Gostei muito de «Birdman», de Alejandro G. Iñárritu, grande vencedor dos últimos óscares, portanto a ideia de ver o novo filme deste realizador mexicano pareceu-me muito apelativa.

Melhor ainda: era com Leonardo DiCaprio, um ator que podia ter tido uma carreira lucrativa como menino bonito de Hollywood, mas que em vez disso preferiu arriscar uma carreira lucrativa como ator de cinema.

DiCaprio não é a única razão para ver «The Revenant», a excecional qualidade da fotografia também é determinante. Para simplificar as coisas, apresento-vos dois motivos para irem já ao cinema vê-lo e um que talvez vos faça pensar que afinal não será necessário ter assim tanta pressa.

1 Por causa de Leonardo DiCaprio

Talvez o óscar esteja aí, Leonardo.

Talvez o óscar esteja aí, Leonardo.

Quando Leonardo DiCaprio participa em um filme estamos certos de que o seu nível de comprometimento será alto. Em «The Revenant», é estratosférico. Só para ver um ator com esta genica vale a pena pagar o bilhete.

Por razões que entenderão quando virem o filme, o personagem de DiCaprio, o desbravador de fronteiras Hugh Glass, é deixado ao abandono numa região inóspita do centro-oeste dos Estados Unidos.

Glass tinha sido atacado por um urso e os ferimentos são fatais para qualquer homem nas suas circunstâncias: a perna está partida, um corte na garganta deixa-o incapaz de falar, um rasgão nas costas é tão profundo que parte das costelas está à vista.

O que não falta nos filmes americanos são histórias sobre a sobrevivência de um indivíduo que luta contra o poder implacável da Natureza e as suas próprias limitações enquanto ser humano.

«The Revenant» também é assim, mas o personagem de Leonardo DiCaprio enfrenta ainda a crueldade desumanizada dos homens: dois companheiros de expedição pagos para cuidar dele e sepultá-lo condignamente acabam por roubar-lhe armas e equipamento, deixando-o sozinho para morrer.

A necessidade de sobreviver para se vingar daqueles que o abandonaram dá a Glass uma determinação tão selvagem e implacável como a Natureza que o rodeia.

Tendo em conta a situação em que o personagem se encontra e o facto de o realizador Alejandro G. Iñárritu ter decidido filmar em regiões inóspitas do Canadá, Estados Unidos e Argentina usando apenas luz natural, sem recorrer a embelezamentos computorizados, dá-vos uma boa ideia do que implica este «comprometimento estratosférico» de Leonardo DiCaprio.

DiCaprio deixou as tripas e o coração neste filme.

Rasteja na lama e na terra e no gelo, geme, arqueja, suspira, grita de dor, treme de frio, deixa-se levar pela corrente gelada do rio para fugir a índios hostis, come os restos deixados pelos lobos e tudo o que parece comestível, dorme dentro do cadáver de um cavalo para escapar ao gelo da noite, enfrenta mercenários franceses sem honra — o que a Internet mais deseja é vê-lo agora gozar um merecido descanso nos braços do senhor Óscar.

2 A fotografia é magnífica

The Revenant foi filmado no Canadá, EUA e a sequência final na Argentina.

The Revenant foi filmado no Canadá, EUA e a sequência final na Argentina.

O diretor de fotografia Emmanuel Lubezki ganhou dois óscares com «Gravity» e «Birdman», este também de Alejandro G. Iñárritu, e não me surpreende se ganhar um terceiro com «The Revenant».

Os fabulosos planos-sequência das violentas cenas iniciais, as águas turbulentas dos rios, a respiração gelada que deixa a própria câmara embaciada, as copas das árvores sacudidas por ventos cruéis, as fogueiras distantes bruxuleando entre a neve como miragens — o olhar de Lubezki ajuda este menino da cidade a compreender uma verdade anunciada desde tempos imemoriais, a de que não há manifestação artisticamente mais poderosa do que a da Natureza em estado selvagem.

Lubezki transporta-nos para toda aquela imensidão e faz-nos acreditar imediatamente na autenticidade do cenário, mesmo antes de se tornar ameaçador.

3 Mais uma história de vingança?

O problema com histórias de vingança é simples: já estou um bocadinho farto delas. Se a principal motivação para sobreviver é a execução de uma vingança, então já sei que inevitavelmente o personagem terá de sobreviver para que a história tenha o seu clímax.

Leonardo DiCaprio vai fazer a folha a alguém, assim que acabar de sobreviver.

Leonardo DiCaprio vai fazer a folha a alguém, assim que acabar de sobreviver.

O problema começa quando a jornada se torna demasiado longa tendo em conta que o desfecho é previsível: excelente se o clímax é realmente memorável, como por exemplo nos filmes do Sergio Leone; frustrante se chegar ao final com tanta vontade para discutir o que vi como para falar nos ingredientes das batatas fritas de pacote.

Depois de duas horas e meia de «steadicams» flutuando sobre a neve e a barba de DiCaprio, já me sentia um bocado cansado, à espera que o herói despachasse de vez a vingança e terminasse a jornada.

Quentin Tarantino também conta uma história de vingança em «Kill Bill»: a sua heroína anda à porrada e a decepar inimigos durante quase três horas, mas quando finalmente fica cara-a-cara com o Bill da história a luta é quase inteiramente psicológica — Tarantino é daqueles que acredita que grandes cenas de ação nem sempre requerem que os atores andem aos pulos, basta que o confronto seja estabelecido com grandes diálogos.

Não há nada de memorável no confronto final entre Hugh Glass e o vilão responsável pelo seu abandono, interpretado pelo impecável Tom Hardy — o que Iñárritu nos oferece, cortadinho às fatias, é mais violência, mais sangue na neve, mais selvajaria, ou seja, mais do mesmo.

O filme começa com uma corrida, depois cai, rasteja, levanta-se, coxeia, põe-se de pé e no fim rasteja outra vez, quando eu estava a contar que voltasse a correr.

Marco Santos

­ Marco Santos

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