Há uma ce­na num dos meus fil­mes da ca­be­cei­ra — «Histórias de Gangsters», dos ir­mãos Cohen — em que Verna (Marcia Gay Harden) diz ao aman­te Tom Reagan (Gabriel Byrne): «Se ca­lhar é por is­so que gos­to de ti, Tom. Nunca co­nhe­ci nin­guém que ti­ves­se tan­to or­gu­lho em ser um fi­lho da pu­ta».

Salvo as de­vi­das di­fe­ren­ças, «Deadpool» tam­bém nos apa­nha de sur­pre­sa por ter uma ati­tu­de se­me­lhan­te: nun­ca vi um fil­me que ti­ves­se tan­to or­gu­lho em ce­le­brar o fes­ti­val de cli­chés que mon­tou.

Garanto-vos que «Deadpool» é tão di­ver­ti­do co­mo os trai­lers su­ge­rem e que Ryan Reynolds é per­fei­to pa­ra o pa­pel, co­mo di­zem os en­tu­si­as­tas da BD, mas a his­tó­ria, em­bo­ra con­ta­da de for­ma não-linear, é do mais pre­vi­sí­vel que há.

«Deadpool» co­me­ça lo­go a bri­lhar no ge­né­ri­co ini­ci­al — a mi­nha par­te pre­fe­ri­da, pe­lo hu­mor e a es­pec­ta­cu­lar mon­ta­gem — mas por mais que pro­me­ta um fil­me sub­ver­si­vo, aca­ba por ter tam­bém a ine­vi­tá­vel per­so­na­gem fe­mi­ni­na que pre­ci­sa de ser sal­va pe­lo he­rói e o ine­vi­tá­vel vi­lão ge­né­ri­co que exis­te pa­ra pro­vo­car no he­rói a me­ta­mor­fo­se tí­pi­ca des­tas his­tó­ri­as e que rap­ta a na­mo­ra­da por­que, en­fim, a na­mo­ra­da exis­te pa­ra ser sal­va e ser­vir de ca­ta­li­sa­dor do con­fron­to fi­nal.

Seja co­mo for, não é pe­la ori­gi­na­li­da­de da his­tó­ria que va­mos ao ci­ne­ma, é mais pe­la cu­ri­o­si­da­de de pro­var o mes­mo pra­to com um tem­pe­ro di­fe­ren­te. Mais pi­can­te, tal­vez, co­mo as di­ver­ti­das sequên­ci­as em que acom­pa­nha­mos a evo­lu­ção da re­la­ção com a na­mo­ra­da.

Ryan Reynolds e brasileira Morena Baccarin

Ryan Reynolds e a bra­si­lei­ra Morena Baccarin.

Ryan Reynolds é per­fei­to pa­ra o pa­pel, mas há pe­lo me­nos um ator que tam­bém o se­ria, se ti­ves­se me­nos trin­ta anos: Bruce Willis.

Entre 1985 e 1989, na ABC, Bruce Willis foi o de­te­ti­ve David Addison na sé­rie «Modelo e Detetive» — e o pa­pel transformou-o em ve­de­ta de Hollywood. Addison es­ta­va pa­ra os de­te­ti­ves co­mo Deadpool pa­ra os super-heróis: era des­bo­ca­do, in­con­ve­ni­en­te, in­dis­ci­pli­na­do, não se le­va­va a sé­rio e fa­zia pi­a­das nas si­tu­a­ções mais ines­pe­ra­das e pe­ri­go­sas.

Tal co­mo Deadpool, o per­so­na­gem de Bruce Willis tam­bém usa­va o hu­mor e a cum­pli­ci­da­de pa­ra man­dar abai­xo as bar­rei­ras en­tre ele e os te­les­pec­ta­do­res.

Quando nu­ma de­ter­mi­na­da ce­na o nos­so super-herói ter­mi­na um mo­nó­lo­go e diz «ago­ra po­dem vol­tar a pôr a mú­si­ca», referindo-se ob­vi­a­men­te à ban­da so­no­ra do fil­me, lembrei-me de uma ou­tra, fil­ma­da trin­ta e tal anos an­tes, em que Bruce Willis se pre­pa­ra pa­ra per­se­guir o vi­lão e co­men­ta, olhan­do pa­ra a câ­ma­ra, «ago­ra da­va jei­to me­ter uma da­que­las mú­si­cas de per­se­gui­ção».

Cybill Shepherd e Bruce Willis

Cybill Shepherd e Bruce Willis nos tem­pos áu­re­os de «Modelo e Detetive»

O que é di­fe­ren­te em «Deadpool» e o tor­na di­fe­ren­te de to­dos os fil­mes de super-heróis que já vi é a sua au­sên­cia de pu­dor e um hu­mor ba­da­lho­co que es­can­da­li­za­ria o David Addison de Bruce Willis.

As ce­nas que achei mais hi­la­ri­an­tes nem fo­ram aque­las em que o nos­so anti-herói man­da pi­a­das ado­les­cen­tes de na­tu­re­za se­xu­al de­pois de re­ben­tar mi­o­los, são as que en­vol­vem o es­can­da­li­za­do Colossus.

Colossus é um mu­tan­te do uni­ver­so X-Men e pas­sa o fil­me a ten­tar edu­car Deadpool, censurando-o pe­la sua lin­gua­gem bre­jei­ra e por não se com­por­tar co­mo fa­zem os super-heróis de­cen­tes.

O te­mí­vel Colossus qua­se pa­re­ce uma avo­zi­nha a cor­rer atrás do ne­to pa­ra que ele não se es­que­ça de le­var o ca­sa­co quan­do sai à rua, o ca­sa­co da mo­ra­li­da­de e dos bons cos­tu­mes.

Deadpool faz com que os mu­tan­tes de X-Man pa­re­çam um ban­do de be­a­tas do po­li­ti­ca­men­te cor­re­to — e is­to é di­ver­ti­do.

Deadpool e o mutante Colossus

Deadpool e o mu­tan­te Colossus.

Deadpool é um ta­ga­re­la que gos­ta de man­dar pi­a­das se­xu­ais du­ran­te os seus atos de vi­o­lên­cia — e is­to tam­bém é di­ver­ti­do, se gos­ta­res des­te ti­po de hu­mor or­di­ná­rio.

Deadpool go­za com o es­te­reó­ti­po do macho-herói, fa­zen­do ges­tos e po­ses de menina-diva quan­do se es­pe­ra­ria um mo­men­to mais Batman. É um fã dos Wham!, um duo pi­ro­so de mú­si­ca pi­ro­sa for­ma­do por George Michael e Andrew Ridgeley na dé­ca­da de 80 — e is­to é mes­mo, mes­mo di­ver­ti­do.

Deadpool apro­vei­ta os mo­nó­lo­gos de ex­po­si­ção pa­ra en­trar em diá­lo­go con­nos­co, co­mo o Frank Underwood de «House of Cards» — por es­ta al­tu­ra, já es­ta­mos ali­nha­dos com o es­tra­ta­ge­ma e acei­ta­mos tu­do, até os mo­men­tos em que o fil­me ri­di­cu­la­ri­za o seu pró­prio or­ça­men­to.

(Deadpool não cus­tou mais de 50 mi­lhões de dó­la­res, en­quan­to o «Batman Vs Super-Homem: A Origem da Justiça», por exem­plo, cus­tou uns exor­bi­tan­tes 350 mi­lhões.)

Não fa­ço ideia quem cri­ou o per­so­na­gem pa­ra a BD ou quais as cir­cuns­tân­ci­as, mas fi­co a pen­sar se a exis­tên­cia de Deadpool co­me­çou co­mo um pu­ro ato de cri­a­ção ou por os seus cri­a­do­res es­ta­rem far­tos de super-heróis — te­nha si­do por von­ta­de de ras­gar pá­gi­nas ve­lhas ou me­ro abor­re­ci­men­to, re­sul­tou.

Há uma ce­na que re­su­me bem o es­pí­ri­to do fil­me: de­pois de des­pa­char sem pi­e­da­de uma sé­rie de ini­mi­gos, Deadpool en­cos­ta os ca­nos das pis­to­las ao na­riz co­mo um co­ro­nel Bill Kilgore a exa­lar o chei­ro do na­palm pe­la ma­nhã e anun­cia, sa­tis­fei­to: «Hoje à noi­te vou acariciar-me».

O fil­me é as­sim, pas­sa o tem­po to­do a tocar-se em si pró­prio.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?