→ 16/12/2007 @1:02

Três fotos que mudaram a guerra do Vietname

Kim Phuc fugindo do terror do Napalm

8 de Junho de 1972. Um avião da Força Aérea Vietnamita bombardeia Trang Bang, uma população sul-vietnamita situada a 38 quilómetros de Saigão. Centenas de homens, mulheres e crianças morrem em consequência desse bombardeamento com napalm.

O ataque não ocorreu por engano: tratou-se de uma operação militar destinada a travar o avanço dos vietcongs sobre a capital e proteger a retaguarda dos soldados vietnamitas. Os americanos não estiveram directamente envolvidos na operação: o processo de retirada de tropas do terreno ficará concluído a 12 de Agosto desse ano, embora a acção dos bombardeiros B-52 se tenha intensificado nesse período (fonte). Mais tarde, comentando as circunstâncias em que o ataque aconteceu, veteranos do Vietname afirmaram que os vietcongs tinham usado a população como escudo – daí os danos colaterais.

Das consequências deste ataque ficou-nos uma imagem que se tornaria uma das grandes fotografias da guerra, de todas as guerras: crianças inocentes – os tais «danos colaterais» – fugindo ao horror do napalm.

Talvez por parecer ainda mais frágil do que as outras, o olhar do fotógrafo vietnamita Nic Ut centra-se na menina de 9 anos de quem mais tarde se tornará amigo e protector, Kim Phuc. Vê-a correr na sua direcção, gritando «muito quente, muito quente», com as costas, os ombros e os braços queimados pelo napalm. O rapaz que se vê a correr à frente dela, do lado esquerdo na foto, é o seu irmão mais velho, Phan Thanh Tam. Nic Ut tirará mais fotos deste episódio, incluindo uma em que a avó da menina foge com o neto ao colo, um bebé que não resistiu às queimaduras e acabou por morrer nos seus braços.

Caminhando na mesma estrada, os soldados parecem indiferentes ao sofrimento das crianças, o que torna a foto ainda mais reveladora de como a guerra também é capaz de despedaçar um ser humano por dentro.

Nem todos se mostrarão indiferentes: como recordará a própria Kim Phouc à BBC, numa entrevista dada a 29 de Abril de 2005, um dos soldados deixa-se tocar pelo sofrimento da menina, dá-lhe de beber do seu cantil, deita-lhe água sobre as costas queimadas julgando assim que lhe aliviará a dor.

A família sobrevivente reúne-se à volta de Kim Phouc e do grupo de jornalistas. Nic é vietnamita e o único capaz de comunicar com as pessoas que, desesperadas, pedem aos repórteres para as levar para o hospital. Nic sabe que as fotos que tirou são importantes e devem ser enviadas o mais rápido possível, mas acaba por concordar em levar a menina ao hospital de carro. Com ele seguem os dois irmãos, um tio e uma tia.

Dirigem-se ao hospital de Cu Chi, a meio caminho de Saigão. A rapariga grita de dores, pede água, diz sentir-se a morrer. Cada movimento do carro provoca-lhe dores imensas quando a pele queimada entra em contacto com o banco. O fotógrafo recordará mais tarde que a menina gritou até desmaiar.

Kim Phuc e Nik TutUma hora depois chegam ao hospital. A regra ali é a seguinte: tratar primeiro os doentes que os médicos consideram ter hipótese de sobreviver, deixar os casos mais graves para depois. A menina faz parte deste último grupo – por esta altura, já o fotógrafo está demasiado envolvido com o drama e recusa abandoná-la a uma morte certa. Puxa dos galões de jornalista: conta aos médicos o drama que presenciou, diz-lhes que o rosto da menina que eles não querem tratar estará nos principais jornais em todo o mundo.

Acaba por convencê-los. Só quando se certifica de que a criança entrou na sala de operações é que abandona o hospital para enviar as fotos. Kim Phouc ficou internada no hospital 14 meses e fez 17 operações ao todo. O fotógrafo foi sempre visitá-la.

Meses depois de as fotos terem sido publicadas e o nome Nik Tut se tornar famoso em todo o mundo, o fotógrafo foi entrevistado para recordar as circunstâncias em que as imagens foram tiradas.
Nic contou tudo o que se passou, excepto a parte em que se meteu no carro e procurou salvar a vida de uma menina.

Só 28 anos depois do dia em que a fotografia foi tirada o mundo soube do papel do fotógrafo. E foi a própria Kim Phouc quem o revelou quando finalmente o conseguiu reencontrar, em Londres, durante uma audiência com a Rainha. Abraçando-o, apresentou-o como «o homem que salvou a minha vida».

Entrevista a Kim Phouc | Digital Jornalist: A História contada pelo fotógrafo

Kim Phuc actualmenteEntrevistada pela CBS a 19 de Setembro de 2000, Kim Phouc dirá que, ao olhar para a foto, sente-se ainda como «se tudo aquilo tivesse sucedido ontem». Mas a conversão ao Cristianismo, afirma, ajudou-a a resolver os fantasmas do passado: «Eu fui uma vítima da guerra, fui uma vítima de muitas coisas. Mas penso que consegui uma vitória, pois entretanto aprendi a perdoar».

Kim Phouc julgou que nunca mais seria atraente aos olhos de um homem por causa da extensão das queimaduras nos ombros, nos braços e nas costas, mas hoje em dia é casada e mãe de dois filhos. Fez as pazes com o mundo. Sempre recusou que a sua história e a foto fossem usadas para fins de propaganda política, tanto por vietnamitas como por americanos.

Fugiu do Vietname e refugiou-se no Canadá, onde ainda vive. É numerosas vezes chamada para contar a sua história às novas gerações. Fundou a Kim Foundation, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a ajudar crianças vítimas da guerra. É Embaixadora da UNESCO e a sua missão é levar uma mensagem de paz ao mundo.

Vietname

Numa luta mortal de seres contra seres da mesma espécie, a distanciação imposta aos soldados tem nas fardas o seu símbolo mais poderoso. Cada nação, ou grupo de nações, tem a sua própria farda – e vesti-la permite distanciar seres humanos e criar, de forma artificial, uma subespécie de homens mentalizados para destruir outras subespécies que também são criadas artificialmente.

Esta distanciação é conseguida à força da disciplina e de conceitos abstractos como «patriotismo» e «justiça» ou seja lá o que for que aos falcões da guerra der jeito inventar.

No caso da Guerra do Vietname, a palavra-chave foi «Democracia». A «Democracia» seria transportada em aviões e navios de guerra e servida a um povo sedento de Liberdade (outra palavra) e desejoso de se libertar do jugo comunista do Vietname do Norte.

Mas como dizia um soldado americano que combatia no Vietname, no filme Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick, «Democracia é apenas uma palavra. Se andamos aqui a combater por uma palavra, então eu prefiro combater pela palavra ‘Foder’, que é a minha preferida.» Neste sentido, «Democracia» tem um significado tão dúbio e falacioso como a expressão «Danos colaterais».

O objectivo das fardas é colocar sucessivos obstáculos à nossa consciência moral que nos diz que o soldado inimigo é um ser humano como nós e que, noutras circunstâncias, não desejaremos matá-lo. Se nos recusarmos a usar fardas, visíveis ou invisíveis, é mais difícil que os Donald Rumsfeld deste mundo convençam os povos de que a guerra faz todo o sentido. Porque não faz. Não faz mesmo.

Vietname

Talvez as fotos mais marcantes do Vietname sejam aquelas em que o fotógrafo consegue desfazer a ilusão da farda e das palavras vazias, e mostrar-nos um ser humano em vez do inimigo, retirando qualquer sentido que os falcões possam querer dar a uma guerra.

A célebre foto tirada a 8 de Junho de 1972 pelo vietnamita Nik Ut (prémio Pulitzer) mostra-nos que a guerra é sempre feita contra a Humanidade, a Humanidade dentro de nós: vemos crianças fugindo aterrorizadas das nuvens de Napalm e, ao mesmo tempo, um grupo de soldados que caminham na mesma estrada, parecendo indiferentes ao seu sofrimento. A nossa compaixão é dirigida às crianças, mas o mais chocante deste foto é que poderíamos ter ocupado o lugar daqueles soldados, vítimas, como aqueles, do mesmo processo de distanciamento artificial entre seres humanos que age à sombra de uma guerra e a torna possível. Tanto pode ser induzido pela farda como pela distância física, como foi o caso do piloto do avião (sobre a identidade do piloto: post em preparação), impossibilitado de presenciar a tragédia individual que as suas bombas provocaram.

Tudo o que mina as nossas esperanças para o futuro da Humanidade se desenrola ali, naquela foto: crianças cujo instinto nos impele a proteger são mortas e, se sobrevivem, vêmo-las em pânico e em sofrimento, abandonadas; homens que em circunstâncias normais as protegeriam caminham com indiferença porque, como escreveu o escritor e ensaísta Edward Bond, se encontram «despedaçados por dentro» pela crueldade da guerra.

Derrotando a moral do inimigo: As fundações psicológicas da guerra de manobra | Vietname War

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8 comentários

  • 1
    com Opera 9.24 Opera 9.24 em Windows XP Windows XP
    17 de Dezembro de 2007 - 03:09 | Link permamente

    Grande, grande post.

  • 2
    iznogoud
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows Server 2003 Windows Server 2003
    17 de Dezembro de 2007 - 11:11 | Link permamente

    Enorme!!! :mrgreen:

    Bela forma para começar uma segunda feira.

  • 3
    com Firefox 2.0.0.11 Firefox 2.0.0.11 em Windows XP Windows XP
    17 de Dezembro de 2007 - 21:08 | Link permamente

    Magnífico! Precisei de alguns fôlegos para ele.

  • 4
    Francisco rodrigues
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    18 de Dezembro de 2007 - 03:38 | Link permamente

    É mais q previsível q os Vietcongs, Chineses,russos,etc fossem muito mais sanguinários, mas não havia fotos, TVs e etc. para o mostrar.
    Exactamente por actuarem no anonimato!!!
    Já houve quem considerasse( não sem alguma razão…) q os Americanos ganharam a guerra no terreno mas perderam na comunicação social: quando a família americana começou a ver sangue na TV à hora do jantar, lá se foi o apoio à guerra.
    No Norte não havia esse problema:eram carne para canhão e ninguém via.
    Daí q falte nesse post o “ir mais além”, não se deixar levar pela 1ª imagem, procurar o porquê, saber distinguir as estruturas sociais dos países em guerra e, esse dado fundamental em guerra,como é q ela é apresentada ao público…

  • 5
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista
    18 de Dezembro de 2007 - 15:32 | Link permamente

    Bom relato, mas acho que o autor se perdeu um bocado, na parte final, em opiniões pessoais.

  • 6
    com BonEcho 2.0.0.12pre BonEcho 2.0.0.12pre em Windows XP Windows XP
    18 de Dezembro de 2007 - 15:43 | Link permamente

    Obrigado, GO. A parte em que me perco em considerações pessoais é precisamente a minha parte preferida, veja lá como são as coisas.
    Sendo um blogue, julguei que não haveria problema em ser mais pessoal… :wink:

  • 7
    Vladimir
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    18 de Dezembro de 2007 - 21:55 | Link permamente

    Que tal umas fotos sobre as execuções sumárias feitas por Vietcongs,Norte-Viets, Chineses,etc… para que haja verdade, imparcialidade, justiça? :?:
    De preferência feitas depois da tomada de Saigão pelos Vietcongs( se houver fotógrafos vivos…)?

  • 8
    Pedro
    com Firefox 2.0.0.14 Firefox 2.0.0.14 em Windows XP Windows XP
    24 de Abril de 2008 - 15:33 | Link permamente

    Num dos milhares que aconteceram… Num ataque aéreo americano foram mortas mais de 500 pessoas em que quando foram ao local não houve um soldado morto uma arma encontrada.. Apenas mulheres, crianças,idosos..

    Dito por vários soldados americanos que assistiram depois no terreno e no local da ocorrência.. Alias um soldado diz mesmo que sim uma senhora viva talvez com mais de 60 anos sentada no chão, e a levar um tiro na cabeça por um outro soldado americano.

    Matar em nome de uma chamada LIBERDADE apenas tem sido a forma encontrada, para Matar. Pelo menos antigamente e mesmo hoje em dia alguns ainda assumem o que são.. Outros vestem-se com pele de cordeiros e LEVAM A LIBERDADE AO MUNDO..