Neil deGrasse Tyson é astrofísico no Museu Americano de História Natural e dirige o Planetário Hayden.
Ele é um dos mais conhecidos astrofísicos entre o grande público por ser um grande comunicador e a pessoa a quem muitos jornalistas recorrem quando há uma notícia de Astronomia e precisam de alguém credível para dar algumas explicações.
Para a minha geração – orfã do grande Carl Sagan – é sempre um deleite ler ou ouvir cientistas cujo entusiasmo e capacidade de comunicação permitem esbater fronteiras entre o douto e o leigo, ajudar a causa do conhecimento e fortalecer a nossa educação científica.
Tyson não é um romântico como Sagan, mas fala de Ciência de forma espirituosa e geralmente bem-humorada. Ainda sobre Sagan, Tyson recorda o dia em que o conheceu numa entrevista que pode ser vista no seu sítio oficial.
O excerto que se segue foi retirado do capítulo 39 do livro Morte por Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos, editado pela Gradiva e traduzido por Pedro Miguel Ferreira. Este livro resulta de um conjunto de 42 ensaios escritos para a revista Natural History.
O capítulo que escolhi – Noites de Hollywood – não representa o que o livro tem de melhor em termos de divulgação científica, mas é divertido e pode interessar tanto a frequentadores de planetários como a frequentadores das salas de cinema.
Leiam, pois é como passar alguns minutos na companhia de um professor encantador e com sentido de humor.
Nas queixas de Tyson vê-se também como é difícil a um especialista ver a área a que dedicou uma vida de trabalho ser tão negligenciada por Hollywood. Torna-se picuinhas quando vê os filmes – e com alguma razão, dado que os erros demonstram como o rigor científico é irrelevante para o sucesso comercial de um filme. Segue-se o texto de Tyson.
Um buraco negro na película
«(…) No final do filme da Disney de 1977, Buraco Negro, que está na lista dos 10 piores filmes de sempre de muita gente (incluindo a minha) uma espaçonave H.G. Wellsiana perde o controlo dos seus motores e mergulha num buraco negro.
Que mais poderiam pedir os artistas dos efeitos especiais? Vamos ver se eles se saíram bem. A nave e a tripulação foram desfeitas em pedaços pelas forças de gravidade cada vez maiores – algo que um buraco negro verdadeiro lhes faria? Não.
Houve alguma tentativa de mostrar a dilatação do tempo relativista, prevista por Einstein, que faria com que no Universo em redor da equipagem condenada passassem rapidamente milhares de milhões de anos enquanto eles só envelheceriam uns quantos tiques dos seus relógios de pulso? Não.
A cena mostrou um disco de acreção em rotação rápida em torno do buraco negro. Óptimo. Os buracos negros fazem esse tipo de coisa com o gás que cai em direcção a eles. Mas por acaso havia jactos de matéria alongados a serem cuspidos por cada um dos lados do disco de acreção? Não.
A nave por acaso atravessou o buraco negro e foi cuspida para outro tempo? Não.
Em vez de representarem estas ideias cinematograficamente férteis e baseadas em ciência, os cineastas representaram as entranhas do buraco negro como sendo uma caverna húmida e desolada, com estalagmites e estalactites em chamas, como se estivéssemos a dar um passeio pelas galerias quentes e enfumaradas da caverna de Carlsbad.
Algumas pessoas podem pensar nestas cenas como sendo expressões da liberdade poética ou artística do realizador, permitindo-lhe inventar imagens cósmicas fascinantes sem se preocupar com o universo real. Mas dado que as cenas eram uma porcaria, o mais provável é que elas tenham sido o resultado da ignorância científica do realizador. (…)
Embora eu esteja aqui a protestar, não há dúvida de que as contribuições de criatividade dos artistas de todo o mundo seriam menos ricas se eles não tomassem liberdades artísticas. Entre tantas outras coisas que se teriam perdido, não teríamos tido nem o impressionismo nem o cubismo. Mas aquilo que distingue a boa liberdade artística da má é o artista ter tido ou não acesso a todas as informações relevantes antes de ser criativo. Talvez Mark Twain o tenha dito de ser criativo: «Primeiro apura os factos; depois podes distorcê-los à vontade».
O Titanic afundou-se e ninguém olhou para o céu

Em Titanic, o blockbuster de 1997, o produtor e realizador James Cameron investiu imenso quer nos efeitos especiais quer na recriação dos interiores luxuosos do navio. Dos candeeiros nas paredes aos desenhos da porcelana chinesa e dos talheres de prata, não houve detalhe do design que fosse demasiado insignificante para não ter merecido a atenção do sr. Cameron, que fez questão de utilizar como referências os mais recentes artefactos resgatados pelas missões efectuadas ao navio afundado, localizado a mais de três quilómetros abaixo da superfície do mar. Mais ainda, ele pesquisou cuidadosamente a história da moda e os costumes sociais para ter a certeza de que as suas personagens se vestiam e comportavam de maneiras geralmente consistentes com o ano 1912.
Consciente do facto de o navio ter sido construído só com três das suas chaminés ligadas aos motores, Cameron representou correctamente o fumo a vir só de três chaminés. Sabemos, a partir de registos rigorosos desta viagem inaugural de Southampton até Nova Iorque, qual a data e a hora a que o navio naufragou, bem como a latitude e a longitude terrestres onde o navio afundou. Cameron também representa isto.
Com toda esta atenção aos detalhes, poder-se-ia pensar que James Cameron teria prestado um pouco mais de atenção a quais eram as estrelas e constelações que se podia ver naquela noite fantástica.
Não foi isso que ele fez.
No filme, as estrelas por cima do navio não têm nenhuma correspondência com quaisquer constelações de um céu verdadeiro. Pior ainda, enquanto a heroína está a murmurar uma canção e a flutuar num pedaço de madeira nas águas geladas do Atlântico Norte, ela olha para cima e nós partilhamos a visão que ela tem deste céu de Hollywood – um céu em que as estrelas da parte direita são a imagem ao espelho das estrelas da metade esquerda. É possível ser-se mais preguiçoso do que isto? Fazer este céu correctamente não teria exigido um grande ajuste no orçamento do filme.
O que é esquisito é que ninguém se aperceberia se Cameron não tivesse representado de forma correcta os pratos e talheres de prata da altura. Por outro lado, com cinquenta dólares pode-se comprar um programa para qualquer computador caseiro, entre as dúzias que estão disponíveis, que irá mostrar o céu real a qualquer hora do dia, a qualquer hora do ano, a qualquer ano do milénio, e em qualquer ponto da Terra. (…)
Na verdade, esta história tem um final feliz. Como muita gente sabe, James Cameron é um explorador dos tempos modernos que valoriza, de facto, a metodologia científica. A sua expedição submarina ao Titanic foi só uma das muitas que ele financiou, e durante muitos anos ele desempenhou funções no Conselho de Administração de alto nível da NASA.
Num destes dias em Nova Iorque, numa altura em que ele estava a ser homenageado pela revista Wired pelo seu espírito aventureiro, fui convidado para jantar com os editores da revista e o próprio Cameron. Que melhor oportunidade para lhe falar dos seus erros nos céus do Titanic? De forma que, depois de eu ter feito fita durante uns dez minutos acerca disto, ele respondeu: «O filme, em todo o mundo, rendeu mais de mil milhões de dólares. Imagine quanto mais dinheiro teria rendido se eu tivesse acertado com o céu!»
Nunca me calaram de forma tão delicada e absoluta. Regressei à minha entrada com o rabo entre as pernas, um pouco envergonhado por ter levantado o assunto.
Dois meses mais tarde recebi um telefonema no meu escritório no planetário. Era de um perito em imagens de computador que trabalhava para uma unidade de pós-produção de James Cameron. Ele disse-me que estavam a restaurar algumas cenas para a reedição do filme Titanic numa Edição Especial de Coleccionador e que lhe tinham dito que eu talvez tivesse um céu nocturno correcto que eles poderiam utilizar para esta versão. É claro que gerei a imagem correcta para o céu nocturno, para todas as direcções possíveis para as quais Kate Winslet e Leonardo DiCaprio poderiam virar a cabeça enquanto o navio se afundava. (…)
Jodie, deixaste a matemática em casa! E agora?

(…) O filme Contacto de 1997, inspirado no romance homónimo de Carl Sagan, contém uma astrogafe particularmente embaraçosa (eu vi o filme e nunca o livro, mas toda a gente que o leu me diz que é melhor que o filme).
Contacto explora aquilo que poderia suceder se os seres humanos descobrissem vida inteligente na galáxia e entrassem em contacto com ela. A heroína astrofísica e caçadora de extraterrestres é a actriz Jodie Foster, que diz uma das frases fundamentais do filme, a qual infelizmente contém informação impossível do ponto de vista matemático.
Quando começa o seu relacionamento com o ex-sacerdote Matthew McConaughey, estando ambos sentados no prato do maior radiotelescópio do mundo, ela diz-lhe apaixonadamente: «Se existem 400 mil milhões de estrelas na galáxia, e se só uma num milhão tiver planetas, e só uma num milhão dessas tiver vida e só uma num milhão dessas tiver vida inteligente, isso ainda nos deixa milhões de planetas para explorar.»
Errado. De acordo com os números dela, isso deixa-nos 0,0000004 planetas que têm vida inteligente, um número ligeiramente mais pequeno do que «milhões». Não há dúvida de que «uma num milhão» soa melhor num filme do que «uma em dez», mas não se consegue falsificar a Matemática.
A frase de Jodie Foster não era uma exibição gratuita de matemática, era uma referência explícita à famosa equação de Drake, baptizada em honra do astrónomo Frank Drake, que calculou pela primeira vez a probabilidade de se encontrar vida inteligente na galáxia baseando-se numa série de factores, começando com o número total de estrelas na galáxia. Por esse motivo, era uma das cenas mais importantes do filme.
Quem é que podemos culpar por este erro? Não os guionistas, embora as suas palavras tenham sido pronunciadas tintim por tintim. Eu culpo Jodie Foster. Como actriz principal, é a última linha de defesa contra erros que aparecem nas frases que tem de dizer. Não só isso, mas, pelo que me lembro, ela licenciou-se na Universidade de Yale. De certeza que eles ensinam aritmética lá. (…)
É claro que a Astrofísica não é a única ciência atropelada por artistas mal informados. Provavelmente os naturalistas têm muito mais razões de queixa do que nós. Já os consigo ouvir: «Para a espécie de baleias que mostraram no filme, aquela era a canção de baleia errada», «Aquelas plantas não são nativas daquela região», «Aquelas formações rochosas não têm relação nenhuma com aquele terreno», «Os sons emitidos por aqueles gansos são de uma espécie que não existe naquele sítio», «Querem que acreditemos que o filme se passa a meio do Inverno, mas o plátano ainda tem as folhas todas».
Na minha próxima vida, planeio abrir uma escola para ciência artística, onde pessoas criativas poderiam receber uma certificação dos seus conhecimentos do mundo natural. Depois de acabarem o curso, só poderiam distorcer a realidade de maneiras razoáveis para concretizarem as suas necessidades artísticas. No genérico final de um filme, o realizador, o produtor, o construtor de cenários, o director de fotografia e todos os outros que estivessem certificados poderiam, com grande orgulho, assegurar que eram membros da SICLAP, a Sociedade para Infusão Credível de Liberdade Artística e Poética.»






























13 comentários
Ora, Markus, ainda bem que gostaste!
Obrigado.
Mais um a gostar…
Não só gostei do post como defendo que a escola nasça já nesta vida!
De longe o melhor post de todos os tempos do Bitaites. É simplesmente a primeira vez que estou a comentar neste blogue e uma coisa te digo Marco… DIVINAL! Parabéns pela tua sagacidade e modo de expressão e escrita. Chapeau bas!
Bom, a escrita não e propriamente do Marco, como ele mesmo refere o texto é um excerto de um livro do bacano lá em cima.
Bem, de qualquer modo agradeço a gentileza do João, que deve ter lido e escapou-lhe o texto de introdução.
TiagoV, agora já sei como fazer um best of do Bitaites: fazer posts com textos escritos por outros…
Concordo com muitas das coisas que ele diz, mas não com todas: Quanto ao filme de 1977 “Buraco Negro”, alguns dos detalhes que ele acusa o filme de não ter incluído, simplesmente não se conheciam na altura (acho eu), tal como os jactos a saírem pelos ‘pólos’ do buraco negro. Quanto ao “interior cavernoso em chamas”, não me lembro de nada disso, será que vi o mesmo filme?
Seja como for, se realmente puseram lá isso, então foi mesmo muito má escolha.
Outra coisa que não concordo com ele é o facto de ter sido ele o principal responsável pela ‘expulsão de Plutão do clube dos planetas. Passou a ser um planetóide, ‘um planeta mais pequeno’ –ah, mas então ainda é ‘planeta’, certo? …não?….. não. O motivo foi que caso Plutão seja considerado planeta, então muitas das luas do Sistema Solar também teriam que ser planetas. Não a meu (humilde) ver; um planeta não se classifica só pelo tamanho e do quanto é redondo; também entram ao barulho outros factores:
Plutão orbita um planeta maior como o esperado numa lua? não.
Tem a sua própria lua? tem.
Tem gravidade própria? tem.
Então para mim é planeta.
Isto pode não parecer muito pertinente, mas em muitas escolas já se ensinam os planetas como sendo apenas 8, de Mercúrio a Neptuno; e faz-me confusão.
Ok ele é mais pequeno que a nossa lua, e depois, quem disse que a nossa lua é a fronteira entre a definição de lua e planeta?
Mas já estou a divagar muito
Muito interessante!
Adorei este artigo e as questões aqui apresentadas são realmente pertinentes. Fazer essa “certificação” avançar seria muito interessante no futuro.
@ Marco
Nada disso, sou um leitor assíduo do Bitaites não só pela qualidade da escrita como também da informação nele partilha-da.
Epá pois.. deixei-me levar pelo texto e quando dei por mim introdução e desenvolvimento eram o mesmo texto do mesmo autor!
No entanto…! O Marco é o Marco. E o blogue dele é simplesmente fenomenal ou não fosse eu o seguir desde os seus primórdios. Abraço.
Não sei se é a minha mania de ser do contra que tem um ascendente sobre mim esta semana por causa da posição de Plutão, mas sinceramente concordo com o Cameron.
Who cares?!
“Olha ca porra, só me falta aturar estes cientistazecos”, deve ter pensado. As estrelas no céu em Titanic não estavam correctas? Mas onde andava ele a olhar durante o raio do filme? Chiça, disfrute mas é do filme, ou volte para a cave-laboratório donde veio, já que nos tempos livres não faz nada de jeito.
Sim, hoje acordei mal disposto xD