A música acompanha a minha vida desde que me conheço. Há pessoas que nasceram para a fazer; outras que nasceram para a ouvir. Embora tenha muitos interesses e paixões, considero-me parte deste último grupo.

O que se segue é uma compilação de textos e músicas — cinco momentos da minha vida que ficaram para sempre associados à descoberta de um disco específico. Existem muitos, muitos discos assim na minha banda sonora, audições que me fazem lembrar períodos específicos — e para sempre perdidos — mas fico-me pelos mais embaraçosos.

1

Lene Lovich

Havia um filme do Woody Allen em que o próprio dizia que a história da Branca de Neve e os Sete Anões estava muito bem, mas que ele devia ser um tipo esquisito: apesar de o Espelho Mágico garantir que a Branca de Neve era a mulher mais bonita do reino, sentia-se era «sexualmente atraído pela Bruxa Má.»

Lene Lovich — rainha do movimento New Wave dos finais da década de 70 e princípios de 80 — foi a minha Bruxa Má. Foi com ela que comecei a gostar de música. Foi com ela que comecei a notar que as mulheres não se dividiam entre mães chatas e raparigas medricas que se encolhiam à passagem da bola. As mulheres também podiam ser como a Lene Lovich: misteriosas, provocantes, sensuais, artísticas. E foi assim, quase de um dia para o outro, que a minha vida mudou.

Voltei a ouvir Lene Lovich. Não é a mesma coisa, obviamente, porque entretanto conheci muita música e os meus gostos foram mudando, mas também não é só com os ouvidos que a oiço. Aquela voz de Nina Hagen aveludada, o ritmo, as guitarras, a bateria, os sintetizadores, todas aquelas canções continuam a transportar-me para um passado excitante de descobertas.


2

Pink Floyd

A primeira vez que ouvi Pink Floyd tinha uns doze anos. Andava na Escola Salesiana – uma escola de padres – e cantarolava mentalmente o «Another Brick in the Wall (Part II)», sobretudo durante as aulas de Religião e Moral, as mais tirânicas e repressivas que vivi.

O professor bem se esforçava por formar uma geração de crentes tementes a Deus, mas só conseguiu com que o temêssemos a ele – Deus podia ser omnipresente e Todo-Poderoso, mas a sua potencial ameaça não era comparável ao poder moral da galheta terrena.

Comparar o tamanho de Deus e o tamanho daquelas manápulas até podia ser tão absurdo como comparar o tamanho de Júpiter com o de um calhau da calçada, mas nenhum de nós tinha dúvidas sobre qual dos dois objetos teria mais probabilidades de nos fazer um galo na cabeça.

O professor era mais pequeno e muito menos omnipotente que Deus, mas estava mais perto de nós e era muito mais interventivo. Um moralista com as costas quentes costuma desenvolver muita musculatura nos ombros e nos braços.

Teríamos uma vida mais descansada se tivéssemos sido entregues exclusivamente aos cuidados divinos: Deus ao menos não se metia nos nossos assuntos nem se chateava com nada.

Deus fazia lembrar o pai do Formiga. O Formiga era um tipo com muito jeito para jogar futebol. Tinha tanta habilidade que o campo parecia um carreiro de formigas quando jogava: ele à frente, gigante, a carregar a bola de Berlim; todos os outros atrás a ver se conseguiam umas sobras.

Talvez o pai do Formiga tivesse a esperança de que o filho se tornasse milionário: deixava-o sempre à vontade mesmo quando o puto faltava às aulas para jogar à bola ou se embrenhava no mato às escondidas dos padres. O Formiga nunca chegou a tornar-se uma vedeta da bola, pelo que espero que o pai não o tenha castigado por ter atraiçoado a fé de que um dia aquele miúdo o tornaria milionário.

Havia imensas missas a que éramos obrigados a assistir. Não consigo descrevê-las de memória, mas lembro-me que na nossa escala do aborrecimento supremo, do mito da criação ao sétimo dia, quando Deus criou o bocejo, enfim, numa escala de 1 a dez, as missas nos Salesianos chegavam ao 11 nos primeiros minutos.

A única experiência dotada de uma certa qualidade mística que podíamos experimentar era brincar com coisas proibidas. Como era uma escola de rapazes e não havia raparigas, restava-nos o mato.

A escola tinha um grande terreno de mato muito cerrado. Ficava ao pé do campo de futebol e ninguém sabia onde terminava, mas estava vedado aos alunos.

Dizia-se que naquela mata vagueava um padre doido e grandalhão, cuja única ocupação na vida era dar caça aos desgraçados alunos que se atrevessem a invadir-lhe os terrenos. Era um psicopata sancionado por Deus, como muitos outros.

Dizia-se que a equipa cuja baliza ficasse do lado da mata tinha mais hipóteses de não sofrer golos, pois os avançados adversários tinham sempre receio de chutar com demasiada força e perder a bola para sempre.

Qualquer manifestação de autoridade eclesiástica vinha com um carimbo de Deus a dizer Aprovado. Não havia discussão possível, pelo que só nos restava a fuga silenciosa.

Também se dizia que no mato havia lobisomens, vampiros, bodes, serpentes importadas do Jardim do Éden e uma porrada de seres mitológicos desconhecidos mas sempre fatais. Como eu fiz parte do grupo de aventureiros que se pirava às missas e se escondia na mata proibida, posso garantir que o que lá se fazia era muito mais perigoso e subversivo: fumavam-se cigarros que o Formiga gamava ao pai, contavam-se histórias, especulava-se sobre o que seria o sexo, falava-se de miúdas que ainda não tínhamos conhecido e, adivinharam, escutávamos Pink Floyd num gravador a pilhas meio arrebentado.

Roger Waters escreveu a letra de Another Brick in the Wall a pensar no sistema de educação britânico da sua infância, repressivo, quadrado e castrador de mentes criativas; para nós, cantar os versos «We don’t need no education, We dont need no thought control, No dark sarcasm in the classroom, Teachers leave them kids alone», mesmo a medo, equivalia a viver uma experiência mística que nem o pivete a incenso conseguia dissipar.

Uma ilusão desesperada era transformada em pequenos momentos durante os quais os sonhos se tornavam realidade: na mata respirávamos ar puro, o ar puro trazia uma brisa de liberdade, a liberdade vinha com aquela música dos Pink Floyd. Nesse ano fui expulso dos Salesianos – «convidado a sair», foi o piedoso eufemismo usado para informar a minha família.

A partir daí, fiquei livre para explorar matas desconhecidas ao som dos Pink Floyd.


3

Brian Eno

Brian Eno foi escolhido para compor a banda sonora de um documentário sobre as missões Apollo. Eno reuniu o irmão Roger e o músico canadiano Daniel Lanois e escreveu «Apollo: Atmospheres and Soundtracks». Um dos temas deste maravilhoso disco – «An Ending (Ascent)» – é uma das mais belas homenagens musicais ao engenho humano e à nossa capacidade de sonhar que conheço.

É pena que um dos personagens mais extraordinários que conheci nas minhas demandas pelas discotecas tenha torcido o nariz quando queria comprar o disco, como se de repente me tivesse transformado numa coisa viscosa de um desses filmes de série B de ficção científica.

O tipo era dono de uma dessas lojas que tentavam sobreviver ao império da Fnac. Conheci-a por acaso: quando estava a passar pela rua notei um cartaz que dizia: «Aqui vendem-se discos compactos». Alguém que escreve «discos compactos» em vez de CDs só podia ser um tipo que viveu a gloriosa era dos discos de vinil.

O espaço era pequeno, mas atulhado de música clássica contemporânea, compositores que conhecia mas nunca encontrara e outros de que nunca ouvira falar.

O dono da discoteca era um tipo franzino, rígido e nervoso. Os olhos arregalavam-se quando falava de música. Mal reparou que eu estava todo entretido a olhar para um CD de Mozart, concluiu que eu merecia um atendimento personalizado, aproximou-se e disse-me:

«Não leves esse, pá. Não presta. Não presta! Olha, queres ver?» — E procurou outro CD. Mexia-lhes com a destreza de um jogador profissional de cartas. Finalmente encontrou-o, o primeiro de muitos trunfos. — «Tás a ver este? Este é que deves levar! Este que está aqui! Foi tocado com os instrumentos da época!»

O CD que ele me mostrou era mais barato do que aquele que eu tinha pensado levar, o que me fez simpatizar com ele por causa da honestidade. Por essa altura já andava a ouvir uma gravação manhosa do «Apollo: Atmospheres & Soundtracks» e aproveitei para lhe perguntar se tinha o disco.

«Brian Eno? Isso é música para comer meninas, pá.» E não há mal nenhum nisso, apeteceu-me dizer. Em vez disso, perguntei: «E Frank Zappa?»

«Estou à espera que me cheguem alguns, mas não tenho.»

Falei-lhe das experiências mais vanguardistas do Zappa, muito próximas do que fazem os compositores clássicos deste século, mas ele não conseguiu ouvir mais: «Gostas dessas merdas? Então agora vais ouvir aqui…»

E então passei as duas horas seguintes a conhecer os compositores e executantes mais excêntricos que se possam imaginar. Tipos que tocavam como se estivessem a assoar o nariz ao saxofone, outros que pareciam estar a violar violoncelos, um outro que em vez de tocar nas teclas do piano fazia música com os sons das molas, das cordas interiores e da madeira do instrumento, enfim, uma série de gente musicalmente inexplicável que o Rui Eduardo Paes haveria de adorar.

Quando um cliente aparecia era uma chatice, sobretudo se fosse apenas para comprar e ir embora. Não via a discoteca como um negócio, mas um centro de divulgação musical, um espaço onde ele podia discursar sobre música e demonstrar o que dizia logo a seguir, pondo-a a tocar e deleitando-se com a reação do ouvinte. Ali o cliente raramente tinha razão.

Ai da pessoa que lá fosse para comprar um disco qualquer! Lembro-me de uma rapariga que timidamente lhe interrompeu a verborreia musical para perguntar, olhe se faz favor, tem o último disco dos Xutos e Pontapés?

Enormes rugas de desaprovação surgiram-lhe imediatamente na testa.

«Eu não vendo cá essas porcarias!» – Gritou ele. Não suportava ofensas à dignidade da sua discoteca. E a pobre rapariga ficou tão surpreendida que nem foi capaz de responder. Virou costas.

Depois de o ver tratar mal a miúda decidi pôr-me na alheta. Estava ali há mais de duas horas e o tipo ficava mais destrambelhado da cabeça à medida que o tempo passava. Vim carregado de discos, mas não cheguei a comprar o do Brian Eno. Olhem, fui à FNAC.


4

Miles Davis

Há alguns anos, bastantes até, entrevistei o José Duarte. O Jazzé Duarte, como gosta de ser chamado, é um dos nomes mais conhecidos da divulgação do jazz em Portugal.

Eu estava preparado para falar com o Jazzé Duarte, mas o Jazzé Duarte não estava nada preparado para me ouvir falar.

Quando fui a casa dele para o entrevistar tinha acabado de descobrir o disco «Kind of Blue», do Miles Davis, com John Coltrane, Bill Evans, Julian “Cannonball” Adderley, Paul Chambers e Jimmy Cobb. Este disco escancara as portas da minha casa a esse maravilhoso estilo musical que durante tantos ficara lá fora: o jazz. Agora procurava tudo, queria conhecer tudo.

Como andava apaixonado, não pensava noutra coisa. É uma fase ainda mais problemática do que aquela em que começa a crescer-nos borbulhas na cara. Um tipo em lua-de-mel com o jazz pode transformar-se em alguém muito obstinado e fazer coisas que só faria se tivesse perdido o juízo dentro do piano da Carla Bley – o que também acabou por me acontecer, claro.

E quis o destino que eu fosse entrevistar um dos rostos do jazz em Portugal precisamente nessa altura mais crítica.

Quando cheguei a casa dele e o homem me fez passar por um enorme corredor com milhares e milhares de CD e discos de jazz nas prateleiras, tive de forçar as minhas pernas a dar meia-dúzia de passos em direção ao escritório onde a entrevista se realizaria. Quando finalmente lá cheguei, descobri novo conjunto de prateleiras contendo pelo menos uns mil e quinhentos CD.

«Estes são os meus preferidos», disse ele, radiante por me mostrar a sua biblioteca de Babel. «Por isso estão aqui.» Por pouco eu não dizia «Foda-se» em voz alta.

É verdade, havia outro pormenor muito significativo: naquela altura a Internet era uma miragem para a maioria das pessoas. Nem sequer tinha computador. Conhecer um tipo como o Jazzé Duarte significava ter ali um Google à disposição.

Ele bem tentava ser entrevistado, mas o que eu fazia era escrever nomes no campo de busca que lhe via escarrapachado na testa: Miles, Coltrane, Keith Jarrett, Charlie Parker, Billie Holiday, todos esses músicos maravilhosos que acabara de descobrir e sobre os quais conhecia tão pouco.

Eu sou um caso perdido, mas do Jazzé não quero que fiquem com a impressão errada: foi paciente e ter-se-á sentido rejuvenescido pelo meu entusiasmo tão juvenil. Ao princípio deixou-me falar e gesticular à vontade, ouvindo-me com uma expressão de Buda embevecido. Ficou ali sentado com as pernas esticadas e as mãos pousadas sobre a pança. Às tantas, cometeu um erro.

«O jazz é a melhor música do mundo», dizia eu pela décima vez nessa tarde. «Mas tenho pena de não ter tido oportunidade de ver esses músicos ao vivo. Nunca poderei ver o John Coltrane tocar, só poderei ouvi-lo.»

«O Coltrane? Bem…» Levantou-se com um sorriso matreiro e abriu as portas de um enorme armário. Vi então centenas e centenas de cassetes VHS com concertos de Coltrane, claro, de todos os outros músicos que conhecia e adorava, e de muitos mais que ainda nem ouvira: Monk, Eric Dolphy, Charles Mingus, por aí fora.

Poupo-vos a uma descrição mais pormenorizada da minha reação. Digo-vos apenas que a expressão da minha cadela quando percebe que vai ser alimentada me deixa com uma sensação de déjà-vu. A entrevista acabou por ser feita e correu de forma profissional, dadas as circunstâncias. Estava na altura de abandonar a mina do Salomão do jazz.

Disse que ele cometeu um erro porque não o larguei até prometer que me faria uma cópia de uma dessas preciosas cassetes. «Quando posso vir cá buscá-la? Eu pago-lhe a cassete, não se preocupe.» Tanto insisti que a única forma de o homem se livrar de mim foi prometer-me a cópia para dali a dois dias. Agradeci e saí.

Dois dias e meio segundo depois, estava a bater-lhe à porta. Nesse espaço de tempo, contudo, sentira-me mal por ter sido tão pedinchão. Decidira por isso comprar-lhe um CD. Optei pelo Hot Rats, um maravilhoso devaneio jazzístico do Frank Zappa que o Jazzé, pouco familiarizado com a música do mestre, poderia gostar de conhecer. Também comprei uma cassete VHS virgem para o compensar da que gastaria comigo.

Quando ele abriu a porta, já perdera o sorriso beatífico com que me tinha recebido dois dias antes. As sobrancelhas arquearam-se como as do Jack Nicholson e saudou-me com um «Você é um chato». Não tivera tempo de fazer a gravação, explicou-me enquanto espantava uma mosca invisível, pelo que deveria voltar noutro dia. «Quando?», perguntei, humilhado. «Amanhã», suspirou o Jazzé.

«É verdade», disse eu quando ele já se preparava para fechar a porta. «Trago aqui uma coisa para si. Oferta minha.» Estendi-lhe o CD. «Conhece?» «O Zappa? Conheço, conheço…», voltou a despachar-me, mirando a caixa do CD com o ar desconfiado de quem não tem a certeza se o melão está bem maduro.

«Mas conhece esse disco?», insisti. «Conheço, conheço…» «Mas já o tem?» «Acho que não, acho que não».

«Ainda bem» — eu todo contente por ter um CD que o Salomão do jazz não possuía. — «Tenho muito gosto em oferecer-lho. Gosto tanto de Zappa como de jazz», expliquei eu, quase me esquecendo de que minutos antes fora oficialmente classificado como chato. Esforcei-me portanto por não massacrar o homem com os meus elogios ao mestre e saquei a outra carta que tinha na manga. «E tenho aqui uma cassete virgem, escusa de gastar uma das suas, grave nesta.»

Como eu era um chato previdente, comprara uma de quatro horas – a mais longa que encontrei. O Jazzé aceitou a cassete, mas quis devolver-me o CD. «Nem pensar, é seu!», recusei, ofendido.

Não querer comprar Zappa ainda admito, vivemos num país democrático e a Constituição confere-nos o direito à surdez musical voluntária, mas não aceitá-lo nem de borla, porra, isso já era atitude para ferir os meus sentimentos. Ele não insistiu mais em devolver-me o CD e eu despedi-me com um «Obrigado e até amanhã».

24 horas e meio segundo depois, estava outra vez a bater-lhe à porta. As coisas que um gajo faz quando é um jovem inconsciente.

Ele não chegou a aparecer, claro, não devia estar para me aturar mais. Veio a mulher receber-me, uma senhora atenciosa e simpática que me informou que o marido deixara uma cassete para o «Marcos». Agradeci, ignorando a súbita pluralidade da minha identidade, peguei na cassete, pedi desculpa pelo incómodo e pus-me na alheta que já se fazia tarde.

Ser um chato compensou. O homem fez uma seleção fantástica. Vi a banda do disco que me fizera apaixonar pelo jazz, «Kind of Blue», tocando o «So What», um concerto de 45 minutos de Coltrane com Eric Dolphy, uma gravação All-Stars da CBS com todos os grandes nomes do jazz do tempo do Count Basie, mais a Billie Holiday, o Coleman Hawkins, o Lester Young, o Thelonious Monk, enfim, gravações absolutamente preciosas.

Resta-me agradecer ao José Duarte a lembrança que me deixou. Se os acasos do Google o fizerem vir aqui, queira aceitar o meu pedido de desculpas por ter sido tão chato e muito, muito obrigado pela cassete. Já agora, espero que tenha chegado a ouvir o disco do Zappa que lhe ofereci. Se ouviu e gostou, considere-se perdoado por me ter feito a desfeita de naquela tarde ter querido devolver uma obra-prima do mestre.


5

Frank Zappa

YCDTOSA é um acrónimo para «You Can’t Do That On Stage Anymore», uma série de seis volumes com a música do mestre captada ao vivo e cujo número dois, um concerto em Helsínquia com a melhor banda que alguma vez Zappa reuniu, me acompanhou em incontáveis noites de sofá e baquetas invisíveis.

Este disco foi durante muitos anos o animador dos pesadelos noturnos do meu vizinho.

A verdade é que gosto de partilhar as minhas descobertas. Vocês já devem ter notado. Além de chato, sou generoso. Se acabo de conhecer um disco fabuloso do Zappa às duas da manhã, o meu entusiasmo leva-me a querer que a vida do meu vizinho seja também tocada pelos sublimes sons do mestre. Sobretudo os que envolvem experimentalismos sonoros que lembram uma mistura de Varèse, Ligeti, Jimi Hendrix e pitas histéricas.

Às duas da manhã a sensibilidade artística do meu vizinho costumava estar apurada. Acho que ele apreciava o facto de ser acordado por Zappa a altos berros.

Aquilo não acontecia de propósito. Há pessoas sem noção da força que têm – a minha aparelhagem era assim. Aumentava-lhe só um bocadinho o volume e as minhas colunas Mission bicabladas de 150 watts por canal rebentavam em cheio na almofada do tipo e as penas de ganso voavam pelo ar de tal forma que o gajo devia pensar que estava a ter um pesadelo com a própria mioleira.

Às vezes alinhava na orquestra. Pegava na vassoura e punha-se a agitá-la como um baterista de trash metal. Eu ouvia os batuques no teto e achava que o gajo até tinha bom ouvido, pois entrava bem no ritmo. Às vezes punha a música mais alta, não fosse ele perder o balanço por não conseguir ouvir os pianíssimos.

Só não gostava quando lhe apetecia cantar. Na percussão safava-se com mérito, mas como vocalista era uma desgraça. Às vezes acontecia, pronto. Acordava com o som de Zappa e punha-se a cantar

Baixa essa merda cabrão do caralho

O homem que me perdoe que eu não gosto de ferir a sensibilidade artística de ninguém, mas quando ele abria as goelas eu era obrigado a aumentar um bocadinho mais o volume só para não me estragar a música.

Eu já sabia que, mais tarde ou mais cedo, o tipo haveria de descer as escadas e bater-me à porta. O Zappa tem esse efeito nas pessoas.

O meu vizinho vestia o pijama e abria a porta de casa devagarinho — o elemento surpresa é sempre importante nestes casos. Chinelava pelas escadas abaixo com tanto cuidado que parecia um atleta a transportar uma tocha olímpica. Bem, no caso dele era um bastão de basebol, o que não deixa de ser um objeto relacionado com o desporto. Batia-me à porta com estrondo — o elemento melodramático da surpresa, lá está — e gritava

Ó meu cabrão estás a provocar-me não estás

É verdade, reconheço. A arte provoca. A arte desatrofia. É uma viagem de descoberta. Confronta-te contigo próprio. Faz-te pensar na esterilidade da tua vida e obriga-te a questionar a tua posição na sociedade. Acima de tudo, acorda-te.

O meu vizinho aprendeu muito nestes anos de perplexa convivência. Evoluiu. Não só falou a toda a gente do prédio sobre o génio musical do Zappa como, na noite seguinte, não se conteve e chamou a polícia. Eu estava a ouvir este maravilhoso disco ao vivo uma vez mais — e veio mesmo a calhar, pois os concertos precisam sempre de policiamento. Sabe-se lá a loucura que um fã pode fazer quando espuma pela boca.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Queres dizer-me alguma coisa?