Leonard Cohen sempre foi um criador lento. Exasperadamente lento, nas suas próprias palavras. Certa ocasião, em meados da década de 80, Cohen foi tomar um café com Bob Dylan depois de ter assistido, em Paris, a um excelente concerto do atual Prémio Nobel da Literatura.

Dylan estava especialmente interessado em falar do tema «Hallelujah». A canção espiritual que o formidável Jeff Buckley elevaria à estratosfera do reconhecimento, alguns anos depois, já era intensamente admirada por Dylan.

«Quanto tempo demoraste a fazê-la? — Quis saber. «Dois anos», mentiu Cohen. Na verdade tinha demorado cinco, mas não quis partilhar os solitários momentos passados em quartos de hotel, de pijama, a bater indignamente com a cabeça nas paredes até a dar como acabada.

«Gosto muito da tua canção ‘I and I’» — disse, por sua vez, Cohen. — «Quanto tempo demoraste tu a fazê-la?» «Uns quinze minutos», respondeu Dylan.

Não há quartos iguais na torre da canção

Tower of Song, U2

O processo criativo é tramado e tenho aqui uma história de Tom Waits que não me deixa mentir. Waits estava a conduzir o carro numa autoestrada em Los Angeles quando, de repente, lhe veio à cabeça um pequeno fragmento de melodia. Era uma melodia elusiva, irresistível, bela. Desejava-a, não a podia perder. Dentro do carro, sem papel ou lápis, não conseguia fazer anotações.

«Vou perder isto e vou ser assombrado para sempre por esta canção» — pensou Tom Waits, já ansioso. Resolveu parar o carro e, num ápice, decidiu travar aquele processo mental que o começava a consumir.

Em vez de perseguir uma melodia fantasmagórica, saiu do carro, fixou os céus e disse: «Desculpa, não vês que eu estava a conduzir? Pareço-te em condições de anotar uma ideia agora? Se queres mesmo existir, volta numa altura mais apropriada, quando eu te puder dar atenção. Caso contrário, vai chatear outro hoje. Vai chatear o Leonard Cohen».

Tom Waits não se dirigia a Deus, mas à Criatividade. E a Criatividade visitou de facto Cohen, muitas vezes, durante décadas. Visitas demoradas mas discretas, cheias de longos silêncios, durante os quais muitas vezes estendia a mão apenas para lhe cobrar o aluguer do quarto onde vivia na torre da canção.

«Perguntei a Hank Williams/Quão solitário isto pode ser?/Hank Williams ainda não me respondeu\Mas ouvi-o tossir a noite toda\Cem andares acima, na Torre da Canção.»

Aleluia, aleluia, não é o Jeff Buckley

Hallelujah, Rufus Wainwright

Não, a cover de « Hallelujah» não é a de Jeff Buckley. Os que se interessam por música já a conhecem, de certeza. E os que se interessam já têm uma ideia do que Buckley fez com a canção: arrancou-lhe as asas de anjo da versão original, tornou-a crua, visceral, suada, numa palavra: profundamente sensual.

«Quem ouvir ‘Hallelujah’ com atenção percebe que é uma canção sobre sexo, sobre o amor, sobre a vida na Terra.» — Explicou o próprio Jeff Buckley. — «Não é uma homenagem a uma pessoa sagrada, a um ídolo ou a um deus, mas é um aleluia do orgasmo. Uma ode à vida e ao amor.»

Buckley, és realmente o maior. Obrigado pelos dias em que exististe na Terra, demasiado poucos. Mas para não tornar esta seleção tão óbvia, escolhi uma versão muito especial cantada por Rufus Wainwright e um espantoso coro de 1500 voluntários que se juntaram para gravar o vídeo.

Rufus voltará a surgir nesta seleção porque é um artista extraordinário e porque a ligação a Cohen era profundíssima. Por agora, retoma-se a visão mais eclesiástica da canção. Os anjos voltam a ganhar as suas asinhas nesta versão. E é tão difícil de resistir como ao filme «Do Céu Caiu uma Estrela», de Frank Capra.

R.E.M.

«Fui sentenciado a vinte anos de tédio/Por tentar mudar o sistema por dentro/Estou a chegar agora,/Estou a chegar para os recompensar/Primeiro tomamos Manhattan, depois tomamos Berlim».

Esta é a versão energética dos extintos R.E.M., uma versão adequada aos tempos que vivemos, uma canção que podia ser escutada em todos os cantos onde se luta pela Democracia, pela Ciência e pelos Direitos Humanos nos Estados Unidos.

«First we take Manhattan» estava num dos cartazes da manifestação de Nova Iorque contra o próximo presidente eleito, o ogre Donald Trump. Faz todo o sentido, sobretudo se pensarmos no que o próprio Leonard Cohen tem a dizer sobre a canção.

«É uma resposta direta ao tédio, à ansiedade, à imponderabilidade que sinto no meu dia-a-dia. Não sei se mais alguém se sente assim. Suspeito que algumas pessoas, sim. Sentem-se como se o mundo tivesse desaparecido. Que uma catástrofe já tivesse acontecido. Que a inundação já tenha chegado. Que já não precisamos de esperar por um holocausto nuclear. Que, de alguma forma, o mundo já foi destruído.»

Leonard Cohen morreu a 7 de novembro. Donald Trump venceu as eleições um dia depois. Dupla derrota.

Lover Lover Lover, The Districts

The Districts é uma banda rock indie americana formada quando os seus quatro elementos ainda andavam no liceu. Só quatro anos, dois EP e um álbum depois começaram a ser conhecidos. A cover de «Lover Lover Lover», divulgada pela banda em janeiro deste ano, foi o primeiro sinal de que os The Districts continuavam ativos desde que lançaram o disco «A Flourish and a Spoil», em 2015.

Um hino de reconciliação no meio da guerra

A canção foi composta por Leonard Cohen, judeu, quando se juntou a soldados israelitas no deserto do Sinai, em 1973, durante a guerra do Yom Kippur. A 6 de outubro, dia do feriado religioso Yom Kippur, uma coligação de países árabes liderada por Egipto e Síria atacou de surpresa Israel.

«Lover Lover Lover» é Leonard Cohen a conversar com Deus enquanto o mundo assiste ao conflito: «Perguntei ao meu pai/Disse-lhe: Pai, muda o meu nome/O que uso agora está coberto de medo, sujidade, cobardice e vergonha».

O «Lover» do refrão não significa «amante» no sentido romântico. É mais abrangente, espiritual. É uma referência a um poeta persa do século XIII, Muhammad Rumi, um sufista, que nos seus poemas se dirigia a Deus da mesma forma. O sufismo é a corrente mais mística e meditativa do Islão, uma tentativa de desenvolver uma relação mais íntima e direta com Deus.

Leonard Cohen disse várias vezes que a canção era dedicada aos dois protagonistas do conflito, israelitas e árabes, não usando nas letras qualquer referência a acontecimentos específicos daquela guerra. A resposta de Deus é típica de Cohen: «Tranquei-te nesse corpo/Pensei-o como uma espécie de julgamento/Podes torná-lo numa arma/Ou usá-lo para fazer uma mulher sorrir.»

Diagrams

Os Diagrams são a banda do músico britânico Sam Genders. Os restantes elementos são rotativos: colaboradores frequentes, colaboradores ocasionais, músicos convidados.

Sam Genders pode não ser muito conhecido fora do circuito de rock alternativo inglês, mas dá-nos uma bela cover desta canção de Cohen, das melhores que ouvi — e ouvi dezenas, só deste tema.

The Future, Teddy Thompson

Teddy Thompson é um músico inglês que combina influências rock e folk na sua música. Vem de uma família de artistas: os pais, Richard e Linda Thompson, são ambos cantores de folk-rock, dos nomes mais conhecidos da música folk britânica das décadas de 70 e 80. A irmã, Kamila, é também cantora.

Thompson participou numa série de concertos em tributo a Leonard Cohen chamados «Came So Far for Beauty». Os concertos foram feitos em Nova Iorque, Brighton, Dublin e Sydney. Este último foi filmado e lançado sob o título « Leonard Cohen: I’m Your Man». Alguns dos nomes envolvidos estão aqui nesta lista.

Participantes, além de Teddy Thompson: Nick Cave, The McGarrigles, Martha Wainwright, Rufus Wainwright, Jarvis Cocker, Beth Orton, Laurie Anderson, a mãe Linda Thompson, Antony Hegarty (agora Anohni) e duas das cantoras do coro feminino original de Cohen, Perla Batalla e Julie Christensen.

Anohni, If It Be Your Will

Anohni, a artista anteriormente conhecida pelo nome de nascimento, Antony Hegarty, viu o seu talento reconhecido quando atuava como vocalista na banda Antony and the Johnsons.

Anohni nasceu homem por mero capricho da Natureza, nasceu homem contra a sua vontade, mas as maravilhas da ciência restituíram-lhe a liberdade e o poder de escolha. Ela é agora do género que sempre desejou ser. O que não mudou foi a sua formidável voz, como verificarão quando escutarem a versão que fez desta canção de Leonard Cohen.

Chelsea Hotel No. 2, Rufus Wainwright

Rufus Wainwright é um cantor e compositor nascido em Nova Iorque. A cover mais conhecida de «Chelsea Hotel Nº2» é a que Lana Del Rey lançou em abril de 2013. Prefiro esta, de longe. Não suporto a voz e a dicção de Lana Del Rey, que me desculpem os fãs.

Wainwright tem uma bela voz e não desliza pelos pormenores mais íntimos da canção com deleite libidinoso como faz Del Rey, capta a tristeza e a solidão subjacente ao humor e leveza da situação descrita por Cohen.

Reagindo à morte de Cohen, Wainwright escreveu no The Guardian: «Para mim, tal como para muitos de nós, ele vivia numa camada mais alta, habitada por alguns seres vivos — ícones. Seres que parecem ter uma ligação direta com a galáxia ao mesmo tempo que sabem exatamente quando devem ir lá fora despejar o lixo. Formidável, tanto no sagrado como no profano».

Leonard Cohen, o profano

A canção é a história do encontro sexual entre Leonard Cohen, então com 38 anos, e Janis Japlin, no auge da fama. Aconteceu no Hotel Chelsea, em Manhatten.

As paredes deste hotel estão cobertas de histórias devido aos hóspedes que por lá passaram. Mark Twain e William S. Burroughs viveram lá durante os tempos. Bob Dylan ficou na suite número 2011. Arthur C. Clarke escreveu «2001: Odisseia no Espaço» enquanto lá esteve. Jack Kerouac escreveu «On the Road» numa das suites. Tom Waits, os Grateful Dead, Jimi Hendrix, todos passaram por lá. Até alguns dos sobreviventes do naufrágio do Titanic ali ficaram algumas noites, devido à proximidade das docas.

E era no Hotel Chelsea que Cohen e Joplin se costumavam encontrar às tantas da manhã, geralmente nos elevadores. Uma noite, ela procurava Kris Kristofferson, ele tentava conhecer Brigitte Bardot. Nenhum dos dois conseguiu. Acabaram por cair nos braços um do outro, por «um processo de eliminação», como contou Cohen.

«Lembro-me bem de ti no Hotel Chelsea» — canta Cohen. — «Eras famosa, o teu coração uma lenda/Disseste-me outra vez que preferias homens bonitos/Mas que ias abrir uma exceção para mim».

«E cerrando os punhos por pessoas como nós/Oprimidas por modelos de beleza/Arranjaste-te e disseste/Não interessa. Somos feios, mas temos a música».

Alguns anos depois de ter lançado a canção, já Joplin tinha morrido, Leonard Cohen lamentou ter revelado a identidade da mulher. As referências explícitas a sexo oral na letra incomodaram-no.

«Uma indiscrição de que me arrependo muito. Não gosto desse elemento de conversa de balneário. Nunca falei em termos concretos de uma relação íntima que tenha tido com uma mulher. E se há forma de pedir desculpa a um fantasma, então peço desculpa pela indiscrição que cometi».

Tinham voltado a encontrar-se só numa ocasião, alguns meses depois de terem ido para a cama. Janis Joplin cumprimentou-o assim: «Então? Ainda continuas a escrever poesia para as velhinhas?»

There is a War, Cold War Kids

Cold War Kids é mais uma banda norte-americana de indie rock a entrar nesta lista de covers. São oriundos de Long Beach, na Califórnia, mas não parecem muito entusiastas do surf. Seja como for, a versão que fizeram de «There Is War» é memorável, de uma energia rock que não julgaríamos possível na reinterpretação de uma canção de Cohen. Mas é, e resulta bem.

Dance me to the end of love, Pieter Embrechts & The New Radio Kings

Pieter Embrechts é um belga dos sete ofícios: cantor e compositor, ator, realizador, encenador e apresentador de programas de televisão. Também deu a voz para as versões belgas de filmes da Disney e da Pixar.

Como cantor, notabilizou-se no seu país com as bandas El Tattoo del Tigre e The New Radio Kings, cujos temas foram todos compostos por ele. Foi com esta última banda que criou esta alegre versão de baile de «Dance Me to the End of Love» — uma escolha curiosa, como muitas outras antes dele, tendo em conta os factos que inspiraram a canção.

As coisas não são como parecem. Esta é uma dança macabra

A canção parece ser uma celebração do amor através da dança, mas a imagem de violinos a arder indica que estamos numa terra onde o amor morreu. É um tema profundamente irónico e sarcástico. É como decidir organizar uma grande jantarada para lamentar em conjunto a fome no mundo.

A imagem do violino em chamas foi inspirada por um facto que nada tem a ver com valsas românticas. Nos campos de concentração, era habitual os nazis juntarem pequenas orquestras. Os músicos eram obrigados a tocar enquanto as pessoas eram incineradas ou gaseadas. «Se se interpretar a canção deste ponto de vista, torna-se qualquer coisa de muito diferente», afirmou Cohen.

Everybody Knows, Tori Sparks

Tori Sparks é uma cantora e compositora norte-americana. Nasceu no berço do country em Nashville, mas emancipou-se. Esteve em Portugal em abril deste ano. Se não a conhecem, investiguem. Vale a pena. Mulher corajosa  na forma independente como gere a sua carreira, original nas letras, sempre ativista das causas difíceis, sempre a misturar folk, rock, blues e, desde que se mudou para Barcelona, o flamenco.

A cover de «Everybody Knows» está incluída no seu último disco, «El Mar», lançado no ano passado e produzido pela própria.

Toda a gente sabe que não é para levar demasiado a sério. Mas é.

A canção é pessimista, mas também tem humor.

O pessimismo: «Toda a gente sabe que os dados estão lançados. Toda a gente sabe que a guerra acabou e os bons perderam. Toda a gente sabe que o combate foi combinado. Os pobres permanecem pobres. Os ricos enriquecem. É assim que funciona, toda a gente sabe.»

O humor: «Toda a gente sabe que me amas. Toda a gente sabe que me amas, mesmo. Toda a gente sabe que foste fiel (tirando uma ou duas noites). Toda a gente sabe que foste discreto. Mas havia tanta gente com quem tinhas de te encontrar sem roupa. E toda a gente sabe.»

Leonard Cohen sobre esta canção: «Sem a música e as rimas absurdas, a qualidade funesta do tema seria difícil de digerir. Exagero, por vezes, para a tornar mais divertida, mitigar uma visão mais sombria.»

Jarvis Cocker, I Can't Forget

O inglês Jarvis Cocker é mais conhecido por ser o líder de uma banda de culto da década de 90, os Pulp, mas a sua carreira a solo tem sido diversificada. Além da música, Cocker apresenta um programa de rádio na BBC 6 Radio Music, «Jarvis Cocker’s Sunday Service». Leonard Cohen foi entrevistado por ele em finais de janeiro de 2012, numa edição especial de duas horas.

Preparado para a luta, se me lembrar de quem eu sou

Cocker também é recordado por ter invadido o palco dos Brit Awards, edição 1996, em protesto contra a atuação de Michael Jackson. Jackson estava a interpretar a canção «Earth Song», rodeado por crianças e um rabi. Cocker foi detido, mas libertado a seguir por não haver queixa apresentada contra ele. Jackson foi bonzinho… Ou magnânimo, talvez.

A revista Melody Maker publicou um artigo jocoso defendendo que lhe devia ser concedido o título de Cavaleiro. Noel Gallagher, dos Oasis, disse que ele «era uma estrela».

Cocker explicou mais tarde por que razão invadira o palco: «Protestei contra o facto de Micheal Jackson se ver como um Cristo com a capacidade de curar os outros».

Momentos em que nos elevamos com os nossos princípios.  Momentos em que lutamos para saber quem somos, realmente.

Momentos de Cohen na canção «I Can’t Forget» que Cocker interpreta: «Tropecei para fora da cama/Preparado para a luta/ Acendi um cigarro/E apertei as entranhas./Disse: Isto não posso ser eu/Deve ser o meu duplo./E não posso esquecer, não posso esquecer/Não posso esquecer, mas não me lembro do quê.»

«Soa belo, mesmo que não perceba»

Joan of Arc, Anna Calvi

Anna Calvi é uma cantora inglesa de indie rock. Ainda o primeiro disco não tinha sido lançado, já Brian Eno se lhe referia como «a melhor coisa que aconteceu desde Patti Smith».

A cover de Calvi da canção «Joan of Arc» é surpreendente, pois retira o elemento pelo qual Leonard Cohen é mais conhecido: as palavras.

A própria explicou a decisão de transformar o tema num instrumental: «Achei-as tão atmosféricas que me senti inspirada a recriar na guitarra o ambiente sugerido pelas letras».

Tal como todos os outros músicos que fizeram versões de Cohen, veneram-se as palavras. «Às vezes não faço ideia do que ele está a falar, mas soa inteligente e belo». Calvi referia-se à canção «True Love Leaves No Traces», do disco que o canadense fez com o produtor Phil Spector em 1977, «Death of a Ladies Man».

«Mas também sucede muitas vezes soarem belas e inteligentes, e eu perceber exatamente o que ele quer dizer. Por exemplo, quando canta: ‘Tal como o nevoeiro não deixa marcas nas colinas verde-escuras, também o meu corpo não deixa marcas em ti — e nunca deixará’. Tem uma qualidade hipnótica».

Hey, That's No Way To Say Goodbye, Phosphorescent

O grupo de rock alternativo Phosphorescent é a banda do compositor Matthew Houck, um americano nascido na Geórgia e que se mudou para Brooklyn, Nova Iorque. Os primeiros três discos eram mais intimistas, mais virados para o folk. O quarto disco, dedicado a Willie Nelson, fez Houck explorar o território do country-rock, uma exploração que prossegue até hoje.

Omnia, Teachers

Omnia é uma banda holandesa e a música que fazem resulta de uma mistura de raízes. Um folk pagão neocéltico, pode dizer-se assim, com origens irlandesas, inglesas, alemãs, bretãs, belgas, persas e, claro, holandesas.

As suas canções são um reflexo destas múltiplas origens. Cantam em inglês, irlandês, bretão, finlandês, alemão, latim e até na língua hindu. Tocam harpa celta, harpa de boca, violão, flauta e vários tipos de bateria pouco comuns, bem como outros instrumentos de percussão exóticos.

O que os atrai na música de Cohen são os trabalhos mais «depressivos», como os próprios afirmam. «The Teacher» é uma canção de homenagem a todos aqueles que o músico canadense considerou professores, mas para os elementos dos Omni Leonard Cohen é, em si, «o professor».

«Ontem passei a noite a ouvir algumas das minhas canções preferidas de Leonard Cohen.» — Escreveu Steve “Sic” Evans van der Harten, vocalista e instrumentista da banda, no dia em que soube do falecimento. «Já não o ouvia há alguns meses, mas estava numa daquelas noites. Precisava de ouvir as palavras de sabedoria e loucura deste poeta suave.»

«De manhã, vejo a notícia. Tinha morrido o mestre da depressão, da melancolia, do suicídio, do romantismo. As tuas lições terminaram, mestre, mas serás sempre o nosso professor».

Seems so long ago, Nancy, Bradford Cox-bradford-cox

O norte-americano Bradford Cox é conhecido principalmente como vocalista e guitarrista de uma banda de indie rock chamada Deerhunter. Nos projetos a solo assina como Atlas Sound — a expressão que usa desde adolescente para definir a sua música.

Na Casa do Mistério

Não foi uma adolescência nada fácil. Cox sofre de uma doença do tecido conjuntivo chamada Síndrome de Marfan. É uma desordem genética. Os que a têm costumam ser muito altos, excessivamente magros, com dedos muito longos e finos. Têm problemas cardiovasculares, dentários, oculares. Não há cura para o síndroma, embora os seus sintomas possam ser controlados.

Cox desistiu do liceu, os pais divorciaram-se, passou o fim da infância e o início da adolescência fechado em casa na maior parte do tempo. Sem amigos, incapaz de socializar devido ao seu «aspeto esquisito», começou a procurar música que refletisse o seu estado de espírito: melancólico, nostálgico, desgostoso. Identificava-se com o personagem principal de «Eduardo Mãos de Tesoura», de Tim Burton.

Cox é gay, o que lhe trouxe ainda mais problemas. Ou pelo menos assim o dizia. Continua a assumir-se «queer», mas prefere definir-se como assexual: «Não tenho grande autoestima, por isso ser assexual é uma zona de conforto para mim, um sítio onde não me sinto rejeitado.»

Bradford Cox escolheu a canção «Seems So Long Ago, Nancy» e a escolha é apropriada à sua própria vida. Fala de solidão, de casas em que nos encerramos, da incapacidade dos outros em abrir portas, da nossa incapacidade em abri-las para os outros.

Cohen canta sobre uma rapariga que conheceu no Canadá em 1961: «Ela dormia com toda a gente. Toda a gente. Teve um filho, mas o filho foi-lhe retirado. Então disparou contra si própria na casa de banho.»

O suicídio afetou-o profundamente, pois sentiu que o desfecho podia ter sido evitado pelos amigos. «Dissemos-lhe que ela era bela/Dissemos-lhe que ela livre/Mas nenhum de nós se quis encontrar com ela/ Na Casa do Mistério».

Coisas profanas sempre foram boas para abanar a carola

Master Song, Beck

O que Beck e comparsas fizeram a «Master Song» é um sacrilégio para alguns. Talvez Cohen tivesse gostado da ousadia. Muitas vezes apresentava a canção da seguinte forma: «É uma canção sobre uma trindade [a Santíssima], mas deixemos isso para os académicos. É uma canção sobre três pessoas.»

A versão de Beck é sobre três pessoas, sem dúvida. A Santíssima Trindade que Cohen evoca (e deliciosamente subverte) na versão original ficou à porta do estúdio.

A cover de Beck e amigos faz parte de um projeto que ele iniciou em 2008. «Record Club» consiste em gravar, num único dia, de forma fluída e informal, covers de um álbum inteiro de um determinado músico. Beck escolheu, para começar, o disco de estreia «Songs of Leonard Cohen», lançado em 1967.

O «Master Song» nas mãos dele e dos amigos talentosos é uma jam cheia de funk. Um ritmo de dança hipnótico marcado pelo baixo elétrico e a percussão eletrónica. E as palavras de Cohen são usadas para fazer um cartoon-rap, como se estivessem desprovidas de significado especial. Um gozo, uma desbunda típica de músicos.

Nem os fãs para quem as palavras de Cohen são sagradas podem achar que Beck foi desrespeitoso. Sobretudo tendo em conta o que ele escreveu aquando da notícia do falecimento.

Eis os seus verdadeiros sentimentos em relação à obra do músico e poeta:

«Adeus, Leonard, obrigado pelas palavras, pelas canções, pela tua vida — um cavalheiro, um mestre, um herói. Obrigado por olhares de forma tão profunda. Por partilhares os teus diamantes belamente lapidados. Por iluminares os cantos mais obscuros onde vivem as nossas almas. Por traduzires o ‘outro’ que podemos reconhecer, mas raramente conseguimos expressar.»

Suzanne, Scott Helman

Scott Helman é um miúdo de 21 anos nascido no Canadá, como Cohen, cantor e compositor como ele.

A sua música é vista como um cruzamento entre o australiano Vance Joy e do já mencionado Jeff Buckley, esse estupendo artista que produziu uma interpretação tão visceral de «Hallelujah» que muitos músicos que se seguiram fizeram covers à sua cover.

Helman ouve músicos como Sun Kil Moon ou Hozier, mas a sua devoção passa sobretudo pelo que se fazia nas décadas de 60 e 70. «Músicos como Leonard Cohen, Pink Floyd, Bob Marley, Bod Dylan ou Neil Young tinham uma ligação com a música que é, hoje em dia, completamente alienígena. Acho que nunca voltarei a ter o mesmo grau de apreciação por novos artistas que tenho por estes».

The Stranger Song, The Miserable Rich

The Miserable Rich é uma banda de um género a que se convencionou chamar de «chamber pop». Este, por sua vez, é um subgénero do indie pop, seja o que for que todas essas coisas significarem. E não significam muito, na verdade.

A banda usa principalmente o violoncelo e o violino como instrumentos principais — e ainda bem que o fazem, porque a versão de «The Stranger Song» é belíssima.

Aliás, esta é melodicamente a minha preferida de Cohen. A que mais me toca. Arrepia-me, de tão bela que é. Questão de gostos, claro. Mas nunca as palavras de Bob Dylan fizeram tanto sentido como quando oiço esta canção: «Quando as pessoas falam sobre o Leonard esquecem-se de mencionar as suas melodias. Para mim, juntamente com as letras, são a sua maior genialidade. Tanto quanto sei, ninguém na música moderna lhe chega perto».

Já que estamos tão melodiosos, aproveito para partilhar o que Leonard Cohen disse quando Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura: «Senti-me como se tivessem entregue uma medalha ao Monte Evereste por ser a montanha mais alta do mundo».

I'm Your Man, Nick Cave

Não é de admirar a presença de Nick Cave nesta lista, dada a sua longa devoção por Leonard Cohen. «Era impossível de imitar» — escreveu. — «O melhor de todos nós».

O poeta, romancista, autor de canções, vocalista, guitarrista e teclista australiano tem o seguinte para dizer sobre a importância de Leonard Cohen na sua vida: «Foi o primeiro artista que descobri sozinho. Antes só ouvia a música que o meu irmão me mostrava, era como uma ovelha num rebanho. Ele tornou-se o símbolo da minha independência musical.»

«A tristeza de Cohen era inspiradora. Deu-me imensas energias. Lembro-me sempre disto quando alguém diz que os meus discos são mórbidos ou deprimentes — exatamente o mesmo tipo de coisas que alguns dos meus amigos diziam quando lhes tentava mostrar discos do Leonard Cohen».

Who by Fire, Lhasa De Sela

Lhasa de Sela, belíssima cantora, estava destinada a interpretar Leonard Cohen. Digo-o porque a única convicção irracional que tenho é a ideia de que, de uma forma direta ou indireta, os bons músicos acabam sempre por encontrar-se.

Chamavam-lhe a cantora nómada por causa da sua infância: os pais de Lhasa, ele mexicano, ela americana, também artistas, viviam numa carrinha de escola transformada em caravana. A sua infância foi passada em constantes viagens entre os Estados Unidos e o México. Encorajada pelos pais, cantava e improvisava pequenas peças de teatro.

Nunca frequentou a escola. Foi a mãe que se encarregou da sua formação. E foi suficiente. Lhasa cresceu num mundo virado para a descoberta artística, longe da cultura convencional.

Lhasa de Sela morreu a 1 de Janeiro de 2010. Cancro da mama, essa puta de doença que anda a matar tantas mulheres.

As primeiras notícias surgiram no Twitter. Horas depois, a editora que representa a cantora desmentia: «Por respeito para com Lhasa, ficaremos muito agradecidos se acabarem com esse rumor». Em Junho, Lhasa tivera de cancelar uma digressão europeia devido aos problemas de saúde e às exigências do tratamento. «Por uma questão de prudência, não podemos sujeitá-la ao stress que estas digressões acarretam», foi então explicado.

A editora precipitara-se no desmentido e provavelmente sabia tanto como os fãs. A notícia difundida no Twitter, afinal, correspondia à verdade. Falecera pouco antes da meia-noite do dia 1 de Janeiro na sua casa em Montreal, Canadá.

Bird on a Wire, Marc Ribot & My Brightest Diamond

So Long Marianne, Bill Callahan

Marc Ribot é um dos melhores guitarristas da atualidade, seja qual for a área musical em que decide movimentar-se: jazz, rock, funk, improvisação livre.

Estudou com o mestre da guitarra havaiana Frantz Casseus, trabalhou com Tom Waits e John Lurie nos Lounge Lizards, gravou e subiu ao palco com gente como Elvis Costello, Robert Plant (o dos Led Zeppelin), Laurie Anderson, Caetano Veloso, Wilson Pickett, Chuck Berry, McCoy Tyner, pianista de Coltrane, James Carter, Norah Jones e Elton John.

My Brightest Diamond é o projeto da cantora e compositora Shara Nova. Nova cruza as influências da música clássica que estudou extensivamente com o rock alternativo que começou a descobrir.

Compositores como Sarah Kirkland Snider, David Lang, Steve Mackey ou Bryce Dessner escreveram peças exclusivamente para a voz dela. Shara Nova gravou com David Byrne, Laurie Anderson, The Decemberists, Sufjan Stevens, Jedi Mind Tricks, The Blind Boys of Alabama e os Stateless, entre outros.

Bill Calahan, que faz a cover de «So Long Marianne», é um cantor folk de Maryland. O seu estilo é lo-fi: grava álbuns inteiros em casa usando apenas gravadores de quatro pistas. Tal como o Leonard Cohen dos primeiros anos, os seus arranjos são minimalistas, reduzidos ao osso.

Marianne, a mulher, a musa, o pássaro livre

Cohen com Marianne Ihlen

Cohen com Marianne Ihlen

«Bird on a Wire» e «So Long Marianne» têm em comum uma mulher: Marianne Ihlen, a primeira musa de Cohen, talvez a única. Ele descreveu-a como «perfeita». A «mulher mais bela que alguma vez vira». Foi durante o tempo em que viveram juntos que Cohen passou de poeta, a poeta e cantor.

Estiveram juntos durante dez anos, mas a nova vida de Cohen, as digressões, as mulheres fortuitas às quais não resistia por ser um mulherengo, acabaram a pouco e pouco por minar a relação.

Marianne ainda se mostrou disposta a tolerar as infidelidades, mas quando o visitou, em Montreal, sentiu que já não era possível fazer parte da vida dele. E partiu.

Foram mantendo contacto até ao resto da vida, mas sempre separados. Norueguesa de nascimento, ela regressou à Europa. Ele ficou por Montreal, por Nova Iorque, no hotel Chelsea, na suite onde fez amor com Janis Joplin.

Nunca esqueceu Marianne. Falando das duas canções que lhe dedicou, Cohen escreveu: «As pessoas mudam. Os seus corpos mudam. Os cabelos tornam-se cinzentos. Os corpos entram em decadência e morrem. Mas há qualquer coisa que não muda, quando se trata de amor e dos sentimentos que se tem pelos outros».

«Marianne, a mulher das canções, quando lhe oiço a voz ao telefone sinto que algo se manteve intacto. Sinto que o amor nunca morre. E quando há emoção suficiente forte para a transformar em canções, há qualquer coisa nessa emoção que é indestrutível».

Marianne morreu a 29 de julho deste ano, com leucemia. Tinha 81 anos. Dois dias antes, uma amiga comum, a documentarista Jan Christian Mollestad, contactara Cohen para o informar do que estava para acontecer. Duas horas depois, o cantor enviou uma mensagem. Mollestad leu-a a Marianne, que ainda estava consciente mas já não conseguia levantar-se da cama:

«Chegámos ao momento em que os nossos corpos estão tão velhos que se desmoronam. Acho que te seguirei em breve. Quero que saibas que estou tão perto de ti que, se estenderes uma mão, poderás alcançar a minha.»

«Sabes que sempre te amei pela tua beleza e sabedoria. Mas não preciso de dizer nada porque tu sabes tudo sobre isso. Só quero desejar-te uma boa jornada. Adeus, velha amiga. Amor eterno, ver-te-ei ao longo do caminho.»

Mollestad contou que ao chegar à parte em que Cohen mencionava que a seguiria em breve e, se estendesse uma mão, alcançaria a dele, Marianne sorriu e estendeu o braço.

Nos momentos finais da sua vida, Mollestad cantou-lhe o «Bird on a Wire», a canção com a qual ela mais se identificava. E quando finalmente partiu, beijou-a na testa e sussurrou-lhe as únicas palavras de despedida que lhe pareceram apropriadas: «So long Marianne».

Marco Santos

­ Marco Santos

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