Vem e Vê – Requiem para um Massacre, de Elem Klimov
É difícil descrever o impacto que me causou. O filme é um relato da invasão da Bielorússia pelas tropas nazis durante a II Guerra Mundial, e das atrocidades cometidas contra os aldeões e os partizans que pegaram em armas para defender as terras. A história é contada através do olhar de um rapaz de 14 anos a quem os nazis assassinam os pais (e a juventude).
Quando o vi pela primeira vez foi em vésperas de ir para a tropa. Antes me tivesse passado pelos olhos um filme dos Monty Python. Antes tivesse visto a famosa rábula do grupo de militares a fazer ordem unida ao estilo gay. Tinha dado umas gargalhadas e adormecido melhor. Estão a ver o personagem Alex, do filme A Laranja Mecânica, do Kubrick? Lembram-se das cenas em que ele é submetido a doses diárias e quase ininterruptas de imagens ultra-violentas ao som do adorado Beethoven? A ideia era condicionar a sua propensão para a violência por meio de sofisticadas técnicas psicológicas, igualmente violentas. Se não viram o filme, vejam-no. E, de caminho, experimentem ler a obra que lhe deu origem, escrita pelo Anthony Burguess – tão magnífica como o filme.
Falo dessa obra-prima do Kubrick porque se existe um filme apropriado para as sessões de tortura de A Laranja Mecânica é este. À superfície, retrata a guerra como algo obsceno e hediondo. Mas esteticamente é tão belo que, às tantas, a violência parece irromper do filme como uma chama glorificadora, queimando a face de quem está a assistir. A forma como é filmado também lembra, à primeira vista, Kubrick, pois em certas sequências tive a sensação de que regressara ao labirinto gelado de The Shining – perseguidos e perseguidores, vítimas inocentes e assassinos diabólicos, filmados em longos e asfixiantes travellings, recorrendo a lentes grande-angulares para fazer aumentar a sensação de mal-estar. Mas isso é apenas uma primeira impressão: os massacres nazis são filmados por Klimov como se fossem espectáculos psicadélicos, mais realistas que a própria realidade, como fez o Copolla no Apocalypse Now.
Mas enquanto Copolla tem alma de poeta, Klimov é mais do estilo pugilista: cada cena de violência é um murro no estômago – e quanto mais bela e bem filmada está, mais insuportável se torna. A cena final, ao som do Requiem de Mozart – Lacrimosa, nunca mais me esqueço – é o derradeiro murro no estômago: o rapaz de 14 anos protagonista do filme, Florya, envelhecido pelas atrocidades que testemunhou, tomado pelo ódio e desejo de vingança, dispara sobre um retrato de Hitler abandonado no chão pelas tropas nazis em fuga.
Cada disparo faz estilhaçar um vidro que revela outro retrato, o de um Hitler cada vez mais jovem – até que, por fim, no derradeiro disparo, Florya se vê confrontado com o retrato de um bebé inocente, o próprio Hitler. Juro que não me consigo lembrar se chegou a disparar ou não. [Escrito a 25 de Janeiro de 2005]






























4 comentários
Confesso que o filme me decepcionou.Pela violência gratuita e sádica nos preparativos punitivos antes da crucifixação.Mel Gibson deve ter tido orgasmo atrás de orgasmo na direção de tais cenas, Hitler e sua entourage se pudessem ter visto o filme achariam que os campos de concentração eram jardins de infância com aqueles sabonetes de pedra e aquele gás apenas…
“(…) antevi naquela reacção à tortura uma manifestação de carácter divino. Depois despoletou-se-me o velho conflito entre a minha fé na Ciência e a sensação subjectiva de que um Universo sem Deus não pode fazer sentido.”
ainda bem que tens grandes momentos de inspiração para preencher os momentos de ausência
O filme de um “murcão” que escreve “murcons” é dos tais que só se apresenta em festivais. Foi exibido na casa dos “rosinhas”, com lotação esgotada.
Perfeito, Marco. Uma das melhores resenhas que já vi sobre The Shining. E vou mais além: para mim sempre foi uma comédia de humor negro.