→ 12/12/2010 @17:03

Uma anedota, dois amuos e três leis da robótica

Este é um post «três-em-um». Principais protagonistas: um escritor de ficção científica, um compositor clássico e um escritor do chamado Romantismo europeu.

Isaac Asimov, nascido na Rússia mas cidadão norte-americano (a família emigrou para os Estados Unidos quando ele tinha três anos) não era apenas um excelente escritor de ficção científica; a formação em Química e a enorme curiosidade pelos mistérios da Ciência também lhe permitiram escrever ensaios científicos.

Os mais importantes foram os trezentos e vinte e nove artigos que escreveu para a revista Magazine of Fantasy and Science Fiction.

Esses ensaios foram reunidos num livro publicado em Portugal pela Europa-América com o poético título Tão longe quanto chega o olhar humano.

Se o encontrarem numa dessas feiras de livros em segunda mão, comprem-no – mantém-se razoavelmente actual e é uma delícia de leitura.

Asimov também tinha sentido de humor e gostava de apimentar os seus ensaios científicos com pequenas notas auto-biográficas. Eis um excerto de Feito, não encontrado, um dos que escreveu para a revista Magazine of Fantasy and Science Fiction:

 

Goethe, Beethoven e notas profundas

«Numa reunião recente dos Trap Door Spiders (o pequeno e infinitamente interessante grupinho no qual fundamento os meus mistérios de Viúvo Negro), o meu bom amigo L. Sprague de Camp contou a seguinte anedota histórica, que deve ser verdadeira, já que nunca a ouvira antes.

‘Goethe’, dizia ele, ‘veio uma vez a Viena para visitar Beethoven e ambos saíram para um passeio. O Vienense, reconhecendo os dois, estava tomado de respeito. Todos aqueles que os dois grandes homens encontravam se apressavam a desviar-se e a dar-lhes passagem, os homens curvando-se profundamente e as mulheres fazendo uma rasgada vénia.

Finalmente, Goethe disse: ‘Sabe, Herr Van Beethoven, acho estas expressões de adulação bastante fastidiosas.’

Ao que Beethoven respondeu: ‘Por favor, não deixe que isso o incomode, Herr Von Goethe. Estou perfeitamente certo de que estas expressões de adulação se destinam a mim.’

A história foi acolhida pelo riso geral, e ninguém riu mais sinceramente do que eu, já que tenho um gosto especial por frases que representam auto-elogios desprovidos de artifícios (por razões que os meus leitores podem considerar óbvias).

Quando acabei de rir, no entanto, afirmei: ‘Sabem, penso que Beethoven tinha razão. Ele era o homem mais importante.’

‘Pensas que sim?’, disse Sprague. ‘Por que razão, Isaac?’

‘Bem’, respondi eu, ‘é preciso traduzir Goethe.’

Houve um curto silêncio e então Jean le Corbeiller (que lecciona Matemática e é um príncipe dos bons companheiros) disse: ‘Sabes, Isaac, talvez não te apercebas, mas acabaste de dizer algo de muito profundo’.

É claro que, na verdade, eu apercebera-me, mas deve-se ser modesto, pelo que respondi: ‘É terrível, Jean. Estou sempre a dizer coisas profundas e sempre me escapa esse facto’.

Penso que não se pode ser mais modesto que isto.

De qualquer forma, é muito possível que nestes meus ensaios possa dizer, ocasionalmente, e por simples acidente, algo de profundo. Se me apanharem nessa situação, por favor, digam-me. Ficar-vos-ia agradecido.»

 

Desvendando uma anedota

Quanto à anedota que Asimov recordou, é possível que tenha tido origem num célebre episódio conhecido como o Incidente de Teplitz.

Goethe adorava a música de Beethoven e Beethoven adorava as palavras de Goethe, mas só se conheceram pessoalmente em 1812.

A impressão que cada um ficou do outro depois do encontro não foi muito positiva: Goethe escreveu à mulher dizendo que Beethoven «tinha uma personalidade absolutamente incontrolável»; Beethoven queixou-se ao seu editor, dizendo que Goethe se «encantava em demasia com a atmosfera da corte».

Na origem do amuo entre estes dois grandes homens estão duas formas radicalmente diferentes de encarar a nobreza.

Beethoven e Goethe caminhavam juntos pelas ruas de um parque na cidade de Teplitz quando o poeta e escritor notou a presença da Imperatriz. De imediato, fez questão de a cumprimentar e incitou Beethoven a acompanhá-lo.

Goethe colocou-se diante da Imperatriz e saudou-a com uma profunda vénia. Beethoven colocou o chapéu firmemente na cabeça, pôs as mãos atrás das costas e prosseguiu a caminhada como se a imperatriz não existisse.

Goethe ficou tão ofendido com a atitude de Beethoven que nunca mais se mostrou interessado em reatar a amizade, nem tão-pouco se dignou a responder às cartas que o músico posteriormente lhe enviou.

A história é contada no sítio Mad About Beethoven e inclui uma imagem comemorativa do incidente.

 

As três leis da Robótica

I,Robot foi baseado no conto de Asimov

Já que estive a citar Asimov, aproveito para lembrar que é ele o autor das famosas Três Leis da Robótica. Estas leis apareceram no conto Círculo Vicioso, publicado originalmente na edição de Março de 1942 da revista Astounding Science Fiction. No conto, Asimov postula as três regras fundamentais da Robótica; só mais tarde estas se tornariam «leis». As leis são as seguintes:

1. Um robot não pode molestar um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano seja molestado.

2. Um robot deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, excepto se entrarem em conflito com a Primeira Regra.

3. Um robot deve proteger a sua própria existência, desde que essa protecção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Regra.

Asimov não se limitou a criar estas três regras: sem o saber, também inventou a palavra «robótica». O escritor conta o episódio no prefácio do livro Visões de Robot, colectânea de contos do escritor que inclui o mencionado Círculo Vicioso: «É claro que eu não sabia que estava a inventar uma palavra. Na minha inocência juvenil, pensava que era a apropriada e não fazia a menor ideia de que nunca tinha sido empregue.»

Asimov tinha 22 anos quando escreveu, pela primeira vez, as três regras da robótica. Morreu 50 anos mais tarde, após uma longa, produtiva e criativa vida ao serviço da Ciência, do Sonho e das palavras. Obrigado, Isaac, és um dos meus bacanos preferidos.

6 comentários

  • 1
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    13 de Dezembro de 2010 - 11:53 | Link permamente

    A revista não será a Astounding Science Fiction?

    De resto, excelente post. Asimov é um dos meus escritores favoritos. Ainda hoje trouxe a trilogia Foundation para iniciar um colega de trabalho. :)

  • 2
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    13 de Dezembro de 2010 - 12:26 | Link permamente

    e que tal uma mix de músicas grunge a teu gosto? era bacanooooooooooooooo :mrgreen:

  • 3
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    13 de Dezembro de 2010 - 15:09 | Link permamente

    @Pedro Cardoso: é sim senhor, disparate meu. A não ser que a gralha seja astronomicamente embaraçosa, ser corrigido é quase um elogio – se ninguém ligasse, ninguém corrigia. Muito obrigado!

    @Pedro, o que são músicas grunge? Não estou a gozar.

  • 4
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    13 de Dezembro de 2010 - 22:13 | Link permamente

    Olá,

    Deixando de lado o Romantismo, Goethe em particular, e atardando-se sobre Asimov não deixa de ser educativo que fales de bio química.

    Quando Asimov, especializado em biologia e química, esvreve The Nahed Sun, nos finais dos anos 50, a separação entre a biologia e a química era enorme.

    Só desde há duas décadas, ou quase, é que começamos a pensar, de modo constante e na necessidade da inter-disciplinaridade.

    Gostei também da tua tradução das três leis da robótica.
    Em http:// Cosmeticas.org/10288 dou uma outra tradução das três leis da Robótica . O essencial está igual. Mas não deixa de ser questionante a escolha das palavras.

    A Tradução é realmente um suplício,

    Nuno

  • 5
    com Namoroka 3.6.14pre Namoroka 3.6.14pre em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
    13 de Dezembro de 2010 - 22:58 | Link permamente

    Fui enganado pela wikipédia :(
    A sua formação é em Química, embora mais tarde Asimov tenha sido professor de Bioquímica na Universidade de Boston.
    Obrigado pelo reparo, Nuno.

  • 6
    com Google Chrome 8.0.552.215 Google Chrome 8.0.552.215 em Windows 7 Windows 7
    14 de Dezembro de 2010 - 11:58 | Link permamente

    Nirvana, Sonic Youth (é mais rock experimental do que grunge mas é awsomeeeeeee!), Temple of The Dog, Soundgarden, Bush Dinosaur Jr, e outras bandas que não são bem grunge são mais indie ou rock alternativo como Black Lips, Japanther. Jay Retard, Chk Chk Chk, Smudge, Radioactive Man, Bauhaus, She Wants Revenge, acho que podes vir a gostar de algumas :P