Este ar­ti­go é de­di­ca­do ao Daniel Lourenço e ao Bruno Cadinha, do co­le­ti­vo trans-queer-feminista Lóbula. Quando os con­vi­dei a fa­ze­rem o DJ set do lan­ça­men­to na SMUP do meu li­vro «Anarco-Queer? Queercore!» pediram-me pa­ra in­cluir na sua se­le­ção de dis­cos, além do rock que­er, al­gum hip-hop.

Porque gos­tam, e o Bruno tan­to, tan­to que na al­tu­ra em que eu es­cre­via es­tas li­nhas ti­nha de in­ven­tar uns slo­gans pa­ra o Arraial Pride e não con­se­guia, só de pen­sar que o Le1f vi­nha a Lisboa.

Já per­ce­be­ram pe­la mi­nha pro­sa an­te­ri­or no Bitaites que a que­er­ness do jazz não é es­pe­ci­al­men­te po­lí­ti­ca, quan­do com­pa­ra­da com o mi­li­tan­tis­mo da­que­la par­te do que­er­co­re que se man­te­ve fi­el às su­as pre­mis­sas ori­gi­nais.

Pudera, sa­ben­do que a mai­or rei­vin­di­ca­ção daí saí­da foi o ca­sa­men­to gay. Numa al­tu­ra em que o amor ins­ti­tu­ci­o­nal he­te­ro es­tá em cri­se, compreende-se a iro­nia. Dá pa­ra per­ce­ber, por um la­do, que o jazz se abur­gue­sou, e dá pa­ra per­ce­ber, por ou­tro, que exis­te in­fe­liz­men­te um ou­tro nor­ma­ti­vis­mo, o ho­mos­se­xu­al.

Ora, o hip-hop que­er é mais es­quer­dis­ta e ain­da bem, em­bo­ra não pos­sa­mos no­va­men­te compará-lo com as lu­tas de­sen­vol­vi­das por Lynn Breedelove e G.B. Jones à vol­ta do punk hard­co­re. Aliás, o con­tex­to de ne­gó­cio que de­fi­ne o hip-hop é tam­bém o do seu ni­cho LGBTIQ, e quan­do tal não se ve­ri­fi­ca nu­ma von­ta­de de afir­ma­ção en­quan­to in­dús­tria mu­si­cal, as li­ga­ções com a in­dús­tria da mo­da são ób­vi­as.

Cakes da Killa

Cakes da Killa

A cul­pa é do vo­guing, pois cla­ro. A dan­ça re­quer rou­pi­nha a con­di­zer e os tra­pos sig­ni­fi­cam di­nhei­ro, mui­to di­nhei­ro. Não es­tra­nha, aliás, que al­gu­mas fi­gu­ras mai­o­res do hip-hop com as co­res do arco-íris te­nham che­ga­do ao mains­tre­am e se­jam ago­ra íco­nes trendy, fashi­on e hy­pe.

Desabafa, a pro­pó­si­to, uma das cri­a­tu­ras fla­me­jan­tes des­te uni­ver­so mu­si­cal, Fly Young Red: «Gay ou di­rei­ti­nho, es­tá tu­do su­bor­di­na­do ao dó­lar.»

Exato. Isto são con­sequên­ci­as de se vi­ver nu­ma so­ci­e­da­de ca­pi­ta­lis­ta. Para gri­tar na rua «con­tra o ca­pi­tal, pra­zer anal» (fra­se do Pink Bloc na re­cen­te Marcha do Orgulho, com­ple­ta­da com os di­ze­res «con­tra o Vaticano, pra­zer cli­to­ri­di­a­no; con­tra o pa­tri­ar­ca­do, pra­zer por to­do o la­do») te­mos de nos sub­me­ter às re­gras eco­nó­mi­cas vi­gen­tes.

Que re­mé­dio: é o que fa­ze­mos nas nos­sas vi­das to­dos os di­as, por mais an­ti­ca­pi­ta­lis­tas que se­ja­mos. Basta ir­mos ao su­per­mer­ca­do.

Se o jazz é ma­chis­ta, mi­só­gi­no, chau­vi­nis­ta, ho­mo­fó­bi­co e trans­fó­bi­co, co­mo aqui es­cre­vi há uns tem­pos, o que di­zer do hip-hop? É tu­do is­so igual­men­te, mas ele­va­do ao cu­bo e com bra­va­ta. De res­to, co­mo há ri­mas nes­te ou­tro gé­ne­ro mu­si­cal do nos­so tem­po es­sa car­ga ain­da fi­ca mais evi­den­te.

O que fa­zem os rap­pers que­er em apli­ca­ção da má­xi­ma «sho­ot back»? Utilizam a mes­mís­si­ma vi­o­lên­cia ver­bal, mas com ou­tro con­teú­do. E nis­so, na lin­gua­gem, na men­sa­gem, são até ca­pa­zes de ser mais ex­tre­mis­tas do que fo­ram e são os punks pink. Valha-nos tal par­ti­cu­la­ri­da­de e daí o sen­ti­do de o Daniel e o Bruno pas­sa­rem te­mas hip-hop nu­ma noi­te que­er­co­re.

Até eu dan­cei, se­guin­do o con­se­lho re­vo­lu­ci­o­ná­rio de Emma Goldman…

Para sa­be­rem do que es­tou a fa­lar fi­ca aqui uma ga­le­ria com «quem é quem» no hip-hop que­er. E o pri­mei­ro é Le1f, ima­gi­no que pa­ra gran­de sa­tis­fa­ção do Bruno…

1 Le1f

Le1f

De seu ver­da­dei­ro no­me Khalif Diouf, es­te nova-iorquino de no­me is­lâ­mi­co com­bi­na uma cos­te­la em­pre­sa­ri­al (é o res­pon­sá­vel da edi­to­ra Camp & Street, sub­si­diá­ria da Greedhead Music) com um con­cei­to mu­si­cal e de es­pec­tá­cu­lo (tem for­ma­ção em bal­let e dan­ça con­tem­po­râ­nea) al­ta­men­te sub­ver­si­vo.

Aliás, o seu pri­mei­ro ál­bum te­ve co­mo tí­tu­lo «Riot Boi».

Não se­rá pro­pri­a­men­te o «ban­quei­ro anar­quis­ta» de Fernando Pessoa, mas o pa­ra­do­xo an­da lá per­to… Tudo bem, por­que ser rap­per e gay em si­mul­tâ­neo é, por si só, uma im­pro­ba­bi­li­da­de. Ainda as­sim, diz que não quer ser ou­vi­do e vis­to co­mo um «rap­per gay». É rap­per e gay, e pron­to.

E é, aci­ma de tu­do, um or­gu­lho­so afro-americano: «Ask a gay ques­ti­on / Here’s a black answer.»

2 Mykki Blanco

Mykki Blanco

Ainda mais em­ble­má­ti­co no seg­men­to que­er do hip-hop é Michael Quattlebaum, co­nhe­ci­do por Mykki Blanco. Californiano de ori­gem e com um pas­sa­do na performance-arte, tem-se afir­ma­do igual­men­te co­mo po­e­ta, sen­do o au­tor do li­vro «From the Silence of Duchamp to the Noise of Boys».

Ou se­ja, é um in­te­lec­tu­al. E se se con­fes­sa in­flu­en­ci­a­do pe­lo que­er­co­re e pe­lo mo­vi­men­to ri­ot gr­r­rls, di­fe­ren­te­men­te da ge­ne­ra­li­da­de des­tes MCs, mais no­tá­vel é o fac­to de bus­car ins­pi­ra­ção em fi­gu­ras das Letras co­mo Jean Cocteau e Anais Nin.

É um ca­ma­leão, cons­tan­te­men­te mu­dan­do de vi­su­al e de per­so­na­gem. Afirma ele que não é ape­nas trans­gé­ne­ro, mas mul­ti­gé­ne­ro, con­so­an­te lhe man­dam a al­ma e o cor­po. Em 2011, des­co­briu que é HIV po­si­ti­vo.

A sua re­cen­te pas­sa­gem por Lisboa, pa­ra um con­cer­to na ZDB, es­te­ve en­vol­ta em po­lé­mi­ca. Desentendeu-se com um po­lí­cia no ae­ro­por­to, por es­te não lhe ter que­ri­do in­di­car on­de po­dia com­prar um vou­cher. «Vai-te  em­bo­ra, ó bi­cha», ter-lhe-á di­to o ho­mem de azul, com Mykki a res­pon­der com um «fuck you». Foi de­ti­do por «re­sis­tên­cia à au­to­ri­da­de» e de­pois mul­ta­do.

Mal sa­bia ele qual é a re­gra nú­me­ro um em Portugal pa­ra um que­er que não quei­ra ser agre­di­do ou pre­so: não fa­les com bó­fi­as…

3 Rainbow Noise

Ativismo que­er e bu­si­ness as usu­al confundem-se no ca­so do co­lec­ti­vo Rainbow Noise. O no­me ser­ve tan­to pa­ra iden­ti­fi­car o pes­so­al que ou­vi­mos aqui co­mo a em­pre­sa do Pacific Northwest ame­ri­ca­no que por de­trás pro­cu­ra re­pre­sen­tar os «ar­tis­tas LGBTQ que te­nham pro­jec­ção mains­tre­am», qua­se co­mo se fos­se uma or­dem cor­po­ra­ti­va ou um sin­di­ca­to «ame­ri­can sty­le».

A com­pa­nhia jun­ta to­do o ti­po de pro­fis­si­o­nais li­ga­dos ao rap, des­de os mú­si­cos pro­pri­a­men­te di­tos a vi­de­as­tas, fo­tó­gra­fos, es­cri­to­res, cos­tu­rei­ros e mo­de­los. As po­lí­ti­cas de «es­quer­da» já não são o que eram. Fica o im­pac­to de ver­sos co­mo «next ti­me you see me in the club / don’t for­get the butt plug».

4 Brooke Candy

Brooke Candy

A li­ga­ção do hip-hop que­er ao mun­do da mo­da fi­ca par­ti­cu­lar­men­te ex­plí­ci­ta no ca­so de Brooke Candy. A au­to­ra de «I Wanna Fuck Right Now» usa ha­bi­tu­al­men­te fa­tos do es­ti­lis­ta Nicola Formichetti que re­pro­du­zem o ima­gi­ná­rio da fic­ção ci­en­tí­fi­ca cyber-punk e da cul­tu­ra banda-desenhística dos super-heróis.

Os biquí­nis me­tá­li­cos que vem uti­li­zan­do nos pal­cos e em ví­deo têm fei­to fu­ror, ri­va­li­zan­do em ima­gi­na­ção até com as ex­tra­va­gan­tes ves­ti­men­tas de Lady Gaga.

Filha de um dos di­re­to­res da re­vis­ta eró­ti­ca Hustler e uma an­ti­ga strip-teaser, Brooke já foi des­cri­ta co­mo uma «ali­e­ní­ge­na glam fe­mi­nis­ta». Empenhada de­fen­so­ra de tu­do o que é fre­ak e fora-da-lei, identifica-se, sim­ples­men­te, co­mo uma Q: «Q for Queer or Question Mark», à vos­sa es­co­lha.

5 House of Ladosha

House of Ladosha

E já que se fa­la de fic­ção ci­en­tí­fi­ca, fi­quem a co­nhe­cer a mú­si­ca de Antonio Blair (ou Dosha Devastation) e Adam Radakovich (ou Cunty Crawford).

São eles a du­pla House of Ladosha, co­nhe­ci­da pe­la sua com­bi­na­ção do hip-hop com a elec­tró­ni­ca pós-industrial e uma boa do­se de ex­pe­ri­men­ta­lis­mo.

O ce­ná­rio é apo­ca­líp­ti­co, de­ca­den­te, de­pri­men­te, lou­co. Uma de­lí­cia, em su­ma.

Conta Blair: «Dizemos mer­das que se ca­lhar al­guns rap­pers tam­bém que­rem di­zer, mas não o fa­zem por es­ta­rem no ar­má­rio ou te­rem me­do. Nós estamo-nos nas tin­tas. Apenas que­re­mos fa­zer mú­si­ca de bai­xos pro­fun­dos que mos­trem as ca­bras que so­mos.»

6 Cakes da Killa

Cakes da Killa

O de­sar­man­te Rashard Bradshaw é de New Jersey, a ci­da­de dos Estados Unidos on­de há mais por­tu­gue­ses. O «Cakes» do no­me ar­tís­ti­co tal­vez te­nha que ver com o fac­to de ser fo­fi­nho, mas não é ape­nas is­so. E é mui­to mais do que um ba­cha­rel em… hmmm… Fashion Studies.

Pode ter ca­ra de be­bé, mas rap­pa co­mo um ma­da­fac­ka, ou se­ja, co­mo al­guém bem ca­paz de nos dar um va­len­te par de es­ta­los. Já co­men­tou, por exem­plo, o que se­gue: «No hip-hop há gen­te que glo­ri­fi­ca a ne­ga­ti­vi­da­de, tal co­mo ma­tar pes­so­as e não cui­dar dos fi­lhos – is­so é que de­via ser es­can­da­lo­so e mo­ti­vo de fa­la­tó­rio, não ha­ver um rap­per gay co­mo eu.»

Tivemo-lo no dia 2 de Julho en­tre nós. Atuou no Musicbox, em Lisboa…

7 Angel Haze

Angel Haze

De as­cen­dên­cia afri­ca­na e che­ro­kee, Raeen Roes Wilson é uma so­bre­vi­ven­te do fun­da­men­ta­lis­mo cris­tão e do abu­so se­xu­al in­fan­til. Contesta o bi­na­ris­mo de gé­ne­ro (à per­gun­ta «are you a boy or a girl?» res­pon­de com um ro­tun­do «no») e considera-se pan­se­xu­al.

«Se me fi­ze­res sen­tir al­gu­ma coi­sa, se me fi­ze­res rir – e olha que é di­fí­cil –, pos­so es­tar con­ti­go. Não me in­te­res­sa se tens uma va­gi­na, se és her­ma­fro­di­ta ou se­ja o que for», co­men­ta. «No, I’m not gay / No, I’m not straight / And I su­re as hell am not bi­se­xu­al / Damn it I am who­e­ver I am when I am it», ouvimo-la de­cla­mar num dos seus te­mas.

A mú­si­ca, ex­pli­cou tam­bém, ser­ve pa­ra «vo­mi­tar» to­dos os seus de­mó­ni­os e tem-no fei­to sem par­ci­mó­nia.

8 God-Des & She

God-Des & She

A du­pla God-Des & She é cons­ti­tuí­da por Alicia Smith e Tina Gassen, de­ven­do boa par­te do seu su­ces­so à par­ti­ci­pa­ção na sé­rie te­le­vi­si­va «The L Word», que por cá vi­mos nos ser­vi­ços por ca­bo.

São do es­ta­do mais ma­cho de to­dos os EUA, Texas, e tal­vez is­so ex­pli­que o seu mi­li­tan­tis­mo anti- bullying, em ações es­co­la­res de es­cla­re­ci­men­to – pe­lo me­nos nas es­co­las que até ago­ra per­mi­ti­ram a sua en­tra­da, por­que há ou­tras que nem de lon­ge que­rem ver es­te ca­sal de lés­bi­cas or­gu­lho­sas.

9 Big Freedia

Big Freedia

Freddie Ross, ou Big Freedia pa­ra os fãs, é um pi­lar de New Orleans e do ti­po mui­to pró­prio de hip-hop que se pra­ti­ca na ci­da­de, o boun­ce. Trata-se, aliás, de um dos «in­ven­to­res» des­te sub­gé­ne­ro.

Tem voz gros­sa e um cor­pan­zil de me­ter me­do, mas pre­fe­re que a tra­tem por «ela», mes­mo não sen­do trans­gé­ne­ro: «Uso ca­be­lei­ra de mu­lher e ma­la de mão, mas sou ape­nas um ho­mem gay.»

Aliás, é ter­ri­vel­men­te pa­re­ci­da de ca­ra com a mi­nha ami­ga Zé (olá, sau­da­des tu­as!), que nem por aca­so tam­bém an­da pe­lo hip-hop com o no­me Mama G. Na vol­ta, são pri­mas, eheheheh.

A Freedia é tão po­pu­lar pe­lo Louisiana que tem o seu pró­prio re­a­lity show e foi-lhe en­co­men­da­da uma au­to­bi­o­gra­fia, «God Save the Queen Diva». Diva? Pois po­dem ter a cer­te­za de que se com­por­ta co­mo uma Castafiori.

Em pa­ra­le­lo, di­ri­ge ou­tro ne­gó­cio, uma fir­ma de de­co­ra­ção de in­te­ri­o­res. Eu sei, eu sei, é um cli­ché…

10 Cazwell

Cazwell

Se o twer­king que sur­ge nos con­cer­tos e nos clips de Big Freedia é o tra­di­ci­o­nal­men­te fe­mi­ni­no, aqui es­tá um dos in­tro­du­to­res do twerk fei­to com glú­te­os de ho­mem: Cazwell, ou me­lhor, Luke Caswell.

O seu tra­ba­lho é so­bre­tu­do di­fun­di­do pe­lo ca­nal de te­le­vi­são Logo, di­ri­gi­do à co­mu­ni­da­de LGBT, mas mes­mo aí o seu te­ma «All Over Your Face» foi ba­ni­do, por ser de­ma­si­a­do ex­plí­ci­to. Como as­sim? Bom, des­cre­via a ma­nei­ra co­mo uma cer­ta subs­tân­cia es­bran­qui­ça­da se es­pa­lha­va na nos­sa ca­ra de­pois de o ra­paz nos de­di­car uns mi­nu­tos.

E sa­bem que mais? O Cazwell é tam­bém mo­de­lo de rou­pa in­te­ri­or. Os anún­ci­os em que apa­re­ce com as cu­e­cas ide­a­li­za­das por Geoffrey Mac dei­xa­ram mui­ta gen­te com ar­rit­mi­as do co­ra­ção e a du­vi­dar se o ne­o­li­be­ra­lis­mo é as­sim tão mau co­mo is­so.

11 Fly Young Red

No que ao twer­king mas­cu­li­no diz res­pei­to, Franklin «Fly Young Red» Randall é o cam­peão. O ví­deo que lan­çou a can­ção «Throw That Boy Pussy» e a pró­pria can­ção caí­ram co­mo uma bom­ba nos mei­os do rap.

Dizer nes­te meio que tam­bém os ra­pa­zes têm uma pa­ta­re­ca era ini­ma­gi­ná­vel. O in­crí­vel mes­mo é que até en­tre ho­mos hou­ve na­ri­zes a torcerem-se. O Red en­co­lhe os om­bros e se­gue em fren­te: «Eu sei que “boy pus­sy” não é o ter­mo mais po­li­ti­ca­men­te cor­re­to, mas vá lá, nin­guém po­de­rá di­zer que es­te não é um te­ma bem-disposto.»

12 RoXXxan

RoXXxan

Da Grã-Bretanha, eis RoXXxan, uma an­ti­ga ven­de­do­ra de cos­mé­ti­cos que, nos tem­pos li­vres, é pu­gi­lis­ta e faz umas pi­ru­e­tas de BMX.

A sua ra­pi­dís­si­ma as­cen­são pa­ra o es­tre­la­to le­vou a Polydor a contratá-la. Lá se foi o elã in­die que a ro­de­a­va, mas não a qua­li­da­de, que é enor­me.

Faz par­te do Backpack Gang — não é pro­pri­a­men­te um gan­gue, mas uma ope­ra­ção de mar­ke­ting e mer­chan­di­sing «li­festy­le» di­ri­gi­da, co­mo ela diz, a «tom­boys, mis­fits, gan­ja ba­bi­es, re­bels and ou­tlaws». Ou se­ja, há mas­sa a ga­nhar até jun­to de quem con­tes­ta a so­ci­e­da­de.

13 Will Sheridan

Will Sheridan

É ou­tro des­por­tis­ta, es­te do la­do norte-americano do Atlântico. E de to­po, pois Will Sheridan ga­nhou fa­ma co­mo bas­que­te­bo­lis­ta no cir­cui­to uni­ver­si­tá­rio. O seu «co­ming out» acon­te­ceu de­pois de aban­do­nar os cam­pos. Só de­pois; nes­tes ain­da vi­go­ra a má­xi­ma «don’t ask don’t tell».

O seu aplau­di­do pas­sa­do co­mo atle­ta e o no­me que ga­nhou co­mo rap­per tornaram-no ain­da num mui­to bem-sucedido em­pre­sá­rio. É o ma­na­ger de uma com­pa­nhia de… adi­vi­nham?… mo­da, mas is­so não o im­pe­de de de­fen­der o ra­di­ca­lis­mo que­er.

O que ele pen­sa: «Sou ne­gro e sou gay, uma mi­no­ria ao qua­dra­do. Talvez ha­ja al­gum miú­do por aí que se sin­ta mal con­si­go mes­mo, olhe pa­ra mim e di­ga: “Ok, ele jo­gou bas­que­te, tem uma car­rei­ra mu­si­cal e faz a sua vi­da. É quem que­ria ser e es­tá fe­liz, con­fi­an­te e con­for­tá­vel. Eu que­ro ser co­mo ele.” Sinto que a mi­nha res­pon­sa­bi­li­da­de é fa­lar des­tas coi­sas.»

Dá o exem­plo e age. Fundou a Ruiru Rising, uma or­ga­ni­za­ção que fi­nan­cia o abri­go e a edu­ca­ção de ór­fãos e cri­an­ças de fa­mí­li­as po­bres do Quénia, país que ha­bi­tu­al­men­te vi­si­ta e cu­ja mú­si­ca po­pu­lar in­flu­en­ci­ou a sua.

14 QBoy

QBoy

E aqui têm o Marcos José Brito, bri­tâ­ni­co fi­lho de es­pa­nhol que ora dá pe­lo no­me de QBoy, ora se apre­sen­ta co­mo Sam LeMans.

Foi re­pe­ti­das ve­zes es­pan­ca­do na es­co­la e es­tá ago­ra en­vol­vi­do num pro­gra­ma do LGBT Excellence Centre Wales de com­ba­te à ho­mo­fo­bia en­tre ado­les­cen­tes. Antigo jor­na­lis­ta, apre­sen­tou no Channel 4 há qua­se uma dé­ca­da um do­cu­men­tá­rio te­le­vi­si­vo, «Coming Out to Class», que te­ve co­mo ime­di­a­ta con­sequên­cia o apoio à ini­ci­a­ti­va do Parlamento do Reino Unido.

15 Big Dipper

Os be­ars da co­mu­ni­da­de gay têm em Big Dipper o seu porta-estandarte: é gran­de, pe­lu­do e pe­ri­go­so, ape­sar do ar bo­na­chei­rão. «Geralmente, sou uma pes­soa ale­gre e cheia de bo­as vi­bra­ções que gos­ta de se di­ver­tir», apresenta-se ele.

Tudo o que faz vai be­ber à cul­tu­ra pop e ao seu ima­gi­ná­rio ci­ne­ma­to­grá­fi­co e te­le­vi­si­vo, com in­clu­são nos vi­de­o­clips de si­tu­a­ções que viu no «Bambi» da Disney, em «Pretty Woman» ou wha­te­ver. As su­as le­tras ex­plo­ram o non-sense até à gar­ga­lha­da, mas con­ti­nu­am a ter te­má­ti­ca se­xu­al.

«No rap he­te­ro fala-se so­bre ra­bos de mu­lhe­res, fes­tas, di­nhei­ro e gan­zas, por­que é es­sa a ex­pe­ri­ên­cia de vi­da da­que­les ti­pos. O que eu fa­ço se­gue es­sa ca­rac­te­rís­ti­ca: rap­po so­bre ga­jos, bro­ches e flui­dos cor­po­rais», ex­pli­ca es­te MC com for­ma­ção em te­a­tro.

Teatro, sim, e é is­so o que ele faz mui­to cons­ci­en­te e pro­po­si­ta­da­men­te. Afirma, in­clu­si­ve, que é uma per­so­na­gem e que es­ta vi­sa o pu­ro, que não ino­cen­te, en­tre­te­ni­men­to: «Não fa­ço po­lí­ti­ca e sim can­ções so­bre pra­zer car­nal. Desse mo­do, sem di­zer po­li­ti­ca­men­te na­da de con­cre­to, di­go tu­do.»

16 Zebra Katz

Zebra Katz

Uau. Repito: uau. Ojay Morgan, aka  Zebra Katz, é um exem­plo de que não tem ra­zão quem diz que o hip-hop que­er «isn’t go­od enough».

Pronto, é ou­tro ca­so de pro­xi­mi­da­de des­ta mú­si­ca com o es­ti­lis­mo e a su­per­fi­ci­a­li­da­de que en­vol­ve es­se meio, por via do de­sig­ner Rick Owens, mas que se li­xe. Dá gos­to ou­vir o «dark lord and vil­lain of the fashi­on world», pa­ra uti­li­zar as pa­la­vras do pró­prio Morgan so­bre es­ta ou­tra per­so­na.

A fi­lo­so­fia por de­trás dis­to é, sem dú­vi­da, de com­ba­te, e es­ta­va ex­pos­ta mui­to an­tes de Orlando: «Precisamos de uti­li­zar a nos­sa se­xu­a­li­da­de co­mo uma ar­ma con­tra quem nos ata­ca, em vez de dei­xar­mos que a usem con­tra nós.» Pumba, vai bus­car…

17 Tender Bender

Tender Bender

Projeto por­tu­guês reu­nin­do a voz de V e a ele­tró­ni­ca de Aim, das Anarchicks. Não é hip-hop pro­pri­a­men­te, mas es­tá en­char­ca­do des­te, pe­lo me­nos tan­to quan­to de punk e pop e mú­si­ca de dan­ça.

É que­er, é fe­mi­nis­ta, é ir ao cer­ne das ques­tões, é en­fi­ar o de­do na fe­ri­da.

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?