Nunca mais vou go­zar com aque­le fil­me dos vam­pi­ros que an­da a dei­xar as pré-adolescentes e ado­les­cen­tes de co­ra­ção ao léu por cau­sa de um cer­to ra­pa­zi­nho de den­tes amendoados.

A ma­nia do Crepúsculo entrou-me pe­la ca­sa e é mais per­sis­ten­te que o mos­qui­to que es­ma­guei on­tem à noi­te na pa­re­de do quar­to. Agora até o meu fi­lho­te já tem in­te­res­se em ver o raio do fil­me. Tratar do vam­pi­ro à chi­ne­la­da não é viá­vel – por­tan­to adop­tei a ve­lha má­xi­ma «se não o po­des ven­cer» (e eu nem se­quer ten­tei) «junta-te a ele».

O que eu não es­pe­ra­va – e por is­so mar­quei uns pon­ti­nhos no meu cul­tu­ró­me­tro pa­ren­tal – era juntar-me ao vam­pi­ro num gos­to mu­si­cal comum.

Há uma ce­na do fil­me on­de a na­mo­ra­da vai ao apar­ta­men­to do vam­pi­ro (ele não vi­ve num cas­te­lo, is­so é coi­sa de co­tas) e vê a enor­me co­lec­ção de CDs do ra­paz. Parece que é qua­se tão gran­de co­mo a co­lec­ção do Jazzé Duarte – e is­so é ra­zão su­fi­ci­en­te pa­ra eu (e o Jazzé, es­tou cer­to dis­so) de­se­jar ser um vampiro.

Um ga­jo com vi­da eter­na tem mui­to mais tem­po pa­ra en­cher as pra­te­lei­ras de CDs e fil­mes – cla­ro que o fac­to de ser um vam­pi­ro ado­les­cen­te bem-comportado não lhe per­mi­te di­zer à ra­pa­ri­ga «Ouve lá es­ta ce­na que eu sa­quei no Pirate Bay». Vampiro bo­ni­to não mor­de o pes­co­ço às editoras.

Quanto ao cul­tu­ró­me­tro, ex­pli­co já: no fil­me a ra­pa­ri­ga pe­ga num dos CD e per­gun­ta o que é. «Claude Debussy», res­pon­de ele. Parece que gos­ta mui­to. «O Claire de Lune é lin­do», con­fir­ma ela.

Só fi­ca bem a um vam­pi­ro gos­tar de Debussy. Quanto mais fa­mo­so, mai­or a res­pon­sa­bi­li­da­de. Não es­tou a ver o con­de Drácula a ba­ter as asas de mor­ce­go ao som dos Tokio Hotel. A Vampirella aba­nar o ca­pa­ce­te ao som de Britney Spears ou Madonna? Esqueçam. É uma ques­tão de es­ti­lo. Imaginem os es­tra­gos que o vam­pi­ro do Crepúsculo te­ria fei­to se gos­tas­se de Michael Bolton. Pior: Dave Matthews Band!

Mas não, o ti­po gos­ta de boa mú­si­ca. Milhares de pré-adolescentes que­re­rão ago­ra co­nhe­cer o Debussy de que fa­la o vam­pi­ro ga­lã – aqui em ca­sa foi o que aconteceu.

«Ó pai, tu sa­bes quem é o Debussy?» A per­gun­ta apanhou-me de sur­pre­sa. Debussy? Mal com­pre­en­di de on­de ti­nha vin­do o sú­bi­to in­te­res­se, enchi-me lo­go do tí­pi­co brio de co­lec­ci­o­na­dor e fiz ques­tão de in­for­mar que ti­nha pe­lo me­nos uns se­te ou oi­to CDs de um dos meus com­po­si­to­res preferidos.

«Ai, é?» Sim, se­nhor! Preferido. Está sen­ta­do lá em ci­ma na­que­le de­grau on­de o Zappa re­pou­sa os pés. Mais: ain­da es­se vam­pi­ro ti­nha den­ti­nhos de lei­te já o pai se de­li­ci­a­va a ou­vir Debussy nu­ma sa­la cre­pus­cu­lar. Toma!

Marco Santos

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