A músi­ca acom­pa­nha a minha vida des­de que me conhe­ço. Há pes­so­as que nas­ce­ram para a fazer; outras que nas­ce­ram para a ouvir. Embora tenha mui­tos inte­res­ses e pai­xões, con­si­de­ro-me par­te des­te últi­mo gru­po.

O que se segue é uma com­pi­la­ção de tex­tos e músi­cas — cin­co momen­tos da minha vida que fica­ram para sem­pre asso­ci­a­dos à des­co­ber­ta de um dis­co espe­cí­fi­co. Existem mui­tos, mui­tos dis­cos assim na minha ban­da sono­ra, audi­ções que me fazem lem­brar perío­dos espe­cí­fi­cos — e para sem­pre per­di­dos — mas fico-me pelos mais emba­ra­ço­sos.

1

Lene Lovich

Havia um fil­me do Woody Allen em que o pró­prio dizia que a his­tó­ria da Branca de Neve e os Sete Anões esta­va mui­to bem, mas que ele devia ser um tipo esqui­si­to: ape­sar de o Espelho Mágico garan­tir que a Branca de Neve era a mulher mais boni­ta do rei­no, sen­tia-se era «sexu­al­men­te atraí­do pela Bruxa Má.»

Lene Lovich — rai­nha do movi­men­to New Wave dos finais da déca­da de 70 e prin­cí­pi­os de 80 — foi a minha Bruxa Má. Foi com ela que come­cei a gos­tar de músi­ca. Foi com ela que come­cei a notar que as mulhe­res não se divi­di­am entre mães cha­tas e rapa­ri­gas medri­cas que se enco­lhi­am à pas­sa­gem da bola. As mulhe­res tam­bém podi­am ser como a Lene Lovich: mis­te­ri­o­sas, pro­vo­can­tes, sen­su­ais, artís­ti­cas. E foi assim, qua­se de um dia para o outro, que a minha vida mudou.

Voltei a ouvir Lene Lovich. Não é a mes­ma coi­sa, obvi­a­men­te, por­que entre­tan­to conhe­ci mui­ta músi­ca e os meus gos­tos foram mudan­do, mas tam­bém não é só com os ouvi­dos que a oiço. Aquela voz de Nina Hagen ave­lu­da­da, o rit­mo, as gui­tar­ras, a bate­ria, os sin­te­ti­za­do­res, todas aque­las can­ções con­ti­nu­am a trans­por­tar-me para um pas­sa­do exci­tan­te de des­co­ber­tas.


2

Pink Floyd

A pri­mei­ra vez que ouvi Pink Floyd tinha uns doze anos. Andava na Escola Salesiana – uma esco­la de padres – e can­ta­ro­la­va men­tal­men­te o «Another Brick in the Wall (Part II)», sobre­tu­do duran­te as aulas de Religião e Moral, as mais tirâ­ni­cas e repres­si­vas que vivi.

O pro­fes­sor bem se esfor­ça­va por for­mar uma gera­ção de cren­tes temen­tes a Deus, mas só con­se­guiu com que o temês­se­mos a ele – Deus podia ser omni­pre­sen­te e Todo-Poderoso, mas a sua poten­ci­al ame­a­ça não era com­pa­rá­vel ao poder moral da galhe­ta ter­re­na.

Comparar o tama­nho de Deus e o tama­nho daque­las maná­pu­las até podia ser tão absur­do como com­pa­rar o tama­nho de Júpiter com o de um calhau da cal­ça­da, mas nenhum de nós tinha dúvi­das sobre qual dos dois obje­tos teria mais pro­ba­bi­li­da­des de nos fazer um galo na cabe­ça.

O pro­fes­sor era mais peque­no e mui­to menos omni­po­ten­te que Deus, mas esta­va mais per­to de nós e era mui­to mais inter­ven­ti­vo. Um mora­lis­ta com as cos­tas quen­tes cos­tu­ma desen­vol­ver mui­ta mus­cu­la­tu­ra nos ombros e nos bra­ços.

Teríamos uma vida mais des­can­sa­da se tivés­se­mos sido entre­gues exclu­si­va­men­te aos cui­da­dos divi­nos: Deus ao menos não se metia nos nos­sos assun­tos nem se cha­te­a­va com nada.

Deus fazia lem­brar o pai do Formiga. O Formiga era um tipo com mui­to jei­to para jogar fute­bol. Tinha tan­ta habi­li­da­de que o cam­po pare­cia um car­rei­ro de for­mi­gas quan­do joga­va: ele à fren­te, gigan­te, a car­re­gar a bola de Berlim; todos os outros atrás a ver se con­se­gui­am umas sobras.

Talvez o pai do Formiga tives­se a espe­ran­ça de que o filho se tor­nas­se mili­o­ná­rio: dei­xa­va-o sem­pre à von­ta­de mes­mo quan­do o puto fal­ta­va às aulas para jogar à bola ou se embre­nha­va no mato às escon­di­das dos padres. O Formiga nun­ca che­gou a tor­nar-se uma vede­ta da bola, pelo que espe­ro que o pai não o tenha cas­ti­ga­do por ter atrai­ço­a­do a fé de que um dia aque­le miú­do o tor­na­ria mili­o­ná­rio.

Havia imen­sas mis­sas a que éra­mos obri­ga­dos a assis­tir. Não con­si­go des­cre­vê-las de memó­ria, mas lem­bro-me que na nos­sa esca­la do abor­re­ci­men­to supre­mo, do mito da cri­a­ção ao séti­mo dia, quan­do Deus cri­ou o boce­jo, enfim, numa esca­la de 1 a dez, as mis­sas nos Salesianos che­ga­vam ao 11 nos pri­mei­ros minu­tos.

A úni­ca expe­ri­ên­cia dota­da de uma cer­ta qua­li­da­de mís­ti­ca que podía­mos expe­ri­men­tar era brin­car com coi­sas proi­bi­das. Como era uma esco­la de rapa­zes e não havia rapa­ri­gas, res­ta­va-nos o mato.

A esco­la tinha um gran­de ter­re­no de mato mui­to cer­ra­do. Ficava ao pé do cam­po de fute­bol e nin­guém sabia onde ter­mi­na­va, mas esta­va veda­do aos alu­nos.

Dizia-se que naque­la mata vague­a­va um padre doi­do e gran­da­lhão, cuja úni­ca ocu­pa­ção na vida era dar caça aos des­gra­ça­dos alu­nos que se atre­ves­sem a inva­dir-lhe os ter­re­nos. Era um psi­co­pa­ta san­ci­o­na­do por Deus, como mui­tos outros.

Dizia-se que a equi­pa cuja bali­za ficas­se do lado da mata tinha mais hipó­te­ses de não sofrer golos, pois os avan­ça­dos adver­sá­ri­os tinham sem­pre receio de chu­tar com dema­si­a­da for­ça e per­der a bola para sem­pre.

Qualquer mani­fes­ta­ção de auto­ri­da­de ecle­siás­ti­ca vinha com um carim­bo de Deus a dizer Aprovado. Não havia dis­cus­são pos­sí­vel, pelo que só nos res­ta­va a fuga silen­ci­o­sa.

Também se dizia que no mato havia lobi­so­mens, vam­pi­ros, bodes, ser­pen­tes impor­ta­das do Jardim do Éden e uma por­ra­da de seres mito­ló­gi­cos des­co­nhe­ci­dos mas sem­pre fatais. Como eu fiz par­te do gru­po de aven­tu­rei­ros que se pira­va às mis­sas e se escon­dia na mata proi­bi­da, pos­so garan­tir que o que lá se fazia era mui­to mais peri­go­so e sub­ver­si­vo: fuma­vam-se cigar­ros que o Formiga gama­va ao pai, con­ta­vam-se his­tó­ri­as, espe­cu­la­va-se sobre o que seria o sexo, fala­va-se de miú­das que ain­da não tínha­mos conhe­ci­do e, adi­vi­nha­ram, escu­tá­va­mos Pink Floyd num gra­va­dor a pilhas meio arre­ben­ta­do.

Roger Waters escre­veu a letra de Another Brick in the Wall a pen­sar no sis­te­ma de edu­ca­ção bri­tâ­ni­co da sua infân­cia, repres­si­vo, qua­dra­do e cas­tra­dor de men­tes cri­a­ti­vas; para nós, can­tar os ver­sos «We don’t need no edu­ca­ti­on, We dont need no thought con­trol, No dark sar­casm in the clas­s­ro­om, Teachers lea­ve them kids alo­ne», mes­mo a medo, equi­va­lia a viver uma expe­ri­ên­cia mís­ti­ca que nem o pive­te a incen­so con­se­guia dis­si­par.

Uma ilu­são deses­pe­ra­da era trans­for­ma­da em peque­nos momen­tos duran­te os quais os sonhos se tor­na­vam rea­li­da­de: na mata res­pi­rá­va­mos ar puro, o ar puro tra­zia uma bri­sa de liber­da­de, a liber­da­de vinha com aque­la músi­ca dos Pink Floyd. Nesse ano fui expul­so dos Salesianos – «con­vi­da­do a sair», foi o pie­do­so eufe­mis­mo usa­do para infor­mar a minha famí­lia.

A par­tir daí, fiquei livre para explo­rar matas des­co­nhe­ci­das ao som dos Pink Floyd.


3

Brian Eno

Brian Eno foi esco­lhi­do para com­por a ban­da sono­ra de um docu­men­tá­rio sobre as mis­sões Apollo. Eno reu­niu o irmão Roger e o músi­co cana­di­a­no Daniel Lanois e escre­veu «Apollo: Atmospheres and Soundtracks». Um dos temas des­te mara­vi­lho­so dis­co – «An Ending (Ascent)» – é uma das mais belas home­na­gens musi­cais ao enge­nho huma­no e  nos­sa capa­ci­da­de de sonhar que conhe­ço.

É pena que um dos per­so­na­gens mais extra­or­di­ná­ri­os que conhe­ci nas minhas deman­das pelas dis­co­te­cas tenha tor­ci­do o nariz quan­do que­ria com­prar o dis­co, como se de repen­te me tives­se trans­for­ma­do numa coi­sa vis­co­sa de um des­ses fil­mes de série B de fic­ção cien­tí­fi­ca.

O tipo era dono de uma des­sas lojas que ten­ta­vam sobre­vi­ver ao impé­rio da Fnac. Conheci-a por aca­so: quan­do esta­va a pas­sar pela rua notei um car­taz que dizia: «Aqui ven­dem-se dis­cos com­pac­tos». Alguém que escre­ve «dis­cos com­pac­tos» em vez de CDs só podia ser um tipo que viveu a glo­ri­o­sa era dos dis­cos de vinil.

O espa­ço era peque­no, mas atu­lha­do de músi­ca clás­si­ca con­tem­po­râ­nea, com­po­si­to­res que conhe­cia mas nun­ca encon­tra­ra e outros de que nun­ca ouvi­ra falar.

O dono da dis­co­te­ca era um tipo fran­zi­no, rígi­do e ner­vo­so. Os olhos arre­ga­la­vam-se quan­do fala­va de músi­ca. Mal repa­rou que eu esta­va todo entre­ti­do a olhar para um CD de Mozart, con­cluiu que eu mere­cia um aten­di­men­to per­so­na­li­za­do, apro­xi­mou-se e dis­se-me:

«Não leves esse, pá. Não pres­ta. Não pres­ta! Olha, que­res ver?» — E pro­cu­rou outro CD. Mexia-lhes com a des­tre­za de um joga­dor pro­fis­si­o­nal de car­tas. Finalmente encon­trou-o, o pri­mei­ro de mui­tos trun­fos. — «Tás a ver este? Este é que deves levar! Este que está aqui! Foi toca­do com os ins­tru­men­tos da épo­ca!»

O CD que ele me mos­trou era mais bara­to do que aque­le que eu tinha pen­sa­do levar, o que me fez sim­pa­ti­zar com ele por cau­sa da hones­ti­da­de. Por essa altu­ra já anda­va a ouvir uma gra­va­ção manho­sa do «Apollo: Atmospheres & Soundtracks» e apro­vei­tei para lhe per­gun­tar se tinha o dis­co.

«Brian Eno? Isso é músi­ca para comer meni­nas, pá.» E não há mal nenhum nis­so, ape­te­ceu-me dizer. Em vez dis­so, per­gun­tei: «E Frank Zappa?»

«Estou à espe­ra que me che­guem alguns, mas não tenho.»

Falei-lhe das expe­ri­ên­ci­as mais van­guar­dis­tas do Zappa, mui­to pró­xi­mas do que fazem os com­po­si­to­res clás­si­cos des­te sécu­lo, mas ele não con­se­guiu ouvir mais: «Gostas des­sas mer­das? Então ago­ra vais ouvir aqui…»

E então pas­sei as duas horas seguin­tes a conhe­cer os com­po­si­to­res e exe­cu­tan­tes mais excên­tri­cos que se pos­sam ima­gi­nar. Tipos que toca­vam como se esti­ves­sem a asso­ar o nariz ao saxo­fo­ne, outros que pare­ci­am estar a vio­lar vio­lon­ce­los, um outro que em vez de tocar nas teclas do pia­no fazia músi­ca com os sons das molas, das cor­das inte­ri­o­res e da madei­ra do ins­tru­men­to, enfim, uma série de gen­te musi­cal­men­te inex­pli­cá­vel que o Rui Eduardo Paes have­ria de ado­rar.

Quando um cli­en­te apa­re­cia era uma cha­ti­ce, sobre­tu­do se fos­se ape­nas para com­prar e ir embo­ra. Não via a dis­co­te­ca como um negó­cio, mas um cen­tro de divul­ga­ção musi­cal, um espa­ço onde ele podia dis­cur­sar sobre músi­ca e demons­trar o que dizia logo a seguir, pon­do-a a tocar e delei­tan­do-se com a rea­ção do ouvin­te. Ali o cli­en­te rara­men­te tinha razão.

Ai da pes­soa que lá fos­se para com­prar um dis­co qual­quer! Lembro-me de uma rapa­ri­ga que timi­da­men­te lhe inter­rom­peu a ver­bor­reia musi­cal para per­gun­tar, olhe se faz favor, tem o últi­mo dis­co dos Xutos e Pontapés?

Enormes rugas de desa­pro­va­ção sur­gi­ram-lhe ime­di­a­ta­men­te na tes­ta.

«Eu não ven­do cá essas por­ca­ri­as!» – Gritou ele. Não supor­ta­va ofen­sas à dig­ni­da­de da sua dis­co­te­ca. E a pobre rapa­ri­ga ficou tão sur­pre­en­di­da que nem foi capaz de res­pon­der. Virou cos­tas.

Depois de o ver tra­tar mal a miú­da deci­di pôr-me na alhe­ta. Estava ali há mais de duas horas e o tipo fica­va mais des­tram­be­lha­do da cabe­ça à medi­da que o tem­po pas­sa­va. Vim car­re­ga­do de dis­cos, mas não che­guei a com­prar o do Brian Eno. Olhem, fui à FNAC.


4

Miles Davis

Há alguns anos, bas­tan­tes até, entre­vis­tei o José Duarte. O Jazzé Duarte, como gos­ta de ser cha­ma­do, é um dos nomes mais conhe­ci­dos da divul­ga­ção do jazz em Portugal.

Eu esta­va pre­pa­ra­do para falar com o Jazzé Duarte, mas o Jazzé Duarte não esta­va nada pre­pa­ra­do para me ouvir falar.

Quando fui a casa dele para o entre­vis­tar tinha aca­ba­do de des­co­brir o dis­co «Kind of Blue», do Miles Davis, com John Coltrane, Bill Evans, Julian “Cannonball” Adderley, Paul Chambers e Jimmy Cobb. Este dis­co escan­ca­ra as por­tas da minha casa a esse mara­vi­lho­so esti­lo musi­cal que duran­te tan­tos fica­ra lá fora: o jazz. Agora pro­cu­ra­va tudo, que­ria conhe­cer tudo.

Como anda­va apai­xo­na­do, não pen­sa­va nou­tra coi­sa. É uma fase ain­da mais pro­ble­má­ti­ca do que aque­la em que come­ça a cres­cer-nos bor­bu­lhas na cara. Um tipo em lua-de-mel com o jazz pode trans­for­mar-se em alguém mui­to obs­ti­na­do e fazer coi­sas que só faria se tives­se per­di­do o juí­zo den­tro do pia­no da Carla Bley – o que tam­bém aca­bou por me acon­te­cer, cla­ro.

E quis o des­ti­no que eu fos­se entre­vis­tar um dos ros­tos do jazz em Portugal pre­ci­sa­men­te nes­sa altu­ra mais crí­ti­ca.

Quando che­guei a casa dele e o homem me fez pas­sar por um enor­me cor­re­dor com milha­res e milha­res de CD e dis­cos de jazz nas pra­te­lei­ras, tive de for­çar as minhas per­nas a dar meia-dúzia de pas­sos em dire­ção ao escri­tó­rio onde a entre­vis­ta se rea­li­za­ria. Quando final­men­te lá che­guei, des­co­bri novo con­jun­to de pra­te­lei­ras con­ten­do pelo menos uns mil e qui­nhen­tos CD.

«Estes são os meus pre­fe­ri­dos», dis­se ele, radi­an­te por me mos­trar a sua bibli­o­te­ca de Babel. «Por isso estão aqui.» Por pou­co eu não dizia «Foda-se» em voz alta.

É ver­da­de, havia outro por­me­nor mui­to sig­ni­fi­ca­ti­vo: naque­la altu­ra a Internet era uma mira­gem para a mai­o­ria das pes­so­as. Nem sequer tinha com­pu­ta­dor. Conhecer um tipo como o Jazzé Duarte sig­ni­fi­ca­va ter ali um Google à dis­po­si­ção.

Ele bem ten­ta­va ser entre­vis­ta­do, mas o que eu fazia era escre­ver nomes no cam­po de bus­ca que lhe via escar­ra­pa­cha­do na tes­ta: Miles, Coltrane, Keith Jarrett, Charlie Parker, Billie Holiday, todos esses músi­cos mara­vi­lho­sos que aca­ba­ra de des­co­brir e sobre os quais conhe­cia tão pou­co.

Eu sou um caso per­di­do, mas do Jazzé não que­ro que fiquem com a impres­são erra­da: foi paci­en­te e ter-se-á sen­ti­do reju­ve­nes­ci­do pelo meu entu­si­as­mo tão juve­nil. Ao prin­cí­pio dei­xou-me falar e ges­ti­cu­lar à von­ta­de, ouvin­do-me com uma expres­são de Buda embe­ve­ci­do. Ficou ali sen­ta­do com as per­nas esti­ca­das e as mãos pou­sa­das sobre a pan­ça. Às tan­tas, come­teu um erro.

«O jazz é a melhor músi­ca do mun­do», dizia eu pela déci­ma vez nes­sa tar­de. «Mas tenho pena de não ter tido opor­tu­ni­da­de de ver esses músi­cos ao vivo. Nunca pode­rei ver o John Coltrane tocar, só pode­rei ouvi-lo.»

«O Coltrane? Bem…» Levantou-se com um sor­ri­so matrei­ro e abriu as por­tas de um enor­me armá­rio. Vi então cen­te­nas e cen­te­nas de cas­se­tes VHS com con­cer­tos de Coltrane, cla­ro, de todos os outros músi­cos que conhe­cia e ado­ra­va, e de mui­tos mais que ain­da nem ouvi­ra: Monk, Eric Dolphy, Charles Mingus, por aí fora.

Poupo-vos a uma des­cri­ção mais por­me­no­ri­za­da da minha rea­ção. Digo-vos ape­nas que a expres­são da minha cade­la quan­do per­ce­be que vai ser ali­men­ta­da me dei­xa com uma sen­sa­ção de déjà-vu. A entre­vis­ta aca­bou por ser fei­ta e cor­reu de for­ma pro­fis­si­o­nal, dadas as cir­cuns­tân­ci­as. Estava na altu­ra de aban­do­nar a mina do Salomão do jazz.

Disse que ele come­teu um erro por­que não o lar­guei até pro­me­ter que me faria uma cópia de uma des­sas pre­ci­o­sas cas­se­tes. «Quando pos­so vir cá bus­cá-la? Eu pago-lhe a cas­se­te, não se pre­o­cu­pe.» Tanto insis­ti que a úni­ca for­ma de o homem se livrar de mim foi pro­me­ter-me a cópia para dali a dois dias. Agradeci e saí.

Dois dias e meio segun­do depois, esta­va a bater-lhe à por­ta. Nesse espa­ço de tem­po, con­tu­do, sen­ti­ra-me mal por ter sido tão pedin­chão. Decidira por isso com­prar-lhe um CD. Optei pelo Hot Rats, um mara­vi­lho­so deva­neio jaz­zís­ti­co do Frank Zappa que o Jazzé, pou­co fami­li­a­ri­za­do com a músi­ca do mes­tre, pode­ria gos­tar de conhe­cer. Também com­prei uma cas­se­te VHS vir­gem para o com­pen­sar da que gas­ta­ria comi­go.

Quando ele abriu a por­ta, já per­de­ra o sor­ri­so bea­tí­fi­co com que me tinha rece­bi­do dois dias antes. As sobran­ce­lhas arque­a­ram-se como as do Jack Nicholson e sau­dou-me com um «Você é um cha­to». Não tive­ra tem­po de fazer a gra­va­ção, expli­cou-me enquan­to espan­ta­va uma mos­ca invi­sí­vel, pelo que deve­ria vol­tar nou­tro dia. «Quando?», per­gun­tei, humi­lha­do. «Amanhã», sus­pi­rou o Jazzé.

«É ver­da­de», dis­se eu quan­do ele já se pre­pa­ra­va para fechar a por­ta. «Trago aqui uma coi­sa para si. Oferta minha.» Estendi-lhe o CD. «Conhece?» «O Zappa? Conheço, conhe­ço…», vol­tou a des­pa­char-me, miran­do a cai­xa do CD com o ar des­con­fi­a­do de quem não tem a cer­te­za se o melão está bem madu­ro.

«Mas conhe­ce esse dis­co?», insis­ti. «Conheço, conhe­ço…» «Mas já o tem?» «Acho que não, acho que não».

«Ainda bem» — eu todo con­ten­te por ter um CD que o Salomão do jazz não pos­suía. — «Tenho mui­to gos­to em ofe­re­cer-lho. Gosto tan­to de Zappa como de jazz», expli­quei eu, qua­se me esque­cen­do de que minu­tos antes fora ofi­ci­al­men­te clas­si­fi­ca­do como cha­to. Esforcei-me por­tan­to por não mas­sa­crar o homem com os meus elo­gi­os ao mes­tre e saquei a outra car­ta que tinha na man­ga. «E tenho aqui uma cas­se­te vir­gem, escu­sa de gas­tar uma das suas, gra­ve nes­ta.»

Como eu era um cha­to pre­vi­den­te, com­pra­ra uma de qua­tro horas – a mais lon­ga que encon­trei. O Jazzé acei­tou a cas­se­te, mas quis devol­ver-me o CD. «Nem pen­sar, é seu!», recu­sei, ofen­di­do.

Não que­rer com­prar Zappa ain­da admi­to, vive­mos num país demo­crá­ti­co e a Constituição con­fe­re-nos o direi­to à sur­dez musi­cal volun­tá­ria, mas não acei­tá-lo nem de bor­la, por­ra, isso já era ati­tu­de para ferir os meus sen­ti­men­tos. Ele não insis­tiu mais em devol­ver-me o CD e eu des­pe­di-me com um «Obrigado e até ama­nhã».

24 horas e meio segun­do depois, esta­va outra vez a bater-lhe à por­ta. As coi­sas que um gajo faz quan­do é um jovem incons­ci­en­te.

Ele não che­gou a apa­re­cer, cla­ro, não devia estar para me atu­rar mais. Veio a mulher rece­ber-me, uma senho­ra aten­ci­o­sa e sim­pá­ti­ca que me infor­mou que o mari­do dei­xa­ra uma cas­se­te para o «Marcos». Agradeci, igno­ran­do a súbi­ta plu­ra­li­da­de da minha iden­ti­da­de, peguei na cas­se­te, pedi des­cul­pa pelo incó­mo­do e pus-me na alhe­ta que já se fazia tar­de.

Ser um cha­to com­pen­sou. O homem fez uma sele­ção fan­tás­ti­ca. Vi a ban­da do dis­co que me fize­ra apai­xo­nar pelo jazz, «Kind of Blue», tocan­do o «So What», um con­cer­to de 45 minu­tos de Coltrane com Eric Dolphy, uma gra­va­ção All-Stars da CBS com todos os gran­des nomes do jazz do tem­po do Count Basie, mais a Billie Holiday, o Coleman Hawkins, o Lester Young, o Thelonious Monk, enfim, gra­va­ções abso­lu­ta­men­te pre­ci­o­sas.

Resta-me agra­de­cer ao José Duarte a lem­bran­ça que me dei­xou. Se os aca­sos do Google o fize­rem vir aqui, quei­ra acei­tar o meu pedi­do de des­cul­pas por ter sido tão cha­to e mui­to, mui­to obri­ga­do pela cas­se­te. Já ago­ra, espe­ro que tenha che­ga­do a ouvir o dis­co do Zappa que lhe ofe­re­ci. Se ouviu e gos­tou, con­si­de­re-se per­do­a­do por me ter fei­to a des­fei­ta de naque­la tar­de ter que­ri­do devol­ver uma obra-pri­ma do mes­tre.


5

Frank Zappa

YCDTOSA é um acró­ni­mo para «You Can’t Do That On Stage Anymore», uma série de seis volu­mes com a músi­ca do mes­tre cap­ta­da ao vivo e cujo núme­ro dois, um con­cer­to em Helsínquia com a melhor ban­da que algu­ma vez Zappa reu­niu, me acom­pa­nhou em incon­tá­veis noi­tes de sofá e baque­tas invi­sí­veis.

Este dis­co foi duran­te mui­tos anos o ani­ma­dor dos pesa­de­los notur­nos do meu vizi­nho.

A ver­da­de é que gos­to de par­ti­lhar as minhas des­co­ber­tas. Vocês já devem ter nota­do. Além de cha­to, sou gene­ro­so. Se aca­bo de conhe­cer um dis­co fabu­lo­so do Zappa às duas da manhã, o meu entu­si­as­mo leva-me a que­rer que a vida do meu vizi­nho seja tam­bém toca­da pelos subli­mes sons do mes­tre. Sobretudo os que envol­vem expe­ri­men­ta­lis­mos sono­ros que lem­bram uma mis­tu­ra de Varèse, Ligeti, Jimi Hendrix e pitas his­té­ri­cas.

Às duas da manhã a sen­si­bi­li­da­de artís­ti­ca do meu vizi­nho cos­tu­ma­va estar apu­ra­da. Acho que ele apre­ci­a­va o fac­to de ser acor­da­do por Zappa a altos ber­ros.

Aquilo não acon­te­cia de pro­pó­si­to. Há pes­so­as sem noção da for­ça que têm – a minha apa­re­lha­gem era assim. Aumentava-lhe só um boca­di­nho o volu­me e as minhas colu­nas Mission bica­bla­das de 150 watts por canal reben­ta­vam em cheio na almo­fa­da do tipo e as penas de gan­so voa­vam pelo ar de tal for­ma que o gajo devia pen­sar que esta­va a ter um pesa­de­lo com a pró­pria mio­lei­ra.

Às vezes ali­nha­va na orques­tra. Pegava na vas­sou­ra e punha-se a agi­tá-la como um bate­ris­ta de trash metal. Eu ouvia os batu­ques no teto e acha­va que o gajo até tinha bom ouvi­do, pois entra­va bem no rit­mo. Às vezes punha a músi­ca mais alta, não fos­se ele per­der o balan­ço por não con­se­guir ouvir os pia­nís­si­mos.

Só não gos­ta­va quan­do lhe ape­te­cia can­tar. Na per­cus­são safa­va-se com méri­to, mas como voca­lis­ta era uma des­gra­ça. Às vezes acon­te­cia, pron­to. Acordava com o som de Zappa e punha-se a can­tar

Baixa essa mer­da cabrão do cara­lho

O homem que me per­doe que eu não gos­to de ferir a sen­si­bi­li­da­de artís­ti­ca de nin­guém, mas quan­do ele abria as goe­las eu era obri­ga­do a aumen­tar um boca­di­nho mais o volu­me só para não me estra­gar a músi­ca.

Eu já sabia que, mais tar­de ou mais cedo, o tipo have­ria de des­cer as esca­das e bater-me à por­ta. O Zappa tem esse efei­to nas pes­so­as.

O meu vizi­nho ves­tia o pija­ma e abria a por­ta de casa deva­ga­ri­nho — o ele­men­to sur­pre­sa é sem­pre impor­tan­te nes­tes casos. Chinelava pelas esca­das abai­xo com tan­to cui­da­do que pare­cia um atle­ta a trans­por­tar uma tocha olím­pi­ca. Bem, no caso dele era um bas­tão de base­bol, o que não dei­xa de ser um obje­to rela­ci­o­na­do com o des­por­to. Batia-me à por­ta com estron­do — o ele­men­to melo­dra­má­ti­co da sur­pre­sa, lá está — e gri­ta­va

Ó meu cabrão estás a pro­vo­car-me não estás

É ver­da­de, reco­nhe­ço. A arte pro­vo­ca. A arte desa­tro­fia. É uma via­gem de des­co­ber­ta. Confronta-te con­ti­go pró­prio. Faz-te pen­sar na este­ri­li­da­de da tua vida e obri­ga-te a ques­ti­o­nar a tua posi­ção na soci­e­da­de. Acima de tudo, acor­da-te.

O meu vizi­nho apren­deu mui­to nes­tes anos de per­ple­xa con­vi­vên­cia. Evoluiu. Não só falou a toda a gen­te do pré­dio sobre o génio musi­cal do Zappa como, na noi­te seguin­te, não se con­te­ve e cha­mou a polí­cia. Eu esta­va a ouvir este mara­vi­lho­so dis­co ao vivo uma vez mais — e veio mes­mo a calhar, pois os con­cer­tos pre­ci­sam sem­pre de poli­ci­a­men­to. Sabe-se lá a lou­cu­ra que um fã pode fazer quan­do espu­ma pela boca.

Marco Santos

­ Marco Santos

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