Este arti­go é dedi­ca­do ao Daniel Lourenço e ao Bruno Cadinha, do cole­ti­vo trans-que­er-femi­nis­ta Lóbula. Quando os con­vi­dei a faze­rem o DJ set do lan­ça­men­to na SMUP do meu livro «Anarco-Queer? Queercore!» pedi­ram-me para incluir na sua sele­ção de dis­cos, além do rock que­er, algum hip-hop.

Porque gos­tam, e o Bruno tan­to, tan­to que na altu­ra em que eu escre­via estas linhas tinha de inven­tar uns slo­gans para o Arraial Pride e não con­se­guia, só de pen­sar que o Le1f vinha a Lisboa. 

Já per­ce­be­ram pela minha pro­sa ante­ri­or no Bitaites que a que­er­ness do jazz não é espe­ci­al­men­te polí­ti­ca, quan­do com­pa­ra­da com o mili­tan­tis­mo daque­la par­te do que­er­co­re que se man­te­ve fiel às suas pre­mis­sas ori­gi­nais.

Pudera, saben­do que a mai­or rei­vin­di­ca­ção daí saí­da foi o casa­men­to gay. Numa altu­ra em que o amor ins­ti­tu­ci­o­nal hete­ro está em cri­se, com­pre­en­de-se a iro­nia. Dá para per­ce­ber, por um lado, que o jazz se abur­gue­sou, e dá para per­ce­ber, por outro, que exis­te infe­liz­men­te um outro nor­ma­ti­vis­mo, o homos­se­xu­al.

Ora, o hip-hop que­er é mais esquer­dis­ta e ain­da bem, embo­ra não pos­sa­mos nova­men­te com­pa­rá-lo com as lutas desen­vol­vi­das por Lynn Breedelove e G.B. Jones à vol­ta do punk hard­co­re. Aliás, o con­tex­to de negó­cio que defi­ne o hip-hop é tam­bém o do seu nicho LGBTIQ, e quan­do tal não se veri­fi­ca numa von­ta­de de afir­ma­ção enquan­to indús­tria musi­cal, as liga­ções com a indús­tria da moda são óbvi­as.

Cakes da Killa

Cakes da Killa

A cul­pa é do voguing, pois cla­ro. A dan­ça requer rou­pi­nha a con­di­zer e os tra­pos sig­ni­fi­cam dinhei­ro, mui­to dinhei­ro. Não estra­nha, aliás, que algu­mas figu­ras mai­o­res do hip-hop com as cores do arco-íris tenham che­ga­do ao mains­tre­am e sejam ago­ra íco­nes trendy, fashi­on e hype.

Desabafa, a pro­pó­si­to, uma das cri­a­tu­ras fla­me­jan­tes des­te uni­ver­so musi­cal, Fly Young Red: «Gay ou direi­ti­nho, está tudo subor­di­na­do ao dólar.»

Exato. Isto são con­sequên­ci­as de se viver numa soci­e­da­de capi­ta­lis­ta. Para gri­tar na rua «con­tra o capi­tal, pra­zer anal» (fra­se do Pink Bloc na recen­te Marcha do Orgulho, com­ple­ta­da com os dize­res «con­tra o Vaticano, pra­zer cli­to­ri­di­a­no; con­tra o patri­ar­ca­do, pra­zer por todo o lado») temos de nos sub­me­ter às regras eco­nó­mi­cas vigen­tes.

Que remé­dio: é o que faze­mos nas nos­sas vidas todos os dias, por mais anti­ca­pi­ta­lis­tas que seja­mos. Basta irmos ao super­mer­ca­do.

Se o jazz é machis­ta, misó­gi­no, chau­vi­nis­ta, homo­fó­bi­co e trans­fó­bi­co, como aqui escre­vi há uns tem­pos, o que dizer do hip-hop? É tudo isso igual­men­te, mas ele­va­do ao cubo e com bra­va­ta. De res­to, como há rimas nes­te outro géne­ro musi­cal do nos­so tem­po essa car­ga ain­da fica mais evi­den­te.

O que fazem os rap­pers que­er em apli­ca­ção da máxi­ma «sho­ot back»? Utilizam a mes­mís­si­ma vio­lên­cia ver­bal, mas com outro con­teú­do. E nis­so, na lin­gua­gem, na men­sa­gem, são até capa­zes de ser mais extre­mis­tas do que foram e são os punks pink. Valha-nos tal par­ti­cu­la­ri­da­de e daí o sen­ti­do de o Daniel e o Bruno pas­sa­rem temas hip-hop numa noi­te que­er­co­re.

Até eu dan­cei, seguin­do o con­se­lho revo­lu­ci­o­ná­rio de Emma Goldman…

Para sabe­rem do que estou a falar fica aqui uma gale­ria com «quem é quem» no hip-hop que­er. E o pri­mei­ro é Le1f, ima­gi­no que para gran­de satis­fa­ção do Bruno…

1 Le1f

Le1f

De seu ver­da­dei­ro nome Khalif Diouf, este nova-ior­qui­no de nome islâ­mi­co com­bi­na uma cos­te­la empre­sa­ri­al (é o res­pon­sá­vel da edi­to­ra Camp & Street, sub­si­diá­ria da Greedhead Music) com um con­cei­to musi­cal e de espec­tá­cu­lo (tem for­ma­ção em bal­let e dan­ça con­tem­po­râ­nea) alta­men­te sub­ver­si­vo.

Aliás, o seu pri­mei­ro álbum teve como títu­lo «Riot Boi».

Não será pro­pri­a­men­te o «ban­quei­ro anar­quis­ta» de Fernando Pessoa, mas o para­do­xo anda lá per­to… Tudo bem, por­que ser rap­per e gay em simul­tâ­neo é, por si só, uma impro­ba­bi­li­da­de. Ainda assim, diz que não quer ser ouvi­do e vis­to como um «rap­per gay». É rap­per e gay, e pron­to.

E é, aci­ma de tudo, um orgu­lho­so afro-ame­ri­ca­no: «Ask a gay ques­ti­on / Here’s a black answer.»

2 Mykki Blanco

Mykki Blanco

Ainda mais emble­má­ti­co no seg­men­to que­er do hip-hop é Michael Quattlebaum, conhe­ci­do por Mykki Blanco. Californiano de ori­gem e com um pas­sa­do na per­for­man­ce-arte, tem-se afir­ma­do igual­men­te como poe­ta, sen­do o autor do livro «From the Silence of Duchamp to the Noise of Boys».

Ou seja, é um inte­lec­tu­al. E se se con­fes­sa influ­en­ci­a­do pelo que­er­co­re e pelo movi­men­to riot grr­rls, dife­ren­te­men­te da gene­ra­li­da­de des­tes MCs, mais notá­vel é o fac­to de bus­car ins­pi­ra­ção em figu­ras das Letras como Jean Cocteau e Anais Nin.

É um cama­leão, cons­tan­te­men­te mudan­do de visu­al e de per­so­na­gem. Afirma ele que não é ape­nas trans­gé­ne­ro, mas mul­ti­gé­ne­ro, con­so­an­te lhe man­dam a alma e o cor­po. Em 2011, des­co­briu que é HIV posi­ti­vo.

A sua recen­te pas­sa­gem por Lisboa, para um con­cer­to na ZDB, este­ve envol­ta em polé­mi­ca. Desentendeu-se com um polí­cia no aero­por­to, por este não lhe ter que­ri­do indi­car onde podia com­prar um vou­cher. «Vai-te embo­ra, ó bicha», ter-lhe-á dito o homem de azul, com Mykki a res­pon­der com um «fuck you». Foi deti­do por «resis­tên­cia à auto­ri­da­de» e depois mul­ta­do.

Mal sabia ele qual é a regra núme­ro um em Portugal para um que­er que não quei­ra ser agre­di­do ou pre­so: não fales com bófi­as…

3 Rainbow Noise

Ativismo que­er e busi­ness as usu­al con­fun­dem-se no caso do colec­ti­vo Rainbow Noise. O nome ser­ve tan­to para iden­ti­fi­car o pes­so­al que ouvi­mos aqui como a empre­sa do Pacific Northwest ame­ri­ca­no que por detrás pro­cu­ra repre­sen­tar os «artis­tas LGBTQ que tenham pro­jec­ção mains­tre­am», qua­se como se fos­se uma ordem cor­po­ra­ti­va ou um sin­di­ca­to «ame­ri­can sty­le».

A com­pa­nhia jun­ta todo o tipo de pro­fis­si­o­nais liga­dos ao rap, des­de os músi­cos pro­pri­a­men­te ditos a vide­as­tas, fotó­gra­fos, escri­to­res, cos­tu­rei­ros e mode­los. As polí­ti­cas de «esquer­da» já não são o que eram. Fica o impac­to de ver­sos como «next time you see me in the club / don’t for­get the butt plug».

4 Brooke Candy

Brooke Candy

A liga­ção do hip-hop que­er ao mun­do da moda fica par­ti­cu­lar­men­te explí­ci­ta no caso de Brooke Candy. A auto­ra de «I Wanna Fuck Right Now» usa habi­tu­al­men­te fatos do esti­lis­ta Nicola Formichetti que repro­du­zem o ima­gi­ná­rio da fic­ção cien­tí­fi­ca cyber-punk e da cul­tu­ra ban­da-dese­nhís­ti­ca dos super-heróis.

Os biquí­nis metá­li­cos que vem uti­li­zan­do nos pal­cos e em vídeo têm fei­to furor, riva­li­zan­do em ima­gi­na­ção até com as extra­va­gan­tes ves­ti­men­tas de Lady Gaga.

Filha de um dos dire­to­res da revis­ta eró­ti­ca Hustler e uma anti­ga strip-tea­ser, Brooke já foi des­cri­ta como uma «ali­e­ní­ge­na glam femi­nis­ta». Empenhada defen­so­ra de tudo o que é fre­ak e fora-da-lei, iden­ti­fi­ca-se, sim­ples­men­te, como uma Q: «Q for Queer or Question Mark», à vos­sa esco­lha.

5 House of Ladosha

House of Ladosha

E já que se fala de fic­ção cien­tí­fi­ca, fiquem a conhe­cer a músi­ca de Antonio Blair (ou Dosha Devastation) e Adam Radakovich (ou Cunty Crawford).

São eles a dupla House of Ladosha, conhe­ci­da pela sua com­bi­na­ção do hip-hop com a elec­tró­ni­ca pós-indus­tri­al e uma boa dose de expe­ri­men­ta­lis­mo.

O cená­rio é apo­ca­líp­ti­co, deca­den­te, depri­men­te, lou­co. Uma delí­cia, em suma.

Conta Blair: «Dizemos mer­das que se calhar alguns rap­pers tam­bém que­rem dizer, mas não o fazem por esta­rem no armá­rio ou terem medo. Nós esta­mo-nos nas tin­tas. Apenas que­re­mos fazer músi­ca de bai­xos pro­fun­dos que mos­trem as cabras que somos.»

6 Cakes da Killa

Cakes da Killa

O desar­man­te Rashard Bradshaw é de New Jersey, a cida­de dos Estados Unidos onde há mais por­tu­gue­ses. O «Cakes» do nome artís­ti­co tal­vez tenha que ver com o fac­to de ser fofi­nho, mas não é ape­nas isso. E é mui­to mais do que um bacha­rel em… hmmm… Fashion Studies.

Pode ter cara de bebé, mas rap­pa como um mada­fac­ka, ou seja, como alguém bem capaz de nos dar um valen­te par de esta­los. Já comen­tou, por exem­plo, o que segue: «No hip-hop há gen­te que glo­ri­fi­ca a nega­ti­vi­da­de, tal como matar pes­so­as e não cui­dar dos filhos – isso é que devia ser escan­da­lo­so e moti­vo de fala­tó­rio, não haver um rap­per gay como eu.»

Tivemo-lo no dia 2 de Julho entre nós. Atuou no Musicbox, em Lisboa…

7 Angel Haze

Angel Haze

De ascen­dên­cia afri­ca­na e che­ro­kee, Raeen Roes Wilson é uma sobre­vi­ven­te do fun­da­men­ta­lis­mo cris­tão e do abu­so sexu­al infan­til. Contesta o bina­ris­mo de géne­ro ( per­gun­ta «are you a boy or a girl?» res­pon­de com um rotun­do «no») e con­si­de­ra-se pan­se­xu­al.

«Se me fize­res sen­tir algu­ma coi­sa, se me fize­res rir – e olha que é difí­cil –, pos­so estar con­ti­go. Não me inte­res­sa se tens uma vagi­na, se és her­ma­fro­di­ta ou seja o que for», comen­ta. «No, I’m not gay / No, I’m not straight / And I sure as hell am not bise­xu­al / Damn it I am who­e­ver I am when I am it», ouvi­mo-la decla­mar num dos seus temas.

A músi­ca, expli­cou tam­bém, ser­ve para «vomi­tar» todos os seus demó­ni­os e tem-no fei­to sem par­ci­mó­nia.

8 God-Des & She

God-Des & She

A dupla God-Des & She é cons­ti­tuí­da por Alicia Smith e Tina Gassen, deven­do boa par­te do seu suces­so à par­ti­ci­pa­ção na série tele­vi­si­va «The L Word», que por cá vimos nos ser­vi­ços por cabo.

São do esta­do mais macho de todos os EUA, Texas, e tal­vez isso expli­que o seu mili­tan­tis­mo anti- bullying, em ações esco­la­res de escla­re­ci­men­to – pelo menos nas esco­las que até ago­ra per­mi­ti­ram a sua entra­da, por­que há outras que nem de lon­ge que­rem ver este casal de lés­bi­cas orgu­lho­sas.

9 Big Freedia

Big Freedia

Freddie Ross, ou Big Freedia para os fãs, é um pilar de New Orleans e do tipo mui­to pró­prio de hip-hop que se pra­ti­ca na cida­de, o boun­ce. Trata-se, aliás, de um dos «inven­to­res» des­te sub­gé­ne­ro.

Tem voz gros­sa e um cor­pan­zil de meter medo, mas pre­fe­re que a tra­tem por «ela», mes­mo não sen­do trans­gé­ne­ro: «Uso cabe­lei­ra de mulher e mala de mão, mas sou ape­nas um homem gay.»

Aliás, é ter­ri­vel­men­te pare­ci­da de cara com a minha ami­ga Zé (olá, sau­da­des tuas!), que nem por aca­so tam­bém anda pelo hip-hop com o nome Mama G. Na vol­ta, são pri­mas, eheheheh.

A Freedia é tão popu­lar pelo Louisiana que tem o seu pró­prio rea­lity show e foi-lhe enco­men­da­da uma auto­bi­o­gra­fia, «God Save the Queen Diva». Diva? Pois podem ter a cer­te­za de que se com­por­ta como uma Castafiori.

Em para­le­lo, diri­ge outro negó­cio, uma fir­ma de deco­ra­ção de inte­ri­o­res. Eu sei, eu sei, é um cli­ché…

10 Cazwell

Cazwell

Se o twer­king que sur­ge nos con­cer­tos e nos clips de Big Freedia é o tra­di­ci­o­nal­men­te femi­ni­no, aqui está um dos intro­du­to­res do twerk fei­to com glú­te­os de homem: Cazwell, ou melhor, Luke Caswell.

O seu tra­ba­lho é sobre­tu­do difun­di­do pelo canal de tele­vi­são Logo, diri­gi­do à comu­ni­da­de LGBT, mas mes­mo aí o seu tema «All Over Your Face» foi bani­do, por ser dema­si­a­do explí­ci­to. Como assim? Bom, des­cre­via a manei­ra como uma cer­ta subs­tân­cia esbran­qui­ça­da se espa­lha­va na nos­sa cara depois de o rapaz nos dedi­car uns minu­tos.

E sabem que mais? O Cazwell é tam­bém mode­lo de rou­pa inte­ri­or. Os anún­ci­os em que apa­re­ce com as cue­cas ide­a­li­za­das por Geoffrey Mac dei­xa­ram mui­ta gen­te com arrit­mi­as do cora­ção e a duvi­dar se o neo­li­be­ra­lis­mo é assim tão mau como isso.

11 Fly Young Red

No que ao twer­king mas­cu­li­no diz res­pei­to, Franklin «Fly Young Red» Randall é o cam­peão. O vídeo que lan­çou a can­ção «Throw That Boy Pussy» e a pró­pria can­ção caí­ram como uma bom­ba nos mei­os do rap.

Dizer nes­te meio que tam­bém os rapa­zes têm uma pata­re­ca era ini­ma­gi­ná­vel. O incrí­vel mes­mo é que até entre homos hou­ve nari­zes a tor­ce­rem-se. O Red enco­lhe os ombros e segue em fren­te: «Eu sei que “boy pus­sy” não é o ter­mo mais poli­ti­ca­men­te cor­re­to, mas vá lá, nin­guém pode­rá dizer que este não é um tema bem-dis­pos­to.»

12 RoXXxan

RoXXxan

Da Grã-Bretanha, eis RoXXxan, uma anti­ga ven­de­do­ra de cos­mé­ti­cos que, nos tem­pos livres, é pugi­lis­ta e faz umas piru­e­tas de BMX.

A sua rapi­dís­si­ma ascen­são para o estre­la­to levou a Polydor a con­tra­tá-la. Lá se foi o elã indie que a rode­a­va, mas não a qua­li­da­de, que é enor­me.

Faz par­te do Backpack Gang — não é pro­pri­a­men­te um gan­gue, mas uma ope­ra­ção de mar­ke­ting e mer­chan­di­sing «lifesty­le» diri­gi­da, como ela diz, a «tom­boys, mis­fits, gan­ja babi­es, rebels and outlaws». Ou seja, há mas­sa a ganhar até jun­to de quem con­tes­ta a soci­e­da­de.

13 Will Sheridan

Will Sheridan

É outro des­por­tis­ta, este do lado nor­te-ame­ri­ca­no do Atlântico. E de topo, pois Will Sheridan ganhou fama como bas­que­te­bo­lis­ta no cir­cui­to uni­ver­si­tá­rio. O seu «coming out» acon­te­ceu depois de aban­do­nar os cam­pos. Só depois; nes­tes ain­da vigo­ra a máxi­ma «don’t ask don’t tell».

O seu aplau­di­do pas­sa­do como atle­ta e o nome que ganhou como rap­per tor­na­ram-no ain­da num mui­to bem-suce­di­do empre­sá­rio. É o mana­ger de uma com­pa­nhia de… adi­vi­nham?… moda, mas isso não o impe­de de defen­der o radi­ca­lis­mo que­er.

O que ele pen­sa: «Sou negro e sou gay, uma mino­ria ao qua­dra­do. Talvez haja algum miú­do por aí que se sin­ta mal con­si­go mes­mo, olhe para mim e diga: “Ok, ele jogou bas­que­te, tem uma car­rei­ra musi­cal e faz a sua vida. É quem que­ria ser e está feliz, con­fi­an­te e con­for­tá­vel. Eu que­ro ser como ele.” Sinto que a minha res­pon­sa­bi­li­da­de é falar des­tas coi­sas.»

Dá o exem­plo e age. Fundou a Ruiru Rising, uma orga­ni­za­ção que finan­cia o abri­go e a edu­ca­ção de órfãos e cri­an­ças de famí­li­as pobres do Quénia, país que habi­tu­al­men­te visi­ta e cuja músi­ca popu­lar influ­en­ci­ou a sua.

14 QBoy

QBoy

E aqui têm o Marcos José Brito, bri­tâ­ni­co filho de espa­nhol que ora dá pelo nome de QBoy, ora se apre­sen­ta como Sam LeMans.

Foi repe­ti­das vezes espan­ca­do na esco­la e está ago­ra envol­vi­do num pro­gra­ma do LGBT Excellence Centre Wales de com­ba­te à homo­fo­bia entre ado­les­cen­tes. Antigo jor­na­lis­ta, apre­sen­tou no Channel 4 há qua­se uma déca­da um docu­men­tá­rio tele­vi­si­vo, «Coming Out to Class», que teve como ime­di­a­ta con­sequên­cia o apoio à ini­ci­a­ti­va do Parlamento do Reino Unido.

15 Big Dipper

Os bears da comu­ni­da­de gay têm em Big Dipper o seu por­ta-estan­dar­te: é gran­de, pelu­do e peri­go­so, ape­sar do ar bona­chei­rão. «Geralmente, sou uma pes­soa ale­gre e cheia de boas vibra­ções que gos­ta de se diver­tir», apre­sen­ta-se ele.

Tudo o que faz vai beber à cul­tu­ra pop e ao seu ima­gi­ná­rio cine­ma­to­grá­fi­co e tele­vi­si­vo, com inclu­são nos vide­o­clips de situ­a­ções que viu no «Bambi» da Disney, em «Pretty Woman» ou wha­te­ver. As suas letras explo­ram o non-sen­se até à gar­ga­lha­da, mas con­ti­nu­am a ter temá­ti­ca sexu­al.

«No rap hete­ro fala-se sobre rabos de mulhe­res, fes­tas, dinhei­ro e gan­zas, por­que é essa a expe­ri­ên­cia de vida daque­les tipos. O que eu faço segue essa carac­te­rís­ti­ca: rap­po sobre gajos, bro­ches e flui­dos cor­po­rais», expli­ca este MC com for­ma­ção em tea­tro.

Teatro, sim, e é isso o que ele faz mui­to cons­ci­en­te e pro­po­si­ta­da­men­te. Afirma, inclu­si­ve, que é uma per­so­na­gem e que esta visa o puro, que não ino­cen­te, entre­te­ni­men­to: «Não faço polí­ti­ca e sim can­ções sobre pra­zer car­nal. Desse modo, sem dizer poli­ti­ca­men­te nada de con­cre­to, digo tudo.»

16 Zebra Katz

Zebra Katz

Uau. Repito: uau. Ojay Morgan, aka Zebra Katz, é um exem­plo de que não tem razão quem diz que o hip-hop que­er «isn’t good enough».

Pronto, é outro caso de pro­xi­mi­da­de des­ta músi­ca com o esti­lis­mo e a super­fi­ci­a­li­da­de que envol­ve esse meio, por via do desig­ner Rick Owens, mas que se lixe. Dá gos­to ouvir o «dark lord and vil­lain of the fashi­on world», para uti­li­zar as pala­vras do pró­prio Morgan sobre esta outra per­so­na.

A filo­so­fia por detrás dis­to é, sem dúvi­da, de com­ba­te, e esta­va expos­ta mui­to antes de Orlando: «Precisamos de uti­li­zar a nos­sa sexu­a­li­da­de como uma arma con­tra quem nos ata­ca, em vez de dei­xar­mos que a usem con­tra nós.» Pumba, vai bus­car…

17 Tender Bender

Tender Bender

Projeto por­tu­guês reu­nin­do a voz de V e a ele­tró­ni­ca de Aim, das Anarchicks. Não é hip-hop pro­pri­a­men­te, mas está enchar­ca­do des­te, pelo menos tan­to quan­to de punk e pop e músi­ca de dan­ça.

É que­er, é femi­nis­ta, é ir ao cer­ne das ques­tões, é enfi­ar o dedo na feri­da.

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?