«Perdido em Marte», de Ridley Scott, é um bom fil­me de fic­ção cien­tí­fi­ca, mas come­ça com uma bato­ta e aca­ba com uma impro­ba­bi­li­da­de.

Não pos­so falar da impro­ba­bi­li­da­de, por cau­sa dos spoi­lers, mas pos­so falar da bato­ta. O títu­lo do fil­me e os car­ta­zes já nos dizem que a his­tó­ria é sobre um astro­nau­ta per­di­do em Marte inter­pre­ta­do por Matt Damon, pelo que con­tar por que razão o homem ficou sozi­nho no pla­ne­ta ver­me­lho não estra­ga o fil­me a nin­guém.

O per­so­na­gem de Damon, Mark Watney, é lan­ça­do pelos ares numa for­te tem­pes­ta­de de areia. O saté­li­te prin­ci­pal da equi­pa de explo­ra­do­res é arran­ca­do da sua base de supor­te, coli­din­do com uma filei­ra de ante­nas de rece­ção. Com o bio­mo­ni­tor do fato ava­ri­a­do, sem dar sinais de vida à res­tan­te tri­pu­la­ção, Watney é dado como mor­to e aban­do­na­do no pla­ne­ta.

Qual é a bato­ta? O aci­den­te difi­cil­men­te pode­ria ter acon­te­ci­do. A atmos­fe­ra em Marte é tão rare­fei­ta que pos­sui 1 por cen­to da den­si­da­de da nos­sa. Isto sig­ni­fi­ca que a tem­pes­ta­de que obser­va­mos no fil­me nun­ca teria for­ça para arran­car saté­li­tes ou pro­je­tar astro­nau­tas pelos ares. Por cau­sa da sua fina atmos­fe­ra, uma ven­ta­nia de arran­car cabe­los na Terra tem a for­ça de uma sua­ve bri­sa de verão em Marte.

Não pen­sem que falo em bato­ta só para embir­rar. Uma das minhas séri­es de tele­vi­são pre­fe­ri­das já mos­trou uma bela mulher mon­ta­da num dra­gão e cri­a­tu­ras de gelo a res­sus­ci­tar as suas víti­mas, por­tan­to rea­li­da­des alter­na­ti­vas ou mun­dos de fan­ta­sia não me cha­tei­am nada – des­de que as suas pre­mis­sas irre­a­lis­tas fiquem logo esta­be­le­ci­das como regras às quais esses mun­dos obe­de­cem. Sem estas pre­mis­sas, um fil­me como «Matrix» pare­cer-nos-ia com­ple­ta­men­te absur­do.

No «Game of Thrones», fica ime­di­a­ta­men­te esta­be­le­ci­do nos pri­mei­ros epi­só­di­os que embo­ra Westeros e res­tan­tes ter­ri­tó­ri­os sejam fisi­ca­men­te pare­ci­dos com os nos­sos – a lei da gra­vi­da­de fun­ci­o­na da mes­ma manei­ra, o sol aque­ce, o gelo gela –, ali exis­tem, já exis­ti­ram ou vão exis­tir deu­ses de fogo, de gelo e outras cri­a­tu­ras sobre­na­tu­rais. Uma vez acei­te essa pre­mis­sa como fazen­do par­te da rea­li­da­de daque­le mun­do, não é o apa­re­ci­men­to de uma cri­a­tu­ra ala­da a cus­pir fogo que me vai fazer sen­tir enga­na­do e pen­sar «que irre­a­lis­ta, não exis­tem dra­gões no mun­do real».

Em «Perdido em Marte», tal como de res­to no livro «o Marciano» em que se baseia, esta­be­le­ce-se a pre­mis­sa de que aque­le é o Marte real, com os peri­gos e difi­cul­da­des do pla­ne­ta real enfren­ta­dos por um astro­nau­ta da NASA, não um Marte com uma atmos­fe­ra mais den­sa. Já para não falar dos peri­gos óbvi­os da expo­si­ção à radi­a­ção, pra­ti­ca­men­te igno­ra­dos no fil­me (e no livro).

Pondo estas mari­qui­ces de par­te, só pedia qua­tro coi­sas a Ridley Scott:

1

que o argu­men­to fos­se fiel ao espí­ri­to empre­en­de­dor e desen­ras­ca­do do astro­nau­ta que Andy Weir, autor de «O Marciano», ima­gi­nou para o livro;

2

man­ti­ves­se o des­pren­di­men­to na for­ma como Watney enfren­ta os pro­ble­mas, um humor pecu­li­ar e bre­jei­ro que se pega às pági­nas como poei­ra mar­ci­a­na e às vezes nos faz esque­cer que aque­le é um ter­rí­vel dra­ma de sobre­vi­vên­cia ao esti­lo náu­fra­go espa­ci­al;

3

o papel ful­cral da Ciência na sobre­vi­vên­cia de Watney fos­se res­pei­ta­do;

4

que a par­ti­ci­pa­ção chi­ne­sa na mis­são de sal­va­men­to não fos­se esque­ci­da ou mini­mi­za­da. Não bas­ta cri­ar heróis para agi­tar ban­dei­ri­nhas ame­ri­ca­nas, tam­bém con­vém mos­trar que a coo­pe­ra­ção entre seres huma­nos é mais impor­tan­te que as naci­o­na­li­da­des.

O filme deixa-nos também em Marte, o que já é muito bom

Tudo isto foi con­se­gui­do, em par­te gra­ças ao res­pei­to pelo mate­ri­al ori­gi­nal, em par­te devi­do ao bom tra­ba­lho de Matt Damon, pelo que saí do cine­ma satis­fei­to e bem entre­ti­do. Passar duas horas em Marte no con­for­to de uma sala de cine­ma é um luxo de que não abdi­co.

Robinson Crusoe on Mars

A sin­gu­lar situ­a­ção do astro­nau­ta Watney – for­ça­do a sobre­vi­ver sozi­nho num pla­ne­ta há mui­to aban­do­na­do pela vida (se esta algu­ma vez exis­tiu) – fez com que mui­ta gen­te o com­pa­ras­se à his­tó­ria de Robinson Crusoé, publi­ca­da em 1719.

O que tal­vez essa mal­ta des­co­nhe­ça é que a ideia de recon­tar a his­tó­ria de Daniel Defoe em con­tex­to mar­ci­a­no já foi fei­ta: «Robinson Crusoe on Mars», com um extra­ter­res­tre-escra­vo a fazer as vezes de «Sexta-fei­ra», é um fil­me ame­ri­ca­no de médio orça­men­to lan­ça­do em 1964 sem gran­de suces­so mas que é ago­ra uma obra de cul­to entre os aman­tes mais «hard­co­re» da fic­ção cien­tí­fi­ca.

O gigante e as criaturas insignificantes

«Perdido em Marte» não me faz lem­brar nenhum fil­me em espe­ci­al, mas alguns pla­nos – os que mos­tra­vam a deso­la­da soli­dão de Watney – fize­ram-me pen­sar num velhi­nho livro de Voltaire, esse geni­al sáti­ro, escri­tor e filó­so­fo que defen­dia a liber­da­de de expres­são e a sepa­ra­ção entre Igreja e Estado numa épo­ca em que os inqui­si­do­res ain­da quei­ma­vam bru­xas, infiéis e outras cri­a­tu­ras do demo.

(Já ago­ra: uma das cra­te­ras de impac­to de Deimos – a lua mais afas­ta­da das duas de Marte – cha­ma-se, pre­ci­sa­men­te, Voltaire.)

Voltaire escre­veu em 1752 um livri­nho de fic­ção cien­tí­fi­ca quan­do ain­da nin­guém sabia o que era a fic­ção cien­tí­fi­ca – e foi isto que des­per­tou o meu inte­res­se. «Micrómegas» é um pre­tex­to para sati­ri­zar ou ana­li­sar o pen­sa­men­to de filó­so­fos como Descartes, Aristóteles ou Leibniz, mas são os ele­men­tos de fic­ção cien­tí­fi­ca que inte­res­sam ago­ra no con­tex­to des­te post.

«Micrómegas» con­ta-nos a his­tó­ria de um ser que vive num dos pla­ne­tas em órbi­ta da estre­la Sírio. Micrómegas é o nome da cri­a­tu­ra, um ser gigan­tes­co com 36 qui­ló­me­tros de altu­ra que habi­ta um mun­do 21,6 milhões de vezes mai­or do que a Terra! Ao che­gar ao fim da infân­cia – 450 anos de ida­de –, publi­ca um tra­ba­lho cien­tí­fi­co sobre inse­tos de 30 metros de tama­nho, dema­si­a­do peque­nos para serem obser­va­dos ao micros­có­pio.

O livro não é bem rece­bi­do entre os seus com­pa­dres siri­a­nos. Alguns con­si­de­ram-no mes­mo uma here­sia.

Tem lugar um jul­ga­men­to que dura 200 anos. Ao fim des­se tem­po, o rapaz é bani­do duran­te um perío­do de 800 anos. Aproveita então para fazer uma via­gem pelo Universo.

De notar que a espe­ran­ça de vida média de um «siri­a­no» é de 10 milhões e meio de anos, pelo que a via­gem até ao nos­so Sistema Solar foi fei­ta nas cal­mas.

Durante a via­gem, tra­va conhe­ci­men­to com um satur­ni­a­no, um anão com menos de dois qui­ló­me­tros de altu­ra. Apesar das dife­ren­ças físi­cas, con­ver­sam como iguais, dão-se mui­to bem e deci­dem via­jar jun­tos, pas­san­do por Marte – um pla­ne­ta vazio e sem vida – e aca­ban­do por final­men­te che­gar à Terra. O satur­ni­a­no banha as per­nas nos oce­a­nos pro­fun­dos; o gigan­tes­co Micrómegas mal che­ga a molhar os tor­no­ze­los.

Acabam por des­co­brir um bar­co. Depois de um cui­da­do­so exa­me às micros­có­pi­cas cri­a­tu­ras que o bar­co trans­por­ta, con­clu­em que for­mas de vida tão insig­ni­fi­can­tes não devem con­ter inte­li­gên­cia ou espi­ri­tu­a­li­da­de. Quando des­co­brem que os minús­cu­los seres pare­cem con­ver­sar uns com os outros, Micrómegas usa um tubo pre­so à unha e encos­ta o dedo à ore­lha para os con­se­guir ouvir. Depois de apren­der a lín­gua e con­se­guir comu­ni­car, o nos­so sábio fica mui­to admi­ra­do com a ampli­tu­de da inte­li­gên­cia huma­na.

A par­tir daqui, Micrómegas con­ver­sa com os seres huma­nos sobre os ensi­na­men­tos de alguns filó­so­fos huma­nos e con­tra­põe os seus pró­pri­os conhe­ci­men­tos. Quando os minús­cu­los seres citam a tese do fra­de e filó­so­fo Tomás de Aquino, segun­do a qual todo o Universo foi fei­to exclu­si­va­men­te para a Humanidade, Micrómegas e o com­pa­nhei­ro satur­ni­a­no reben­tam à gar­ga­lha­da.

Voltaire

Voltaire

Que tem isto a ver com «Perdido em Marte»? Bem, nos pla­nos que o fil­me nos mos­tra a par­tir das ima­gens cap­ta­das pelos saté­li­tes geo­es­ta­ci­o­ná­ri­os em Marte, quan­do a NASA dete­ta e pas­sa a acom­pa­nhar as ati­vi­da­des do astro­nau­ta desa­pa­re­ci­do, per­ce­be-se como deve ter sido o olhar de Micrómegas sobre os tri­pu­lan­tes do bar­co.

Watney, con­tu­do, não con­si­de­ra que o Universo foi fei­to de pro­pó­si­to para a Humanidade – e por isso é capaz de sobre­vi­ver. Em vez da gar­ga­lha­da de Micrómegas, o fil­me evo­ca o res­pei­to pela inte­li­gên­cia e saga­ci­da­de de uma cri­a­tu­ra insig­ni­fi­can­te, mas notá­vel.

«Perdido em Marte» não é a saga de um Robinson Crusoé mar­ci­a­no, é uma ale­go­ria sobre o triun­fo da Ciência e da Razão. Numa épo­ca ain­da man­cha­da por supers­ti­ções, viga­ris­tas quân­ti­cos, sen­sa­ci­o­na­lis­moscons­pi­ra­ções anti-cien­tí­fi­cas, rea­li­zar um «block­bus­ter» com tal men­sa­gem só pode fazer bem a todos. Não admi­ra que a NASA tenha gos­ta­do tan­to do fil­me.

Marco Santos

­ Marco Santos

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