Os grandes assassinos em série da história da humanidade são, regra geral, homens. O poder de tirar a vida aos outros surgiu aos olhos de todos como coisa masculina. Essa foi, aliás, uma das razões – implícita, não anunciada – que levaram a que, até há pouco, os exércitos fossem constituídos exclusivamente por quem nasceu com um penduricalho entre as pernas.

A mulher gera vida; o homem tem a capacidade de a roubar – é esse ainda hoje o pressuposto existente. Ainda que se saiba não ter correspondência com a realidade. Elas também matam (figurativa e literalmente), e fazem-no com especiais requintes de crueldade.

Sabe-se isso desde que, no tempo de Shakespeare, uma condessa húngara de nome Erzsébet Bathory fez com que desaparecessem dezenas, senão centenas, de jovens virgens.

Erzsébet acreditava que o sangue de raparigas «ainda não corrompidas pelo amor» a manteria sempre bela, pelo que mandava raptar as camponesas adolescentes do seu condado e sangrava-as até à morte para as beber na fonte.

Chegou mesmo a conceber um escafandro de metal com espigões no interior onde eram metidas as pobres criaturas para que o precioso líquido jorrasse das feridas e chegasse aos seus lábios.

É essa a história que nos conta o álbum de banda desenhada «Erzsébet», agora lançado pela Chili Com Carne. O seu autor responde pelo nome de Nunsky e é português. Antes deste livro só uma vez foi publicado – o seu «88», de 1997, saiu no nº 13 da zine Mesinha de Cabeceira.

Assinale-se que com o mesmo tipo de temática psico-gótica, com referência nos Love & Rockets e em Charles Burns.

Depois, Nunsky desapareceu de cena e daí que a CCC o apresente como «um cometa da BD underground portuguesa». «Como sabemos, os cometas costumam regressar passado algum tempo», comenta a editora.

Ou melhor: desapareceu da banda desenhada, mas circulou por aí como vocalista da banda (gótica, como não podia deixar de ser) The ID’s, que tanto quanto sei já não está ativa. Nunsky trocara a BD pela música e agora trocou a música pela BD. Para mim, faz todo o sentido, dada a velha cumplicidade entre ambas as disciplinas artísticas.

O que não deixa de ser interessante é que seja um homem a recordar o caso de Erzsébet. É o mito da «vagina dentata» que aqui resplandece, apesar de a condessa não representar uma direta ameaça à masculinidade: as suas vítimas foram outras mulheres.

O emparedamento da assassina simboliza, de qualquer modo, o medo que uma sociedade gerida por homens tem de uma mulher que detém o poder da morte. Ou, simplesmente, que detém o poder.

Com cada vez mais mulheres à frente dos destinos económicos e políticos do mundo, já se compreendeu que elas não tomaram o poder para alterar o sistema por dentro, ao contrário do que ansiava o movimento feminista. Antes o tornam ainda mais naquilo que é.

Uma mulher no poder é mais homem do que qualquer homem, mais dura, mais autoritária, mais patriarcal. Conheci empresárias que são como Erzsébets dos negócios, ainda que só matem virtualmente.

E é claro que a macharia não aprecia que haja quem seja mais macho do que eles, ainda por cima quando veste saia. «Erzsébet», o livro, é o relato implícito, emudecido, de um receio: o de que a morte escape definitivamente ao controlo masculino.

Afinal, é a morte que conduz cada um e todos os passos da humanidade, tal e qual como vem anunciando a estética gótica em todas as suas formas. Nunsky recorda-nos isso mesmo com esta edição…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?