazz é machis­ta – tocam-no e ouvem-no, sobre­tu­do, homens mui hete­ro-patri­ar­cais, com a estra­nha par­ti­cu­la­ri­da­de de a mai­or par­te usar bar­ba, o que já acon­te­cia antes mes­mo de a pilo­si­da­de faci­al se ter tor­na­do «trendy».

E bas­tas vezes, acres­cen­te-se, é tam­bém misó­gi­no, chau­vi­nis­ta, sexis­ta e homo­fó­bi­co.

É (nova­men­te, como adi­an­te expli­ca­rei), mas está a dei­xar de ser assim. Porque são cada vez mais as mulhe­res que se dedi­cam a esta músi­ca, des­mas­cu­li­ni­zan­do-a; e por­que, tal como já acon­te­cia no rock, no hip-hop, na pop em geral e tam­bém na cha­ma­da new music, estão a tor­nar-se nume­ro­sos os casos de músi­cos que­er que a tocam, entre gays, lés­bi­cas, bis­se­xu­ais e pes­so­as trans.

Os efei­tos ain­da não se fazem sen­tir na pró­pria músi­ca, pelo menos na medi­da em que deter­mi­na­ram esti­los e ten­dên­ci­as nas expres­sões musi­cais refe­ri­das. Tudo indi­ca, porém, que esse des­fe­cho pode­rá estar em pro­ces­so.

Para já, esta que­e­ri­za­ção (ou re-que­e­ri­za­ção, para ser mais exa­to) do jazz veri­fi­ca-se no tipo de abor­da­gens. Um exem­plo cla­ro é-nos dado pelo can­tor Theo Bleckmann, um dos mais impor­tan­tes da atu­a­li­da­de, e que pode­mos ver e ouvir aqui.

A can­ção é de Kate Bush, ori­gi­nal artis­ta pop mui­to ama­da pela comu­ni­da­de que­er, e a sua esco­lha por par­te do ale­mão nada tem de ino­cen­te. Bleckmann (que já este­ve em Portugal algu­mas vezes e tra­ba­lhou com a nos­sa Maria João) é um dos nomes cimei­ros do jazz que saí­ram do armá­rio. Está a fazer a dife­ren­ça.

E não se pen­se que pegar no reper­tó­rio da Bush lhe ser­viu sim­ples­men­te para evi­tar o este­reó­ti­po Barbra Streisand ou Liza Minelli. «Sinto-me obvi­a­men­te mui­to mais ins­pi­ra­do pelas lutas de Chet Baker ou Eric Dolphy do que por qual­quer atriz gla­mo­ro­sa de Hollywood», diz o rapaz da voz de cetim.

Dois mundos num só

Outro é o saxo­fo­nis­ta e com­po­si­tor Andrew D’Angelo, mem­bro do super­gru­po Human Feel, que con­ta com o cele­bra­do Kurt Rosenwinkel nas suas filei­ras. Dele ouvi temas punk-metal-jazz com títu­los pro­vo­ca­tó­ri­os como «My Prostate» e «Cheek Spread».

Andrew D’Angelo

Andrew D’Angelo

Homossexual assu­mi­do, lide­ra ago­ra uma ban­da cujo nome não dei­xa nin­guém ao enga­no: Gay Disco. O humor não dife­re mui­to do «jazz is boring» da Clean Feed, desig­nan­do o que faz como dis­co sound, a ver­ten­te mais gay da músi­ca urba­na nas­ci­da na déca­da de 70 e que tão influ­en­te tem sido. Ora cá estão eles.

Como podem repa­rar, o con­cer­to foi gra­va­do no Outbeat, fes­ti­val que se anun­ci­ou como o pri­mei­ro de jazz que­er do mun­do, o que só vem con­fir­mar os ven­tos de mudan­ça que come­çam a soprar.

Antes des­te even­to, D’Angelo sen­tia que vivia em dois mun­dos total­men­te dis­tin­tos, aque­le que fre­quen­ta­va na sua vida pri­va­da e o do jazz, o pro­fis­si­o­nal. Conta ele: «Quando o meu ex-namo­ra­do leva­va con­si­go alguns ami­gos gay a um gig meu, isso tinha da par­te deles a impor­tân­cia de um sta­te­ment.»

Fred Hersch

Fred Hersch

Mais conhe­ci­do é o pia­nis­ta Fred Hersch, pela exce­lên­cia da sua músi­ca e por estar a ven­cer uma lon­ga bata­lha con­tra o HIV. Afirma ele, inclu­si­ve, que a sua arte melho­rou depois de ter esta­do em coma. Não me falem no Brad Mehldau – o Hersch, sim, é um génio.

Na peça que aca­ba­ram de ouvir cele­bra o Dia dos Namorados com um enor­me liris­mo, mas ficou famo­so o seu tri­bu­to a um jovem de Wyoming que foi assas­si­na­do por gos­tar de pilas, «Out Someplace (Blues for Matthew Shepard)», e esse é incom­pa­ra­vel­men­te mais escu­ro.

Estas são figu­ras do mains­tre­am (mes­mo Andrew D’Angelo aí se situa, dado seguir o lega­do de Ornette Coleman, hoje acei­te até pelos mais con­ser­va­do­res), mas dis­tin­gui­ram-se os três, musi­cal­men­te, por aqui­lo que defi­ne o pró­prio espí­ri­to que­er: a não-con­for­mi­da­de.

Talvez seja por isso, por temer que o jazz que­er venha a ser mais um epi­fe­nó­me­no hips­ter, que Hersch se mos­tra céti­co quan­to ao que está em vias de ocor­rer.

«Anunciei publi­ca­men­te a minha ori­en­ta­ção sexu­al numa altu­ra em que era impor­tan­te que o fizes­se, mas acho que hoje é um não-assun­to. Não há uma músi­ca gay, e mui­to menos quan­do é exclu­si­va­men­te ins­tru­men­tal. O fac­to de John Cage ter sido gay não sig­ni­fi­ca que com­pu­ses­se músi­ca gay e o fac­to de eu ser gay não sig­ni­fi­ca que toco jazz gay», argu­men­ta.

Será mes­mo? O cer­to é que se publi­ca­ram ensai­os de musi­co­lo­gia em que se apon­ta que deter­mi­na­das esco­lhas de voca­bu­lá­rio e de cons­tru­ção har­mó­ni­ca fei­tas por Fred Hersch só podi­am ter sido engen­dra­das por alguém que não tem a hete­ro-nor­ma­ti­vi­da­de encrip­ta­da nas célu­las cin­zen­tas e no sis­te­ma ner­vo­so cen­tral.

Ele rela­ti­vi­za a impor­tân­cia des­ses estu­dos argu­men­tan­do que se tra­ta de mera «sen­sa­ci­o­na­li­za­ção», mas pou­cas dúvi­das exis­tem de que a sua músi­ca não deri­va das habi­tu­ais exi­bi­ções cro­mos­só­mi­cas do jazz, tão les­to a trans­for­mar tes­tos­te­ro­na em som.

Cuidado com as generalizações

O mes­mo se pode acres­cen­tar sobre outro que­er céle­bre do jazz, Gary Burton. As fili­gra­nas que cons­trói com o vibra­fo­ne são tudo menos mus­cu­la­das. Um exem­plo está nes­te vídeo em que o encon­tra­mos ao lado de Makoto Ozone.

Cecil Taylor

Cecil Taylor

Mas cui­da­do com as gene­ra­li­za­ções e com a ten­ta­ção de defi­nir um esti­lo pelas suas supos­tas «mas­cu­li­ni­da­de» ou «femi­ni­li­da­de». Isso é cair no enten­di­men­to biná­rio que jus­ti­fi­ca a redu­ção da flui­dez da sexu­a­li­da­de nas dife­ren­ças entre homem e mulher e entre hete­ros­se­xu­a­li­da­de e homos­se­xu­a­li­da­de.

Cecil Taylor, um dos pio­nei­ros da van­guar­da jaz­zís­ti­ca, carac­te­ri­za-se pela inten­si­da­de por vezes bru­tal da sua músi­ca, e no entan­to é ele o mai­or sím­bo­lo des­ta con­di­ção que­er do jazz.

Numa entre­vis­ta ao New York Times, aque­le que é uma das gran­des influên­ci­as do por­tu­guês Rodrigo Pinheiro dis­se: «Alguém me per­gun­tou se eu era gay. Respondi: você acha que uma pala­vra com três letras defi­ne o quão com­ple­xa é a minha huma­ni­da­de? Evito esses rótu­los sim­plis­tas.»

Esta é uma rea­li­da­de com mui­tas nuan­ces, como se depre­en­de ao escu­tar­mos a fran­ce­sa Joelle Léandre.

Uma vez, qui­se­ram saber jun­to de Carlos “Zíngaro” se as mui­tas cola­bo­ra­ções do vio­li­nis­ta de Lisboa com a dita tinham por detrás outro tipo de rela­ção. Reagiu ele, a rir-se: «Como, se ela gos­ta mais de mulhe­res do que eu, que até gos­to bas­tan­te delas?»

Joelle Léandre

Joelle Léandre

Lésbica assu­mi­da e uma pedra no sapa­to dos pro­gra­ma­do­res de fes­ti­vais que não con­tra­tam músi­cos do sexo femi­ni­no (por­que os desan­ca for­te e feio), Lèandre é outro caso de não faci­li­tis­mo clas­si­fi­ca­tó­rio. Tive com ela lon­gas con­ver­sas e sei bem o quan­to des­de­nha os cli­chés.

«Nas artes, todas as mulhe­res são vis­tas como bru­xas ou lou­cas ou homo, e pro­va­vel­men­te até é ver­da­de. Mas a impro­vi­sa­ção é huma­na, é expres­são, não tem hie­rar­quia nem géne­ro», sus­ten­ta esta impa­rá­vel guer­ri­lhei­ra do jazz que, por cau­sa das con­fu­sões, lá vai juran­do que não toca jazz.

Semelhante posi­ci­o­na­men­to tem a suí­ça Irene Schweizer, par­cei­ra de Joelle Lèandre no cole­ti­vo Les Diaboliques, infe­liz­men­te em esta­do em pau­sa por estes dias, e que eu tam­bém tive o pri­vi­lé­gio de conhe­cer pes­so­al­men­te.

A pia­nis­ta foi uma das fun­da­do­ras de um pro­je­to que, nos anos 70, virou tudo de cabe­ça para bai­xo, cri­ou o pâni­co e cor­tou com a tra­di­ção «this is a man’s world» nas­ci­da com a emer­gên­cia do bebop: o Feminist Improvising Group (FIG). Meio ensem­ble musi­cal, meio tru­pe de tea­tro, foi par­ti­cu­lar­men­te afir­ma­ti­vo na colo­ca­ção em cena do femi­nis­mo sáfi­co.

Nessa altu­ra, o jazz este­ve qua­se a ser que­er outra vez (já lá vamos, já lá vamos), mas a coi­sa não pegou.

Depois de des­fei­to o FIG, pois as pro­du­to­ras temi­am a sua men­sa­gem e não o con­vi­da­vam, hou­ve uma peque­na capi­tu­la­ção: o ter­mo «femi­nist» dei­xou de vigo­rar nos car­ta­zes, ain­da que no sub­se­quen­te The European Women’s Improvising Group e depois nas já alu­di­das Diaboliques se man­ti­ves­se a filo­so­fia de base. As últi­mas che­ga­ram a apre­sen­tar-se numa edi­ção do Jazz em Agosto, tra­zi­das por Rui Neves.

O FIG tinha detra­to­res até entre jazz­men. Malta de ideá­rio mar­xis­ta ou liber­tá­rio, mas que nem por isso era menos sexu­al­men­te fas­cis­ta.

Um deles foi Alexander von Schlippenbach, que inter­pe­lou o cura­dor de um fes­ti­val em que o gru­po par­ti­ci­pou para fazer a seguin­te, e escan­da­lo­sa, recla­ma­ção: «Porque é que vocês con­vi­da­ram estas tipas, se elas nem sequer sabem tocar? Muitos homens que por aí estão fari­am melhor.»

E quem eram as tais «tipas»? Entre outras, a voca­lis­ta Maggie Nicols, nes­te vídeo com Mia Zabelka (este­ve no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia des­te ano) e John Russell.

E era a fago­tis­ta Lindsay Cooper, vin­da da ban­da de rock pro­gres­si­vo Henry Cow, ber­ço tam­bém de Fred Frith, e que aqui des­co­bri­mos a solar com a Mike Westbrook’s Orchestra. Julguem por vocês mes­mos.

É assim que as miúdas tocam, pá!

Allison Miller

Allison Miller

Tem sido con­tra esta for­ça de blo­queio que luta a vaga de fun­do arco-íris do jazz, com vis­ta a tor­nar este menos «abor­re­ci­do». Vaga de fun­do? Sim: con­si­de­ra Fred Hersch que é bem mai­or do que se jul­ga a quan­ti­da­de de que­ers que nes­te tipo de músi­ca estão na clan­des­ti­ni­da­de, mas outros além dos nome­a­dos fize­ram das blue notes o fun­da­men­to do seu ati­vis­mo.

Um deles é a bate­ris­ta Allison Miller, líder dos Boom Tic Boom.

É uma dyke bem segu­ra de si e sem papas na lín­gua. Nem calos na pon­ta dos dedos: num tex­to publi­ca­do na Internet, «You Don’t Play Like a Girl: Queer in a Jazz World», con­fes­sa o que adi­an­te se repro­duz em tra­du­ção livre:

«Quando entrei na uni­ver­si­da­de tinha dois amo­res na vida: jazz e mulhe­res. Em ter­mos his­tó­ri­cos, jazz e mulhe­rio fazem uma boa com­bi­na­ção, mas ser uma mulher que gos­ta de jazz e de mulhe­res já não é tão clás­si­co. Passava os dias a trans­cre­ver solos de Miles Davis e as noi­tes a caçar rapa­ri­gas. Só que o jazz é um clu­be de rapa­zes. Como é que eu podia tocar esta músi­ca e ser uma femi­nis­ta lés­bi­ca radi­cal? Disseram-me vezes demais que não toco como uma miú­da, achan­do que isso era um elo­gio. Mas eu toco como uma miú­da, por­que sou uma miú­da. É assim que as miú­das tocam, pá!»

Koko Jones

Koko Jones

Quem mais está out e leva o jazz por cami­nhos colo­ri­dos? Não é pre­ci­so pro­cu­rar mui­to. Patricia Barber, que já tive­mos por cá. Muito mili­tan­te, a atriz/cantora Lea Delari. E Ian Shaw, Dena DeRose (que pega em stan­dards amo­ro­sos e muda os «he» que apa­re­cem nas letras para «she»), Kellye Gray, Ann Hampton Callaway. Fundamental, ain­da, o his­tó­ri­co Andy Bey.

E se jul­gam que a tran­se­xu­a­li­da­de não che­gou ao jazz, espe­rem. Têm pelo menos os casos da per­cus­si­o­nis­ta Koko Jones, uma apai­xo­na­da dos rit­mos afro-cuba­nos que inte­grou vári­as for­ma­ções de Archie Shepp e da con­tra­bai­xis­ta Jennifer Leitham.

Desabafa Koko Jones: «O tra­ba­lho é tão escas­so por estes dias que qual­quer ves­tí­gio de não-con­for­mis­mo sexu­al ou de géne­ro influ­en­cia a deci­são do che­fe de uma ban­da na altu­ra de nos con­tra­ta­rem. Sabem como nos sen­ti­mos ao des­pe­di­rem-nos por ser­mos quem somos? Se o jazz tem tudo que ver com liber­da­de e espi­ri­tu­a­li­da­de, como é pos­sí­vel que não tenha lugar para músi­cos trans­gé­ne­ro?»

Jones resol­veu o pro­ble­ma naqui­lo que lhe res­pei­ta: é ela a patroa ago­ra.

Em Portugal, como esta­mos? Bom, mais atrás do que no res­to do mun­do. Há uns pou­cos, pouquís­si­mos, músi­cos que­er, com visões do jazz e da impro­vi­sa­ção que se podem dis­tin­guir da geral nor­ma­ti­vi­da­de, mas não se apre­sen­tam como tal e há que res­pei­tar a von­ta­de de per­ma­ne­ce­rem fecha­dos no móvel dos cabi­des.

Infelizmente já desa­pa­re­ci­do, até o menos escon­di­do entre estes, Jorge Lima Barreto (tam­bém musi­có­lo­go), não fala­va nem escre­via sobre a ques­tão.

E se em tem­pos o cofun­da­dor dos Telectu usou o tema da sexu­a­li­da­de, foi ape­nas para refe­rir o carác­ter «orgás­ti­co» do free jazz. Passou-se até com ele um epi­só­dio hila­ri­an­te num peque­no tea­tro de Algés há mui­to desa­pa­re­ci­do. Quando dis­ser­ta­va sobre outras maté­ri­as, mais cin­zen­tas, uma voz do públi­co recla­mou: «Ó Jorge, fala mas é de sexo!»

Assim era a Jazz Age

Bessie Smith

Bessie Smith

Resta cum­prir o que anun­ci­ei um par de vezes. Dei a enten­der que o jazz pode­rá estar a recon­quis­tar a sua aura que­er por­que este mes­mo jazz, antes de dar numa de machis­mo, já foi que­er. E não só por­que um enor­me rol das suas mai­o­res estre­las se iden­ti­fi­ca­va como tal…

Na pri­mei­ra meta­de do sécu­lo XX, Bessie Smith, Ma Rainey, Billie Holiday, Carmen McRae, Alberta Hunter, Ethel Waters e Josephine Baker eram osten­si­va­men­te que­er. Rainey che­gou mes­mo a ser pre­sa por par­ti­ci­par numa orgia lés­bi­ca.

Tony Jackson, um cola­bo­ra­dor de Jelly Roll Morton (este na épo­ca com uma segun­da pro­fis­são, a de pro­xe­ne­ta), Billy Strayhorn, o bra­ço direi­to de Duke Ellington, e Stéphane Grapelli, o inven­tor do vio­li­no fran­cês de jazz, eram gays mais ou menos des­com­ple­xa­dos.

Billy Tipton, pia­nis­ta e com­po­si­tor da cha­ma­da Jazz Age que ago­ra está a vol­tar a ser ouvi­do com aten­ção, fora bati­za­do como Dorothy Lucille Tipton mas não acei­tou o des­ti­no que assim lhe con­sig­na­ram: enfai­xou os sei­os, ves­tiu rou­pas mas­cu­li­nas e viveu como um homem até à mor­te. Ninguém sabia do seu segre­do, a não ser, tal­vez, uma ou outra aman­te.

Billy Tipton (ao centro)

Billy Tipton (ao cen­tro)

E digo tal­vez por­que, entre as mui­tas que se lhe conhe­ce­ram, algu­mas admi­ti­ram pos­te­ri­or­men­te que nun­ca tinham vis­to o seu cor­po nu.

Tipton con­ta­va-lhes que as liga­du­ras se devi­am a um aci­den­te de auto­mó­vel que lhe tinha afe­ta­do a cai­xa torá­ci­ca. Quanto a sexo pene­tra­ti­vo, bem, ele lá terá arran­ja­do um pro­ce­di­men­to qual­quer.

Eis uma amos­tra da sua escri­ta, pelo Billy Tipton Memorial Saxophone Quartet, com supor­te de bate­ria.

Até Miles Davis dor­mia vol­ta e meia com homens, não fazen­do dis­so espe­ci­al mis­té­rio. Sabe-se, igual­men­te, que Sun Ra tinha incli­na­ções homos­se­xu­ais, mas não as pra­ti­ca­va. Sofria de uma hér­nia cró­ni­ca nas par­tes lá de bai­xo, com dores per­ma­nen­tes.

Não foram as per­so­na­li­da­des, por si só, que carac­te­ri­za­ram o pas­sa­do que­er do jazz, foi o con­tex­to, e o con­tex­to des­ta músi­ca, até à sua defi­ni­ti­va inte­lec­tu­a­li­za­ção com o bop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, esta­va nos caba­rés, nos bor­déis, nos clu­bes notur­nos, nas «rent par­ti­es» em casas par­ti­cu­la­res, nos «buf­fet flats» e nos «spe­a­ke­a­si­es».

Lugares fre­quen­ta­dos por que­ers em que o jazz se toca­va ao vivo, havia espec­tá­cu­los vári­os e mui­to sexo de diver­sos fei­ti­os e for­mas ia acon­te­cen­do, em públi­co e em pri­va­do.

Afinal, o ter­mo jazz vem do ver­bo calão «to jass», que quer dizer «for­ni­car». Já aqui o indi­quei… O estra­nho mes­mo é que nos anos 1920 e 30 do sécu­lo pas­sa­do a gen­te do jazz era, em com­pa­ra­ção, mais aber­ta. A can­ção «Boy in the Boat», de George Hanna, tem um ver­so com estes dize­res: «When you see two women wal­king hand in hand, just sha­ke your head and try to unders­tand.»

Em «Sissy Man Blues», um tema tra­di­ci­o­nal de autor des­co­nhe­ci­do e milhen­tas vezes inter­pre­ta­do, can­ta­va-se «If you can’t bring me a woman, bring me a sis­sy man».

Pode ser que vol­te a ser assim, depen­den­do das mar­cas que os músi­cos que­er dei­xa­rem e da capa­ci­da­de de muda­rem as men­tes mais pre­con­cei­tu­o­sas e con­di­ci­o­na­das. Talvez venha­mos a ter um Peter Brotzmann bicho­na. De botas car­da­das, mas à manei­ra do Pink Bloc…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?