→ 05/11/2010 @23:15

O sonho comanda o jogo

Sucker PunchSucker Punch

Ninguém é dono das palavras, mas depois de ver o trailer de Sucker Punch, visualmente espectacular, claro, the next big thing, dei por mim a pensar se ainda posso chamar «cinema» a filmes que me parecem jogos. E fico com a sensação de que estes filmes de porrada em câmara-lenta histérica ainda continuam todos a imitar o Matrix.

A personagem principal, transformada em guerreira de uma beleza escultural saída do imaginário de Boris Vallejo ou Luis Royo, tem cinco objectivos a completar – cinco itens que deve descobrir, só assim conquistará a «liberdade». Esta narrativa não vos soa muito familiar?

A mim lembra os tempos de adolescência em que nos juntávamos todos a jogar Sonic. Tal como as heroínas do filme, também o Sonic tinha «objectivos» e «obstáculos» a superar para os conseguir atingir. No caso do Sonic, vencer o vilão, um doutor qualquer coisa, já não me lembro o nome; neste filme, conquistar a «liberdade».

Pelas imagens do trailer, acredito que procurar a «liberdade» seja tão consistente como caçar gambozinos. Jogar Sonic deve continuar a ser mais divertido, porque pelo menos não sabemos se vamos conseguir bater o vilão no final; neste filme, aposto que acaba tudo bem. E se acabar mais ou menos, é uma estratégia de marketing que consiste em abrir a possibilidade de fazer uma sequela.

Coisas óbvias, nem deveria surpreender-me, porque entre Hollywood e a indústria de jogos existe há muito tempo uma relação do género «que bom é chuparmos as pilinhas uns dos outros», como diria o Tarantino. Uma indústria transforma um jogo em filme, a outra um filme em jogo, ambas esperando uma monumental esporradela de dólares.

Sim, acho estas merdas obscenas. Devo estar a ficar velho. Hoje cortei a barba e as pessoas mais próximas de mim disseram Pareces muito mais novo!, mas não, já não caio nessa. Estou mesmo a viver num mundo que se está a tornar invisível. Cresci a ver cinema com Kubrick, Coppola e Scorcese. Estou mal habituado, talvez.

Não sou nenhum intelectual de cinemateca nem tenho essas pretensões, sei que há espaço para todos os tipos de filmes e cinemas, mas quando os actores são meros cicerones de um espectáculo digital e não existem pessoas dentro das personagens, quando não há vida e a humanidade na Arte consiste unicamente no engenho tecnológico, será possível que as novas gerações se apaixonem pelo Cinema?

16 comentários

  • 1
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    6 de Novembro de 2010 - 01:15 | Link permamente

    monsieur godard é que tinha razão: le cinéma est mort.
    o que hoje existe, pelo menos nos mais mediáticos objectos cinematográficos, é uma espécie de aperitivo ocular para acompanhar as pipocas & as colas… 8)

  • 2
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista
    6 de Novembro de 2010 - 02:02 | Link permamente

    Com a última frase (em jeito de pergunta) disseste tudo. Este tipo de cinema é uma fraude, mero fogo fátuo que se esgota como um videojogo.

  • 3
    André Abreu
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    6 de Novembro de 2010 - 02:37 | Link permamente

    Acho que tudo é relativo. Ainda hoje vi o ultimo do Almodovar, Abraços Desfeitos, e achei-o uma obra-prima como o realizador me tem habituado tão bem, por isso acho que esse cinema referido no texto por quem faz luto ainda está de boa saúde. Umas horas depois vi o trailer deste filme e pensei automaticamente que tenho que o ver, de preferencia no cinema – porque o trailer promete um espectáculo visual que me poderá entreter durante uma hora e pouco e fazer o meu dinheiro valer. E vou apenas por isso, porque hoje em dia cinema já não é de carne e osso, não são só cenas geniais, argumentos que mexem connosco nem elencos que são donos do poder mágico que é olhar para a nossa alma através do ecrã. O cinema como era morreu, sim. E hoje é muito mais que isso, e por isso vemos um filme não porque é bom, mas porque é bom neste ou naquele aspecto. Odiei o Avatar mas reconheço-lhe o mérito. E talvez vá odiar este porque não só promete uma estética bombástica mas infelizmente também a vulgaridade gratuita com miúdas de micro saias e decotes ridículos, o que torna tudo desinteressante e banal.

    Mas teremos sempre os tradicionais, os apaixonados por AQUELE cinema modesto que nos tenta transmitir algo. Talvez um dia acabe de vez, porque opiniões como “não gosto de ver filmes em que é preciso pensar muito” são cada vez mais vulgares. Por enquanto ainda temos onde nos agarrar e estamos num equilíbrio saudável entre as novas tecnologias e a tradição. Vamos aproveitar o que de melhor esse mesmo equilibrio tem para oferecer.

  • 4
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    6 de Novembro de 2010 - 14:52 | Link permamente

    O cinema tal como o conhecíamos está morto? Mas vocês andaram a beber ou quê?

    Vamos reflectir por um momento no que estão a dizer.

    Ainda acham que têm razão? A sério? Então vão-se deitar.

    A verdadeira diferença entre jogos de computador (generalizando) e cinema (generalizando) é a interactividade. Há jogos que dariam bons filmes e vice-versa. Onde está o mal em chuparem as pilinhas uns dos outros? Há demasiados dólares ái, pois claro que há, também é gasto muito em tecnologia. O Matrix revolucionou o cinema de acção/ficção científica e os efeitos especiais. Há aqui alguém que discorde da afirmação “o Matrix é dos melhores filmes de sempre”?

    Um dos últimos que vi, A Scanner Darkly, até podia ter sido feito sem qualquer actor, mas eles estão lá, notam-se bem debaixo das texturas e cores cartoonescas. E não é cinema, isso?

    E o cinema de autor? Está morto? João César Monteiro está, mas estarão os seus filmes?
    Pá, Marco… nem sei o que te diga. Não estava à espera de uma tacanhice assim da tua parte.
    Pensava que eras mais novo.

    Abraço

    • 5
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      6 de Novembro de 2010 - 14:55 | Link permamente

      Romudas, lê lá o post outra vez, está bem? Se encontrares nesse texto uma declaração de morte do Cinema ganhas um prémio. Não confundas o conteúdo do post com os comentários que gerou.
      AInda assim, parece-me que quando o Godard diz que o cinema morreu está a referir-se à humanidade nos filmes e a lamentar a forma como os vemos (geração pipoca, tás a ver?), não me parece que esteja a dizer que o cinema de autor é proibido ou que deixou de ter memória.
      Não ver esse tipo de filmes como «cinema» (e as minhas razões estão lá no post) não é o mesmo que usar umas barbas de profeta e proclamar que o cinema morreu.
      Agora no caso deste tipo de filmes – e o post deve ser contextualizado, já agora – gostava de saber se um cinema sem pessoas (eu disse pessoas, não disse corpos) é realmente cinema.
      Pixar é cinema, porque dentro daqueles corpos digitais existem pessoas, ideias realmente geniais, criatividade, uma imensa humanidade que nos toca e comove. Isto para mim também é cinema porque a tecnologia e o dinheiro estão ao serviço das ideias e não ao contrário.
      Neste tipo de filmes, o que existe para além de ideias copiadas e recicladas do Matrix e um festival de truques e receitas? Não existe ali nada que me faça sentir vivo ou me faça sentir algo mais profundo do que aquele gajo que para o carro para ver uma confusão qualquer na estrada. E é isso mesmo que se calhar eu quero dizer: estou farto deste cinema de mirones levado aos píncaros só porque tem grandes efeitos especiais.
      Desse ponto de vista, bem podes chamar-me tacanho à vontade ou velho. Ser jovem não é assim nada de especial. Os jovens parecem-me demasiado preconceituosos, por vezes.

  • 6
    André Abreu
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    6 de Novembro de 2010 - 15:05 | Link permamente

    A conclusão parece um bocado saudosista, mas pelos vistos interpretei mal. Pelo que tenho lido no blog, seria estranha essa opinião extremista.

  • 7
    com Firefox 3.6.12 Firefox 3.6.12 em Ubuntu 10.10 Ubuntu 10.10
    6 de Novembro de 2010 - 17:43 | Link permamente

    Marco, para já peço desculpas pelo comentário: escrevi-o assim que acordei – algo que nunca se deve fazer – e não me expliquei bem.
    Percebo o teu ponto de vista, claro, e em parte até concordo com ele. Mas a minha questão é: um filme visualmente deslumbrante, com uma história sacada de um videojogo, com bonecos em vez de actores, não poderá ser também uma obra prima da imaginação? Quem disse que o cinema tem de ter só Al Pacinos e Marlon Brandos? O cinema é no fundo entretenimento e neste momento dou graças por viver na mesma época do Zack Snyder. Tal como daria graças se tivesse vivido na época do Méliés. CGI, com certeza, desde que me faça saltar da cadeira e transpirar das mãos e dizer “porra, olha-me para isto”.

    Mas a grande questão aqui é que procuramos coisas diferentes no cinema. Tu queres que te mostrem qualquer coisa que valha a pena ser vivida. Eu procuro algo que valha a pena ser visto, mas se vier algo mais profundo tanto melhor. Com a idade talvez fique como tu :mrgreen:

  • 8
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    6 de Novembro de 2010 - 19:15 | Link permamente

    Tanta descriminação aos videojogos… se eu, na minha vida toda, só tivesse ouvido a Rádio Comercial também diria que a música não presta. Há que conhecer as coisas para se falar das mesmas, se não corre-se o risco de julgar um conjunto por algo superficial. Há mais para além do Fifa e do Buzz…

  • 9
    jorge
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    7 de Novembro de 2010 - 12:58 | Link permamente

    Ontem vi o Inception, e parece-me mais uma descendência indirecta do Matrix com laivos de vídeojogo em potência.
    Como thriller não é brilhante (chega a ser maçudo, o editor devia ser castigado), mas tem um argumento de realidades falsas/paralelas/reais (á la M II e III, não industrial/punk M I) do mais interessante dos 10 anos volvidos. Tem tb super-óbvias ligações a outro filme comentado aqui, o Shutter Island.

    Quanto a coelhinhas cyber/steam-punk à pera com o resto do mundo em perseguição de objectivos libertadores… mehh… há outras maneiras mais giras de contar essa história (a não ser que as coelhinhas super hiper fofas).

  • 10
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    7 de Novembro de 2010 - 16:02 | Link permamente

    Marco, quando dizes «dei por mim a pensar se ainda posso chamar «cinema» a filmes que me parecem jogos», ora aí está algo que tenho vindo a dizer sistematicamente aos meus amigos mais próximos (e ainda há uns posts atrás neste blogue fiz uma crítica semelhante em relação ao filme 2012, ou que é).

    Tive quase, quase, a fazer um post sobre isto no meu blogue, mas antecipaste-te, e muito bem, e com muito maior qualidade. Tiraste-me as palavras do teclado.

    Por isso, bem-haja :P

    Tremendo post…

  • 11
    com Firefox 3.6.8 Firefox 3.6.8 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Novembro de 2010 - 18:20 | Link permamente

    Marco, vai mas é ver o Machete do Tarantino, isso sim é um filme.

    • 12
      com Namoroka 3.6.13pre Namoroka 3.6.13pre em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
      8 de Novembro de 2010 - 18:21 | Link permamente

      Isso não é do Tarantino, é do Rodriguez, acho eu.

  • 13
    com Firefox 3.6.8 Firefox 3.6.8 em Windows Vista Windows Vista
    9 de Novembro de 2010 - 12:13 | Link permamente

    Tens razão, erro meu. Sorry :(

  • 14
    Pedro
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    21 de Novembro de 2010 - 14:24 | Link permamente

    A fatiota dela, especialmente a da direita parece ter saído dum sonho molhado dum japonês tarado :mrgreen:

  • 15
    Amanda
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    26 de Janeiro de 2011 - 19:57 | Link permamente

    Ok… Até agora eu só vi comentários machistas.
    Tudo o que vocês falam é porque, dessa vez, as mulheres são as protagonistas do filme. Quando isso finalmente acontece no gênero ação/aventura, vocês falam que só colocam mulheres para chamar a atenção de homens, e que essas não deveriam usar essas roupas porque o filme fica muito vulgar. Vocês homens só vêem forma e não conteúdo. Não ouvi vocês falarem da personalidade delas. Além do mais, o filme é um sonho. Um sonho da Baby Doll, que, na realidade, não usa roupas “sexys”. Ora, em um sonho até eu me imaginaria linda e com aqueles tipos de roupa. Isso faz parte da história. Quando são homens que tiram a blusa vocês falam que é porque tá calor, ou qualquer outro motivo fugaz. Quanta merda vinda de vocês, homens.

    Amesma coisa aconteceu com Tomb Raider. Falaram que apenas criaram o jogo/filme com essa mulher porque ela era gostosa. E por fim, mesmo que ainda alguns homens não admitam, Tomb Raider tem uma ótima história e uma personalidade muito legal.

    E falando nela, qual é o problema de jogos virarem filmes e vice e versa? Quero dizer, eu AMO jogos. E ainda espero que esse filme seja um que dê um bom jogo porque eu to louca para jogar com personagens femininas. Assim como eu também espero que God of War seja um filme e tantos outros jogos. Vocês já ouviram falar do jogo de PS2 chamado ICO? Imagina que filme fantástico ele não daria. São tudo idéias que podem ser utilizadas de várias maneiras e que funcionam em qualquer uma delas. Imagina que lindo isso: uma história que anima pessoas no video game, alegra a tarde de uma pessoa no cinema. Eu acho isso tão legal. E é também por causa dessa troca generosa que pessoas que gostam de jogos se relacionam com pessoas que gostam de cinema. Ou pessoas que gostam de cinema se relacionam com pessoas que gostam de ler. Porque, se vocês não se lembram, livros também viram filmes.

    Então vocês se perguntam a diferença de jogos e filmes? Um você controla o personagem, faz o que quiser com ele, claro, seguindo uma lógica do jogo. Mas se vc quiser morrer, você morre, se você quiser caminhar, você caminha, se você quiser correr, você corre. Enquanto isso, no filme você só o acompanha o personagem a tomar suas próprias decisões. Dã. Eu pensei que isso fosse óbvio até para homens. E parem de complicar, pelo amor de Deus. E quem nunca jogou jogos e fica falando à toa, como se conhecesse, por favor, senta a bunda no sofá e comece. Eu recomendo God of War para PS2.

    E tem mais, eu acho que tem que ter tanta ou mais criatividade em criar filmes com todas as moderninades que temos hoje. Quero dizer, isso não veio para DESTRUIR nossas vidas. Veio para melhorar, e qual é o problema? Tem filmes ruins assim, mas também tem filmes bem ruins também à moda antiga.
    Vocês tem que aproveitar o que temos agora, porque como diria minha mãe: ” na minha época cinema era um lugar difícil de ir. Uma vez por ano”.

    Então, vamos parar de ser idiotas e aproveitar o que temos agora. Quero dizer, tem uns filmes antigos que são horríiiiiiiveis. Então não falem como se vocês já tivessem assistidos. Poooor favor, não generalizem. Tem uns filmes atuais que são tããão legais. Filmes servem pra divertir, e se vocês não se divertem com isso, vão procurar ajuda, porque vocês tem problemas. A vida é tão simples e cheia de problemas, e vocês ainda ficam botando mais problemas em coisas que deveríamos curtir. Além do mais, filmes são tooooooooooooodos divertidos. Só que as pessoas são diferentes. Pessoas curtem um tipo de filme e outras curtem outras. Acontece. Só não precisa insinuar que o cinema morreu porque fizeram um filme que não é do seu agrado e do seu gosto pessoas. Pensem que vocês não são as únicas pessoas do mundo.
    Ta aí a dica. Fazendo isso, melhoraremos a nossa vida e a relação com as pessoas, sem discutirmos com pessoas de pensamentos opostos.

    E por fim, acho que o filme deve ser bem legal. Uma aventura em tanto, um sonho de uma criança que sofre por estar em um hospício. Afinal, sonhar é para todos, né?
    E que não deve ter NADA a ver com Matrix. Falando nisso, eu não gosto desse filme.

  • 16
    Pedro
    com Opera 11.00 Opera 11.00 em Windows XP Windows XP
    27 de Janeiro de 2011 - 02:13 | Link permamente

    8O

    Quando são homens que tiram a blusa vocês falam que é porque tá calor, ou qualquer outro motivo fugaz. Quanta merda vinda de vocês, homens.

    Lembra-te lá do que se disse dos trajes dos soldados no filme “300″…