10 000 Russos? Espera lá. Será que a de­sig­na­ção des­ta ban­da do Porto é uma brin­ca­dei­ra com o no­me de Demis Roussos? É pois, mas ape­nas por­que os seus fun­da­do­res, Pedro Pestana e João Pimenta (André Couto che­gou de­pois), lembraram-se da fór­mu­la nu­ma noi­te de copos.

O ál­co­ol tem des­tas coi­sas – de­sin­te­gra a ra­ci­o­na­li­da­de. Não, não é um gru­po de co­vers do hor­rí­fi­co can­tor gre­go. E não é, se­quer, uma ho­me­na­gem aos anos em que o di­to an­dou pe­lo rock sin­fó­ni­co, com os Aphrodite Child de Vangelis, não me­nos ter­rí­vel te­clis­ta, ou dan­do uma per­ni­nha du­ran­te um cur­to pe­río­do do mui­to mai­or da de­ca­dên­cia dos Yes. Que tam­bém eram um no­jo mes­mo nos seus me­lho­res momentos.

Do Roussos aos Russos

Conseguem ima­gi­nar o hor­ror? Música pim­ba do Mediterrâneo eu­ro­peu com play­back e um chei­ri­nho a mor­nas e coladeras?

Demis Roussos

Demis Roussos em 1973.

Demis Roussos. Assisti a um con­cer­to de­le em Lisboa, na dé­ca­da de 1980. O che­fe de re­da­ção do Diário de Lisboa obrigou-me a es­se ser­vi­ço, e eu lá ti­ve de ir, contrariado.

Foi no an­ti­go ci­ne­ma Europa. Juntaram ao ho­mem uma for­ma­ção de mú­si­cos cabo-verdianos, mas co­mo não ha­via hi­pó­te­se de ele ati­nar com es­tes, e de es­tes ati­na­rem com ele, os po­bres to­ca­ram so­bre gra­va­ções ins­tru­men­tais pre­vi­a­men­te preparadas.

Conseguem ima­gi­nar o hor­ror? Música pim­ba do Mediterrâneo eu­ro­peu com play­back e um chei­ri­nho a mor­nas e coladeras?

Vi por lá uns en­gra­va­ta­dos com ar de gran­des em­pre­sá­ri­os, acom­pa­nha­dos por umas jo­vens bas­tan­te… hmmm… vis­to­sas. Call girls? Secretárias em de­sem­pe­nho de ho­ras ex­tra­or­di­ná­ri­as, que não, na cir­cuns­tân­cia, em quar­tos de ho­tel? Não sei, mas ado­ra­ram. Estavam ex­ci­ta­dís­si­mos, eles e elas.

Música para abrir as pestanas, ou talvez não

As pes­so­as que es­ta­vam à mi­nha vol­ta já não di­zi­am coi­sa com coi­sa e eu tam­bém não.

Pedro Pestana

Pedro Pestana

Não me dei­xem di­va­gar, vol­te­mos aos 10 000 Russos. A mi­lhas de dis­tân­cia do já de­sa­pa­re­ci­do bar­bu­do de bar­ri­ga oval, es­tes dedicam-se ao rock psi­ca­dé­li­co. Mas um rock psi­ca­dé­li­co di­fe­ren­te do mais cos­tu­mei­ro: lá pe­lo meio do cau­dal vai emer­gin­do uma in­fi­ni­da­de de re­fe­rên­ci­as que na­da têm que ver com es­sa corrente…

Todas elas as­su­mi­dís­si­mas, ex­pos­tas tal co­mo são por­que os três mú­si­cos as­sim o de­se­jam. As dos Neu! e dos Spacemen 3 fa­zem to­do o psi­ca­dé­li­co sen­ti­do, mas as ou­tras não. Uma vem dos pós-punk The Fall, ou­tra, ima­gi­nem, dos in­dus­tri­ais Throbbing Gristle. E ju­ro que tam­bém lhes des­co­bri al­gu­ma coi­sa dos Young Gods, os suí­ços que trou­xe­ram a sam­pla­de­lia pa­ra o rock.

Quando é que is­so acon­te­ceu? Na me­lhor das si­tu­a­ções pa­ra ou­vir es­ta mú­si­ca: ao vi­vo. Foi a 19 de Fevereiro, na SMUP, es­sa mag­na ins­ti­tui­ção da República Independente da Parede.

Julgo que in­flu­en­ci­a­do pe­lo etí­li­co nas­ci­men­to do ago­ra trio, pe­di um co­po de vi­nho an­tes de o con­cer­to ter iní­cio. Má ideia: de ca­da vez que os riffs me aba­na­vam, a rou­pa que ves­tia ia fi­can­do man­cha­da de ver­me­lho. E co­mo não apren­di lo­go a li­ção, ou­tros se se­gui­ram, com igual desfecho.

Vera Valente

Foto: Vera Valente

É im­pos­sí­vel fi­car qui­e­to a ou­vir 10 000 Russos. O cor­po ga­nha von­ta­de pró­pria, mexendo-se in­con­tro­la­vel­men­te, e a ca­be­ça separa-se dele.

Este ti­po de psi­ca­de­lis­mo não é cós­mi­co, é encefálico-endocrinológico-metabólico. A vi­a­gem que pro­pi­cia faz-se pe­los in­te­ri­o­res da men­te. Descobri, com a aju­da do tin­tol, que es­ta tem as di­men­sões do uni­ver­so e tam­bém uns sóis e uns pla­ne­tas lá dentro.

Para além de al­gu­mas pre­sen­ças não-identificáveis, por­que os te­mas dos 10 000 Russos são es­cu­ros, mui­to es­cu­ros. Suspeito mes­mo que an­dam por ali umas prá­ti­cas ocul­tis­tas. Talvez o es­pí­ri­to de Aleister Crowley, tam­bém co­nhe­ci­do co­mo Besta 666, que em vi­da até an­dou por aqui (Parede) per­to, de­sig­na­da­men­te na Boca do Inferno, no Estoril e em Sintra.

Uma coi­sa é cer­ta: as pes­so­as que es­ta­vam à mi­nha vol­ta já não di­zi­am coi­sa com coi­sa e pa­re­ce que eu tam­bém não.

Os rit­mos do bai­xo e da ba­te­ria eram ob­ses­si­vos, re­pe­ti­ti­vos, ab­sor­ven­do as es­tra­té­gi­as de tran­se do funk e do krau­trock, e a gui­tar­ra su­bia em vo­os es­tra­tos­fé­ri­cos. Já não ou­vía­mos ape­nas com as ore­lhas. As vi­bra­ções atingiam-nos o es­ter­no, eletrizavam-nos a plan­ta dos pés. Sim, o chão tre­mia, oh se tremia.

Música com substâncias ilícitas

Um su­jei­to que eu sei ser he­te­ro apalpou-me a pi­la, as­sim sem mais nem me­nos, de re­pen­te. A mú­si­ca dos por­tu­en­ses de­ve pro­vo­car al­gum des­car­re­ga­men­to quí­mi­co no cérebro.

Pedro Pestana

E Pedro Pestana con­ti­nua a dar-lhe na gui­tar­ra. | Foto: Cláudio Rêgo

A gui­tar­ra? Na mai­or par­te do tem­po já não era es­ta que pro­du­zia aque­les sons. Pedro Pestana largava-a pa­ra trás das cos­tas, acocorava-se e ro­da­va os bo­tões dos pe­dais de efei­tos. Às tan­tas, aque­le rock pe­sa­dão e su­jo convertia-se em noi­se. Puro ruí­do, ma­jes­tá­ti­co, ine­bri­an­te, se­xu­al – pus-me a ima­gi­nar as ra­pa­ri­gas do Demis Roussos com os pei­tos ar­fan­tes, sem sa­ber se de­vi­am de­sa­bo­to­ar as ca­mi­sas pa­ra res­pi­rar me­lhor ou sair pe­la por­ta fo­ra, com me­do do lo­bo mau.

Era per­cep­tí­vel, nas vo­ca­li­za­ções de João Pimenta, a in­fluên­cia do se­nhor Mark E. Smith, es­se ve­lho trotzkys­ta de mau hu­mor que per­sis­ten­te­men­te vem man­ten­do a epo­peia The Fall des­de 1976. Transparecia aqui e ali, quan­do o tam­bém ba­te­ris­ta que­ria, mas so­bre­tu­do no te­ma «Karl Burns», que era co­mo se cha­ma­va o mais du­ra­dou­ro, e o mais no­tá­vel, dos be­a­ters do grupo.

As le­tras eram in­com­pre­en­sí­veis, e is­so por­que a voz es­ta­va eno­ve­la­da em ele­tri­ci­da­de. Mas lá se en­ten­deu o re­frão «Welcome to La La Land», vá­ri­as ve­zes rei­te­ra­do. Acho que vou trau­te­ar aque­la me­lo­dia mui­to de­pois de me me­te­rem na tumba.

Os 10 000 Russos to­cam man­tras hip­nó­ti­cos e o cer­to é que hip­no­ti­zam mes­mo. Até quem não fu­ma subs­tân­ci­as ilí­ci­tas fi­ca­va gan­za­do. Um su­jei­to que eu sei ser he­te­ro apalpou-me a pi­la, as­sim sem mais nem me­nos, de re­pen­te. Entendi a coi­sa ape­nas co­mo um mo­men­to de de­si­ni­bi­ção: a mú­si­ca dos por­tu­en­ses de­ve pro­vo­car al­gum des­car­re­ga­men­to quí­mi­co no cérebro.

Dos Russos às russas

E que tal mu­dar o no­me do gru­po de 10 000 Russos pa­ra Camarada Irina?

Eugene Barykyn

Cartazes de pro­pa­gan­da so­vié­ti­ca ao es­ti­lo «pin-up» ame­ri­ca­no, de Eugene Barykyn

Mas não é de man­tras ti­be­ta­nos que se tra­ta. O ima­gi­ná­rio da ban­da vem to­do do Leste, e a Rússia tem o seu pró­prio Tibete. Chama-se Tuva, a tal re­gião em que os xa­mãs con­se­guem can­tar com du­as vo­zes em si­mul­tâ­neo, uma gra­vís­si­ma, vin­da dos con­fins da gra­vi­da­de, e ou­tra em re­gis­to mui­to al­to, que­ren­do ul­tra­pas­sar as nu­vens. Foi o que a com­bi­na­ção en­tre a gui­tar­ra de Pestana e o bai­xo de André Couto fez na SMUP.

Há ali qual­quer coi­sa de so­vié­ti­co, adap­tan­do a con­ten­da en­tre Trotzky e Estaline na ban­da so­no­ra de um fil­me de ter­ror. Pudera: o pri­mei­ro foi as­sas­si­na­do por man­dan­tes do se­gun­do. Aliás, es­se gé­ne­ro ci­ne­ma­to­grá­fi­co agra­da es­pe­ci­al­men­te a Pedro Pestana.

É co­mo se o fe­ed­back (que cons­ti­tui praí 60% da iden­ti­da­de 10 000 Russos) fos­se o mais apro­pri­a­do som a jun­tar às ima­gens de­sér­ti­cas da Ásia Central sob o do­mí­nio dos so­vi­e­tes que ins­pi­ram es­tes ra­pa­zes. Aliás, o car­taz de pro­mo­ção do con­cer­to mos­tra­va uma bo­ni­ta mulher-soldado dos tem­pos em que a foi­ce e o mar­te­lo fa­zia lei por aque­les lados.

Antes es­sa as­so­ci­a­ção, meus ca­ros, do que aque­la com o fal­se­tis­ta rou­co Demis Roussos. E que tal mu­dar o no­me do gru­po de 10 000 Russos pa­ra Camarada Irina? Ficava porreta…

Rui Eduardo Paes

Bitaite de Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?