Leonard Cohen sem­pre foi um cri­a­dor len­to. Exasperadamente len­to, nas su­as pró­pri­as pa­la­vras. Certa oca­sião, em me­a­dos da dé­ca­da de 80, Cohen foi to­mar um ca­fé com Bob Dylan de­pois de ter as­sis­ti­do, em Paris, a um ex­ce­len­te con­cer­to do atu­al Prémio Nobel da Literatura.

Dylan es­ta­va es­pe­ci­al­men­te in­te­res­sa­do em fa­lar do te­ma «Hallelujah». A can­ção es­pi­ri­tu­al que o for­mi­dá­vel Jeff Buckley ele­va­ria à es­tra­tos­fe­ra do re­co­nhe­ci­men­to, al­guns anos de­pois, já era in­ten­sa­men­te ad­mi­ra­da por Dylan.

«Quanto tem­po de­mo­ras­te a fazê-la? — Quis sa­ber. «Dois anos», men­tiu Cohen. Na ver­da­de ti­nha de­mo­ra­do cin­co, mas não quis par­ti­lhar os so­li­tá­ri­os mo­men­tos pas­sa­dos em quar­tos de ho­tel, de pi­ja­ma, a ba­ter in­dig­na­men­te com a ca­be­ça nas pa­re­des até a dar co­mo aca­ba­da.

«Gosto mui­to da tua can­ção ‘I and I’» — dis­se, por sua vez, Cohen. — «Quanto tem­po de­mo­ras­te tu a fazê-la?» «Uns quin­ze mi­nu­tos», res­pon­deu Dylan.

Não há quartos iguais na torre da canção

Tower of Song, U2

O pro­ces­so cri­a­ti­vo é tra­ma­do e te­nho aqui uma his­tó­ria de Tom Waits que não me dei­xa men­tir. Waits es­ta­va a con­du­zir o car­ro nu­ma au­to­es­tra­da em Los Angeles quan­do, de re­pen­te, lhe veio à ca­be­ça um pe­que­no frag­men­to de me­lo­dia. Era uma me­lo­dia elu­si­va, ir­re­sis­tí­vel, be­la. Desejava-a, não a po­dia per­der. Dentro do car­ro, sem pa­pel ou lá­pis, não con­se­guia fa­zer ano­ta­ções.

«Vou per­der is­to e vou ser as­som­bra­do pa­ra sem­pre por es­ta can­ção» — pen­sou Tom Waits, já an­si­o­so. Resolveu pa­rar o car­ro e, num ápi­ce, de­ci­diu tra­var aque­le pro­ces­so men­tal que o co­me­ça­va a con­su­mir.

Em vez de per­se­guir uma me­lo­dia fan­tas­ma­gó­ri­ca, saiu do car­ro, fi­xou os céus e dis­se: «Desculpa, não vês que eu es­ta­va a con­du­zir? Pareço-te em con­di­ções de ano­tar uma ideia ago­ra? Se que­res mes­mo exis­tir, vol­ta nu­ma al­tu­ra mais apro­pri­a­da, quan­do eu te pu­der dar aten­ção. Caso con­trá­rio, vai cha­te­ar ou­tro ho­je. Vai cha­te­ar o Leonard Cohen».

Tom Waits não se di­ri­gia a Deus, mas à Criatividade. E a Criatividade vi­si­tou de fac­to Cohen, mui­tas ve­zes, du­ran­te dé­ca­das. Visitas de­mo­ra­das mas dis­cre­tas, chei­as de lon­gos si­lên­ci­os, du­ran­te os quais mui­tas ve­zes es­ten­dia a mão ape­nas pa­ra lhe co­brar o alu­guer do quar­to on­de vi­via na tor­re da can­ção.

«Perguntei a Hank Williams/Quão so­li­tá­rio is­to po­de ser?/Hank Williams ain­da não me respondeu\Mas ouvi-o tos­sir a noi­te toda\Cem an­da­res aci­ma, na Torre da Canção.»

Aleluia, aleluia, não é o Jeff Buckley

Hallelujah, Rufus Wainwright

Não, a co­ver de « Hallelujah» não é a de Jeff Buckley. Os que se in­te­res­sam por mú­si­ca já a co­nhe­cem, de cer­te­za. E os que se in­te­res­sam já têm uma ideia do que Buckley fez com a can­ção: arrancou-lhe as asas de an­jo da ver­são ori­gi­nal, tornou-a crua, vis­ce­ral, su­a­da, nu­ma pa­la­vra: pro­fun­da­men­te sen­su­al.

«Quem ou­vir ‘Hallelujah’ com aten­ção per­ce­be que é uma can­ção so­bre se­xo, so­bre o amor, so­bre a vi­da na Terra.» — Explicou o pró­prio Jeff Buckley. — «Não é uma ho­me­na­gem a uma pes­soa sa­gra­da, a um ído­lo ou a um deus, mas é um ale­luia do or­gas­mo. Uma ode à vi­da e ao amor.»

Buckley, és re­al­men­te o mai­or. Obrigado pe­los di­as em que exis­tis­te na Terra, de­ma­si­a­do pou­cos. Mas pa­ra não tor­nar es­ta se­le­ção tão ób­via, es­co­lhi uma ver­são mui­to es­pe­ci­al can­ta­da por Rufus Wainwright e um es­pan­to­so co­ro de 1500 vo­lun­tá­ri­os que se jun­ta­ram pa­ra gra­var o ví­deo.

Rufus vol­ta­rá a sur­gir nes­ta se­le­ção por­que é um ar­tis­ta ex­tra­or­di­ná­rio e por­que a li­ga­ção a Cohen era pro­fun­dís­si­ma. Por ago­ra, retoma-se a vi­são mais ecle­siás­ti­ca da can­ção. Os an­jos vol­tam a ga­nhar as su­as asi­nhas nes­ta ver­são. E é tão di­fí­cil de re­sis­tir co­mo ao fil­me «Do Céu Caiu uma Estrela», de Frank Capra.

R.E.M.

«Fui sen­ten­ci­a­do a vin­te anos de tédio/Por ten­tar mu­dar o sis­te­ma por dentro/Estou a che­gar agora,/Estou a che­gar pa­ra os recompensar/Primeiro to­ma­mos Manhattan, de­pois to­ma­mos Berlim».

Esta é a ver­são ener­gé­ti­ca dos ex­tin­tos R.E.M., uma ver­são ade­qua­da aos tem­pos que vi­ve­mos, uma can­ção que po­dia ser es­cu­ta­da em to­dos os can­tos on­de se lu­ta pe­la Democracia, pe­la Ciência e pe­los Direitos Humanos nos Estados Unidos.

«First we ta­ke Manhattan» es­ta­va num dos car­ta­zes da ma­ni­fes­ta­ção de Nova Iorque con­tra o pró­xi­mo pre­si­den­te elei­to, o ogre Donald Trump. Faz to­do o sen­ti­do, so­bre­tu­do se pen­sar­mos no que o pró­prio Leonard Cohen tem a di­zer so­bre a can­ção.

«É uma res­pos­ta di­re­ta ao té­dio, à an­si­e­da­de, à im­pon­de­ra­bi­li­da­de que sin­to no meu dia-a-dia. Não sei se mais al­guém se sen­te as­sim. Suspeito que al­gu­mas pes­so­as, sim. Sentem-se co­mo se o mun­do ti­ves­se de­sa­pa­re­ci­do. Que uma ca­tás­tro­fe já ti­ves­se acon­te­ci­do. Que a inun­da­ção já te­nha che­ga­do. Que já não pre­ci­sa­mos de es­pe­rar por um ho­lo­caus­to nu­cle­ar. Que, de al­gu­ma for­ma, o mun­do já foi des­truí­do.»

Leonard Cohen mor­reu a 7 de no­vem­bro. Donald Trump ven­ceu as elei­ções um dia de­pois. Dupla der­ro­ta.

Lover Lover Lover, The Districts

The Districts é uma ban­da rock in­die ame­ri­ca­na for­ma­da quan­do os seus qua­tro ele­men­tos ain­da an­da­vam no li­ceu. Só qua­tro anos, dois EP e um ál­bum de­pois co­me­ça­ram a ser co­nhe­ci­dos. A co­ver de «Lover Lover Lover», di­vul­ga­da pe­la ban­da em ja­nei­ro des­te ano, foi o pri­mei­ro si­nal de que os The Districts con­ti­nu­a­vam ati­vos des­de que lan­ça­ram o dis­co «A Flourish and a Spoil», em 2015.

Um hino de reconciliação no meio da guerra

A can­ção foi com­pos­ta por Leonard Cohen, ju­deu, quan­do se jun­tou a sol­da­dos is­ra­e­li­tas no de­ser­to do Sinai, em 1973, du­ran­te a guer­ra do Yom Kippur. A 6 de ou­tu­bro, dia do fe­ri­a­do re­li­gi­o­so Yom Kippur, uma co­li­ga­ção de paí­ses ára­bes li­de­ra­da por Egipto e Síria ata­cou de sur­pre­sa Israel.

«Lover Lover Lover» é Leonard Cohen a con­ver­sar com Deus en­quan­to o mun­do as­sis­te ao con­fli­to: «Perguntei ao meu pai/Disse-lhe: Pai, mu­da o meu nome/O que uso ago­ra es­tá co­ber­to de me­do, su­ji­da­de, co­bar­di­ce e ver­go­nha».

O «Lover» do re­frão não sig­ni­fi­ca «aman­te» no sen­ti­do ro­mân­ti­co. É mais abran­gen­te, es­pi­ri­tu­al. É uma re­fe­rên­cia a um po­e­ta per­sa do sé­cu­lo XIII, Muhammad Rumi, um su­fis­ta, que nos seus po­e­mas se di­ri­gia a Deus da mes­ma for­ma. O su­fis­mo é a cor­ren­te mais mís­ti­ca e me­di­ta­ti­va do Islão, uma ten­ta­ti­va de de­sen­vol­ver uma re­la­ção mais ín­ti­ma e di­re­ta com Deus.

Leonard Cohen dis­se vá­ri­as ve­zes que a can­ção era de­di­ca­da aos dois pro­ta­go­nis­tas do con­fli­to, is­ra­e­li­tas e ára­bes, não usan­do nas le­tras qual­quer re­fe­rên­cia a acon­te­ci­men­tos es­pe­cí­fi­cos da­que­la guer­ra. A res­pos­ta de Deus é tí­pi­ca de Cohen: «Tranquei-te nes­se corpo/Pensei-o co­mo uma es­pé­cie de julgamento/Podes torná-lo nu­ma arma/Ou usá-lo pa­ra fa­zer uma mu­lher sor­rir.»

Diagrams

Os Diagrams são a ban­da do mú­si­co bri­tâ­ni­co Sam Genders. Os res­tan­tes ele­men­tos são ro­ta­ti­vos: co­la­bo­ra­do­res fre­quen­tes, co­la­bo­ra­do­res oca­si­o­nais, mú­si­cos con­vi­da­dos.

Sam Genders po­de não ser mui­to co­nhe­ci­do fo­ra do cir­cui­to de rock al­ter­na­ti­vo in­glês, mas dá-nos uma be­la co­ver des­ta can­ção de Cohen, das me­lho­res que ou­vi — e ou­vi de­ze­nas, só des­te te­ma.

The Future, Teddy Thompson

Teddy Thompson é um mú­si­co in­glês que com­bi­na in­fluên­ci­as rock e folk na sua mú­si­ca. Vem de uma fa­mí­lia de ar­tis­tas: os pais, Richard e Linda Thompson, são am­bos can­to­res de folk-rock, dos no­mes mais co­nhe­ci­dos da mú­si­ca folk bri­tâ­ni­ca das dé­ca­das de 70 e 80. A ir­mã, Kamila, é tam­bém can­to­ra.

Thompson par­ti­ci­pou nu­ma sé­rie de con­cer­tos em tri­bu­to a Leonard Cohen cha­ma­dos «Came So Far for Beauty». Os con­cer­tos fo­ram fei­tos em Nova Iorque, Brighton, Dublin e Sydney. Este úl­ti­mo foi fil­ma­do e lan­ça­do sob o tí­tu­lo « Leonard Cohen: I’m Your Man». Alguns dos no­mes en­vol­vi­dos es­tão aqui nes­ta lis­ta.

Participantes, além de Teddy Thompson: Nick Cave, The McGarrigles, Martha Wainwright, Rufus Wainwright, Jarvis Cocker, Beth Orton, Laurie Anderson, a mãe Linda Thompson, Antony Hegarty (ago­ra Anohni) e du­as das can­to­ras do co­ro fe­mi­ni­no ori­gi­nal de Cohen, Perla Batalla e Julie Christensen.

Anohni, If It Be Your Will

Anohni, a ar­tis­ta an­te­ri­or­men­te co­nhe­ci­da pe­lo no­me de nas­ci­men­to, Antony Hegarty, viu o seu ta­len­to re­co­nhe­ci­do quan­do atu­a­va co­mo vo­ca­lis­ta na ban­da Antony and the Johnsons.

Anohni nas­ceu ho­mem por me­ro ca­pri­cho da Natureza, nas­ceu ho­mem con­tra a sua von­ta­de, mas as ma­ra­vi­lhas da ci­ên­cia restituíram-lhe a li­ber­da­de e o po­der de es­co­lha. Ela é ago­ra do gé­ne­ro que sem­pre de­se­jou ser. O que não mu­dou foi a sua for­mi­dá­vel voz, co­mo ve­ri­fi­ca­rão quan­do es­cu­ta­rem a ver­são que fez des­ta can­ção de Leonard Cohen.

Chelsea Hotel No. 2, Rufus Wainwright

Rufus Wainwright é um can­tor e com­po­si­tor nas­ci­do em Nova Iorque. A co­ver mais co­nhe­ci­da de «Chelsea Hotel Nº2» é a que Lana Del Rey lan­çou em abril de 2013. Prefiro es­ta, de lon­ge. Não su­por­to a voz e a dic­ção de Lana Del Rey, que me des­cul­pem os fãs.

Wainwright tem uma be­la voz e não des­li­za pe­los por­me­no­res mais ín­ti­mos da can­ção com de­lei­te li­bi­di­no­so co­mo faz Del Rey, cap­ta a tris­te­za e a so­li­dão sub­ja­cen­te ao hu­mor e le­ve­za da si­tu­a­ção des­cri­ta por Cohen.

Reagindo à mor­te de Cohen, Wainwright es­cre­veu no The Guardian: «Para mim, tal co­mo pa­ra mui­tos de nós, ele vi­via nu­ma ca­ma­da mais al­ta, ha­bi­ta­da por al­guns se­res vi­vos — íco­nes. Seres que pa­re­cem ter uma li­ga­ção di­re­ta com a ga­lá­xia ao mes­mo tem­po que sa­bem exa­ta­men­te quan­do de­vem ir lá fo­ra des­pe­jar o li­xo. Formidável, tan­to no sa­gra­do co­mo no pro­fa­no».

Leonard Cohen, o profano

A can­ção é a his­tó­ria do en­con­tro se­xu­al en­tre Leonard Cohen, en­tão com 38 anos, e Janis Japlin, no au­ge da fa­ma. Aconteceu no Hotel Chelsea, em Manhatten.

As pa­re­des des­te ho­tel es­tão co­ber­tas de his­tó­ri­as de­vi­do aos hós­pe­des que por lá pas­sa­ram. Mark Twain e William S. Burroughs vi­ve­ram lá du­ran­te os tem­pos. Bob Dylan fi­cou na sui­te nú­me­ro 2011. Arthur C. Clarke es­cre­veu «2001: Odisseia no Espaço» en­quan­to lá es­te­ve. Jack Kerouac es­cre­veu «On the Road» nu­ma das sui­tes. Tom Waits, os Grateful Dead, Jimi Hendrix, to­dos pas­sa­ram por lá. Até al­guns dos so­bre­vi­ven­tes do nau­frá­gio do Titanic ali fi­ca­ram al­gu­mas noi­tes, de­vi­do à pro­xi­mi­da­de das do­cas.

E era no Hotel Chelsea que Cohen e Joplin se cos­tu­ma­vam en­con­trar às tan­tas da ma­nhã, ge­ral­men­te nos ele­va­do­res. Uma noi­te, ela pro­cu­ra­va Kris Kristofferson, ele ten­ta­va co­nhe­cer Brigitte Bardot. Nenhum dos dois con­se­guiu. Acabaram por cair nos bra­ços um do ou­tro, por «um pro­ces­so de eli­mi­na­ção», co­mo con­tou Cohen.

«Lembro-me bem de ti no Hotel Chelsea» — can­ta Cohen. — «Eras fa­mo­sa, o teu co­ra­ção uma lenda/Disseste-me ou­tra vez que pre­fe­ri­as ho­mens bonitos/Mas que ias abrir uma ex­ce­ção pa­ra mim».

«E cer­ran­do os pu­nhos por pes­so­as co­mo nós/Oprimidas por mo­de­los de beleza/Arranjaste-te e disseste/Não in­te­res­sa. Somos fei­os, mas te­mos a mú­si­ca».

Alguns anos de­pois de ter lan­ça­do a can­ção, já Joplin ti­nha mor­ri­do, Leonard Cohen la­men­tou ter re­ve­la­do a iden­ti­da­de da mu­lher. As re­fe­rên­ci­as ex­plí­ci­tas a se­xo oral na le­tra incomodaram-no.

«Uma in­dis­cri­ção de que me ar­re­pen­do mui­to. Não gos­to des­se ele­men­to de con­ver­sa de bal­neá­rio. Nunca fa­lei em ter­mos con­cre­tos de uma re­la­ção ín­ti­ma que te­nha ti­do com uma mu­lher. E se há for­ma de pe­dir des­cul­pa a um fan­tas­ma, en­tão pe­ço des­cul­pa pe­la in­dis­cri­ção que co­me­ti».

Tinham vol­ta­do a encontrar-se só nu­ma oca­sião, al­guns me­ses de­pois de te­rem ido pa­ra a ca­ma. Janis Joplin cumprimentou-o as­sim: «Então? Ainda con­ti­nu­as a es­cre­ver po­e­sia pa­ra as ve­lhi­nhas?»

There is a War, Cold War Kids

Cold War Kids é mais uma ban­da norte-americana de in­die rock a en­trar nes­ta lis­ta de co­vers. São oriun­dos de Long Beach, na Califórnia, mas não pa­re­cem mui­to en­tu­si­as­tas do surf. Seja co­mo for, a ver­são que fi­ze­ram de «There Is War» é me­mo­rá­vel, de uma ener­gia rock que não jul­ga­ría­mos pos­sí­vel na rein­ter­pre­ta­ção de uma can­ção de Cohen. Mas é, e re­sul­ta bem.

Dance me to the end of love, Pieter Embrechts & The New Radio Kings

Pieter Embrechts é um bel­ga dos se­te ofí­ci­os: can­tor e com­po­si­tor, ator, re­a­li­za­dor, en­ce­na­dor e apre­sen­ta­dor de pro­gra­mas de te­le­vi­são. Também deu a voz pa­ra as ver­sões bel­gas de fil­mes da Disney e da Pixar.

Como can­tor, notabilizou-se no seu país com as ban­das El Tattoo del Tigre e The New Radio Kings, cu­jos te­mas fo­ram to­dos com­pos­tos por ele. Foi com es­ta úl­ti­ma ban­da que cri­ou es­ta ale­gre ver­são de bai­le de «Dance Me to the End of Love» — uma es­co­lha cu­ri­o­sa, co­mo mui­tas ou­tras an­tes de­le, ten­do em con­ta os fac­tos que ins­pi­ra­ram a can­ção.

As coisas não são como parecem. Esta é uma dança macabra

A can­ção pa­re­ce ser uma ce­le­bra­ção do amor atra­vés da dan­ça, mas a ima­gem de vi­o­li­nos a ar­der in­di­ca que es­ta­mos nu­ma ter­ra on­de o amor mor­reu. É um te­ma pro­fun­da­men­te iró­ni­co e sar­cás­ti­co. É co­mo de­ci­dir or­ga­ni­zar uma gran­de jan­ta­ra­da pa­ra la­men­tar em con­jun­to a fo­me no mun­do.

A ima­gem do vi­o­li­no em cha­mas foi ins­pi­ra­da por um fac­to que na­da tem a ver com val­sas ro­mân­ti­cas. Nos cam­pos de con­cen­tra­ção, era ha­bi­tu­al os na­zis jun­ta­rem pe­que­nas or­ques­tras. Os mú­si­cos eram obri­ga­dos a to­car en­quan­to as pes­so­as eram in­ci­ne­ra­das ou ga­se­a­das. «Se se in­ter­pre­tar a can­ção des­te pon­to de vis­ta, torna-se qual­quer coi­sa de mui­to di­fe­ren­te», afir­mou Cohen.

Everybody Knows, Tori Sparks

Tori Sparks é uma can­to­ra e com­po­si­to­ra norte-americana. Nasceu no ber­ço do coun­try em Nashville, mas emancipou-se. Esteve em Portugal em abril des­te ano. Se não a co­nhe­cem, in­ves­ti­guem. Vale a pe­na. Mulher co­ra­jo­sa  na for­ma in­de­pen­den­te co­mo ge­re a sua car­rei­ra, ori­gi­nal nas le­tras, sem­pre ati­vis­ta das cau­sas di­fí­ceis, sem­pre a mis­tu­rar folk, rock, blu­es e, des­de que se mu­dou pa­ra Barcelona, o fla­men­co.

A co­ver de «Everybody Knows» es­tá in­cluí­da no seu úl­ti­mo dis­co, «El Mar», lan­ça­do no ano pas­sa­do e pro­du­zi­do pe­la pró­pria.

Toda a gente sabe que não é para levar demasiado a sério. Mas é.

A can­ção é pes­si­mis­ta, mas tam­bém tem hu­mor.

O pes­si­mis­mo: «Toda a gen­te sa­be que os da­dos es­tão lan­ça­dos. Toda a gen­te sa­be que a guer­ra aca­bou e os bons per­de­ram. Toda a gen­te sa­be que o com­ba­te foi com­bi­na­do. Os po­bres per­ma­ne­cem po­bres. Os ri­cos en­ri­que­cem. É as­sim que fun­ci­o­na, to­da a gen­te sa­be.»

O hu­mor: «Toda a gen­te sa­be que me amas. Toda a gen­te sa­be que me amas, mes­mo. Toda a gen­te sa­be que fos­te fi­el (ti­ran­do uma ou du­as noi­tes). Toda a gen­te sa­be que fos­te dis­cre­to. Mas ha­via tan­ta gen­te com quem ti­nhas de te en­con­trar sem rou­pa. E to­da a gen­te sa­be.»

Leonard Cohen so­bre es­ta can­ção: «Sem a mú­si­ca e as ri­mas ab­sur­das, a qua­li­da­de fu­nes­ta do te­ma se­ria di­fí­cil de di­ge­rir. Exagero, por ve­zes, pa­ra a tor­nar mais di­ver­ti­da, mi­ti­gar uma vi­são mais som­bria.»

Jarvis Cocker, I Can't Forget

O in­glês Jarvis Cocker é mais co­nhe­ci­do por ser o lí­der de uma ban­da de cul­to da dé­ca­da de 90, os Pulp, mas a sua car­rei­ra a so­lo tem si­do di­ver­si­fi­ca­da. Além da mú­si­ca, Cocker apre­sen­ta um pro­gra­ma de rá­dio na BBC 6 Radio Music, «Jarvis Cocker’s Sunday Service». Leonard Cohen foi en­tre­vis­ta­do por ele em fi­nais de ja­nei­ro de 2012, nu­ma edi­ção es­pe­ci­al de du­as ho­ras.

Preparado para a luta, se me lembrar de quem eu sou

Cocker tam­bém é re­cor­da­do por ter in­va­di­do o pal­co dos Brit Awards, edi­ção 1996, em pro­tes­to con­tra a atu­a­ção de Michael Jackson. Jackson es­ta­va a in­ter­pre­tar a can­ção «Earth Song», ro­de­a­do por cri­an­ças e um ra­bi. Cocker foi de­ti­do, mas li­ber­ta­do a se­guir por não ha­ver quei­xa apre­sen­ta­da con­tra ele. Jackson foi bon­zi­nho… Ou mag­nâ­ni­mo, tal­vez.

A re­vis­ta Melody Maker pu­bli­cou um ar­ti­go jo­co­so de­fen­den­do que lhe de­via ser con­ce­di­do o tí­tu­lo de Cavaleiro. Noel Gallagher, dos Oasis, dis­se que ele «era uma es­tre­la».

Cocker ex­pli­cou mais tar­de por que ra­zão in­va­di­ra o pal­co: «Protestei con­tra o fac­to de Micheal Jackson se ver co­mo um Cristo com a ca­pa­ci­da­de de cu­rar os ou­tros».

Momentos em que nos ele­va­mos com os nos­sos prin­cí­pi­os.  Momentos em que lu­ta­mos pa­ra sa­ber quem so­mos, re­al­men­te.

Momentos de Cohen na can­ção «I Can’t Forget» que Cocker in­ter­pre­ta: «Tropecei pa­ra fo­ra da cama/Preparado pa­ra a luta/ Acendi um cigarro/E aper­tei as entranhas./Disse: Isto não pos­so ser eu/Deve ser o meu duplo./E não pos­so es­que­cer, não pos­so esquecer/Não pos­so es­que­cer, mas não me lem­bro do quê.»

«Soa belo, mesmo que não perceba»

Joan of Arc, Anna Calvi

Anna Calvi é uma can­to­ra in­gle­sa de in­die rock. Ainda o pri­mei­ro dis­co não ti­nha si­do lan­ça­do, já Brian Eno se lhe re­fe­ria co­mo «a me­lhor coi­sa que acon­te­ceu des­de Patti Smith».

A co­ver de Calvi da can­ção «Joan of Arc» é sur­pre­en­den­te, pois re­ti­ra o ele­men­to pe­lo qual Leonard Cohen é mais co­nhe­ci­do: as pa­la­vras.

A pró­pria ex­pli­cou a de­ci­são de trans­for­mar o te­ma num ins­tru­men­tal: «Achei-as tão at­mos­fé­ri­cas que me sen­ti ins­pi­ra­da a re­cri­ar na gui­tar­ra o am­bi­en­te su­ge­ri­do pe­las le­tras».

Tal co­mo to­dos os ou­tros mú­si­cos que fi­ze­ram ver­sões de Cohen, veneram-se as pa­la­vras. «Às ve­zes não fa­ço ideia do que ele es­tá a fa­lar, mas soa in­te­li­gen­te e be­lo». Calvi referia-se à can­ção «True Love Leaves No Traces», do dis­co que o ca­na­den­se fez com o pro­du­tor Phil Spector em 1977, «Death of a Ladies Man».

«Mas tam­bém su­ce­de mui­tas ve­zes so­a­rem be­las e in­te­li­gen­tes, e eu per­ce­ber exa­ta­men­te o que ele quer di­zer. Por exem­plo, quan­do can­ta: ‘Tal co­mo o ne­vo­ei­ro não dei­xa mar­cas nas co­li­nas verde-escuras, tam­bém o meu cor­po não dei­xa mar­cas em ti — e nun­ca dei­xa­rá’. Tem uma qua­li­da­de hip­nó­ti­ca».

Hey, That's No Way To Say Goodbye, Phosphorescent

O gru­po de rock al­ter­na­ti­vo Phosphorescent é a ban­da do com­po­si­tor Matthew Houck, um ame­ri­ca­no nas­ci­do na Geórgia e que se mu­dou pa­ra Brooklyn, Nova Iorque. Os pri­mei­ros três dis­cos eram mais in­ti­mis­tas, mais vi­ra­dos pa­ra o folk. O quar­to dis­co, de­di­ca­do a Willie Nelson, fez Houck ex­plo­rar o ter­ri­tó­rio do country-rock, uma ex­plo­ra­ção que pros­se­gue até ho­je.

Omnia, Teachers

Omnia é uma ban­da ho­lan­de­sa e a mú­si­ca que fa­zem re­sul­ta de uma mis­tu­ra de raí­zes. Um folk pa­gão ne­o­cél­ti­co, po­de dizer-se as­sim, com ori­gens ir­lan­de­sas, in­gle­sas, ale­mãs, bre­tãs, bel­gas, per­sas e, cla­ro, ho­lan­de­sas.

As su­as can­ções são um re­fle­xo des­tas múl­ti­plas ori­gens. Cantam em in­glês, ir­lan­dês, bre­tão, fin­lan­dês, ale­mão, la­tim e até na lín­gua hin­du. Tocam har­pa cel­ta, har­pa de bo­ca, vi­o­lão, flau­ta e vá­ri­os ti­pos de ba­te­ria pou­co co­muns, bem co­mo ou­tros ins­tru­men­tos de per­cus­são exó­ti­cos.

O que os atrai na mú­si­ca de Cohen são os tra­ba­lhos mais «de­pres­si­vos», co­mo os pró­pri­os afir­mam. «The Teacher» é uma can­ção de ho­me­na­gem a to­dos aque­les que o mú­si­co ca­na­den­se con­si­de­rou pro­fes­so­res, mas pa­ra os ele­men­tos dos Omni Leonard Cohen é, em si, «o pro­fes­sor».

«Ontem pas­sei a noi­te a ou­vir al­gu­mas das mi­nhas can­ções pre­fe­ri­das de Leonard Cohen.» — Escreveu Steve “Sic” Evans van der Harten, vo­ca­lis­ta e ins­tru­men­tis­ta da ban­da, no dia em que sou­be do fa­le­ci­men­to. «Já não o ou­via há al­guns me­ses, mas es­ta­va nu­ma da­que­las noi­tes. Precisava de ou­vir as pa­la­vras de sa­be­do­ria e lou­cu­ra des­te po­e­ta su­a­ve.»

«De ma­nhã, ve­jo a no­tí­cia. Tinha mor­ri­do o mes­tre da de­pres­são, da me­lan­co­lia, do sui­cí­dio, do ro­man­tis­mo. As tu­as li­ções ter­mi­na­ram, mes­tre, mas se­rás sem­pre o nos­so pro­fes­sor».

Seems so long ago, Nancy, Bradford Cox-bradford-cox

O norte-americano Bradford Cox é co­nhe­ci­do prin­ci­pal­men­te co­mo vo­ca­lis­ta e gui­tar­ris­ta de uma ban­da de in­die rock cha­ma­da Deerhunter. Nos pro­je­tos a so­lo as­si­na co­mo Atlas Sound — a ex­pres­são que usa des­de ado­les­cen­te pa­ra de­fi­nir a sua mú­si­ca.

Na Casa do Mistério

Não foi uma ado­les­cên­cia na­da fá­cil. Cox so­fre de uma do­en­ça do te­ci­do con­jun­ti­vo cha­ma­da Síndrome de Marfan. É uma de­sor­dem ge­né­ti­ca. Os que a têm cos­tu­mam ser mui­to al­tos, ex­ces­si­va­men­te ma­gros, com de­dos mui­to lon­gos e fi­nos. Têm pro­ble­mas car­di­o­vas­cu­la­res, den­tá­ri­os, ocu­la­res. Não há cu­ra pa­ra o sín­dro­ma, em­bo­ra os seus sin­to­mas pos­sam ser con­tro­la­dos.

Cox de­sis­tiu do li­ceu, os pais divorciaram-se, pas­sou o fim da in­fân­cia e o iní­cio da ado­les­cên­cia fe­cha­do em ca­sa na mai­or par­te do tem­po. Sem ami­gos, in­ca­paz de so­ci­a­li­zar de­vi­do ao seu «as­pe­to es­qui­si­to», co­me­çou a pro­cu­rar mú­si­ca que re­fle­tis­se o seu es­ta­do de es­pí­ri­to: me­lan­có­li­co, nos­tál­gi­co, des­gos­to­so. Identificava-se com o per­so­na­gem prin­ci­pal de «Eduardo Mãos de Tesoura», de Tim Burton.

Cox é gay, o que lhe trou­xe ain­da mais pro­ble­mas. Ou pe­lo me­nos as­sim o di­zia. Continua a assumir-se «que­er», mas pre­fe­re definir-se co­mo as­se­xu­al: «Não te­nho gran­de au­to­es­ti­ma, por is­so ser as­se­xu­al é uma zo­na de con­for­to pa­ra mim, um sí­tio on­de não me sin­to re­jei­ta­do.»

Bradford Cox es­co­lheu a can­ção «Seems So Long Ago, Nancy» e a es­co­lha é apro­pri­a­da à sua pró­pria vi­da. Fala de so­li­dão, de ca­sas em que nos en­cer­ra­mos, da in­ca­pa­ci­da­de dos ou­tros em abrir por­tas, da nos­sa in­ca­pa­ci­da­de em abri-las pa­ra os ou­tros.

Cohen can­ta so­bre uma ra­pa­ri­ga que co­nhe­ceu no Canadá em 1961: «Ela dor­mia com to­da a gen­te. Toda a gen­te. Teve um fi­lho, mas o fi­lho foi-lhe re­ti­ra­do. Então dis­pa­rou con­tra si pró­pria na ca­sa de ba­nho.»

O sui­cí­dio afetou-o pro­fun­da­men­te, pois sen­tiu que o des­fe­cho po­dia ter si­do evi­ta­do pe­los ami­gos. «Dissemos-lhe que ela era bela/Dissemos-lhe que ela livre/Mas ne­nhum de nós se quis en­con­trar com ela/ Na Casa do Mistério».

Coisas profanas sempre foram boas para abanar a carola

Master Song, Beck

O que Beck e com­par­sas fi­ze­ram a «Master Song» é um sa­cri­lé­gio pa­ra al­guns. Talvez Cohen ti­ves­se gos­ta­do da ou­sa­dia. Muitas ve­zes apre­sen­ta­va a can­ção da se­guin­te for­ma: «É uma can­ção so­bre uma trin­da­de [a Santíssima], mas dei­xe­mos is­so pa­ra os aca­dé­mi­cos. É uma can­ção so­bre três pes­so­as.»

A ver­são de Beck é so­bre três pes­so­as, sem dú­vi­da. A Santíssima Trindade que Cohen evo­ca (e de­li­ci­o­sa­men­te sub­ver­te) na ver­são ori­gi­nal fi­cou à por­ta do es­tú­dio.

A co­ver de Beck e ami­gos faz par­te de um pro­je­to que ele ini­ci­ou em 2008. «Record Club» con­sis­te em gra­var, num úni­co dia, de for­ma fluí­da e in­for­mal, co­vers de um ál­bum in­tei­ro de um de­ter­mi­na­do mú­si­co. Beck es­co­lheu, pa­ra co­me­çar, o dis­co de es­treia «Songs of Leonard Cohen», lan­ça­do em 1967.

O «Master Song» nas mãos de­le e dos ami­gos ta­len­to­sos é uma jam cheia de funk. Um rit­mo de dan­ça hip­nó­ti­co mar­ca­do pe­lo bai­xo elé­tri­co e a per­cus­são ele­tró­ni­ca. E as pa­la­vras de Cohen são usa­das pa­ra fa­zer um cartoon-rap, co­mo se es­ti­ves­sem des­pro­vi­das de sig­ni­fi­ca­do es­pe­ci­al. Um go­zo, uma des­bun­da tí­pi­ca de mú­si­cos.

Nem os fãs pa­ra quem as pa­la­vras de Cohen são sa­gra­das po­dem achar que Beck foi des­res­pei­to­so. Sobretudo ten­do em con­ta o que ele es­cre­veu aquan­do da no­tí­cia do fa­le­ci­men­to.

Eis os seus ver­da­dei­ros sen­ti­men­tos em re­la­ção à obra do mú­si­co e po­e­ta:

«Adeus, Leonard, obri­ga­do pe­las pa­la­vras, pe­las can­ções, pe­la tua vi­da — um ca­va­lhei­ro, um mes­tre, um he­rói. Obrigado por olha­res de for­ma tão pro­fun­da. Por par­ti­lha­res os teus di­a­man­tes be­la­men­te la­pi­da­dos. Por ilu­mi­na­res os can­tos mais obs­cu­ros on­de vi­vem as nos­sas al­mas. Por tra­du­zi­res o ‘ou­tro’ que po­de­mos re­co­nhe­cer, mas ra­ra­men­te con­se­gui­mos ex­pres­sar.»

Suzanne, Scott Helman

Scott Helman é um miú­do de 21 anos nas­ci­do no Canadá, co­mo Cohen, can­tor e com­po­si­tor co­mo ele.

A sua mú­si­ca é vis­ta co­mo um cru­za­men­to en­tre o aus­tra­li­a­no Vance Joy e do já men­ci­o­na­do Jeff Buckley, es­se es­tu­pen­do ar­tis­ta que pro­du­ziu uma in­ter­pre­ta­ção tão vis­ce­ral de «Hallelujah» que mui­tos mú­si­cos que se se­gui­ram fi­ze­ram co­vers à sua co­ver.

Helman ou­ve mú­si­cos co­mo Sun Kil Moon ou Hozier, mas a sua de­vo­ção pas­sa so­bre­tu­do pe­lo que se fa­zia nas dé­ca­das de 60 e 70. «Músicos co­mo Leonard Cohen, Pink Floyd, Bob Marley, Bod Dylan ou Neil Young ti­nham uma li­ga­ção com a mú­si­ca que é, ho­je em dia, com­ple­ta­men­te ali­e­ní­ge­na. Acho que nun­ca vol­ta­rei a ter o mes­mo grau de apre­ci­a­ção por no­vos ar­tis­tas que te­nho por es­tes».

The Stranger Song, The Miserable Rich

The Miserable Rich é uma ban­da de um gé­ne­ro a que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de «cham­ber pop». Este, por sua vez, é um sub­gé­ne­ro do in­die pop, se­ja o que for que to­das es­sas coi­sas sig­ni­fi­ca­rem. E não sig­ni­fi­cam mui­to, na ver­da­de.

A ban­da usa prin­ci­pal­men­te o vi­o­lon­ce­lo e o vi­o­li­no co­mo ins­tru­men­tos prin­ci­pais — e ain­da bem que o fa­zem, por­que a ver­são de «The Stranger Song» é be­lís­si­ma.

Aliás, es­ta é me­lo­di­ca­men­te a mi­nha pre­fe­ri­da de Cohen. A que mais me to­ca. Arrepia-me, de tão be­la que é. Questão de gos­tos, cla­ro. Mas nun­ca as pa­la­vras de Bob Dylan fi­ze­ram tan­to sen­ti­do co­mo quan­do oi­ço es­ta can­ção: «Quando as pes­so­as fa­lam so­bre o Leonard esquecem-se de men­ci­o­nar as su­as me­lo­di­as. Para mim, jun­ta­men­te com as le­tras, são a sua mai­or ge­ni­a­li­da­de. Tanto quan­to sei, nin­guém na mú­si­ca mo­der­na lhe che­ga per­to».

Já que es­ta­mos tão me­lo­di­o­sos, apro­vei­to pa­ra par­ti­lhar o que Leonard Cohen dis­se quan­do Dylan ga­nhou o Prémio Nobel da Literatura: «Senti-me co­mo se ti­ves­sem en­tre­gue uma me­da­lha ao Monte Evereste por ser a mon­ta­nha mais al­ta do mun­do».

I'm Your Man, Nick Cave

Não é de ad­mi­rar a pre­sen­ça de Nick Cave nes­ta lis­ta, da­da a sua lon­ga de­vo­ção por Leonard Cohen. «Era im­pos­sí­vel de imi­tar» — es­cre­veu. — «O me­lhor de to­dos nós».

O po­e­ta, ro­man­cis­ta, au­tor de can­ções, vo­ca­lis­ta, gui­tar­ris­ta e te­clis­ta aus­tra­li­a­no tem o se­guin­te pa­ra di­zer so­bre a im­por­tân­cia de Leonard Cohen na sua vi­da: «Foi o pri­mei­ro ar­tis­ta que des­co­bri so­zi­nho. Antes só ou­via a mú­si­ca que o meu ir­mão me mos­tra­va, era co­mo uma ove­lha num re­ba­nho. Ele tornou-se o sím­bo­lo da mi­nha in­de­pen­dên­cia mu­si­cal.»

«A tris­te­za de Cohen era ins­pi­ra­do­ra. Deu-me imen­sas ener­gi­as. Lembro-me sem­pre dis­to quan­do al­guém diz que os meus dis­cos são mór­bi­dos ou de­pri­men­tes — exa­ta­men­te o mes­mo ti­po de coi­sas que al­guns dos meus ami­gos di­zi­am quan­do lhes ten­ta­va mos­trar dis­cos do Leonard Cohen».

Who by Fire, Lhasa De Sela

Lhasa de Sela, be­lís­si­ma can­to­ra, es­ta­va des­ti­na­da a in­ter­pre­tar Leonard Cohen. Digo-o por­que a úni­ca con­vic­ção ir­ra­ci­o­nal que te­nho é a ideia de que, de uma for­ma di­re­ta ou in­di­re­ta, os bons mú­si­cos aca­bam sem­pre por encontrar-se.

Chamavam-lhe a can­to­ra nó­ma­da por cau­sa da sua in­fân­cia: os pais de Lhasa, ele me­xi­ca­no, ela ame­ri­ca­na, tam­bém ar­tis­tas, vi­vi­am nu­ma car­ri­nha de es­co­la trans­for­ma­da em ca­ra­va­na. A sua in­fân­cia foi pas­sa­da em cons­tan­tes vi­a­gens en­tre os Estados Unidos e o México. Encorajada pe­los pais, can­ta­va e im­pro­vi­sa­va pe­que­nas pe­ças de te­a­tro.

Nunca fre­quen­tou a es­co­la. Foi a mãe que se en­car­re­gou da sua for­ma­ção. E foi su­fi­ci­en­te. Lhasa cres­ceu num mun­do vi­ra­do pa­ra a des­co­ber­ta ar­tís­ti­ca, lon­ge da cul­tu­ra con­ven­ci­o­nal.

Lhasa de Sela mor­reu a 1 de Janeiro de 2010. Cancro da ma­ma, es­sa pu­ta de do­en­ça que an­da a ma­tar tan­tas mu­lhe­res.

As pri­mei­ras no­tí­ci­as sur­gi­ram no Twitter. Horas de­pois, a edi­to­ra que re­pre­sen­ta a can­to­ra des­men­tia: «Por res­pei­to pa­ra com Lhasa, fi­ca­re­mos mui­to agra­de­ci­dos se aca­ba­rem com es­se ru­mor». Em Junho, Lhasa ti­ve­ra de can­ce­lar uma di­gres­são eu­ro­peia de­vi­do aos pro­ble­mas de saú­de e às exi­gên­ci­as do tra­ta­men­to. «Por uma ques­tão de pru­dên­cia, não po­de­mos sujeitá-la ao stress que es­tas di­gres­sões acar­re­tam», foi en­tão ex­pli­ca­do.

A edi­to­ra precipitara-se no des­men­ti­do e pro­va­vel­men­te sa­bia tan­to co­mo os fãs. A no­tí­cia di­fun­di­da no Twitter, afi­nal, cor­res­pon­dia à ver­da­de. Falecera pou­co an­tes da meia-noite do dia 1 de Janeiro na sua ca­sa em Montreal, Canadá.

Bird on a Wire, Marc Ribot & My Brightest Diamond

So Long Marianne, Bill Callahan

Marc Ribot é um dos me­lho­res gui­tar­ris­tas da atu­a­li­da­de, se­ja qual for a área mu­si­cal em que de­ci­de movimentar-se: jazz, rock, funk, im­pro­vi­sa­ção li­vre.

Estudou com o mes­tre da gui­tar­ra ha­vai­a­na Frantz Casseus, tra­ba­lhou com Tom Waits e John Lurie nos Lounge Lizards, gra­vou e su­biu ao pal­co com gen­te co­mo Elvis Costello, Robert Plant (o dos Led Zeppelin), Laurie Anderson, Caetano Veloso, Wilson Pickett, Chuck Berry, McCoy Tyner, pi­a­nis­ta de Coltrane, James Carter, Norah Jones e Elton John.

My Brightest Diamond é o pro­je­to da can­to­ra e com­po­si­to­ra Shara Nova. Nova cru­za as in­fluên­ci­as da mú­si­ca clás­si­ca que es­tu­dou ex­ten­si­va­men­te com o rock al­ter­na­ti­vo que co­me­çou a des­co­brir.

Compositores co­mo Sarah Kirkland Snider, David Lang, Steve Mackey ou Bryce Dessner es­cre­ve­ram pe­ças ex­clu­si­va­men­te pa­ra a voz de­la. Shara Nova gra­vou com David Byrne, Laurie Anderson, The Decemberists, Sufjan Stevens, Jedi Mind Tricks, The Blind Boys of Alabama e os Stateless, en­tre ou­tros.

Bill Calahan, que faz a co­ver de «So Long Marianne», é um can­tor folk de Maryland. O seu es­ti­lo é lo-fi: gra­va ál­buns in­tei­ros em ca­sa usan­do ape­nas gra­va­do­res de qua­tro pis­tas. Tal co­mo o Leonard Cohen dos pri­mei­ros anos, os seus ar­ran­jos são mi­ni­ma­lis­tas, re­du­zi­dos ao os­so.

Marianne, a mulher, a musa, o pássaro livre

Cohen com Marianne Ihlen

Cohen com Marianne Ihlen

«Bird on a Wire» e «So Long Marianne» têm em co­mum uma mu­lher: Marianne Ihlen, a pri­mei­ra mu­sa de Cohen, tal­vez a úni­ca. Ele descreveu-a co­mo «per­fei­ta». A «mu­lher mais be­la que al­gu­ma vez vi­ra». Foi du­ran­te o tem­po em que vi­ve­ram jun­tos que Cohen pas­sou de po­e­ta, a po­e­ta e can­tor.

Estiveram jun­tos du­ran­te dez anos, mas a no­va vi­da de Cohen, as di­gres­sões, as mu­lhe­res for­tui­tas às quais não re­sis­tia por ser um mu­lhe­ren­go, aca­ba­ram a pou­co e pou­co por mi­nar a re­la­ção.

Marianne ain­da se mos­trou dis­pos­ta a to­le­rar as in­fi­de­li­da­des, mas quan­do o vi­si­tou, em Montreal, sen­tiu que já não era pos­sí­vel fa­zer par­te da vi­da de­le. E par­tiu.

Foram man­ten­do con­tac­to até ao res­to da vi­da, mas sem­pre se­pa­ra­dos. Norueguesa de nas­ci­men­to, ela re­gres­sou à Europa. Ele fi­cou por Montreal, por Nova Iorque, no ho­tel Chelsea, na sui­te on­de fez amor com Janis Joplin.

Nunca es­que­ceu Marianne. Falando das du­as can­ções que lhe de­di­cou, Cohen es­cre­veu: «As pes­so­as mu­dam. Os seus cor­pos mu­dam. Os ca­be­los tornam-se cin­zen­tos. Os cor­pos en­tram em de­ca­dên­cia e mor­rem. Mas há qual­quer coi­sa que não mu­da, quan­do se tra­ta de amor e dos sen­ti­men­tos que se tem pe­los ou­tros».

«Marianne, a mu­lher das can­ções, quan­do lhe oi­ço a voz ao te­le­fo­ne sin­to que al­go se man­te­ve in­tac­to. Sinto que o amor nun­ca mor­re. E quan­do há emo­ção su­fi­ci­en­te for­te pa­ra a trans­for­mar em can­ções, há qual­quer coi­sa nes­sa emo­ção que é in­des­tru­tí­vel».

Marianne mor­reu a 29 de ju­lho des­te ano, com leu­ce­mia. Tinha 81 anos. Dois di­as an­tes, uma ami­ga co­mum, a do­cu­men­ta­ris­ta Jan Christian Mollestad, con­tac­ta­ra Cohen pa­ra o in­for­mar do que es­ta­va pa­ra acon­te­cer. Duas ho­ras de­pois, o can­tor en­vi­ou uma men­sa­gem. Mollestad leu-a a Marianne, que ain­da es­ta­va cons­ci­en­te mas já não con­se­guia levantar-se da ca­ma:

«Chegámos ao mo­men­to em que os nos­sos cor­pos es­tão tão ve­lhos que se des­mo­ro­nam. Acho que te se­gui­rei em bre­ve. Quero que sai­bas que es­tou tão per­to de ti que, se es­ten­de­res uma mão, po­de­rás al­can­çar a mi­nha.»

«Sabes que sem­pre te amei pe­la tua be­le­za e sa­be­do­ria. Mas não pre­ci­so de di­zer na­da por­que tu sa­bes tu­do so­bre is­so. Só que­ro desejar-te uma boa jor­na­da. Adeus, ve­lha ami­ga. Amor eter­no, ver-te-ei ao lon­go do ca­mi­nho.»

Mollestad con­tou que ao che­gar à par­te em que Cohen men­ci­o­na­va que a se­gui­ria em bre­ve e, se es­ten­des­se uma mão, al­can­ça­ria a de­le, Marianne sor­riu e es­ten­deu o bra­ço.

Nos mo­men­tos fi­nais da sua vi­da, Mollestad cantou-lhe o «Bird on a Wire», a can­ção com a qual ela mais se iden­ti­fi­ca­va. E quan­do fi­nal­men­te par­tiu, beijou-a na tes­ta e sussurrou-lhe as úni­cas pa­la­vras de des­pe­di­da que lhe pa­re­ce­ram apro­pri­a­das: «So long Marianne».

Marco Santos

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