Morreu on­tem, 13 de Março. Um quis­to can­ce­ro­so que lhe sur­giu no pes­co­ço cri­ou me­tás­ta­ses e es­tas afetaram-lhe os pul­mões. Já não ti­nha fô­le­go pa­ra can­tar e pa­ra de­cla­mar a sua poesia.

Deixou-nos, aos 77 anos de ida­de, uma das mai­o­res fi­gu­ras de re­fe­rên­cia do psi­ca­de­lis­mo e do rock pro­gres­si­vo. Quando vi­via em Londres, o gui­tar­ris­ta e com­po­si­tor aus­tra­li­a­no fun­dou os Soft Machine com Robert Wyatt e, mais tar­de, já ra­di­ca­do em França, deu iní­cio à ati­vi­da­de dos não me­nos im­por­tan­tes Gong.

Gong

Era, tam­bém, um dos úl­ti­mos gran­des po­e­tas be­at, sob o no­me Divided Alien. Privou com William S. Burroughs e Brion Gysin, que ne­le ex­pe­ri­men­ta­ram a sua dre­am ma­chi­ne, e tam­bém com Robert Graves.

No com­po­si­tor mi­ni­ma­lis­ta Terry Riley te­ve ou­tro com­pa­nhei­ro: iam jun­tos aos clu­bes de jazz do Quartier Latin de Paris.

Influenciado pe­la fi­lo­so­fia cós­mi­ca de Sun Ra, che­gou a ter um gru­po de free jazz, o Daevid Allen Trio. Aliás, o jazz es­te­ve sem­pre pre­sen­te na mú­si­ca que com­pu­nha e to­ca­va até mui­to recentemente.

O pri­mei­ro ál­bum dos seus Gong, «Magick Brother», foi mes­mo edi­ta­do por uma eti­que­ta do free, a BYG Actuel.

Manteve-se, até ao fim, co­mo um hip­pie, vestindo-se com rou­pas ex­tra­va­gan­tes e usan­do ca­be­lo lon­go. Mas era um hip­pie com cons­ci­ên­cia po­lí­ti­ca. Um an­ti­ca­pi­ta­lis­ta con­vic­to. Participou nos le­van­ta­men­tos do Maio de 68, mas em vez de ati­rar pe­dras con­tra os po­lí­ci­as, atacava-os com ur­si­nhos de peluche.

Viveu em co­mu­nas anar­quis­tas. Dedicou uma can­ção ao mo­vi­men­to Occupy. Afirmou-se mes­mo que, sem ele, o punk não te­ria exis­ti­do. Porquê? Porque sem Soft Machine não ha­ve­ria uns Pink Floyd e sem Pink Floyd os punks não en­con­tra­ri­am na­da pa­ra destruir.

Entre os mi­lha­res de co­men­tá­ri­os que o seu de­sa­pa­re­ci­men­to sus­ci­tou no Facebook, al­guém de­se­jou que Daevid, lá on­de ago­ra vi­ve, pu­des­se tornar-se num Buda. Outro fã contra-argumentou que Buda já ele o era há al­gum tem­po, en­tre nós.

«Camembert Eléctrique», ál­bum de 1971 dos Gong, é uma das obras-primas da mú­si­ca do sé­cu­lo XX. A fór­mu­la te­ve al­gu­mas va­ri­an­tes: Planet Gong e Mother Gong fo­ram du­as de­las e até exis­tiu um New York Gong, quan­do Allen se as­so­ci­ou a Bill Laswell pa­ra fa­zer al­go que, sur­pre­sa, sur­pre­sa, de­no­ta­va gran­de in­fluên­cia do… punk.

Assim co­mo hou­ve um Acid Mothers Gong, quan­do com o mú­si­co co­la­bo­ra­ram os mem­bros da ban­da ja­po­ne­sa Acid Mothers Temple. E hou­ve a Gong Global Family, que in­cluiu ins­tru­men­tis­tas brasileiros.

Nas úl­ti­mas dé­ca­das Daevid Allen fez mais do que re­a­li­men­tar o pro­je­to Gong (quan­do lhe ape­te­cia, por­que nor­mal­men­te deixava-os se­guir o seu ru­mo sem ele) com no­vos ma­te­ri­ais. Tocou com o gru­po de jazz-rock Brainville 3. Improvisou com os Guru and Zero. Contribuiu pa­ra o noi­se da Big City Orchestra. Participou em atu­a­ções da Invisible Opera Company of Tibet.

Daevid Allen, por Thomas Butler

Daevid Allen, por Thomas Butler

Duas se­ma­nas an­tes de dar o úl­ti­mo sus­pi­ro, Daevid ain­da se atre­veu a uma lei­tu­ra pú­bli­ca dos seus po­e­mas. O te­ma foi a morte:

For what is it to die but to stand na­ked in the wind and to melt in­to the sun?
And what is it to ce­a­se bre­athing but to free the bre­ath from its res­tless ti­des, that it may ri­se and ex­pand and se­ek God unencumbered?
Only when you drink from the ri­ver of si­len­ce shall you in­de­ed sing.
And when you ha­ve re­a­ched the moun­tain­top, then you shall be­gin to climb.
And when the earth shall claim your limbs, then shall you truly dance.

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?