Aqui há tem­pos, a edi­to­ra de jazz por­tu­gue­sa Clean Feed – con­si­de­ra­da co­mo uma das cin­co mais im­por­tan­tes do mun­do – re­sol­veu fa­zer uma brin­ca­dei­ra. Estampou uma sé­rie de t-shirts com um de­se­nho exu­be­ran­te de Travassos, o de­sig­ner das ca­pas de dis­cos do seu ca­tá­lo­go, e os di­ze­res «Jazz is boring».

Tratava-se de uma iro­nia, pois is­so de o jazz ser «cha­to» é mui­to dis­cu­tí­vel. Há quem pen­se no bi­chi­nho que tem es­sa de­sig­na­ção po­pu­lar quan­do o ou­ve e quem vi­bre com um lon­go so­lo de saxofone.

Theo Bleckmann

Theo Bleckmann | Foto: Joerg Grosse Geldermann

Uma coi­sa di­fi­cil­men­te po­de ser des­men­ti­da. O jazz é ma­chis­ta – tocam-no e ouvem-no, so­bre­tu­do, ho­mens mui hetero-patriarcais, com a es­tra­nha par­ti­cu­la­ri­da­de de a mai­or par­te usar bar­ba, o que já acon­te­cia an­tes mes­mo de a pi­lo­si­da­de fa­ci­al se ter tor­na­do «trendy».

E bas­tas ve­zes, acrescente-se, é tam­bém mi­só­gi­no, chau­vi­nis­ta, se­xis­ta e homofóbico.

É (no­va­men­te, co­mo adi­an­te ex­pli­ca­rei), mas es­tá a dei­xar de ser as­sim. Porque são ca­da vez mais as mu­lhe­res que se de­di­cam a es­ta mú­si­ca, desmasculinizando-a; e por­que, tal co­mo já acon­te­cia no rock, no hip-hop, na pop em ge­ral e tam­bém na cha­ma­da new mu­sic, es­tão a tornar-se nu­me­ro­sos os ca­sos de mú­si­cos que­er que a to­cam, en­tre gays, lés­bi­cas, bis­se­xu­ais e pes­so­as trans.

Os efei­tos ain­da não se fa­zem sen­tir na pró­pria mú­si­ca, pe­lo me­nos na me­di­da em que de­ter­mi­na­ram es­ti­los e ten­dên­ci­as nas ex­pres­sões mu­si­cais re­fe­ri­das. Tudo in­di­ca, po­rém, que es­se des­fe­cho po­de­rá es­tar em processo.

Para já, es­ta que­e­ri­za­ção (ou re-queerização, pa­ra ser mais exa­to) do jazz verifica-se no ti­po de abor­da­gens. Um exem­plo cla­ro é-nos da­do pe­lo can­tor Theo Bleckmann, um dos mais im­por­tan­tes da atu­a­li­da­de, e que po­de­mos ver e ou­vir aqui.

A can­ção é de Kate Bush, ori­gi­nal ar­tis­ta pop mui­to ama­da pe­la co­mu­ni­da­de que­er, e a sua es­co­lha por par­te do ale­mão na­da tem de ino­cen­te. Bleckmann (que já es­te­ve em Portugal al­gu­mas ve­zes e tra­ba­lhou com a nos­sa Maria João) é um dos no­mes ci­mei­ros do jazz que saí­ram do ar­má­rio. Está a fa­zer a diferença.

E não se pen­se que pe­gar no re­per­tó­rio da Bush lhe ser­viu sim­ples­men­te pa­ra evi­tar o es­te­reó­ti­po Barbra Streisand ou Liza Minelli. «Sinto-me ob­vi­a­men­te mui­to mais ins­pi­ra­do pe­las lu­tas de Chet Baker ou Eric Dolphy do que por qual­quer atriz gla­mo­ro­sa de Hollywood», diz o ra­paz da voz de cetim.

Dois mundos num só

Outro é o sa­xo­fo­nis­ta e com­po­si­tor Andrew D’Angelo, mem­bro do su­per­gru­po Human Feel, que con­ta com o ce­le­bra­do Kurt Rosenwinkel nas su­as fi­lei­ras. Dele ou­vi te­mas punk-metal-jazz com tí­tu­los pro­vo­ca­tó­ri­os co­mo «My Prostate» e «Cheek Spread».

Andrew D’Angelo

Andrew D’Angelo

Homossexual as­su­mi­do, li­de­ra ago­ra uma ban­da cu­jo no­me não dei­xa nin­guém ao en­ga­no: Gay Disco. O hu­mor não di­fe­re mui­to do «jazz is bo­ring» da Clean Feed, de­sig­nan­do o que faz co­mo dis­co sound, a ver­ten­te mais gay da mú­si­ca ur­ba­na nas­ci­da na dé­ca­da de 70 e que tão in­flu­en­te tem si­do. Ora cá es­tão eles.

Como po­dem re­pa­rar, o con­cer­to foi gra­va­do no Outbeat, fes­ti­val que se anun­ci­ou co­mo o pri­mei­ro de jazz que­er do mun­do, o que só vem con­fir­mar os ven­tos de mu­dan­ça que co­me­çam a soprar.

Antes des­te even­to, D’Angelo sen­tia que vi­via em dois mun­dos to­tal­men­te dis­tin­tos, aque­le que fre­quen­ta­va na sua vi­da pri­va­da e o do jazz, o pro­fis­si­o­nal. Conta ele: «Quando o meu ex-namorado le­va­va con­si­go al­guns ami­gos gay a um gig meu, is­so ti­nha da par­te de­les a im­por­tân­cia de um statement.»

Fred Hersch

Fred Hersch

Mais co­nhe­ci­do é o pi­a­nis­ta Fred Hersch, pe­la ex­ce­lên­cia da sua mú­si­ca e por es­tar a ven­cer uma lon­ga ba­ta­lha con­tra o HIV. Afirma ele, in­clu­si­ve, que a sua ar­te me­lho­rou de­pois de ter es­ta­do em co­ma. Não me fa­lem no Brad Mehldau – o Hersch, sim, é um gé­nio.

Na pe­ça que aca­ba­ram de ou­vir ce­le­bra o Dia dos Namorados com um enor­me li­ris­mo, mas fi­cou fa­mo­so o seu tri­bu­to a um jo­vem de Wyoming que foi as­sas­si­na­do por gos­tar de pi­las, «Out Someplace (Blues for Matthew Shepard)», e es­se é in­com­pa­ra­vel­men­te mais escuro.

Estas são fi­gu­ras do mains­tre­am (mes­mo Andrew D’Angelo aí se si­tua, da­do se­guir o le­ga­do de Ornette Coleman, ho­je acei­te até pe­los mais con­ser­va­do­res), mas distinguiram-se os três, mu­si­cal­men­te, por aqui­lo que de­fi­ne o pró­prio es­pí­ri­to que­er: a não-conformidade.

Talvez se­ja por is­so, por te­mer que o jazz que­er ve­nha a ser mais um epi­fe­nó­me­no hips­ter, que Hersch se mos­tra cé­ti­co quan­to ao que es­tá em vi­as de ocorrer.

«Anunciei pu­bli­ca­men­te a mi­nha ori­en­ta­ção se­xu­al nu­ma al­tu­ra em que era im­por­tan­te que o fi­zes­se, mas acho que ho­je é um não-assunto. Não há uma mú­si­ca gay, e mui­to me­nos quan­do é ex­clu­si­va­men­te ins­tru­men­tal. O fac­to de John Cage ter si­do gay não sig­ni­fi­ca que com­pu­ses­se mú­si­ca gay e o fac­to de eu ser gay não sig­ni­fi­ca que to­co jazz gay», argumenta.

Será mes­mo? O cer­to é que se pu­bli­ca­ram en­sai­os de mu­si­co­lo­gia em que se apon­ta que de­ter­mi­na­das es­co­lhas de vo­ca­bu­lá­rio e de cons­tru­ção har­mó­ni­ca fei­tas por Fred Hersch só po­di­am ter si­do en­gen­dra­das por al­guém que não tem a hetero-normatividade en­crip­ta­da nas cé­lu­las cin­zen­tas e no sis­te­ma ner­vo­so central.

Ele re­la­ti­vi­za a im­por­tân­cia des­ses es­tu­dos ar­gu­men­tan­do que se tra­ta de me­ra «sen­sa­ci­o­na­li­za­ção», mas pou­cas dú­vi­das exis­tem de que a sua mú­si­ca não de­ri­va das ha­bi­tu­ais exi­bi­ções cro­mos­só­mi­cas do jazz, tão les­to a trans­for­mar tes­tos­te­ro­na em som.

Cuidado com as generalizações

O mes­mo se po­de acres­cen­tar so­bre ou­tro que­er cé­le­bre do jazz, Gary Burton. As fi­li­gra­nas que cons­trói com o vi­bra­fo­ne são tu­do me­nos mus­cu­la­das. Um exem­plo es­tá nes­te ví­deo em que o en­con­tra­mos ao la­do de Makoto Ozone.

Cecil Taylor

Cecil Taylor

Mas cui­da­do com as ge­ne­ra­li­za­ções e com a ten­ta­ção de de­fi­nir um es­ti­lo pe­las su­as su­pos­tas «mas­cu­li­ni­da­de» ou «fe­mi­ni­li­da­de». Isso é cair no en­ten­di­men­to bi­ná­rio que jus­ti­fi­ca a re­du­ção da flui­dez da se­xu­a­li­da­de nas di­fe­ren­ças en­tre ho­mem e mu­lher e en­tre he­te­ros­se­xu­a­li­da­de e homossexualidade.

Cecil Taylor, um dos pi­o­nei­ros da van­guar­da jaz­zís­ti­ca, caracteriza-se pe­la in­ten­si­da­de por ve­zes bru­tal da sua mú­si­ca, e no en­tan­to é ele o mai­or sím­bo­lo des­ta con­di­ção que­er do jazz.

Numa en­tre­vis­ta ao New York Times, aque­le que é uma das gran­des in­fluên­ci­as do por­tu­guês Rodrigo Pinheiro dis­se: «Alguém me per­gun­tou se eu era gay. Respondi: vo­cê acha que uma pa­la­vra com três le­tras de­fi­ne o quão com­ple­xa é a mi­nha hu­ma­ni­da­de? Evito es­ses ró­tu­los simplistas.»

Esta é uma re­a­li­da­de com mui­tas nu­an­ces, co­mo se de­pre­en­de ao es­cu­tar­mos a fran­ce­sa Joelle Léandre.

Uma vez, qui­se­ram sa­ber jun­to de Carlos “Zíngaro” se as mui­tas co­la­bo­ra­ções do vi­o­li­nis­ta de Lisboa com a di­ta ti­nham por de­trás ou­tro ti­po de re­la­ção. Reagiu ele, a rir-se: «Como, se ela gos­ta mais de mu­lhe­res do que eu, que até gos­to bas­tan­te delas?»

Joelle Léandre

Joelle Léandre

Lésbica as­su­mi­da e uma pe­dra no sa­pa­to dos pro­gra­ma­do­res de fes­ti­vais que não con­tra­tam mú­si­cos do se­xo fe­mi­ni­no (por­que os de­san­ca for­te e feio), Lèandre é ou­tro ca­so de não fa­ci­li­tis­mo clas­si­fi­ca­tó­rio. Tive com ela lon­gas con­ver­sas e sei bem o quan­to des­de­nha os clichés.

«Nas ar­tes, to­das as mu­lhe­res são vis­tas co­mo bru­xas ou lou­cas ou ho­mo, e pro­va­vel­men­te até é ver­da­de. Mas a im­pro­vi­sa­ção é hu­ma­na, é ex­pres­são, não tem hi­e­rar­quia nem gé­ne­ro», sus­ten­ta es­ta im­pa­rá­vel guer­ri­lhei­ra do jazz que, por cau­sa das con­fu­sões, lá vai ju­ran­do que não to­ca jazz.

Semelhante po­si­ci­o­na­men­to tem a suí­ça Irene Schweizer, par­cei­ra de Joelle Lèandre no co­le­ti­vo Les Diaboliques, in­fe­liz­men­te em es­ta­do em pau­sa por es­tes di­as, e que eu tam­bém ti­ve o pri­vi­lé­gio de co­nhe­cer pessoalmente.

A pi­a­nis­ta foi uma das fun­da­do­ras de um pro­je­to que, nos anos 70, vi­rou tu­do de ca­be­ça pa­ra bai­xo, cri­ou o pâ­ni­co e cor­tou com a tra­di­ção «this is a man’s world» nas­ci­da com a emer­gên­cia do be­bop: o Feminist Improvising Group (FIG). Meio en­sem­ble mu­si­cal, meio tru­pe de te­a­tro, foi par­ti­cu­lar­men­te afir­ma­ti­vo na co­lo­ca­ção em ce­na do fe­mi­nis­mo sáfico.

Nessa al­tu­ra, o jazz es­te­ve qua­se a ser que­er ou­tra vez (já lá va­mos, já lá va­mos), mas a coi­sa não pegou.

Depois de des­fei­to o FIG, pois as pro­du­to­ras te­mi­am a sua men­sa­gem e não o con­vi­da­vam, hou­ve uma pe­que­na ca­pi­tu­la­ção: o ter­mo «fe­mi­nist» dei­xou de vi­go­rar nos car­ta­zes, ain­da que no sub­se­quen­te The European Women’s Improvising Group e de­pois nas já alu­di­das Diaboliques se man­ti­ves­se a fi­lo­so­fia de ba­se. As úl­ti­mas che­ga­ram a apresentar-se nu­ma edi­ção do Jazz em Agosto, tra­zi­das por Rui Neves.

O FIG ti­nha de­tra­to­res até en­tre jazz­men. Malta de ideá­rio mar­xis­ta ou li­ber­tá­rio, mas que nem por is­so era me­nos se­xu­al­men­te fascista.

Um de­les foi Alexander von Schlippenbach, que in­ter­pe­lou o cu­ra­dor de um fes­ti­val em que o gru­po par­ti­ci­pou pa­ra fa­zer a se­guin­te, e es­can­da­lo­sa, re­cla­ma­ção: «Porque é que vo­cês con­vi­da­ram es­tas ti­pas, se elas nem se­quer sa­bem to­car? Muitos ho­mens que por aí es­tão fa­ri­am melhor.»

E quem eram as tais «ti­pas»? Entre ou­tras, a vo­ca­lis­ta Maggie Nicols, nes­te ví­deo com Mia Zabelka (es­te­ve no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia des­te ano) e John Russell.

E era a fa­go­tis­ta Lindsay Cooper, vin­da da ban­da de rock pro­gres­si­vo Henry Cow, ber­ço tam­bém de Fred Frith, e que aqui des­co­bri­mos a so­lar com a Mike Westbrook’s Orchestra. Julguem por vo­cês mesmos.

É assim que as miúdas tocam, pá!

Allison Miller

Allison Miller

Tem si­do con­tra es­ta for­ça de blo­queio que lu­ta a va­ga de fun­do arco-íris do jazz, com vis­ta a tor­nar es­te me­nos «abor­re­ci­do». Vaga de fun­do? Sim: con­si­de­ra Fred Hersch que é bem mai­or do que se jul­ga a quan­ti­da­de de que­ers que nes­te ti­po de mú­si­ca es­tão na clan­des­ti­ni­da­de, mas ou­tros além dos no­me­a­dos fi­ze­ram das blue no­tes o fun­da­men­to do seu ativismo.

Um de­les é a ba­te­ris­ta Allison Miller, lí­der dos Boom Tic Boom.

É uma dy­ke bem se­gu­ra de si e sem pa­pas na lín­gua. Nem ca­los na pon­ta dos de­dos: num tex­to pu­bli­ca­do na Internet, «You Don’t Play Like a Girl: Queer in a Jazz World», con­fes­sa o que adi­an­te se re­pro­duz em tra­du­ção livre:

«Quando en­trei na uni­ver­si­da­de ti­nha dois amo­res na vi­da: jazz e mu­lhe­res. Em ter­mos his­tó­ri­cos, jazz e mu­lhe­rio fa­zem uma boa com­bi­na­ção, mas ser uma mu­lher que gos­ta de jazz e de mu­lhe­res já não é tão clás­si­co. Passava os di­as a trans­cre­ver so­los de Miles Davis e as noi­tes a ca­çar ra­pa­ri­gas. Só que o jazz é um clu­be de ra­pa­zes. Como é que eu po­dia to­car es­ta mú­si­ca e ser uma fe­mi­nis­ta lés­bi­ca ra­di­cal? Disseram-me ve­zes de­mais que não to­co co­mo uma miú­da, achan­do que is­so era um elo­gio. Mas eu to­co co­mo uma miú­da, por­que sou uma miú­da. É as­sim que as miú­das to­cam, pá!»

Koko Jones

Koko Jones

Quem mais es­tá out e le­va o jazz por ca­mi­nhos co­lo­ri­dos? Não é pre­ci­so pro­cu­rar mui­to. Patricia Barber, que já ti­ve­mos por cá. Muito mi­li­tan­te, a atriz/cantora Lea Delari. E Ian Shaw, Dena DeRose (que pe­ga em stan­dards amo­ro­sos e mu­da os «he» que apa­re­cem nas le­tras pa­ra «she»), Kellye Gray, Ann Hampton Callaway. Fundamental, ain­da, o his­tó­ri­co Andy Bey.

E se jul­gam que a tran­se­xu­a­li­da­de não che­gou ao jazz, es­pe­rem. Têm pe­lo me­nos os ca­sos da per­cus­si­o­nis­ta Koko Jones, uma apai­xo­na­da dos rit­mos afro-cubanos que in­te­grou vá­ri­as for­ma­ções de Archie Shepp e da con­tra­bai­xis­ta Jennifer Leitham.

Desabafa Koko Jones: «O tra­ba­lho é tão es­cas­so por es­tes di­as que qual­quer ves­tí­gio de não-conformismo se­xu­al ou de gé­ne­ro in­flu­en­cia a de­ci­são do che­fe de uma ban­da na al­tu­ra de nos con­tra­ta­rem. Sabem co­mo nos sen­ti­mos ao despedirem-nos por ser­mos quem so­mos? Se o jazz tem tu­do que ver com li­ber­da­de e es­pi­ri­tu­a­li­da­de, co­mo é pos­sí­vel que não te­nha lu­gar pa­ra mú­si­cos transgénero?»

Jones re­sol­veu o pro­ble­ma na­qui­lo que lhe res­pei­ta: é ela a pa­troa agora.

Em Portugal, co­mo es­ta­mos? Bom, mais atrás do que no res­to do mun­do. Há uns pou­cos, pouquís­si­mos, mú­si­cos que­er, com vi­sões do jazz e da im­pro­vi­sa­ção que se po­dem dis­tin­guir da ge­ral nor­ma­ti­vi­da­de, mas não se apre­sen­tam co­mo tal e há que res­pei­tar a von­ta­de de per­ma­ne­ce­rem fe­cha­dos no mó­vel dos cabides.

Infelizmente já de­sa­pa­re­ci­do, até o me­nos es­con­di­do en­tre es­tes, Jorge Lima Barreto (tam­bém mu­si­có­lo­go), não fa­la­va nem es­cre­via so­bre a questão.

E se em tem­pos o co­fun­da­dor dos Telectu usou o te­ma da se­xu­a­li­da­de, foi ape­nas pa­ra re­fe­rir o ca­rác­ter «or­gás­ti­co» do free jazz. Passou-se até com ele um epi­só­dio hi­la­ri­an­te num pe­que­no te­a­tro de Algés há mui­to de­sa­pa­re­ci­do. Quando dis­ser­ta­va so­bre ou­tras ma­té­ri­as, mais cin­zen­tas, uma voz do pú­bli­co re­cla­mou: «Ó Jorge, fa­la mas é de sexo!»

Assim era a Jazz Age

Bessie Smith

Bessie Smith

Resta cum­prir o que anun­ci­ei um par de ve­zes. Dei a en­ten­der que o jazz po­de­rá es­tar a re­con­quis­tar a sua au­ra que­er por­que es­te mes­mo jazz, an­tes de dar nu­ma de ma­chis­mo, já foi que­er. E não só por­que um enor­me rol das su­as mai­o­res es­tre­las se iden­ti­fi­ca­va co­mo tal…

Na pri­mei­ra me­ta­de do sé­cu­lo XX, Bessie Smith, Ma Rainey, Billie Holiday, Carmen McRae, Alberta Hunter, Ethel Waters e Josephine Baker eram os­ten­si­va­men­te que­er. Rainey che­gou mes­mo a ser pre­sa por par­ti­ci­par nu­ma or­gia lésbica.

Tony Jackson, um co­la­bo­ra­dor de Jelly Roll Morton (es­te na épo­ca com uma se­gun­da pro­fis­são, a de pro­xe­ne­ta), Billy Strayhorn, o bra­ço di­rei­to de Duke Ellington, e Stéphane Grapelli, o in­ven­tor do vi­o­li­no fran­cês de jazz, eram gays mais ou me­nos descomplexados.

Billy Tipton, pi­a­nis­ta e com­po­si­tor da cha­ma­da Jazz Age que ago­ra es­tá a vol­tar a ser ou­vi­do com aten­ção, fo­ra ba­ti­za­do co­mo Dorothy Lucille Tipton mas não acei­tou o des­ti­no que as­sim lhe con­sig­na­ram: en­fai­xou os sei­os, ves­tiu rou­pas mas­cu­li­nas e vi­veu co­mo um ho­mem até à mor­te. Ninguém sa­bia do seu se­gre­do, a não ser, tal­vez, uma ou ou­tra amante.

Billy Tipton (ao centro)

Billy Tipton (ao centro)

E di­go tal­vez por­que, en­tre as mui­tas que se lhe co­nhe­ce­ram, al­gu­mas ad­mi­ti­ram pos­te­ri­or­men­te que nun­ca ti­nham vis­to o seu cor­po nu.

Tipton contava-lhes que as li­ga­du­ras se de­vi­am a um aci­den­te de au­to­mó­vel que lhe ti­nha afe­ta­do a cai­xa to­rá­ci­ca. Quanto a se­xo pe­ne­tra­ti­vo, bem, ele lá te­rá ar­ran­ja­do um pro­ce­di­men­to qualquer.

Eis uma amos­tra da sua es­cri­ta, pe­lo Billy Tipton Memorial Saxophone Quartet, com su­por­te de bateria.

Até Miles Davis dor­mia vol­ta e meia com ho­mens, não fa­zen­do dis­so es­pe­ci­al mis­té­rio. Sabe-se, igual­men­te, que Sun Ra ti­nha in­cli­na­ções ho­mos­se­xu­ais, mas não as pra­ti­ca­va. Sofria de uma hér­nia cró­ni­ca nas par­tes lá de bai­xo, com do­res permanentes.

Não fo­ram as per­so­na­li­da­des, por si só, que ca­rac­te­ri­za­ram o pas­sa­do que­er do jazz, foi o con­tex­to, e o con­tex­to des­ta mú­si­ca, até à sua de­fi­ni­ti­va in­te­lec­tu­a­li­za­ção com o bop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, es­ta­va nos ca­ba­rés, nos bor­déis, nos clu­bes no­tur­nos, nas «rent par­ti­es» em ca­sas par­ti­cu­la­res, nos «buf­fet flats» e nos «spe­a­ke­a­si­es».

Lugares fre­quen­ta­dos por que­ers em que o jazz se to­ca­va ao vi­vo, ha­via es­pec­tá­cu­los vá­ri­os e mui­to se­xo de di­ver­sos fei­ti­os e for­mas ia acon­te­cen­do, em pú­bli­co e em privado.

Afinal, o ter­mo jazz vem do ver­bo ca­lão «to jass», que quer di­zer «for­ni­car». Já aqui o in­di­quei… O es­tra­nho mes­mo é que nos anos 1920 e 30 do sé­cu­lo pas­sa­do a gen­te do jazz era, em com­pa­ra­ção, mais aber­ta. A can­ção «Boy in the Boat», de George Hanna, tem um ver­so com es­tes di­ze­res: «When you see two wo­men wal­king hand in hand, just sha­ke your he­ad and try to understand.»

Em «Sissy Man Blues», um te­ma tra­di­ci­o­nal de au­tor des­co­nhe­ci­do e mi­lhen­tas ve­zes in­ter­pre­ta­do, cantava-se «If you can’t bring me a wo­man, bring me a sis­sy man».

Pode ser que vol­te a ser as­sim, de­pen­den­do das mar­cas que os mú­si­cos que­er dei­xa­rem e da ca­pa­ci­da­de de mu­da­rem as men­tes mais pre­con­cei­tu­o­sas e con­di­ci­o­na­das. Talvez ve­nha­mos a ter um Peter Brotzmann bi­cho­na. De bo­tas car­da­das, mas à ma­nei­ra do Pink Bloc…

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?